MATERNIDADE E VIDA UNIVERSITÁRIA ENTRE DIFICULDADES, DILEMAS E CULPA

Vol 1, 2022 - 147927
Apresentação Oral
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Resumo

INTRODUÇÃO
A mulher na contemporaneidade tem conquistado diversos espaços no contexto social, sendo cada vez mais comum a presença feminina nas mais diversas ocupações. Debatendo a relação de mulheres na academia, o campo científico de estudos sobre mulheres se diversifica em estudos feministas, estudos sobre relações de gênero e estudos sobre mulheres e trabalho (SABOYA, 2013). Embora a literatura aponte a diversidade da herança de estudos feministas, pode-se anunciar o “surgimento de pesquisas que se pautam sobre a noção de “invisibilidade” das mulheres na ciência, sobre a exclusão e expropriação de mulheres cientistas” (SABOYA, 2013, p.5). Elas são as principais responsáveis por fazerem as carreiras mais longas, demorando-se mais que os homens nos diferentes níveis, em virtude de casamento e/ou filhos, o que lhes exige uma dupla jornada de trabalho. Além disso, tendem a sofrer um constrangimento a mais para que cumpra prazos de bolsas e manter os índices de produtividade científica, pois quando há a necessidade de dedicar-se à maternidade, as burocracias continuam ignorando as particularidades femininas das trabalhadoras da nossa sociedade. (SABOYA, 2013) A legislação brasileira que ampara a estudante gestante é a Lei Federal de nº 6.202 de 17 de abril de 1975, que regulamenta a tarefa de exercícios domiciliares, instituído pelo Decreto-Lei nº 1.044 de 21 de outubro de 1969, que propicia o afastamento da discente do oitavo mês de gravidez até aos três meses de idade do bebê, podendo ser antecipado e/ou prorrogado caso haja a necessidade através de um atestado médico. É assegurado às estudantes em estado de gravidez o direito à prestação dos exames finais. A experiência vivida pelas estudantes universitárias que se tornam mães durante a graduação torna-se um pouco mais difícil. Vivenciam desvantagens em relação às suas trajetórias acadêmicas e o ingresso no mercado de trabalho, sofrendo imposições limitantes para ocupar postos de decisão nas mais diversas áreas profissionais. Cabe à mulher um lugar já conhecido: o de cuidar. Diante da pluralidade de pessoas que passam pela Universidade, é necessário que a universidade se adeque às realidades postas. Neste contexto de discussão, buscamos compreender as dificuldades que as alunas-mães enfrentam diariamente em busca do diploma, conciliando vida universitária, maternidade, trabalho doméstico e profissional. Considerando as especificidades femininas de mulheres que se tornam mães durante a graduação, como se caracteriza sua permanência e participação nas Universidades?

MÉTODO
O trabalho foi realizado através de uma revisão de literatura. Para Moreira (2004), esse tipo de pesquisa serve para posicionar os leitores do trabalho e até mesmo o cientista acerca dos avanços, retrocessos ou áreas envoltas em retraimento. Fornece as informações necessárias para contextualizar a extensão e significância do problema de pesquisa. A unidade de análise compreende estudos previamente selecionados por meio de um método sistemático e pré-definido. As buscas de publicações sobre a temática foram feitas a partir dos seguintes aspectos: 1- Definição da base de dados Google acadêmico pois reúne uma ampla quantidade de trabalhos nacionais e internacionais; 2- Definição dos descritores de investigação: “mães universitárias”; 3- Classificação por relevância; 4- Pesquisas com páginas em português; 5- Recorte temporal compreendido entre os anos de 2000 – 2020 e 6- pesquisas que entrevistaram mães universitárias acerca das dificuldades encontradas. Com isso, foram encontrados 96 resultados, sendo necessário a definição de critérios de exclusão para que os artigos selecionados estivessem alinhados com o objetivo do tema. Os artigos que não se encaixavam foram eliminados logo após a leitura do título e/ou resumo, foram eles: temas relacionados ao aleitamento materno; gravidez durante a adolescência, pois apesar de serem mães não significa que seguiram no ensino superior; relatos de experiência; acidente em ambiente universitário; temas relacionados à paternidade; mães durante a pandemia; creche; parto; habilidade de crianças e por último a indisponibilidade do artigo completo. Foram selecionados cinco artigos que se encaixavam na busca. O fichamento completo de cada artigo foi realizado num documento do Word e eles foram nomeados de A1, A2, A3, A4 e A5.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados encontrados demonstram a atual situação da maternidade durante o curso. Dentre eles, a dificuldade de realizar as duas funções ao mesmo tempo e com qualidade, apontada nos artigos A1, A2 e A3. Dificuldades com os horários são mencionados nos trabalhos A2 e A4. A falta de concentração, falta de tempo pré-estabelecido para os estudos, dificuldades encontradas tanto no próprio trabalho quanto no trabalho do marido, são questões apresentadas no trabalho A2 “o problema está na falta de concentração, divergências ideológicas, intelectualidade, horários indefinidos, dificuldades na leitura e saúde” (PEREIRA, ABRAO, 2019, p.297). O dilema “frequentar a universidade ou cuidar dos filhos”, é encontrado nos artigos A3 e A5. O sentimento de culpa por deixar o bebê e/ou a criança para dedicar-se aos estudos é mencionado no artigo A1. Neste trabalho, uma das entrevistadas afirma que a maternidade vem antes da escolarização, tratando-a como prioridade.
As reações dos colegas e/ou professores quando houve a necessidade de comparecer em sala de aula acompanhadas de seus filhos é relatada no trabalho A3, quando uma entrevistada afirma que não houve indiferença por parte das pessoas. Outra participante da mesma pesquisa relatou que conseguia perceber certa inquietação dos professores, pois como todos sabem crianças não ficam quietas e isso impedia um pouco o andamento das aulas. Outra reação relatada por uma aluna diz: ‘foram e estão sendo várias reações, de espanto, de pena até’ (AGUIAR, PAES, REIS; 2019; p.166), quando as pessoas se deparam com uma estudante mãe na Universidade. Em relação às Universidades, as alunas mencionam o curto prazo para a realização do curso no artigo A5. Nele, houve uma estudante que precisou desistir do curso para dedicar-se a sua vida pessoal. “A universidade não dá condições para a permanência das mulheres mães. Não desenvolve políticas pensadas no cotidiano dessas pessoas” (AGUIAR, PAES, REIS; 2019; p.162)
O artigo A4 foi o único a identificar uma bolsa auxílio para as estudantes - “auxílio maternidade” na Universidade Federal do Maranhão - Campus Codó. Quanto a participação dessas mulheres foi identificada uma dificuldade em participar em outros momentos universitários que são tão importantes quanto as aulas, como assembleias e projetos de extensão. O artigo A3 reforça a necessidade de ampliar o repertório acadêmico em busca de novas discussões. A participação em eventos e congressos, que geralmente ocorre em horário diferente do que o habitual, envolve a disponibilidade de um cuidador para a criança.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O sentimento de culpa é mencionado nos artigos, como se a mãe estivesse realizando algo errado ao querer dar continuidade aos seus estudos ao invés de cuidar do seu bebê. São questões que recaem majoritariamente sobre as mulheres, que são julgadas por suas decisões: a culpa de ter engravidado, a culpa de ter um bebê e a culpa de deixá-lo - mesmo que por alguns instantes. O comportamento das pessoas que frequentam a mesma instituição é um misto de pena e indiferença. A participação dessas mães é totalmente dependente da rede de apoio que possuem. As pesquisas demonstraram que a continuação nos estudos se deu principalmente pela força de vontade dessas mulheres em continuar estudando, enxergando no ensino superior uma possibilidade de ascensão profissional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, Samara Gomes; PAES, Valquiria Normanha; REIS, Sônia Maria Alves de Oliveira. PRESENÇA E ATUAÇÃO DE MULHERES MÃES NA UNIVERSIDADE: DIALOGANDO COM PROFESSORES/AS E ALUNAS. Revista Cenas Educacionais, Caetité –Bahia, v. 2, n. 2, p. 150-174, dez. 2019. Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/index.php/cenaseducacionais/article/view/80.... Acesso em: 01 fev. 2021.

________. Lei nº 6.202, de 17 de abril de 1975. Atribui a estudante em estado de
gestação o regime de exercícios domiciliares: instituído pelo Decreto-Lei no 1.044, de
1969. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-
1979/L6202.htm>. Acesso em: 01 fev. 2021.

MOREIRA, W. Revisão de Literatura e Desenvolvimento Científico: conceitos e estratégias para confecção. Janus, Lorena, v. 1, p. 20–30, 2004.

PEREIRA, K. L.; ABRAO, K. R. A MULHER NA FAMÍLIA E NA UNIVERSIDADE E AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS. Revista Humanidades e Inovação, v. 6, n. 17, p. 281–301, 2019.

SABOYA, M. C. L. Relações de Gênero, Ciência e Tecnologia: Uma revisão da bibliografia nacional e internacional. Revista Educação, Gestão e Sociedade - REGS, v. 3, n. 12, p. 1–26, 2013.

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Instituições
  • 1 Unesp
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  • 4. Questões sociocognitivas
Palavras-chave
Maternidade
Universidade
Permanência estudantil