CURADORIA DO CUIDADO: HISTÓRIAS QUE ABREM ESPAÇOS PARA CONVERSAS SOBRE A MORTE COM AS CRIANÇAS 1 INTRODUÇÃO De forma geral, falar sobre a morte na nossa sociedade é uma atividade desafiadora. Quando pensamos nesse diálogo com as crianças, no contexto da escola, os obstáculos encontrados são capazes de tornarem-se barreiras impeditivas para a realização de diversas ações e atividades que podem contribuir para a circulação de livros de literatura que trazem diversas abordagens sobre a morte. Apesar de ser um tema provocador de diversas reações evocadas pelas emoções, como o medo, a saudade, a angústia, entre outras, a linguagem literária que é subjetiva, conotativa, ficcional, plurissignificativa e metafórica, pode trazer em seu enredo um jogo de palavras e significados que atravessam as crianças e fazem emergir suas emoções de uma forma catártica. A linguagem literária nos possibilita uma experiência emocional a partir da nossa identificação com as trajetórias que as personagens, de cada história, estão vivenciando. Na jornada de cada personagem existem desafios a serem enfrentados, realidades a serem descobertas, chegadas e partidas realizadas e assim por diante. Essas narrativas vão dando a oportunidade para que as pessoas possam observar e perceber como estão suas próprias trajetórias, seus movimentos no mundo, e isso pode vir de uma forma que traga uma sensação de compreensão mais profunda de si, trazendo um alívio provocado pela catarse. Caldin (2001), sugere que “[...] a catarse pode ser entendida como pacificação, serenidade e alívio das emoções. É nessa perspectiva que se enfoca a leitura de textos literários como desempenhando uma função catártica” (p. 38). O termo catarse também faz alusão à função libertadora da arte. Nesse sentido, a autora atenta para a importância da leitura de textos literários, enquanto ação potencializadora de desenvolvimento subjetivo individual e de grupos, além da promoção de saúde mental, já que um texto literário “[...] produz um efeito terapêutico ao moderar as emoções, permitir livre curso à imaginação e proporcionar a reflexão [...]” (p. 149). Dito de outra forma, o texto literário é capaz de fomentar no indivíduo a extrapolação da realidade e o contato com o mundo simbólico, possibilitando a criação de sentidos para a vida prática. Raimon Panikkar (1918-2010), filósofo espanhol, para refletir sobre a morte, criou uma metáfora universal a partir da imagem de uma gota de água que se dissolve no mar, para pensar na morte humana. “O que acontece quando uma gota de água cai no mar? O que acontece quando uma pessoa morre? (p. 13-15). [...] da gota passamos à vida humana e algum dia haverá um final. A individualidade de cada um deixará de existir, será aniquilada ou transformada, será absolvida no oceano de deus, de brama, do cosmo, do nada… ou como se lhe queira chamar (Panikkar, 1995, apud Castel-Branco, 2018, p. 35). Talvez um dos maiores desconfortos das pessoas adultas ao falar sobre a morte seja ter de se deparar, encarar e admitir a realidade de sua própria finitude. Tudo que ela é, um dia deixará de ser. Na relação com as crianças, possivelmente avaliam, estarem no começo da vida e, por isso, ainda não tenham condições de entender o que acontece quando uma pessoa morre. Ao agir dessa maneira, estão abandonando as crianças em seus sofrimentos. Atualmente, felizmente, o mercado editorial tem publicado muitos livros ilustrados e em diversos formatos, que trazem múltiplas maneiras de abordar o ciclo da vida, incluindo a morte, que pode chegar em qualquer fase do nosso desenvolvimento. Nesse contexto, iremos analisar as obras “Quando as coisas desacontecem”, de Alessandra Roscoe e Odilon Moraes (2023); “O que eu faço com esse buraco?”, de Marilu Rodrigues e Cristina Sabaite (2020); “Roupa de brincar”, de Eliandro Rocha e Elma (2015) e “Além do grande rio”, de Armin Beuscher e Cornelia Haas (2018). Como objetivo geral iremos analisar quatro livros de literatura infantil que trazem diferentes abordagens sobre a morte. De forma mais específica caminharemos no sentido de identificar, a partir do texto, das ilustrações, da composição de cada livro, a visão sobre como a morte é apresentada para as crianças. Para tanto, como aporte teórico, nos apoiaremos nos estudos de Kovács (2020) e Caldin (2001). Este trabalho refere-se a um recorte de uma pesquisa em andamento, cujo objetivo é ouvir as narrativas que um grupo de crianças, na terceira infância, em contexto escolar, traz sobre a morte. 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 Só morre quem é esquecido Livro: “Quando as coisas desacontecem”, de Alessandra Roscoe e Odilon Moraes, da editora Gaivota (2023). Figuras 1 e 2 – Gabriela e o mar Fonte: livro “Quando as coisas desacontecem” (2023) O que acontece quando as coisas desacontecem? Essa foi a primeira pergunta que Gabriela fez enquanto olhava para a imensidão do mar. As reflexões filosóficas dela não acabaram por aí. Ao longo da narrativa, composta pelo texto e pelas ilustrações, a cada página virada, vemos como vai ficando descomplicado para Gabriela entender “[...] que a onda quando desacontece vira espuma. Quando o rio desacontece nasce o mar. Semente desacontece para ser planta, flor, frutos. Nuvem quando desacontece vira chuva” (p. 14-19), e a narrativa vai desvelando as tantas possibilidades de desacontecimentos até a personagem perceber que as pessoas que amamos e a gente também pode desacontecer. Livro: “O que eu faço com esse buraco?”, de Marilu Rodrigues e Kristina Sabaite, da editora Cortez (2020). Figuras 3 e 4 – Marilu e João Fonte: livro “O que eu faço com esse buraco?” (2020) Essa é a história de um casal de pinguins, Marilu e João. Marilu, depois de muito procurar um amor, encontra João e os dois se casam, em uma grande festa com a presença de todos as/os amigas/os. Logo adotam um gato e um cachorro e “Eles viveram felizes para sempre, até que numa noite em que tudo parecia normal, João morreu” (p. 16). Uma tragédia que aconteceu do nada. Uma história profunda que acontece todos os dias em algum lugar do mundo. Fala sobre um acontecimento triste, mas a narrativa que é composta pelo texto e pelas ilustrações, produz belezas nas dores e tristezas que a personagem carrega depois da morte repentina de seu grande amor. Livro: “Roupa de brincar”, de Eliardo França e Elma, da editora Gaudí (2020) Figuras 5 e 6 – Roupa de brincar Fonte: livro “Roupa de brincar” (2015) Tia Lúcia gosta de usar roupas coloridas e com um estilo próprio. Sua sobrinha ficava encantada com aquela forma peculiar de sua tia se vestir, e olhar o guarda-roupa dela, era uma festa. “O que gosto são das roupas da minha tia” (p. 6), ela diz diante das blusas, vestidos, saias, camisetas, etc., de sua tia. Um dia, a menina vai fazer uma visita aos seus tios e, quando chega, se depara com tia Lúcia muito diferente. Ela estava com roupas estranhamente sem as cores vibrantes de sempre, “[...] levei o maior susto.Tia Lúcia usava um vestido todo preto e sem graça, por isso ela parecia tão triste…[...]” (p. 18). O que teria acontecido com essa tia? A história é sutil, delicada, com movimentos, silêncios próprios e, em cada página, surge uma emoção que pulsa nas cores das roupas dessa tia. Livro: “Além do grande rio”, de Armin Beuscher e Cornelia Hass, Cornelia Hass, traduzido por Hedi Gnadinger, foi publicado no Brasil em 2018 pela editora Gaudí. Figura 7 e 8 – O coelho e o Guaxinim Fonte: livro “Além do grande rio” (2018) “Certo dia, o coelho disse ao guaxinim: Tenho que fazer uma longa viagem e não vou poder levar você comigo. Nem o pato, nem o elefante, nem o rato.” (p. 6). Assim começa a comovente jornada do coelho que precisará fazer uma viagem sem volta. Como ele sabia que essa viagem seria solitária, pois ele iria embora para sempre, tratou de se despedir de todos os seus amigos na beira do grande rio. Um silêncio envolvia os dois que se abraçavam forte naquele adeus da comovente história que vem de “Além do grande rio". 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho teve como objetivo apresentar o resultado de uma pesquisa documental que buscou analisar quatro livros de literatura infantil que trazem diferentes abordagens sobre como a morte é apresentada para as crianças. Além de identificar, a partir do texto, das ilustrações e da composição de cada livro, a visão que cada um traz sobre a morte, localizamos nas obras “Quando as coisas desacontecem, de Alessandra Roscoe e Odilon Moraes; “O que eu faço com esse buraco?” de Marilu Rodrigues e Cristina Sabaite (2020); “Roupa de brincar”, de Eliandro Rocha e Elma (2015) e “Além do grande rio”, de Armin Beuscher e Cornelia Haas (2018); a linguagem literária a partir de sua função terapêutica e potencializadora de subjetividades e emoções. Nessas histórias a morte ocupa um lugar de existência, de ressignificação, de renascimento, provocadoras de memórias afetivas que podem trazer coragem para quem sente falta de alguém que já não está mais aqui. Nesse sentido, as/os professoras/es podem se sentir convidadas/os a realizarem rodas de mediação de leitura para apresentar às crianças esses livros tão especiais. Assim, as e os alunas/os terão a oportunidade de mergulhar no universo dessas personagens, acolher os sentimentos que chegarem e falar de forma segura sobre as suas saudades, medos, angústias etc. REFERÊNCIAS BRANCO, Inês. A gota de água (Segundo Raimon Panikkar). São Paulo:Telos, 2018. BEUSCHER, Armin. Além do grande rio. São Paulo: Gaudí, 2018. CALDIN, Clarice Forkamp. A leitura como função terapêutica: biblioterapia. p.38. Portal de Periódicos UFSC, 2001. Disponível em:
https://www.passeidireto.com/arquivo/56350982/caldin-clarice-aleitura-c…. KOVÁCS, Maria Júlia. Educação para a morte: quebrando paradigmas. Novo Hamburgo, Sinopsys Editora, 2021. ROCHA, Eliandro. Roupa de brincar. São Paulo: Pulo do Gato, 2015. RODRIGUES, Marilu. O que faço com esse buraco? São Paulo: Cortez, 2020. ROSCOE, Alessandra. Quando as coisas desacontecem. São Paulo: Gaivota, 2023.