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Apresentação/Introdução Nas últimas duas décadas, os indicadores de amamentação progrediram globalmente, mas a meta da OMS de 70% para 2030 permanece distante. No Brasil, o aleitamento materno exclusivo (AME) subiu para 45,8% em 2019, ritmo ainda insuficiente. Paralelamente, a crise climática emerge como um desafio; evidências sugerem que variações térmicas influenciam as práticas alimentares infantis, embora estudos em diferentes países apresentem resultados divergentes sobre o impacto do calor e da sazonalidade. Lacunas metodológicas persistem, com pesquisas frequentemente limitadas a indicadores sazonais em vez de medições diretas de temperatura. Objetivos Avaliar a associação entre temperaturas ambientais (tanto calor quanto frio) e a interrupção do aleitamento materno exclusivo em uma coorte de base nacional no Brasil. Além disso, investigamos disparidades na relação temperatura-amamentação de acordo com características infantis e fatores socioeconômicos. Metodologia Trata-se de um estudo de coorte longitudinal de base populacional, realizado com microdados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), abrangendo o período de 2015 a 2019. O AME foi operacionalizado como um desfecho binário baseado no consumo exclusivo de leite materno no dia anterior à visita, com exclusão rigorosa de quaisquer outros líquidos (incluindo água ou chás) ou sólidos. As variáveis de exposição incluíram as temperaturas ambientais diárias (mínimas e máximas) e a umidade relativa do ar. Esses dados foram extraídos da grade meteorológica de alta resolução Brazilian Daily Weather Gridded Data (BR-DWGD), que utiliza interpolação de dados de estações de superfície para fornecer estimativas precisas por coordenadas geográficas ou municípios. A associação entre temperatura ambiente e o tempo até a interrupção (falha) do AME foi estimada por meio de modelos de riscos proporcionais de Cox. Para capturar a complexidade da relação dose-resposta e os efeitos retardados da temperatura ao longo do tempo, os modelos de Cox foram integrados a Modelos Lag Não Lineares Distribuídos (DLNM). Essa abordagem permite modelar simultaneamente a não linearidade da exposição térmica e a estrutura de defasagem temporal (lags) por meio de funções de spline. Resultados Este estudo de base populacional com 397.239 lactentes revelou que a exposição ao calor aumenta em 10% o risco de interrupção do AME (HR 1,10; IC 95%: 1,08–1,14), com efeito consistente entre diferentes sexos, idades e níveis de privação municipal. Em contraste, o frio não apresentou associação significativa nacionalmente (HR 1,01; IC 95%: 0,98–1,05). Contudo, análises de subgrupo indicam que o impacto das baixas temperaturas é heterogêneo, variando conforme a idade da criança e vulnerabilidades socioeconômicas locais. Discussão Este estudo nacional vincula o calor ao maior risco de interrupção do AME, corroborando evidências globais. O efeito do calor é homogêneo entre subgrupos, possivelmente devido a percepções maternas sobre desidratação infantil. Já o frio apresenta efeitos heterogêneos por idade e privação socioeconômica. Os achados reforçam a necessidade de considerar estressores térmicos e dinâmicas de cuidado nas políticas de amamentação. Conclusões/Considerações Nossos achados destacam a importância de fortalecer o apoio à amamentação durante períodos de calor elevado e de integrar abordagens sensíveis ao clima nas políticas de saúde materno-infantil.
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