A PRÁTICA DE AUTOLESÃO EM JOVENS: UMA DOR A SER ANALISADA
A autolesão é a prática de comportamentos com intenção de causar lesão em si. Optou-se por investigar apenas os atos de cortes, queimaduras, se bater, coçar, furar a pele com objetos pontiagudos e cutucar a pele até causar ferimentos. O objetivo geral é compreender, à luz da psicanálise, o fenômeno da autolesão a partir dos significados a ele atribuídos pelos jovens que vivenciam ou vivenciaram tal experiência. Para a coleta dos dados, foi utilizada a técnica de autorrelato por meio de entrevistas semiestruturadas. Os critérios de inclusão foi ter idade entre 18 e 29 anos, ter praticado ou praticar autolesão, especificamente cortes, queimaduras, se bater, coçar, furar a pele com objetos pontiagudos e cutucar a pele até causar ferimentos. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas. Posteriormente foi realizada a análise de conteúdo desenvolvida por Bardin e utilizado o referencial teórico da psicanálise. O estudo teve a participação de doze jovens. Em relação à primeira vez que praticaram a autolesão, os participantes indicaram que ocorreram após término de relacionamento, dificuldades no relacionamento amoroso, desempenho acadêmico ruim, abuso sexual, crises de terror noturno, depressão e problemas familiares. Além dos motivos citados acima outras vivências geram angústia e também estão relacionados com a prática de autolesão como experiências de abandono parental, tristeza, solidão, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e dificuldade de lidar com frustrações. Foi frequente o relato de angústia e ela foi indicada como um dos motivos para realizar a autolesão e que com a prática conseguem sentir alívio. Em relação à dor, quando realizam a autolesão eles relatam que sentem dor, mas que é uma dor fraca, considerada boa, uma dor diferente da dor sentida em outras situações e que alivia a dor emocional. Assim, a dor física produzida pela autolesão parece ter a função de alívio em jovens com experiências e vivências intoleráveis. É um comportamento que não deve ser banalizado pois indica intenso sofrimento psíquico, que em alguns casos está associado a pensamentos de suicídio. Essa pesquisa contribui com o conhecimento a respeito da prática e do significado da autolesão em jovens brasileiros. Espera-se que essa discussão seja ampliada e que ocorra além de uma discussão entre estudiosos e profissionais, mas que se desenvolva um espaço de fala aos praticantes de autolesão e que assim seja possível falar sobre a dor psíquica e quem sabe pensá-la.