MULHERES DA E NA EJA: ITINERÁRIOS DE UMA PESQUISA SOBRE ESCOLARIZAÇÃO EM TEMPOS DE CRISES

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Resumo
MULHERES DA E NA EJA: ITINERÁRIOS DE UMA PESQUISA SOBRE ESCOLARIZAÇÃO EM TEMPOS DE CRISES Este trabalho apresenta itinerários da pesquisa realizada ao longo do curso de Doutorado em Educação, a qual se ocupa de analisar os processos de escolarização de mulheres na EJA em tempos de crises, na perspectiva da oferta, acesso e permanência na escola. Neste texto, nosso objetivo consiste em apresentar os resultados parciais do estudo, a partir de informações da pesquisa de estado do conhecimento e da imersão no campo empírico. Analisando os dados referentes à matrícula na modalidade nos últimos dez (10) anos, constatamos a diminuição gradativa do seu número total; por outro lado, quando observamos os índices de analfabetismo, percebemos que a possível demanda para turmas no país é imensa. Algumas/uns autoras/es, como Gilvan Souza, Jaciara Santos e Adenilson Cunha Júnior (2021), explanam que a queda de matrículas pode estar associada às situações de vulnerabilidade social vivenciada pelas/os estudantes, que precisam trabalhar para contribuir com a renda familiar, geralmente em rotinas exaustivas que tornam inviável a inserção e permanência na escola. A pandemia da COVID-19 acentuou tal realidade, tornando mais visíveis crises já existentes, as quais, no bojo do sistema capitalista de produção, não se caracterizam como passageiras, mas persistentes e recorrentes para sustentar o próprio sistema. Em pesquisas com mulheres da e na EJA, realizadas em diferentes localidades do Brasil, são apresentados motivos para a exclusão de mulheres da escola, bem como posterior retorno na juventude, adultez e velhice. Marcadores sociais da diferença são cruciais para compreender as condições da garantia do direito à educação, bem como os impasses e interrupções que atravessam os processos de escolarização de mulheres. Embora nem todos despontem com expressividade na pesquisa, destacamos alguns que consideramos essenciais para compreendê-las: gênero, raça/etnia, classe social, geração, território e condição física. Diante do exposto, este trabalho se justifica pela necessidade de estudar os processos de escolarização de mulheres na EJA sob a lente de diferentes dimensões que operam nas assimetrias atreladas à oferta, ao acesso e à permanência na escola, quais sejam: capitalismo, patriarcado, racismo e colonialismo. Compreendemos que sua relevância perpassa as esferas empírica, acadêmica, política e social. Em relação ao percurso metodológico, a pesquisa está ancorada no paradigma da Teoria Crítica e utiliza a interseccionalidade como ferramenta analítica, entendendo-a como teoria social crítica situada entre a análise crítica e a ação social, conforme defende Patricia Hill Collins (2022). Ela é caracterizada como do tipo empírica, de abordagem qualitativa, na modalidade inspirada na pesquisa participante, apresentando seus princípios e ancorando-se na definição de pesquisa solidária. No que diz respeito à pesquisa participante, sua principal característica reside no compromisso e nas repercussões da participação ativa das/os sujeitas/os vinculadas/os, segundo Carlos Rodrigues Brandão (2006). Em relação à pesquisa solidária, também a partir de ponderações de Carlos Rodrigues Brandão (2014), a adequação consiste em incorporar espaços de trocas entre um grupo de pesquisadoras/es, tanto na construção do projeto, no trabalho de campo, nas ocasiões de estudos teóricos, como em processos de decisão que o estudo enseja. Dito isto, ela também dialoga com a proposta libertadora de pesquisa, defendida por Paulo Freire (1986), de modo que se conecta com o ato de conhecer, não transformando grupos populares em objetos, mas considerando-os sujeitos do conhecimento da realidade que se investiga. As informações foram produzidas em uma escola pública estadual do município de Salvador, onde ocorreu a inserção durante três meses e o desenvolvimento da observação participante, com registros em diário de campo. Posteriormente, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com mulheres-estudantes de diferentes turmas da EJA na instituição e a aplicação de questionário socioeconômico para compor seus perfis no estudo. Concomitante a esta etapa, aconteceu a análise documental, acessando o Projeto Político-Pedagógico da escola e outras informações existentes nos murais e espaços da instituição. O material produzido foi analisado a partir da análise de conteúdo, proposta por Laurence Bardin (2016). Para assegurar os parâmetros éticos, a pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Na análise dos processos de escolarização das estudantes, constatamos que elas sofreram recorrentes interdições e exclusões durante suas vidas, vinculadas à tripla jornada de trabalho, à proibições de genitores e/ou companheiros e à responsabilidade pelo cuidado familiar, sobretudo com a chegada do casamento. Os resultados ressaltam a condição de ser mulher e negra no Brasil, com nítida demarcação da divisão racial e sexual de trabalho. Lélia Gonzalez (2018), atenta para essa situação, realça que tal lugar na força laborativa e a existência dessa divisão ecoam em trajetórias de muitas discriminações, de modo que se encontram no mais acentuado nível de opressão. As mulheres entrevistadas, majoritariamente negras, apresentam percursos marcados pelo trabalho doméstico, com ênfase no trabalho de cuidado exercido no bojo da própria família e fora dela. Expõem relacionamentos abusivos e violentos e vivem repetidas situações de exploração: no contexto familiar, desde a infância; no trabalho remunerado fora de casa, ao longo da vida. A condição de ser mulher, obviamente, emerge nas razões para o afastamento, mais especificamente a exclusão da escola em diferentes momentos. Com efeito, o patriarcado existente na sociedade e entranhado nas relações interpessoais, as manifestações do racismo em suas vidas e as consequências das desigualdades sociais precisam ser contempladas na análise e problematização das suas itinerâncias e processos de escolarização, por vezes truncados, como nomeia Miguel Arroyo (2017). Compreendemos que outras esferas operam na articulação da posição ocupada por mulheres negras na base da pirâmide societária, sofrendo múltiplas opressões, como é o caso de estudantes da EJA. Sendo assim, a localização geográfica e o território, que se refere aos lugares em que residiram (e residem atualmente) e aos espaços por onde transitam no cotidiano, trazem demarcações de acessos, exclusões e limites a elas impostos: onde podem pisar, onde conseguem habitar, até onde devem percorrer. Trata-se de delimitações visíveis e invisíveis; físicas e simbólicas, ditas e não ditas. Conforme alerta Lélia Gonzalez (2018, p. 65), “um dos legados concretos da escravidão diz respeito à distribuição geográfica da população negra, isto é, à sua localização periférica em relação às regiões e setores hegemônicos”. No que concerne aos tempos de crises, eles ganham destaque com a pandemia da COVID-19, que trouxe à tona o descaso e o boicote à EJA no âmbito municipal e estadual, especialmente na cidade de Salvador, onde ocorreu o fechamento expressivo de escolas com turmas de EJA, impactando na frequência e continuidade dos estudos de inúmeras/os estudantes. À revelia dessa situação, as mulheres-estudantes persistiram na inserção na escola, dando prosseguimento aos estudos durante esse período ou ingressando depois dele, todas elas incentivadas por outras mulheres, geralmente suas filhas e/ou colegas de trabalho. A partir dos resultados apresentados, ainda parciais e em processo de análise, ponderamos que políticas públicas de EJA precisam ser planejadas e executadas para contemplar as especificidades do público que frequenta a modalidade, sobretudo as mulheres. Além da diminuição na oferta de turmas nas suas diferentes etapas e nos âmbitos municipal e estadual, o acesso deve ser acompanhado de ações voltadas à permanência na escola, tanto materiais, como simbólicas. Compreendemos que esta pesquisa pode contribuir apontando caminhos, descortinados pelas próprias mulheres, que superam adversidades e prosseguem nos estudos, mesmo que em condições insalubres, precárias e inseguras. REFERÊNCIAS ARROYO, Miguel G. Passageiros da noite - do trabalho para a EJA: itinerários pelo direito a uma vida justa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016. BRANDÃO, Carlos R. A pesquisa participante e a participação da pesquisa: um olhar entre tempos e espaços a partir da América Latina. In: BRANDÃO, Carlos R.; STRECK, Danilo R. (orgs.). Pesquisa Participante: o saber da partilha. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2006. p. 21-54. BRANDÃO, Carlos R. Educação popular e pesquisa participante: um falar algumas lembranças, alguns silêncios e algumas sugestões. In: STRECK, Danilo R.; SOBOTTKA, Emil A.; EGGERT, Edla (Orgs.). Conhecer e transformar: pesquisa-ação e pesquisa participante em diálogo internacional. Curitiba-PR: Editora CRV, 2014. p. 39-74. COLLINS, Patricia H. Bem mais que ideias: a interseccionalidade como teoria social crítica. Tradução de Bruna Barros e Jess Oliveira. São Paulo: Boitempo, 2022. FREIRE, Paulo. Criando métodos de pesquisa alternativa: aprendendo a fazê-la melhor através da ação. In: BRANDÃO, Carlos R. (Org.). Pesquisa Participante. 6 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986. p. 34-41. GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. Coletânea organizada e editada pela UCPA – União dos Coletivos Pan-Africanistas. Diáspora Africana: Editora Filhos da África, 2018. SOUZA, Gilvan dos S.; SANTOS, Jaciara de O. S.; CUNHA JÚNIOR, Adenilson S. Narrativas de estudantes da EJA no contexto da pandemia da COVID-19: reflexões a partir do olhar freiriano. Revista Educação e Ciências Sociais, Salvador, v. 4, n. 7, 2021. p. 170–191.

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