O homem ofensor sexual e o sofrimento como um aspecto presente na construção da sua subjetividade

vol. 1, 2019 - 111834
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Resumo

Este trabalho irá apontar para o sofrimento como um aspecto histórico e social presente na construção da subjetividade do homem acusado de cometer uma ofensa sexual atendido em uma unidade de saúde. A ofensa sexual de crianças e adolescentes foi considerada um problema de saúde pública pela Organização Mundial de Saúde (WHO, 2017). Sabe-se que as consequências para as vítimas são diversas e severas e, portanto, o Plano Nacional de Enfrentamento à Violência contra Crianças e Adolescentes prevê, como estratégia, intervenções de cunho judicial e de saúde (BRASIL, 2013). Isso porque apenas medidas de carácter punitivo não alteram o índice de reincidência na ofensa sexual. As intervenções com o homem ofensor sexual, em uma perspectiva de promoção de saúde, são importantes, pois interrompem o ciclo da violência (MARSHALL, 2001). Ainda, a partir da experiência clínica é possível apreender o sofrimento presente na sua história de vida do homem ofensor sexual. A literatura aponta que eventos de vida adversos ocorrem durante diferentes fases da vida e se associam aos fatores de risco para reincidência (WARD; BEECH, 2016). A literatura destaca também a importância de estudos que se proponham a compreender esses sujeitos em uma perspectiva longitudinal (ELOIR; DUCRO; NANDRINO, 2019). A base da discussão tem seu centro em um registro etnográfico de um grupo de intervenção psicossocial com o homem ofensor sexual de crianças e adolescentes em uma unidade de saúde do Distrito Federal. A etnografia é um método clássico das ciências sociais e envolve a observação participante e o registro denso em diário de campo (GEERTZ, 2008). A etnografia foi realizada no segundo semestre de 2018 durante oito encontros de três horas e meia cada. A partir da análise do diário de campo, observou-se que a história de vida desses homens é marcada por violências e sofrimentos antes, durante e depois do sistema prisional. Antes do sistema prisional, esses homens foram vítimas de violência sexual (no desenvolvimento da sua sexualidade) e violência física (usada pelos pais como estratégia de correção). Após a denúncia, o sofrimento se desloca para a experiência da passagem pelo sistema prisional. Além de viver todas as condições desumanas impostas à todos os presos, os ofensores sexuais são ainda mais vulneráveis à assédios e outras formas de abusos (SCHWAEBE, 2005). Ao retornarem para a sociedade, o sofrimento continua, pois o estigma social de ser um ofensor sexual está impregnado na identidade desse homem. O estigma social de ser um ofensor sexual causa medo, raiva, vergonha, culpa e tristeza. Traz ainda dificuldades de se reinserir no mercado de trabalho, perdas no conjunto de suas amizades e afastamento da família, prejudicando, portanto, sua rede de apoio. Assim, a construção da subjetividade desse sujeito passou necessariamente por um conjunto de eventos que trazem muito sofrimento e dores e sua identidade não está dissociada de sua trajetória de exclusão, pobreza e estigmatização.

Eixo Temático
  • 11. Subjetividade e saúde humana
Palavras-chave
Ofensor sexual
Saúde
sofrimento