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A escrita como potência criativa no trabalho do ator
VINÍCIUS SILVEIRA
UNICAMP
Agora você poderia compartilhar comigo suas dúvidas, observações e parabenizações
Crie um tópicoA seguinte pesquisa teve como objetivo reforçar o ato de escrever como sendo uma possibilidade criativa para qualquer atuante, e desassociar esta prática no teatro como restrita a figura responsável pela dramaturgia. Foi necessário entender o conceito de "dramaturgia" em seus amplos significados, analisar suas modificações e traçar um paralelo com o local ocupado por atuantes dentro de processos criativos ao longo dos anos. Além disso, foi realizado um levantamento de diferentes dinâmicas de escrita em processos criativos, seguido de uma análise sobre a aplicação desta ferramenta em cada um dos casos.
Apoio/Financiamento da Pesquisa: SAE/UNICAMP
Letícia Rodrigues Frutuoso
Vinícius, ao experimentar/ experienciar os formatos diversos da escrita durante a vivência na oficina que você participou, como isso reverberou em você? Como o ato de escrever te aproximou ou distanciou do fazer cênico? Você chegou a utilizar os escritos posteriormente? Você, particularmente, durante a oficina se identificou mais com alguma das formas de escrita que experimentou?
LAÍS SOUZA TOLEDO PEREIRA
Parabéns pela pesquisa, Vinícius! Achei o tema muito interessante! Não sou da área (posso estar falando uma coisa muito básica ou nada a ver heheh), mas queria fazer uma pergunta: você conhece o conceito "ator-autor"? Tive contato com uma pesquisa que discutia esse termo ao tratar do trabalho de alguns atores (de cinema, no caso) que tinham mais autonomia no trabalho e, ao ver seu vídeo, lembrei disso. Não sei se você já conhece o termo ou se é interessante para a sua pesquisa também... Enfim, parabéns pelo estudo! :D
VINÍCIUS SILVEIRA
Oi Laís, muito obrigado! E agradeço pela sua pergunta!
Conheço sim esse conceito, me aproximo dele em minha pesquisa quando falo da modificação do papel de atrizes, atores e atuantes em geral em processos criativos ao longo dos anos. Bem como você apontou, essas pessoas ganharam mais autonomia no trabalho, se tornaram mais ativas dentro das criações. No contexto chamado de “teatro pós-dramático”, definido pelo crítico e professor de teatro alemão Hans-Thies Lehmann, a imagem do ator como reprodutor de uma intenção exterior a ele ou simples executor de um discurso, advindo do texto, se modifica ainda mais enfaticamente. Atuantes então, mais do que nunca, são co-autores daquilo que criam. O Teatro da Vertigem, grupo que cito em minha pesquisa, é um exemplo que gosto bastante de artistas onde todos os envolvidos são co-autores das obras!
LAÍS SOUZA TOLEDO PEREIRA
Obrigada pela resposta, Vinícius! Muito interessante! Fiquei curiosa para conhecer mais o teatro pós-dramático e também o grupo Vertigem!
Shay Soares
Oi Vinícius!
Primeiro, parabéns pela pesquisa, é um tema instigante!
Gostaria que tu comentasse um pouco, por gentileza, quais as diferenças que tu percebe ao escrever após uma prática cênica e escrever antes de uma prática cênica. Pergunto mesmo nesse sentido de entender que tipo de texto sai, quais as características gerais nesses processos diferentes.
Também gostaria de saber se tu pensa em trazer mais para a tua pesquisa esse momento de criação de cena, se valendo desses processos de escrita. O grupo/artistas que tu trouxe como referências principais têm isso do texto como material criativo para a construção de cena. Isso seria um interesse teu? Pergunto, pois o início do teu texto entendi que esse seria o ponto, enfatizar o ator como criador-autor da cena. Aí, então, tvz comentar um pouco sobre o que tu elaborou nessa pesquisa sobre essa passagem da escrita para a cena, os modos de abordagem desse material textual para a construção de cena. Ou, se for do teu interesse, futuramente pesquisar mais sobre essa questão...Enfim.
aguardo :)
VINÍCIUS SILVEIRA
Olá, Shay!
Sobre a questão apontada em relação à escrita antes e após a prática cênica, acredito que a maior diferença esteja na mudança de um estado mais usual/cotidiano para um estado outro. O novo estado gerado em uma prática cênica pode variar muito, e depende da condução do exercício e seu objetivo. Penso sim em trazer a escrita dentro de meus processos de criação! Claro, a prática de escrita pode variar de acordo com os atuantes e seus objetivos. Tive, por exemplo, a oportunidade de participar de um processo criativo no qual a orientadora, que coincidentemente é uma das fundadoras do Teatro da Vertigem, aplicou um Workshop. A pergunta que precisei responder esteticamente estava diretamente relacionada ao material que estávamos estudando, e resolvi começar a elaboração de uma resposta pela escrita. Quando pensamos em responder cenicamente algum tipo de questão, muitas vezes buscamos imagens que nos agradem, o espaço onde a cena pode acontecer, ou a linguagem que queremos experimentar. Estes são caminhos possíveis, mas por vezes focamos na estética sem termos estruturado uma resposta para a pergunta em questão. E se nem nós mesmos temos uma noção de qual é nossa visão e opinião sobre determinado assunto - e a exposição desta opinião é justamente o objetivo do Workshop - nossa resposta cênica pode ficar frágil. Decidi então escrever um texto em resposta a pergunta, depois uma frase, e por fim sintetizar em uma palavra. Quero frisar que não existe uma maneira correta de realizar o Workshop, e que esse tipo de exercício pressupõe liberdade de criação. No entanto, gostaria de defender o uso da escrita neste processo como forma de dar vazão a um pensamento. A partir da palavra/resposta escrita, pensei no espaço, visualidade, corporeidade, sonoridade e etc. De fato alguns artistas utilizam a escrita realizada no processo criativo para a composição de suas dramaturgias, mas me interesso pela utilização desta ferramenta com outros objetivos. A escrita de um diário, por exemplo, me parece potente enquanto uma prática frequente de articulação de si. Articulação de subjetividades, pensamentos, emoções, e de uma visão sobre o que nos cerca. A utilização desta ferramenta enquanto sistematização de uma ideia ou um conceito.
Obrigado pelas considerações, seguirei pesquisando esse tema sim!
BEATRIZ NAUALI DO NASCIMENTO ALVES
Vinícius, parabéns pelo trabalho! Achei muito massa essa reflexão sobre o papel da escrita para o atuante, pois creio que isso traz uma outra perspectiva sobre a cena, e sobre o próprio conceito de dramaturgia. Tem uma palavra, que aprendi recentemente, apresentado pela Leda Maria Martins que é "ntanga", e ela significa ao mesmo tempo "escrever" e "dançar", e sua pesquisa me lembrou disso, como o atuante em sua prática, com seus diários e escritas, está ao mesmo tempo organizando palavras, tecendo vivências e encenando. Mais uma vez, parabéns!
VINÍCIUS SILVEIRA
Obrigado! Adorei a palavra, acho que o significado tem bastante relação com o universo que explorei!
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VINÍCIUS SILVEIRA
Obrigado pelas perguntas, Letícia!
O período de realização da oficina foi muito importante ao longo da pesquisa. O primeiro ponto positivo que identifico foi o de me colocar em exercício de escrita criativa com mais frequencia, isto é, criar um hábito. Digo escrita criativa me referindo a um modo de fazer que ultrapasse o funcional/cotidiano. A frequencia de estar na oficina permitiu que eu me apropriasse melhor da forma como escrevo, como crio lógicas, quais padrões de raciocínio costumo seguir, como extrapolar com eles, etc. Foi um grande laboratório de auto conhecimento, rs.
Com relação ao ato de escrever e a aproximação com o fazer cênico, a primeira semelhança que identifico está na articulação de uma ideia. Seja um autor ou um ator, ambos querem articular uma ideia no espaço de alguma maneira, e podem, ou não, compartilha-la com outres. Alem disso, na maioria das vezes, para isso que isso ocorra de uma maneira eficaz, seja na escrita ou no fazer cênico, precisam desenvolver algumas características em comum, como: a escuta de si e do entorno, o aprimoramento da sensibilidade, atenção e percepção das coisas. Ainda, acho possível traçar um paralelo da escrita com os ensaios. Muitas vezes, quando escrevíamos durante a oficina, o professor Cassiano Sydow (ministrante) nos incentivava a retrabalhar o texto. Escrever e reescrever. Pudemos então colocar a questão processual da criação - tida como importante no fazer cênico - na elaboração dos textos. Pude olhar para o que escrevi e tentar criar a partir disso. Seja um diário, um texto escrito a partir de uma deriva, ou de um sonho, é possível olhar para as palavras colocadas no papel e recriar, da mesma forma que modificamos uma cena de um ensaio para o outro. A noção da reescrita, no teatro, me parece corriqueira no trabalho das pessoas encarregadas pela dramaturgia: escrever e reescrever, criar e recriar, apagar, diminuir, aumentar, acelerar, ralentar, propor. Mas como aproximar essa noção do trabalho de atuantes também? Como seria criar um texto novo a partir de algo que você mesmo escreveu em um diário? Ou encontrar com uma infinidade de palavras registradas após uma atividade corporal e usar isso como material bruto e não pronto? Observo nesta atividade um caminho de exercitar o afastamento. Em meus experimentos achei muito potente o encontro do indivíduo (eu) que escreveu algo em um estado não usual, com ele mesmo posteriormente em seu estado usual. Um dramaturgo, ao assistir uma cena criada por atuantes, possui um certo distanciamento e escolhe os pontos que lhe parecem interessantes e que podem ser desenvolvidos. Quando falamos de atuantes que estão mais ativamente dentro de processos artísticos, acho potente pensar também na apropriação desse tipo de prática.
Não cheguei a utilizar nenhum texto criado na oficina para algo em específico, todos foram materiais de experimentação. E com relação as formas de escrita experimentadas, confesso ter gostado muito de escrever a partir de minha primeira memória. Buscar detalhes, cheiros, um ponto de vista e, quando finalizado o texto, mudar, colocar em terceira pessoa, recriar.
Letícia Rodrigues Frutuoso
Obrigada por sua resposta :)
esse hábito de escrever, ou mesmo o desafio de parar a ação e escrever pode nos trazer coisas muito interessantes.
gostei bastante do seu trabalho, se der deixe público os comentários, creio que possa interessar outras pessoas
Até mais