Bom dia,
Sou Paola D. Argentin, doutoranda em Ciências Sociais pelo IFCH e também avaliadora dos trabalhos. Abaixo algumas dúvidas e sugestões.
Ao longo da graduação trabalhei muito com a urbanização de Campinas, sobretudo em relação aos condomínios residenciais, à sua forma espraiada de urbanização às margens, e as novas formas de controle e policiamento urbano. Os estudos do tipo se concentram nas áreas da arquitetura e engenharia civil, tendo pouco diálogo com sociólogos e antropólogos, no geral, com a pesquisa qualitativa ou etnográfica. Por isso, é realmente louvável este grupo de estudos e esta proposta de ferramenta analítica. Sobre a urbanização de Campinas, caso não conheçam, recomendo as seguintes leituras:
-CUNHA, José Marcos Pinto da et al. Segregação e acúmulo de carências. Localização da pobreza e condições educacionais na Região Metropolitana de Campinas. In: Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP), 2004. Anais..., 2004.
-CUNHA, José Marcos Pinto & JAKOB. Segregação socioespacial e inserção no mercado de trabalho na Região Metropolitana de Campinas. Rev. bras. estud. popul. [online]. vol.27, n.1, pp.115-139, 2010.
-CUNHA, J. M. P. et al. Expansão metropolitana, mobilidade espacial e segregação nos anos 90: o caso da RM de Campinas. In: CUNHA, J. M. P. da. (Org.). Novas metrópoles paulistas: população, vulnerabilidade e segregação. 1. ed. Campinas: Núcleo de Estudos de População - Nepo/Unicamp, p. 337-363, 2006.
Gostaria de destacar alguns trechos do resumo e fazer outras sugestões.
Em uma altura vocês escrevem: “Uma abordagem possível consiste em entrevistar os atores engajados no planejamento da cidade. Por meio de perguntas, torna-se factível “explorar um assunto ou aprofundá-lo, descrever processos e fluxo, compreender o passado, analisar discutir e fazer prospectivas” (Duarte, 2005) tendo em vista, nesse caso, identificar as tendências de desenvolvimento vigentes, emergentes e potenciais, a partir da experiência e perspectivas daqueles que se ocupam ou se envolvem com o planejamento da cidade.”
Como reflexão, acrescentaria que a entrevista possibilita perceber relações políticas e poderosas envolvidas no planejamento urbano. Dito de outro modo, atores em relações políticas e de poder imprescindíveis para o planejamento urbano cuja noção de futuro da cidade circula e é bem interessante - no caso de Campinas eu diria que relações com grandes empreiteiras e negócios imobiliários, sobretudo de condomínios residenciais e empresariais. A entrevista como instrumento de pesquisa é uma forma de mapear relações e perceber novos atores envolvidos para além da administração pública. Por vezes, as relações, mais do que as respostas diretas, dizem mais sobre o futuro.
Em outro trecho:
“Em relação à validade e confiabilidade, Duarte (2005) faz suas considerações. Sobre o primeiro termo, o autor argumenta que “as condições de validade dizem respeito à capacidade de os instrumentos e sua utilização adequada fornecerem resultados que o pesquisador se propôs a obter”. Já sobre a confiabilidade, “diz respeito ao rigor metodológico que garante que, repetidos procedimentos, os resultados serão os mesmos.””
A visão antropológica sobre as entrevistas é menos normativa. Contudo, compreendo outros modos de olhá-las, ainda assim, recomendo algumas leituras que podem facilitar nas estratégias de feitura de roteiros, das próprias entrevistas, e a posterior análise:
-GUBER, R.. 2001. "La entrevista etnográfica" o “el arte de la no directividad”. In: La etnografía, método, campo y reflexividad. Bogotá: Grupo Editorial Norma (Cap. 4) pp. OK
-DEBERT. G. G. 1986. Problemas relativos à utilização de histórias de vida e história. In: Cardoso, R. (org) Aventura Antropológica. Rio de Janeiro: Paz e Terra,.
-BEAUD, S. e WEBER, F. 2007, Guia para a pesquisa de campo. Produzir e analisar dados etnográficos. Editora Vozes.
A forma como vocês definiram a entrevista de cunho qualitativo e com o auxílio das leituras que fizeram, foi muito clara. Por vezes, na antropologia, por ser um instrumento de pesquisa muito acionado, os pesquisadores e pesquisadoras acabam por descuidar da descrição do modo como fazem entrevistas. Este esforço de vocês deve ser destacado.
Do ponto de vista prático, é realmente desafiador conduzir uma entrevista, por mais livre que seja - ou justamente por isso. É uma atividade de muita atenção e que deve ser estudada tão logo a entrevista seja realizada. No caso de haver outro encontro com o mesmo interlocutor, é preciso tomar notas para posteriormente escrever sobre, e descrever a entrevista, para assim estabelecer relações com novas perguntas e obter novas informações. O estudo das respostas - transcritas ou não - é fundamental e requer, inclusive, constantes revisões bibliográficas. Contudo, do ponto de vista de um gestor de planejamento, corre-se o risco de respostas demasiadamente genéricas, é preciso, portanto, saber como pedir informações mais detalhadas, gerir as respostas e pedir por novas entrevistas. Vocês têm feito mais de uma entrevista com uma mesma pessoa?
Por fim, uma consideração sobre o futuro. Dado que este é feito e informado pelo passado, houve algum interesse em pesquisas documentais sobre o planejamento urbano de Campinas? Poderia ser interessante elaborar as perguntas a partir do estímulo às memórias.