RESISTÊNCIA E SABERES: O FEMININO NO CUIDADO

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Resumo

Apresentação/Introdução A relação entre mulheres, cuidado e saúde está historicamente marcada por papéis sociais atribuídos ao feminino e frequentemente naturalizados. Entretanto, o cuidado desenvolvido por coletivos de mulheres pode representar resistência e reconfiguração de saberes. Conforme aponta Federici (2019, 2023), processos históricos de controle sobre o corpo e o trabalho feminino retiraram das mulheres autonomia sobre seus conhecimentos. Tal movimento pode ser compreendido como epistemicídio, entendido como a destruição sistemática de saberes subalternizados, como argumenta Sousa Santos (2017). Nesse contexto, a medicina ocidental consolidou uma racionalidade biomédica marcada pela fragmentação do corpo e pela objetivação da doença, conferindo às práticas em saúde um caráter técnico e impessoal (Camargo Jr., 2005). Objetivos Discutir como o protagonismo de mulheres no cuidado à saúde em Cuiabá (MT) produz práticas que resistem à hegemonia da biomedicina. Metodologia Trata-se de um recorte de uma pesquisa qualitativa desenvolvida por meio de experiência etnográfica. O campo empírico corresponde ao quotidiano de uma casa situada no bairro Alvorada, em Cuiabá, Mato Grosso, onde um grupo de mulheres voluntárias desenvolve práticas medicinais como forma de cuidado à comunidade há cerca de 30 anos. A inserção no campo ocorreu entre setembro de 2022 e agosto de 2023, com registros sistemáticos em caderno de campo. A organização do material empírico resultou em pontos analíticos relacionados ao território como espaço de cuidado, aos saberes femininos na produção do cuidado e ao cuidado como resistência. Resultados Os resultados indicam que as práticas de cuidado do grupo de mulheres se organizam em três dimensões: o território como espaço de cuidado, os saberes femininos na produção do cuidado e o cuidado como resistência. O território do Alvorada está situado em uma casa reorganizada para acolher práticas medicinais voltadas à comunidade, com espaços destinados aos atendimentos e um quintal fitoterápico cultivado de forma agroecológica. O grupo é composto principalmente por mulheres que chegaram ao espaço como usuárias e por trabalhadoras da educação pública. As atividades são organizadas de forma colaborativa e incluem preparo de insumos terapêuticos, cultivo de plantas medicinais, acolhimento e práticas como benzimento, radiestesia e bioenergética. Observou-se que muitas pessoas procuram o espaço após experiências pouco resolutivas no sistema biomédico. Discussão Os resultados evidenciam que o Alvorada se configura como um território de cuidado que ultrapassa a dimensão física da casa, constituindo-se como espaço comunitário de produção da saúde. A reorganização do espaço doméstico para práticas coletivas revela a potência das redes femininas na sustentação de iniciativas comunitárias de cuidado. As práticas desenvolvidas articulam saberes populares, espiritualidade e experiências de vida, produzindo formas de cuidado baseadas na escuta, no diálogo e na construção coletiva do conhecimento. Nesse contexto, o cuidado assume também dimensão educativa e relacional. A procura pelo espaço após trajetórias frustradas no sistema biomédico indica a coexistência de diferentes racionalidades de cuidado. Conforme argumenta Menéndez (2009), os sujeitos transitam entre sistemas médicos diversos na busca por respostas às suas necessidades de saúde. Assim, o protagonismo dessas mulheres contribui para afirmar saberes historicamente desqualificados e ampliar os sentidos da produção do cuidado. Conclusões/Considerações A análise do protagonismo de um grupo de mulheres orientado pela coletividade evidencia a produção de sentidos de cuidado que tensionam a hegemonia da medicina ocidental. A mobilização de saberes populares, espirituais e ancestrais sustenta práticas que escapam às lógicas tecnicistas e mercantilizadas da biomedicina, ainda que estabeleçam com ela relações estratégicas. A centralidade da casa como território de cuidado e a organização colaborativa das atividades reafirmam saberes femininos como formas legítimas de conhecimento e ação, evidenciando a potência de práticas coletivas na construção de outras possibilidades de viver e cuidar.

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Eixo Temático
  • Eixo 01 - Processos de Determinação Socioambiental da Saúde e Bem Viver
Palavras-chave
Resistência
Mulheres
Cuidado