ASSÉDIO MORAL NA UNIVERSIDADE E SAÚDE MENTAL DOCENTE

Vol 1, 2022 - 145406
Apresentação Oral
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Resumo

INTRODUÇÃO
O presente trabalho é um relato de experiência fruto de discussões efetuadas dentro do Núcleo de Acolhimento e Diálogo do Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Belo Horizonte, Montes Claros e Ouro Branco (NADi – APUBHUFMG+). Diante das demandas de adoecimentos mentais que chegaram ao núcleo e suas motivações, o tema de violências no trabalho, especialmente o assédio moral, foi se tornando um debate essencial para a compreensão dos fatores desencadeadores de adoecimentos mentais no trabalho docente.
O assédio moral é definido, tradicionalmente, como um tipo de violência deflagrada por condutas abusivas, intencionais, frequentes, repetitivas que visam a humilhação e desqualificação de indivíduos colocando em risco sua integridade física e mental. Ele se manifestar via comportamentos, palavras, atos, gestos ou escritos proferidos direta ou indiretamente a alguém, que degradam o ambiente de trabalho e a saúde mental e física do(a) assediado(a), colocando em risco sua identidade, sua autoestima e até seu emprego (HIRIGOYEN, 2002).
Em diálogos com docentes, os relatos diziam respeito à sensação de sentir-se assediados e adoecidos pelo e no trabalho. É preciso compreender esse fenômeno interligado ao contexto em que esses sujeitos estão inseridos e não como um aspecto puramente “moral”, já que, comumente, as raízes do assédio moral estão na forma de organizar o trabalho (VIEIRA; LIMA; LIMA, 2012). Ele deflagra-se nas relações de trabalho, porém não tem origem necessária nas relações interpessoais, mas é reflexo de um trabalho maltratado, de uma organização que possibilita e incentiva as práticas violentas de gestão sob o discurso de eficiência. O assédio moral está inserido em um contexto de modo de produção, político, social e econômico específicos (VIEIRA; LIMA; LIMA, 2012).
No setor público, o reflexo da flexibilização do capitalismo implica no aprofundamento da exploração e precarização das relações de trabalho sob o discurso de maior liberdade (VIEIRA, 2008, 2017). Esse setor passa a sofrer pressões de um sistema que incentiva a ampla concorrência, a privatização, a terceirização e a desregulamentação das relações de trabalho. Na realidade acadêmica, docentes estão frequentemente submetidos a pressões, imposições, competitividade e cobranças por produtividade.
Nesse contexto há uma quebra dos vínculos solidários dentro da própria organização. Os indivíduos sentem-se solitários e únicos responsáveis pelo seu desempenho e resultados. Esse cenário torna a possibilidade de desenvolvimento de conflitos interpessoais ainda mais propícios. Há sempre uma tentativa de defesa legítima por parte do trabalhador, do seu emprego, da sua saúde e integridade física e mental. Há uma internalização dos valores baseados na competição, egoísmo e individualismo, que acabam repercutindo na maneira como os sujeitos se relacionam e estabelecem medidas de gestão (VIEIRA, 2008; 2017). Nesse sentido, o objetivo do presente trabalho é discutir os aspectos organizacionais que estão na base das práticas de violências no trabalho, propiciando práticas de assédio moral no trabalho.

MÉTODO
Esse estudo é fruto da realização de uma roda de conversa com professores e professoras de uma Universidade Federal, que teve como tema “O assédio moral no trabalho”. A roda de conversa contou com 12 professores e professoras de unidades acadêmicas distintas e durou cerca de 2 horas.
A roda de conversa é uma metodologia que possibilita que os participantes elaborem e compartilhem suas opiniões com os demais. De maneira dinâmica, um comentário é fonte de inspiração para os comentários subsequentes, de maneira que o pensar compartilhado possibilite significação dos acontecimentos. Nesse espaço de diálogo é possível refletir sobre as relações que os sujeitos estabelecem no coletivo e individualmente com as esferas socias em que se inserem, como o trabalho (FIGUEIRÊDO; QUEIROZ, 2013).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram várias as situações propiciadoras de violências e assédio moral no trabalho relatadas por docentes na roda de conversa:
Docentes afirmam que, no seu cotidiano, a sensação de nunca conseguir atingir as metas e nunca conseguir trabalhar o suficiente é companheira constante. A conciliação entre as três atividades fim da academia: ensino, pesquisa e extensão, adicionada aos critérios de avalição rígidos impelem ao produtivismo acadêmico. Os critérios de avaliação são dados a posteriori aos períodos letivos, sem transparência. Há a sensação constante de estar atrás de um objetivo que não está claro e que os critérios podem ser mais rígidos do que os praticados e conhecidos anteriormente.
Esse cenário cria um clima de competitividade velada entre colegas dentro de departamentos ou mesmo entre eles, já que o “mau desempenho” de um colega por implicar em uma avaliação ruim do programa como um todo. Docentes que assumem cargos hierárquicos como chefias e coordenações são impelidos a uma cultura de cobranças exacerbadas para o cumprimento de metas obscuras e, por isso, infindáveis. Além, é claro, de ficarem sobrecarregados com acúmulo de atividades docentes às atividades de gestão. Ademais, as cobranças também acontecem entre colegas, que por vezes podem ser deflagradas em comportamentos como exposição de colegas em reuniões coletivas, isolamento de colegas, insinuações desqualificadoras e chacotas, críticas pessoais, que acabam sendo perpetuadas em grupos. Com isso, a sensação de culpa constante e o receio do constrangimento passam a ser condição primordial para a dificuldade de negar demandas que extrapolam os limites individuais.
O excesso de processos burocráticos também contribui para um cenário que propicia violências no ambiente laboral, uma vez que ela atravanca os processos, engessa os fazeres docentes e torna os processos avaliativos inacessíveis e o relacionamento com os colegas impessoais.
No contexto de pandemia de COVID-19, com a adoção do Ensino Remoto Emergencial-ERE, houve um aprofundamento dessas relações já precarizadas: docentes não receberam treinamentos para uso das plataformas digitais, tiveram que fazer uso de recursos próprios, muitas vezes não preparados para isso (computador adequado, câmera, microfone adequado), o que colocou em questão a qualidade da própria aula e da relação ensino-aprendizagem. A ausência de treinamentos, colocou professores e professoras em uma situação de fragilidade, que poderia propiciar erros e constrangimentos perante colegas e alunos, significando em suma, a deterioração de uma condição básica de trabalho no contexto pandêmico. Docentes tiveram que adaptar suas rotinas e novos saberes sem suporte organizacional. Além disso, a falta de responsividade e interatividade nas aulas síncronas que colocam em questão o sentido e, mais uma vez, a qualidade do ensino. O trabalho, que passou a ocupar o espaço doméstico e as demandas, antes já tão altas, passaram a parecer intermináveis.
A partir dos relatos dos docentes na roda de conversa, o Sindicato criou um folder para a categoria docente, com objetivo de esclarecer os conceitos de assédio, possibilitando sua identificação, bem como, criando um fluxo de tratativa dos casos, que devem ser acolhidos pela entidade e colocados em discussão na Universidade, de maneira ampla e que problematize os aspectos organizacionais fomentadores desse tipo de violência no trabalho. Essa discussão é essencial tanto para tratativa de casos deflagrados de assédio, bem como para identificação de fatores potencialmente geradores dessa violência e sua efetiva prevenção.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
No cenário de conflito entre o capital x trabalho x preservação da saúde, os trabalhadores, cooptados pela lógica neoliberal, são colocados em lugar de competição, vigilância uns dos outros e ausência de solidariedade. Essa quebra de vínculos propicia que cada um(a) se enxergue como único(a) responsável pelo seu “bom desempenho”. As metas, exigências e cobranças em cadeias hierárquicas, propiciam ambientes violentos, que desprezam os limites individuais e tornam as relações humanas no trabalho artificiais e a serviço de um único objetivo: a produção.
O assédio moral precede um “ambiente de trabalho assediado” (VIEIRA; LIMA; LIMA, 2012), que propicia a violência. É preciso compreender essa realidade, a produção e reprodução de violências no contexto laboral e quais os caminhos possíveis para mitigação dessas práticas e, consequentemente, seus efeitos nefastos à saúde da classe trabalhadora docente, uma vez que as condições e a maneira como o trabalho é organizado operam como instâncias assediosas. Nesse sentido, as tratativas de situações de assédio devem ter como foco o próprio trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FIGUEIRÊDO, Alessandra Aniceto Ferreira; QUEIROZ, Tacinara Nogueira. A utilização de rodas de conversa como metodologia que possibilita o diálogo. 2012.

HIRIGOYEN, Marie-France. Assédio moral: a violência perversa no cotidiano. Bertrand Brasil, 2002.

VIEIRA, Carlos Eduardo Carrusca. Assédio do moral ao Psicossocial: Desvendando os enigmas da organização do trabalho. Curitiba: Jaruá Editora, 2008.

VIEIRA, Carlos Eduardo Carrusca. ASSÉDIO MORAL: DIMENSÕES ORGANIZACIONAIS E PSICOSSOCIAIS DO TRABALHO MALTRATADO. In CARVALHO, Carla; PARREIRA, Pedro; MÓNICO, Lisete (org.). Burnout, traumas no trabalho e assédio moral: estudos empíricos e reflexões conceptuais. Coimbra: Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, p. 141-163, 2017.

VIEIRA, Carlos Eduardo Carrusca; LIMA, Francisco de Paula Antunes; LIMA, Maria Elizabeth Antunes. E se o assédio não fosse moral?: perspectivas de análise de conflitos interpessoais em situações de trabalho. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 37, n. 126, p. 256–268, dez. 2012.

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Eixo Temático
  • 5. Saúde mental dos professores e dos estudantes
Palavras-chave
Assédio moral
Violências no Trabalho
saúde mental