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Resumo

Apresentação/Introdução A emergência de epidemias e pandemias associadas à interação entre humanos e animais nas últimas décadas evidencia a importância de compreender as interfaces ecológicas que favorecem a circulação de patógenos. Nesse contexto, espécies vegetais exóticas podem modificar interações ecológicas, especialmente em ambientes urbanos e periurbanos. A jaqueira (Artocarpus heterophyllus Lam.), amplamente disseminada em áreas urbanas da Mata Atlântica, produz grande quantidade de frutos que, ao caírem no solo, tornam-se recurso alimentar para fauna silvestre, animais domésticos e humanos. Esse compartilhamento favorece encontros diretos e indiretos entre espécies e potenciais vias de transmissão de patógenos. Sob a perspectiva da saúde ambiental, compreender essas interações é fundamental para subsidiar estratégias de vigilância de zoonoses e gestão ambiental em territórios no entorno de fragmentos florestais da Mata Atlântica. Objetivos Investigar como a presença de uma espécie vegetal exótica em ambiente periurbano pode favorecer interações entre fauna silvestre, animais domésticos e humanos, configurando interfaces ecológicas potencialmente relacionadas ao transbordamento de patógenos. Metodologia A investigação foi conduzida entre 2024 e 2025 na Estação Biológica Fiocruz Mata Atlântica (EFMA), na zona oeste do Rio de Janeiro. A unidade está inserida na Floresta da Pedra Branca, considerada a maior floresta urbana do mundo e importante remanescente de Mata Atlântica. Para o monitoramento da fauna foi instalada uma armadilha fotográfica (camera trap) em frente a um indivíduo de jaqueira, com o objetivo de registrar espécies que utilizam seus frutos como recurso alimentar. O equipamento foi configurado para captura automática por sensores de movimento, permitindo o registro contínuo das espécies visitantes. As imagens foram analisadas para identificação das espécies, frequência de ocorrência e evidências de uso compartilhado do recurso alimentar por diferentes grupos taxonômicos. Resultados Foram obtidos 268 registros, sendo a cutia (Dasyprocta sp., n = 112) a espécie mais frequente, seguida pelo teiú (Salvator merianae, n = 32) e pelo gambá (Didelphis aurita, n = 26). Também foram registrados cachorro doméstico (Canis lupus familiaris, n = 18), aves não identificadas (n = 18), saracura (Aramides saracura, n = 13), tatu (Dasypus sp., n = 12), mão-pelada (Procyon cancrivorus, n = 10), quati (Nasua nasua, n = 8), cachorro-do-mato (Cerdocyon thous, n = 7), paca (Cuniculus paca, n = 7), juriti (Leptotila verreauxi, n = 3), pombo (Columba livia, n = 2) e cavalo (Equus ferus caballus, n = 1). Do total, 8% estavam forrageando na base da jaqueira e 5% consumindo os frutos, principalmente cutias. Também foi registrado o consumo sequencial de um mesmo fruto, em curto intervalo, por teiú, quati, cavalo e um humano coletando e consumindo os frutos no local. Discussão A diversidade de espécies registradas indica que frutos de jaqueira funcionam como importantes pontos de atração e agregação de fauna em ambientes periurbanos. O registro de roedores e marsupiais frugívoros, carnívoros oportunistas, répteis, aves e animais domésticos, evidencia a sobreposição de diferentes níveis tróficos em torno de um mesmo recurso alimentar. O consumo do mesmo fruto por humanos, animais domésticos e fauna silvestre revela interfaces de contato por superfícies, restos alimentares e substratos potencialmente contaminados, ampliando oportunidades para a circulação de agentes infecciosos. Conclusões/Considerações Os resultados indicam que espécies vegetais exóticas em ambientes urbanos podem influenciar as interações entre humanos, animais domésticos e fauna silvestre. O consumo compartilhado de frutos de jaqueira evidencia pontos de agregação interespecífica que podem favorecer a circulação de patógenos. Esses achados reforçam a importância de integrar abordagens ecológicas, vigilância em saúde e educação ambiental na gestão urbana. Recomenda-se enriquecimento com espécies nativas para ampliar a oferta de recursos alimentares adequados à fauna, assim como pesquisas que identifiquem patógenos potencialmente presentes em frutos compartilhados entre espécies.

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Eixo Temático
  • Eixo 01 - Processos de Determinação Socioambiental da Saúde e Bem Viver
Palavras-chave
transbordamento de patógenos
educação ambiental
gestão urbana