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Apresentação/Introdução A fome constitui uma das expressões das desigualdades socioespaciais no Brasil. Mais do que resultado da escassez de alimentos, trata-se de um fenômeno socialmente produzido, associado à distribuição desigual de renda, às condições de inserção no mercado de trabalho e ao acesso às políticas públicas. Nesse contexto, a insegurança alimentar torna-se uma categoria analítica relevante para compreender os diferentes níveis de privação alimentar vivenciados pela população. No campo da Geografia, a fome pode ser analisada como fenômeno territorialmente produzido, manifestando-se de forma desigual no espaço urbano. Áreas periféricas, marcadas por vulnerabilidade socioeconômica e acesso limitado a serviços públicos, tendem a concentrar maiores níveis de insegurança alimentar. O bairro Jardim Eldorado, localizado na zona leste de Cuiabá (MT), insere-se nesse contexto e constitui o recorte territorial desta pesquisa. Objetivos O objetivo geral desta pesquisa é analisar como a insegurança alimentar se manifesta no bairro Jardim Eldorado, em Cuiabá (MT), considerando sua relação com as condições socioeconômicas e territoriais da população. Como objetivos específicos, busca-se identificar as políticas públicas acessadas pelos moradores no enfrentamento da fome, analisar iniciativas comunitárias presentes no território e compreender a relação entre precarização do trabalho, renda e insegurança alimentar no contexto local. Metodologia A pesquisa fundamenta-se no materialismo histórico-dialético, abordagem que permite compreender a fome como expressão da questão social produzida pelas contradições estruturais do capitalismo. Adotou-se uma abordagem qualitativa, associada à análise de dados secundários. O estudo foi realizado entre 2022 e 2024 no bairro Jardim Eldorado, localizado na zona leste de Cuiabá (MT). O percurso metodológico incluiu revisão bibliográfica sobre desigualdade social, produção do espaço urbano e insegurança alimentar, análise de relatórios e diagnósticos socioterritoriais produzidos em atividades de extensão universitária no bairro, além da interpretação de dados estatísticos da PNAD Contínua e do II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar (VIGISAN). Resultados Os resultados indicam que a insegurança alimentar no bairro está diretamente associada à precarização do trabalho e à instabilidade da renda familiar. Observou-se que parte significativa dos moradores encontra-se inserida em atividades informais, trabalhos autônomos de baixa remuneração ou em situações de desemprego. No cotidiano das famílias, a insegurança alimentar manifesta-se principalmente pela redução do número de refeições, pela substituição de alimentos mais nutritivos por produtos de menor custo e pela dependência eventual de auxílios ou doações. Também foram identificadas iniciativas comunitárias, como a horta existente no bairro, que contribui para a produção local de alimentos e para o fortalecimento das redes de solidariedade entre moradores. Discussão A análise evidencia que a fome observada no território não decorre da ausência de produção de alimentos, mas das desigualdades no acesso à renda, ao trabalho e às políticas públicas. A precarização das condições de trabalho amplia a vulnerabilidade social das famílias residentes nas periferias urbanas. Nesse contexto, a territorialização da fome revela como as desigualdades estruturais se materializam no espaço urbano, atingindo com maior intensidade áreas periféricas caracterizadas por menor acesso a oportunidades econômicas e serviços públicos. Conclusões/Considerações A pesquisa demonstra que a insegurança alimentar no bairro Jardim Eldorado está associada às condições de precarização do trabalho, à instabilidade da renda e às desigualdades socioespaciais presentes nas periferias urbanas. Embora políticas públicas e iniciativas comunitárias contribuam para amenizar situações de fome, tais estratégias apresentam limites diante das determinações estruturais que produzem a desigualdade social. Assim, o enfrentamento da insegurança alimentar requer políticas públicas integradas, voltadas à geração de emprego, à ampliação da proteção social e à garantia do direito humano à alimentação adequada.
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