O presente resumo tem como objetivo apresentar “situações-limites” e “inéditos viáveis” identificadas pelos/as estudantes da Escola Família Agrícola de Vale do Sol, ante a crise ambiental e climática. Para tanto, parte-se da indissociabilidade entre os contextos concretos e teóricos, ou seja, as enchentes que assolaram o estado do Rio Grande do Sul e a compreensão freireana sobre as categorias mencionadas. Para tanto, recorremos à troca de cartas pedagógicas entre educador e educandos/as, realizadas em maio de 2024. Nos mencionados contextos, o educador responsável pela área de Ciências Humanas e Sociais enviou uma Carta Pedagógica aos/às estudantes através do “Google Sala de Aula”, entendendo que aquele momento exigia diálogo - sobretudo, na impossibilidade de acesso à escola e a suspensão das atividades presenciais por um período de um mês. Assim, as cartas se constituíram em um exercício de diálogo pela escrita rigorosa, amorosa e problematizadora (Vieira, 2010), além de pedagogicamente intencionalizada. Por conta da sensibilidade exigida pelas circunstâncias, o educador pode manifestar a sua própria situação, bem como sua preocupação quanto ao que cada jovem e sua família vivenciaram durante a ocorrência desse evento climático extremo. A carta terminava com a proposta de que os/as jovens respondessem, caso fosse do seu desejo. Em função das limitações de acesso à energia elétrica e dados móveis, orientou-se que a carta-resposta poderia ser escrita à mão e que poderia ser entregue na volta às aulas. A turma em questão, era do 3º ano do Ensino Médio e contava com 24 jovens em formação, dos quais 14 se tornaram remetentes. A carta pedagógica enviada pelo educador buscava saber sobre as condições em que as famílias se encontravam e quais as ações realizadas pelos/as jovens, considerando o compromisso ético-político da escola com a sua formação. Além disso, existia uma ampla demanda de mobilização dos/as jovens e de suas famílias pela recuperação e retomada da vida cotidiana. A Escola Família Agrícola de Vale do Sol (EFASOL) é uma ideia coletiva, que germinou da luta dos/as agricultores/as por uma escola contextualizada com a vida dos/das jovens do campo. Essa escola é mantida por uma associação de agricultores/as familiares, que colaboram na gestão e na tomada de decisão quanto aos rumos e princípios da instituição. Além disso, a luta pela educação do/no campo e pela agroecologia fundamenta a existência da EFASOL, através da educação popular e da pedagogia da alternância. De acordo com o relatório anual de atividades desenvolvidas pela EFASOL (2024), já se conta com 191 egressos/as, diplomados no Ensino Médio e Técnico em Agricultura, alcançando 16 municípios da região do Vale do Rio Pardo. Através da alternância entre tempos e espaços de formação, os/as jovens passam uma semana em casa (Sessão Familiar), participando das atividades agrícolas e comunitárias. E, outra semana, na escola (Sessão Escolar), onde se busca relacionar os saberes científicos com os saberes da experiência do trabalho na agricultura familiar. Assim, a educação integral e ecológica na relação com o meio rural, soma-se o compromisso ético-político junto aos povos do campo. De acordo com Freire (2024, 1979), as situações-limites são formadas por contradições que levam os indivíduos as perceberem como fatalidade e não como possibilidade de ruptura com uma realidade que está sendo opressora e desumanizante. No contexto socioeconômico em que se insere a EFASOL, isso pode(ria) significar a submissão dos/das trabalhadores/as rurais às transnacionais e os seus “pacotes”. Assim, reconhecer-se limitado desafia os sujeitos a problematizar tal condição, de modo que dimensão crítica da sua consciência não apenas identifica o conflito entre o agronegócio e a agricultura familiar agroecológica - no fundo, a contradição de projetos societais que defendem a morte ou a vida de todos os seres- mas, busca superá-la. Da mesma forma, não é possível compreender as situações-limites sem considerar os atos-limites, pois apresentam-se como dimensões desafiadoras, obstáculos que precisam ser, além de percebidos, superados/as pelos próprios oprimidos/as (Freire, 2024; Vieira Pinto, 1960). A compreensão crítica dessas situações possibilita identificar e alcançar inéditos-viáveis, ou seja, não podem ser definidos e/ou mensurados, pois é parte da luta dos sujeitos pela sua humanização porque se fundam na vocação ontológica do ser mais (Freire, 2024). Deste modo, da consciência ingênua - constatação de uma situação-limite, passam a agir na busca por inéditos-viáveis. Conforme o conflito anteriormente explicitado, modelos alternativos de agricultura confrontam a lógica predatória do agronegócio em defesa de outro modo de produzir a vida, ecologicamente e ambientalmente compatíveis com o bem comum. Ao analisar as cartas pedagógicas, pudemos inferir algumas reflexões preliminares em relação às situações-limites e inéditos-viáveis identificados pelos/as estudantes. Uma das respostas frequentes aponta que “o ser humano não acaba respeitando a natureza de várias formas, por isso que acaba causando tantos estragos” (estudante 01); ou ainda, que “as pessoas não vêem limites, fazendo de tudo sem ter um fim (...). Isso faz com que demos um ‘empurrãozinho’ nos desastres ambientais”. (estudante 02). De um modo geral, os/as jovens compreenderam que a crise ambiental e climática é uma situação-limite e que as enchentes foram apenas a sua manifestação. Evidenciam essa situação a partir das cartas, nas recorrentes menções ao desmatamento, uso de “agrotóxico”, “poluição”, “esgotamento do solo”. Por isso mesmo, a explicação mais plausível foi a de que esse evento climático extremo resulta da ação humana: “tudo isso está acontecendo por conta dos humanos estarem invadindo a natureza [...] estamos sofrendo com as consequências que nós provocamos com a queima” (estudante 03). Nesse sentido, pode-se considerar que os/as jovens identificam a relação entre situação-limite e ato-limite - ou seja, com a crítica contundente à ação humana predatória. No entanto, os/as estudantes também identificam inéditos-viáveis através dos quais buscam mobilizar suas ações, como menciona o estudante 04: “acho que primeiramente conscientização, responsabilidade e conhecimento”. A conscientização aqui, expressa um processo dialógico entre a formação, propriamente dita, e o compromisso a transformação social, de maneira que os sujeitos tenham compreensão de sua importância na relação com o meio ambiente e a natureza como um bem comum. Isso fica evidente também no relato da estudante 5 que diz: “É inadmissível não reconhecermos nossa dependência pela natureza, mas é necessário adotarmos práticas que preservem nossas vidas e a do meio ambiente. Devemos tratá-la com respeito, de forma sustentável e que sejam benéficas para ambas, porém, o uso excessivo do pacote tecnológico como agrotóxicos está desenfreada”. Deste modo, diante do olhar crítico ante a situação-limite, a jovem atribui significado a ação pela tomada de práticas sustentáveis de produção e preservação do meio ambiente. A perspectiva do inédito-viável se coloca na utilização de expressões como “esperança”, “preservação ambiental”, “cuidado com o solo”, “união", “comunidade”, “solidariedade”, superando o “medo", a “aflição", o “choque” e a “morte". Como sujeitos inacabados, o ato-limite se apresentou no processo de formação dos/das jovens estudantes da EFASOL, ainda que em situações-limites tão extremas como as vivenciadas durante as enchentes. As situações-limites são fruto de um processo histórico de degradação ambiental, mas a consciência crítica é desempenhada pelos estudantes da EFASOL diante do ocorrido e não a colocando como fato, mas como mobilização para sua superação. O inédito-viável é, deste modo, não apenas uma demanda decorrente da crise ambiental e climática, é, também, uma busca por um mundo mais justo, comprometido com a ecologia e com a manutenção da vida. REFERÊNCIAS ESCOLA FAMÍLIA AGRÍCOLA DE VALE DO SOL. Série histórica. Relatório de atividades (2024). Santa Cruz do Sul: [s. n.], 2024. 45p. FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. Tradução de Kátia de Melo e Silva. São Paulo: Cortez e Moraes, 1979. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 89ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2024. VIEIRA, Adriano. Cartas Pedagógicas In: STRECK, D.; REDIN, E.; ZITKOSKI, J. J. (Org.). Dicionário Paulo Freire. 4. ed. rev. e aum. Belo Horizonte: Autêntica, 2010, p.263-265. VIEIRA PINTO, Álvaro. Consciência e Realidade Nacional. Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), 1960. 2 v. (Coleção Textos Brasileiros de Filosofia, 1).