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INSETOS COMESTÍVEIS: PERCEPÇÃO DE RISCO E SEGMENTAÇÃO DOS CONSUMIDORES BRASILEIROS
Antonio Rocha Bisconsin-Junior
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia
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Introdução: Nos últimos anos, o interesse na inserção de insetos na dieta ocidental aumentou. Insetos são fontes de proteína animal e sua criação tem baixo impacto ambiental. Recentemente, alimentos à base de insetos estão disponíveis comercialmente nos EUA e Europa, e esforços estão sendo feitos para aumentar a aceitação de insetos nos países ocidentais. Objetivo: Segmentar e caracterizar os consumidores de insetos no Brasil. Metodologia: 780 participantes foram entrevistados em oito estados brasileiros. Os participantes foram convidados a escrever até 5 palavras que viessem à mente após a instrução: “Quando digo comida feita com inseto comestível, o que vem a sua mente?”. Depois, classificavam a valência de cada palavra e avaliavam a percepção de risco de comer insetos (0-seguro a 6-muito perigoso). Por fim, os dados sociodemográficos foram coletados. As palavras foram formatadas e agrupadas em categorias; então, foram calculados a frequência de menções das categorias e os índices de polaridade de cada participante e categoria. A segmentação dos participantes foi realizada por meio de agrupamento hierárquico da percepção de risco. Resultados: Três grupos de consumidores foram identificados: dispostos, cautelosos e opositores ao consumo de insetos. Os dispostos (n=249), em sua maioria do sexo masculino, tiveram uma percepção de risco baixa (0,9) e atitude mais positiva (+0,33), sendo mais jovens e com mais escolaridade do que os opositores. As categorias mais frequentes deste grupo foram Aceitação e Sustentabilidade, ambas de valência positiva. Os cautelosos (n=287) apresentaram percepção de risco média (3,3) e atitude neutra (+0,07), sendo mais jovens e com escolaridade mais alta que os opositores, porém semelhantes aos dispostos. A categoria Sabor, de valência neutra, se destacou nos cautelosos. Os opositores (n=244), em sua maioria do sexo feminino, exibiram a maior percepção de risco (5,6) e atitude negativa (-0,29), sendo mais velhos e com menor escolaridade que os demais grupos. Para os opositores, as categorias negativas de Rejeição, Nojo, Medo e Insalubre foram as mais relevantes. Conclusão: Foram identificados três grupos de consumidores, sendo que os mais jovens, com maior escolaridade e do sexo masculino tendem a ter atitude mais positiva e menor percepção de risco em comer insetos.
Mayra Monteiro Viana
Parabéns pela linha de pesquisa! Como a possível intenção de consumo de insetos pelo brasileiro se compara com a de outros países? Estamos com mais ou com menos receio do que, ex., países europeus e EUA?
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Antonio Rocha Bisconsin-Junior
Mayra, agradeço pelo elogio e interesse em nosso estudo!
A sua pergunta é bem interessante! De maneira geral, observando os estudos envolvendo a população dos EUA e dos países europeus, a aceitação é igual ou um pouco melhor que a do Brasil. Então, não existe uma diferença tão forte na aceitação e isso é explicado por diversos fatores.
A favor da aceitação nos EUA e Europa temos que: 1º, que estas regiões já têm produtos alimentícios com insetos nos mercados (mesmo que de maneira recente), deixando os consumidores mais acostumados com a ideia de consumir insetos; 2º, no geral, a população dos EUA e da Europa têm uma escolaridade melhor que a do Brasil, levando a uma maior consciência sobre temas como sustentabilidade e nutrição, que são fortes motivos para consumir insetos.
Enquanto, a favor da aceitação no Brasil temos que a ideia de consumir insetos não é completamente estranha a nossa cultura. Mesmo que de maneira não muito consciente, já ouvimos falar de que nas áreas rurais do nosso país existia o costuma de coletar formigas para fazer farofa (famosa farofa de tanajura ou içá), que os indígenas brasileiros comem larvas ou lagartas, além de anedotas como “comer formiga faz bem pra vista”. Este pano de fundo cultural está bem relacionado aos povos originais brasileiros, que contrasta com a cultura dos imigrantes e colonizadores europeus.
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Quem tiver interesse na discussão sobre a influência da cultura na aceitação de insetos comestíveis, recomendo a leitura de um artigo recente do nosso grupo de pesquisa (Bisconsin-Junior, 2020). Quem quiser mais informações sobre a aceitação de insetos comestíveis nos EUA, recomendo o artigo do Woolf et al. 2019, sendo interessante observar que a aceitação é maior entre os norte-americanos de etnia asiática ou multiétnicos. Para um quadro geral da Europa, recomendo a leitura do Mancini et al. 2019.
Bisconsin-Junior et al. (2020). Examining the role of regional culture and geographical distances on the representation of unfamiliar foods in a continental-size country. Food Quality and Preference, 79, 103779.
Mancini et al. (2019). European consumers' readiness to adopt insects as food. A review. Food Research International, 122, 661-678.
Woolf et al. (2019). Willingness to consume insect-containing foods: A survey in the United States. LWT - Food Science and Technology, 102, 100-105.