Programa Institucional de Apoio Pedagógico aos Estudantes da UFSC: experiências relacionadas à permanência estudantil no Ensino Superior

Vol 1, 2022 - 146501
Apresentação Oral
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Resumo

No Brasil, apenas 16% da população possui formação de nível superior e dentre as pessoas que estão cursando alguma Graduação, apenas 4% frequentam as Instituições Federais de Ensino Superior. Estes dados demonstram as grandes desigualdades sociais que atravessam os processos formativos na Educação, em todos os níveis. Este artigo busca investigar os processos de aprendizagem, as condições relacionadas à permanência e o sofrimento sócio-emocional de discentes, bem como as práticas pedagógicas e condições sócio-emocionais de docentes ao longo do período de ensino remoto emergencial, a partir das experiências do Programa Institucional de Apoio Pedagógico aos Estudantes (PIAPE) da Universidade Federal de Santa Catarina.
Este programa tem sua origem no Programa Nacional de Assistência Estudantil – PNAES . Criado coetaneamente ao processo de expansão do Ensino Público no Brasil, iniciado em 2007 com a implementação do REUNI (Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), quando novas instituições, campi e cursos foram criados com o objetivo de ampliar as condições de permanência estudantil nas universidades públicas federais , através da democratização das condições de permanência dos estudantes, da diminuição das taxas de retenção e evasão, do fomento à inclusão social e à mitigar os efeitos das desigualdades sociais e regionais. Os eixos de atuação do PNAES baseiam-se em dez áreas, dentre elas o apoio pedagógico, que passa a ser pensado como política pública relacionada à assistência estudantil no que se refere às condições pedagógicas para sua permanência no ensino superior.
O PIAPE foi implementado, inicialmente, como um aporte à qualidade dos processos formativos de estudantes de graduação em todas as áreas do conhecimento, com foco nas fragilidades acadêmicas relacionadas à passagem do Ensino Médio para o Ensino Superior e nas trajetórias acadêmicas vulnerabilizadas, por razões diversas, como apontam Alain Coulon (2008) e Macedo; Ioppi (2021). Sua origem data de 2013, quando inciou suas atividades de apoio e orientação pedagógica nas áreas de Matemática (Pré-Cálculo, Cálculo 1, Cálculo 2, Fundamentos da Matemática e Geometria Analítica), Leitura e Produção Textual, Informática, Estatística, Biologia, Bioquímica, Química, Física e Orientação Pedagógica para estudantes dos cinco campi da UFSC.
Ao longo da quase uma década de existência do programa na UFSC, ele consolidou-se, principalmente, através de abordagens dialógicas com discentes das mais diversas áreas de formação, bem como com docentes, coordenações de Cursos, equipe de tutores e tutoras, supervisores e supervisoras. Um dos fatores primordiais para o desenvolvimento das ações do programa foi considerar que, para além das dificuldades pedagógicas decorrentes de trajetórias estudantis pregressas, das dificuldades relacionadas às metodologias empregadas por parte do corpo docente, da falta de compreensão das regras e códigos do Ensino Superior, das dificuldades socio-econômicas, das dificuldades de organiazação às dinâmicas de estudos e aprendizagem, das dificuldades relacionadas à excessiva carga horária de atividades acadêmicas e à complexidade de determinados componentes curriculares, havia no contexto da sociedade brasileira, outro importante fator a ser considerado. Trata-se de reconhecer que grupos historicamente excluídos do acesso ao Ensino Superior puderam, com seu ingresso, principalmente devido à implementação das políticas afirmativas, colaborar para a diversificação do perfil estudantil, inclusive questionando, a partir de suas perspectivas, a produção e a reprodução dos conteúdos disciplinares, o eurocentramento dos referenciais teóricos e os limites epistemológicos que as universidades adotaram ao longo das décadas de funcionamento no Brasil.
Estudantes indígenas, negros(as), quilombolas, refugiados(as) e outros, na medida em que acessam o Ensino Superior contribuindo para democratizá-lo, precisam ter tanto suas condições materiais observadas quanto suas subjetividades consideradas, para que seja possível evitar a colonialidade do saber e os epistemicídios consolidados em algumas práticas científicas hegemônicas. Pierre Bourdieu ilumina a dinâmica de classes que existe nas universidades: “O que está implícito nessas relações com a linguagem é todo o significado que as classes cultas conferem ao saber erudito e à instituição encarregada de perpetuá-lo e transmiti-lo” (BOURDIEU, 2015, p. 63). A este respeito Grada Kilomba, afirma que conhecimento, ciência e erudição constituem-se de forma intrínseca ao poder e à autoridade racial, chamando atenção para o fato de que “a academia não é um espaço neutro nem tampouco simplesmente um espaço de conhecimento e sabedoria, de ciência e erudição, é também um espaço de v-i-o-l-ê-n-c-i-a” (Kilomba, 2019, p. 51).
Para grupos historicamente subalternizados, assim como para a totalidade do corpo discente, é fundamental uma política de acolhimento e a construção daquilo que bell hooks denomina de comunidades pedagógicas (hooks, 2017).
Com o advento da pandemia causada pelo Coronavírus, as atividades acadêmicas presenciais da UFSC foram suspensas e substituídas por atividades pedagógicas não presenciais nos semestres letivos de 2020.1, 2020.2, 2021.1 e 2021.2. O PIAPE, consoante com seu objetivo de desenvolver ações de apoio e orientação pedagógica que favoreçam o acolhimento, a permanência e a qualidade dos processos formativos para estudantes dos cursos de graduação nos cinco campi da Universidade Federal de Santa Catarina, contribuindo para uma formação acadêmica qualificada em relação às dimensões humana, profissional, crítica e ética, também precisou adaptar todas as suas atividades para a modalidade remota, desafio que se estendeu à toda a comunidade universitária.
Um dos aspectos importantes que diferenciaram este momento da vida acadêmica foi a emergência de um quadro generalizado de adoecimento socio-emocional entre estudantes de graduação, muitas vezes acompanhado por diagnósticos médicos e importante medicalização por parte de estudantes de graduação, necessitando de especial atenção por parte do programa.
MÉTODO
O artigo foi construído a partir da metodologia da observação participante como gestora do Programa Institucional de Apoio Pedagógico aos Estudantes (PIAPE), e busca analisar este quadro de adoecimento socio-emocional a partir das narrativas estudantis nos atendimentos de apoio e orientação pedagógica realizados pelo programa. O estudo da narrativa fundamental nos trabalhos recentes das ciências humanas, constitui um campo interdisciplinar. Apioamo-nos nas contribuições analíticas sobre as narrativas de Jerome Bruner (Bruner, 1997), que apresenta diálogos possíveis entre a psicologia, a antropologia, a filosofia e a linguística, e em antropólogos como Clifford Geertz (Geertz, 1989), que aborda a cultura como um sistema simbólico. A partir de ambos os autores buscamos apresentar a pesquisa como um trabalho interpretativo imerso em determinada cultura, de forma que as realidades analisadas constituem-se em processos narrativamente construídos tanto pelos sujeitos pesquisadores(as) quanto pelos sujeitos pesquisados(as) sempre atravessados por complexas relações socio-culturais, raciais, objetivas, subjetivas, materiais e insitucionais.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Entre os resultados esperados, buscamos iluminar importantes aspectos relacionados à permanência com qualidade no ensino superior, problematizando fatores interseccionais que possam causar adoecimento e mal-estar acadêmico e apontando caminhos possíveis para a superação destas questões a partir da experiência do Programa Institucional de Apoio Pedagógico aos Estudantes (PIAPE) na Universidade Federal de Santa Catarina.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como considerações finais espera-se retomar as principais dificuldades enfrentadas por estudantes do Ensino Superior atendidos(as) pelo PIAPE, contribuindo para que os corpos docente e técnico-administrativo das Instituições de Ensino Superior possam rever ou impelmentar políticas públicas cada vez mais inclusivas e acolhedoras para todas as diversidades de perfis acadêmicos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. In: NOGUEIRA, Maria Alice; CATANI, Afrânio (Orgs.). Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 2015.

BRUNER, Jerome. Atos de significação. Porto Alegre. Artes Médicas, 1997.
Coulon, Alain. A condição de estudante: a entrada na vida universitária. Salvador: EDUFBA, 2008.

COULON, Alain. O ofício de estudante: a entrada na vida universitária. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 43, n. 4, p. 1239-1250, out./dez., 2017.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. [S.l.]: LTC, 1989.

hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.

Kilomba, Grada. Memórias da plantação: Episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

MACEDO, J. S. ; Ioppi, L. S. . Políticas de Permanência: Análise do Programa Institucional de Apoio Pedagógico aos Estudantes. Cadernos Cajuína, v. 6, p. 48-63, 2021. Acesso em: https://cadernoscajuina.pro.br/revistas/index.php/cadcajuina/article/vie...

Oliveira, C. B., & Almeida, L. S. (2021). Qualidade do ensino na educação superior: sentidos sobre a avaliação. Estudos Em Avaliação Educacional, 28(69), 774–803. https://doi.org/10.18222/eae.v28i69.4370.

SAMPAIO, Sonia M. R. Observatório da vida estudantil: primeiros estudos. Salvador: Edufba, 2011.

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Palavras-chave
apoio pedagógico
Ensino Superior
PIAPE UFSC