Olá Mônica, tudo bem?
Sou um dos avaliadores do seu trabalho e gostaria de parabenizá-la pela pesquisa empreendida, a concisão e objetividade do seu estilo de escrita facilita muito a leitura daqueles que não são "iniciados" nos estudos das religiões, também gostei muito da forma como você explicou sinteticamente a organização hierárquica dentro das igrejas pentecostais. Tenho algumas dúvidas e, também, referências que acho que fortaleceriam o seu diagnóstico:
A) Em um dos parágrafos você afirma que foi muito difícil fazer as entrevistas porque muitas pessoas tinham medo de retaliações da comunidade religiosa. Que tipo de retaliações seriam essas? Acho que seria importante para a sua pesquisa identificar quais os mecanismos de coação e constrangimento que a comunidade e a instituição operam como forma de controle e vigilância.
B) A sua posição enquanto pesquisadora é bastante singular, ao mesmo tempo que você está dentro da instituição religiosa e participa da comunidade (insider); você também pretende investigar a sua religião através de instrumentos técnicos e teorias do campo das Ciências Sociais, desnaturalizando e problematizando uma atividade rotineira que é o ativismo social da Igreja (outsider). Recordei-me de um texto muito interessante de Karen Fields, uma comparação entre W.E.B Du Bois e Durkheim na relação que cada um deles tinham com o campo intelectual e no cenário cultural em que produziam suas sociologias. Acho que essa relação insider/outsider pode te ajudar a pensar sobre sua posição em relação ao seu objeto de pesquisa.
Ver: FIELDS, Karen. Individuallity and the Intellectuals: An Imaginary Conversation Between Emile Durkheim and W. E. B. Du Bois. FIELDS, Barbara; FIELDS, Karen. Racecraft: the soul of inequality in American life. Verso Books: New York, London, 2012.
C) O terceiro ponto que me chamou a atenção foi o seu destaque para o papel crucial que o "chão da Igreja" tem no que tange as ações sociais e caritativas. Fiquei pensando muito na ideia de trabalho emocional e como parece que, até mesmo na Igreja, ele é deslocado para a base da comunidade e não tomado como um dos objetivos centrais da organização. Creio que a ideia de trabalho emocional como pensada por Arlie Hochschild pode lhe servir como categoria teórica, pois lhe permitirá compreender esse ativismo social como trabalho não remunerado, "desvalorizado", mas fundamental para a reprodução social.
Ver: HOCHSCHILD, Arlie Russell. La mercantilización de la vida íntima: apuntes de la casa y el trabajo. Madrid: Katz, 2008.
D) Seria, por fim, interessante discutir que tipo de Estado de Bem Estar Social é esta que é promovido e encampado pela Igreja, talvez uma contraposição com os "tipos ideais" de Welfare como proposta por Gøsta Esping-Andersen fosse interessante para sua categorização. Deste modo, seria possível identificar que representação social de bem estar está constituída na ação e nas idealizações dos ativistas que você entrevistou.
Ver: ESPING-ANDERSEN, Gosta. As Três Economias Políticas do Welfare State. Lua Nova, n.24, Set, 1991. em: https://www.scielo.br/j/ln/a/99DPRg4vVqLrQ4XbpBRHc5H/?format=pdf&lang=pt
Enfim, espero que os comentários lhe sejam úteis para o andamento da pesquisa e fico à disposição para qualquer dúvida ou comentário.
Atenciosamente,
C.