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Na Lógica da filosofia está presente uma antropologia filosófica: o homem é constituído de razão e violência. A razão é a dimensão do homem que quer compreender a totalidade da realidade, é aquilo que constitui o sentido e a coerência. A violência envolve o mundo natural e as ações humanas, é a força que age sobre e nos seres vivos obrigando-os a se protegerem. Weil explica que “enquanto natural, o homem é violento”, destituído da comunidade humana, da educação, das regras morais que impõem a consciência do bem e do mal, do lícito e do ilícito, ele agiria cegamente “à maneira das forças naturais, determinado por elas e como elas [...], e seus atos, previsíveis como o são os acontecimentos naturais (e nos mesmos limites)”, não receberia um sentido diferente daquele dado à “queda de uma pedra” (WEIL, 2011, p. 19). Sem a existência da moral na vida do ser da “espécie animal homo dos zoólogos” (WEIL, 2011, p. 20), ele não seria ser humano, mas apenas animal, não haveria para o homem natural nenhuma “diferença entre a morte do pai assassinado por seus filhos e a morte do pai estraçalhado por um urso: simplesmente não haveria assassinato” (WEIL, 2011, p. 22, grifo do autor). O homem naturalmente não é nem moral e nem imoral, ele é amoral. O homem é “o ser que é aquilo que ele não é, e que não é aquilo que ele é” (WEIL, 2012a, p. 14-15, grifo nosso). Tal é dialética porque trata-se da síntese de afirmações opostas: ao mesmo tempo que ele é aquilo que ele não é, ele não é aquilo que ele é. Essa tensão demonstra a presença de um descontentamento que o leva o homem negar sua natureza, o dado imediato, a condição de ser no mundo. Essa negação é possibilitada pela linguagem razoável, expressão do pensamento que busca a coerência e o sentido do mundo. Ela, porém, é insuficiente e o máximo que consegue é dizer “não”, o que o homem não quer ser e o que as coisas não são, mas nunca pode dizer o que são. É também ferramenta da negatividade, produz por meio da técnica novos dados da realidade que por sua vez serão negados. O descontentamento é algo contínuo, por isso, a violência constitutiva utiliza a linguagem como instrumento da busca por satisfações. Mas é esse fenômeno da negatividade que tira o homem da condição simples de homo sapiens e o põe na condição de homo faber, um ser que fabrica a si mesmo e a seu mundo à medida que negando a natureza e o dado, transforma-se e transforma as formas de transformação, buscando se definir no mundo colocando-se limites. Segundo Weil, o filósofo percebe que essa condição cíclica que o homem se coloca em sua experiência no mundo é de nunca alcançar o contentamento pleno.
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