DETERMINAÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA OBESIDADE: TRABALHO INFORMAL, CRISE CLIMÁTICA E CUIDADO NUTRICIONAL NO SUS

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Resumo

Contextualização A obesidade no Brasil distribui-se de forma desigual, com maior carga e crescimento mais acelerado em grupos atravessados por desigualdades de gênero e raça, com destaque para mulheres e pessoas negras (Estivaleti et al., 2022). Esse cenário é produzido por um sistema alimentar que prioriza ultraprocessados a baixo custo em detrimento de alimentos in natura, configurando, sobretudo em territórios periféricos, um ambiente alimentar obesogênico (Hawkes; Popkin, 2015). Apesar disso, o discurso predominante opera na individualização da responsabilidade, ancorado na noção de "hábito alimentar", categoria naturalizada que apaga o caráter social, econômico e territorial das práticas alimentares e reduz o comer a comportamento individual corrigível (Klotz-Silva; Prado; Seixas, 2017). Descrição da Experiência O estágio supervisionado em Nutrição Social foi realizado no Hospital Municipal Miguel Couto (HMMC), no Rio de Janeiro, incluindo atendimento ambulatorial, discussão de casos clínicos, protocolo nas enfermarias e educação nutricional. O perfil predominante era de pacientes com sobrepeso/obesidade e comorbidades como diabetes mellitus, hipertensão arterial e hipercolesterolemia. Os recordatórios revelaram alto consumo de ultraprocessados. O plano de adequação considerava condições financeiras, e informativos impressos sobre "mudanças de hábitos" eram o principal recurso entre retornos. Um caso sintetiza esses achados: R.J.A.M., 26 anos, manicure autônoma, moradora da Cidade de Deus, IMC 43,1 kg/m², com depressão e compulsão alimentar, realizava duas refeições diárias, condição imposta pelo trabalho informal, com predomínio de ultraprocessados e carboidratos simples, frutas e hortaliças 1 a 2× por semana. Objetivo e período de Realização Analisar, a partir da vivência no ambulatório do HMMC (agosto–setembro/2021), como determinantes socioambientais e a individualização do cuidado se expressam no padrão alimentar e no perfil nutricional de usuárias do SUS, contribuindo para uma reflexão crítica sobre a atenção nutricional em saúde coletiva. Resultados O perfil clínico e alimentar observado evidenciou que o adoecimento por obesidade e doenças crônicas não transmissíveis não resulta de falhas individuais, mas de condições estruturais. A informalidade, sem pausas para refeições e com remuneração insuficiente para alimentos in natura, emergiu como determinante central, num contexto em que determinantes comerciais moldam o ambiente alimentar e deslocam a responsabilidade para o indivíduo (Hassan et al., 2025). No caso acompanhado, a exigência de perda de 55 kg como condição para neurocirurgia expôs uma cadeia de vulnerabilidades na qual gênero, classe e território se interseccionam: o sistema de saúde demanda do corpo individual uma transformação que pressupõe condições estruturais inexistentes (Dardot; Laval, 2016). Aprendizado e Análise Crítica A experiência revelou que o atendimento nutricional ambulatorial no SUS, embora potente como espaço de escuta, opera sob limitações que reproduzem a lógica individualizante: retornos espaçados, ausência de equipe multiprofissional e recursos centrados em informativos transferem ao indivíduo a responsabilidade por mudanças que dependem de condições coletivas (Seixas et al., 2020). As ações de educação alimentar demonstraram o potencial da nutrição articulada ao território, mas a vivência expôs uma camada adicional: as usuárias do SUS são também as mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas, cujos eventos extremos aprofundam a insegurança alimentar nos mesmos territórios onde o ambiente alimentar já é obesogênico. O cuidado nutricional centrado no consultório não alcança essa sobreposição, porque opera na escala individual enquanto os determinantes operam em escala territorial e climática. A Comissão The Lancet (2019) nomeou essa convergência como sindemia global, na qual obesidade, desnutrição e crise climática se reforçam mutuamente, recaindo sobre os mesmos corpos responsabilizados pelo discurso sanitário. A Declaração de Belém (COP30, 2025) reconheceu esse nexo ao vincular ação climática à erradicação da fome e à proteção social. Fortalecer a nutrição social dentro de um SUS público, universal e climaticamente adaptado, horizonte traçado pelo AdaptaSUS, é condição para superar a culpabilização individual e enfrentar os processos de determinação socioambiental que produzem o adoecimento, na direção do Bem Viver.

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Eixo Temático
  • Eixo 01 - Processos de Determinação Socioambiental da Saúde e Bem Viver
Palavras-chave
Determinação socioambiental da saúde
Sindemia global
Individualização do cuidado