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Apresentação/Introdução No Brasil, o trabalho dos Agentes de Combate às Endemias (ACE) insere-se na divisão sociotécnica do trabalho em saúde sob determinações históricas específicas. A política de controle das arboviroses, estruturada predominantemente no uso sistemático de agrotóxicos, apresenta-se como resposta técnico-científica neutra e universal, legitimada pelo discurso das ciências naturais. Tal política, ao priorizar intervenções químicas focalizadas no vetor biológico, desconsidera as determinações sociais que sustentam a reprodução das endemias nos territórios. A persistência dos altos índices de infestação das arboviroses, mesmo após décadas de aplicação intensiva de substâncias químicas, revela limites objetivos dessa racionalidade. A centralidade do modelo químico-dependente não pode ser compreendida de forma isolada, mas articulada às relações de produção capitalistas, nas quais a ciência se desenvolve historicamente vinculada às necessidades de reprodução do capital. Nesse sentido, a política de controle vetorial não se reduz a uma escolha técnica, mas expressa uma forma específica de organização do saber e da intervenção estatal sobre o processo saúde-doença. Objetivos Caracterizar o processo de trabalho dos ACE, centrado no uso sistemático de agrotóxicos no controle das arboviroses, como uma forma de ideologia científica (IC). Metodologia Trata-se de um ensaio teórico, de caráter crítico-analítico, fundamentado na experiência concreta dos ACE, dos referenciais críticos da saúde coletiva e do materialismo histórico. Resultados Resultados e Discussão A análise do processo de trabalho dos ACE evidencia que o modelo hegemônico de controle das arboviroses, centrado no uso sistemático de agrotóxicos, opera como uma forma de IC. Entende-se por IC a produção de um saber que se apresenta como técnico, neutro e universal, mas que, ao ocultar suas determinações histórico-sociais, contribui para a reprodução das relações sociais vigentes. Trata-se de uma forma específica de racionalidade que naturaliza determinadas práticas institucionais e organiza a intervenção estatal como se fosse mera aplicação objetiva da ciência, despolitizando suas bases materiais. No interior dessa racionalidade, o reducionismo constitui um procedimento epistemológico que fragmenta a totalidade concreta dos fenômenos, isolando aspectos particulares e abstraindo suas múltiplas determinações. Ao deslocar o fenômeno de suas mediações sociais e históricas, o reducionismo converte problemas complexos em objetos técnicos circunscritos. Discussão O reducionismo biológico, por sua vez, restringe a compreensão das arboviroses à relação agente etiológico–vetor–organismo, desconsiderando fatores estruturais como saneamento básico insuficiente, organização desigual do espaço urbano, condições de moradia, precarização do trabalho e desigualdades socioeconômicas. Dessa forma, o enfrentamento das endemias é orientado prioritariamente pela eliminação química do vetor, consolidando a centralidade dos agrotóxicos como tecnologia de intervenção. Os impactos dessa orientação manifestam-se tanto no meio ambiente quanto na saúde dos trabalhadores. Dados do Projeto Integrador Multicêntrico: Avaliação da Saúde dos Agentes de Combate às Endemias/Guarda de Endemias pela Exposição a Agrotóxicos, desenvolvido pelo CESTEH/ENSP/FIOCRUZ no Estado do Rio de Janeiro, em parceria com sindicatos da categoria, servidores do Ministério da Saúde, INCA e UFRJ, evidenciam elevada prevalência de sintomas compatíveis com intoxicação aguda e crônica entre os ACE investigados, incluindo alterações neurológicas, distúrbios do sono, problemas respiratórios, dermatológicos e alterações hormonais. O estudo também aponta indicadores de sofrimento psíquico e desgaste mental associados às condições de trabalho e à exposição ocupacional, e óbitos na média dos 55 anos. Conclusões/Considerações O químico-dependente não apenas falha em enfrentar as determinações estruturais das arboviroses, como também produz efeitos deletérios à saúde da força de trabalho responsável por sua execução e impactos socioambientais cumulativos nos territórios. Desse modo, o processo de trabalho dos ACE revela-se atravessado por uma racionalidade que, sob a aparência de neutralidade científica, reproduz práticas que subordinam a proteção da vida às exigências de padronização técnica e operacionalização imediata do controle vetorial, configurando-se como expressão concreta de uma ideologia científica.
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