RELAÇÃO FAMÍLIA-ESCOLA NO CONTEXTO INCLUSIVO DOS ALUNOS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO – NARRATIVAS FAMILIARES Alguns pesquisadores brasileiros têm evidenciado em seus estudos a relevância da relação entre família e escola no contexto inclusivo dos alunos com altas habilidades/superdotação (AH/SD) (Rech & Freitas, 2021, 2023; Nauroski & Sakaguti, 2018). Destaca-se essa relação, pois a família é um dos principais contextos de desenvolvimento dos filhos e, no caso especificamente estudado, filhos com AH/SD, esse contexto é muito significativo já que os familiares também podem enriquecer seu ambiente estimulando os potenciais presentes em seus filhos. Nesse sentido, ambas instituições: família e escola, precisam estabelecer uma relação de cooperação e apoio mútuo, de modo a possibilitar o desenvolvimento integral das crianças e jovens com AH/SD, cada uma colaborando com seus conhecimentos e compartilhando outros. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva define os alunos com altas habilidades/superdotação como aqueles com potenciais elevados em diferentes áreas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, tanto isoladas quanto combinadas. Além disso, demonstram habilidade acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa. (Brasil, 2008). Esses três últimos comportamentos, fundamentam-se na Concepção de Superdotação proposta por Renzulli (2014). Para este teórico, a superdotação é identificada a partir da interação desses comportamentos que podem apresentar picos de manifestação ao longo da vida, influenciados pelo meio ao qual estão inseridos, assim como fatores de personalidade. A família na contemporaneidade é reconhecida por suas múltiplas configurações que vão além da tradicional, nuclear, composta por homem, mulher e filho(s), abrangendo também famílias separadas, recasadas ou reconstituídas, monoparentais, homoparentais e famílias socioafetivas (Féres-Carneiro; Magalhães, 2011). Após elucidar a respeito dos conceitos de superdotação e família, justifica-se a relevância em debater sobre a relação entre família e escola, uma vez que a educação inclusiva ainda apresenta algumas fragilidades para garantir uma educação de qualidade para os alunos público da educação especial, sendo os alunos com AH/SD, parte desse público. Por vezes, eles não são reconhecidos nas escolas, pois ainda existe uma fragilidade na formação inicial de professores dificultando o reconhecimento dos indicadores de superdotação, processos de identificação e possibilidades de atendimento à esses alunos. Diante do contexto exposto este texto se propõe a compreender a articulação entre família e escola, verificando as barreiras que dificultam essa parceria, visualizando possíveis influências da família no processo de inclusão escolar do filho/aluno com altas habilidades/superdotação. Aspectos metodológicos Esta pesquisa caracterizou-se como qualitativa do tipo estudo de caso (Minayo, 2000). Participaram 12 famílias com filhos identificados com AH/SD, 11 mães e um pai, sendo que oito delas se autodeclararam famílias nucleares, três monoparentais e uma delas, recasada. Com o intuito de preservar as identidades das famílias elas foram identificadas como: F1, para se referir a Família 1, F2, Família 2 e assim, sucessivamente. O instrumento de coleta de dados selecionado foi o Checklist da Rotina Compartilhada e Envolvimento entre Família-escola, Versão Pais, validados por Dessen e Polonia (2011). Um membro familiar respondeu ao referido instrumento que foi aplicado de forma individual, em local e horário pré-agendados. O Checklist foi avaliado qualitativamente. Os resultados discutidos neste texto centraram-se na categoria “Participação”, área acadêmica, uma categoria já pré-estabelecidas pelas autoras. Ressalta-se que o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética sob o Número CAAE: 44654315.3.0000.5346. Narrativas familiares: fomentando novos debates Com o intuito de discutir a respeito da relação família-escola diante da inclusão do aluno com AH/SD, para este texto, foram selecionadas algumas questões retiradas do Checklist anteriormente descrito. A primeira investigou se os familiares discutiram com as professoras dos seus filhos aspectos referentes à formação acadêmica destes, sendo que para seis familiares, houve esse diálogo com as professoras e para os outros seis, não. “Não, porque eu tinha pouco contato com ela. Só em dia de parecer e era aquela fila enorme de mãe e ela sempre com reclamação do [nome do filho], que ele não copiava, até eu achava muito chato, porque ficava ela e eu aqui e aquele monte de mãe aqui em pé, sempre foi assim e eu acho isso tão ruim. Não porque era do meu filho, mas nem eu gostaria de ouvir de outro. Acho que se ela tivesse que falar do fulano que chamasse a mãe. E, sempre, foi assim, eu chegava ali ficava em pé e ela blá blá blá eu ouvia assinava e ia embora” (F5). “Não. Eu só tive contato com duas professoras na entrega de boletins e é a gente que vai até elas se tem alguma dúvida, mas elas nuca chamam" (F8). O relato da família F5 denota um pouco da rotina que a escola de seu filho adota na entrega dos pareceres, o que não difere muito de outras realidades. No entanto, chama atenção o desabafo da mãe, quando comenta que não considera adequada a forma como a escola dinamiza a entrega dos pareceres, pois acaba expondo seu filho e os demais. Além disso, ela permanece com uma postura apenas passiva, ouve, assina e vai embora. Logo, não há uma oportunidade para que a família e a escola dialoguem, simplesmente há a queixa do professor e a família apenas é informada. Para Caetano e Yaegashi (2014, p. 33): "[...] quando a escola reproduz nas suas relações as estratégias familiares de coação, inclusive aplicando-as contra a família, as dificuldades para formar a autonomia são ampliadas e obviamente a relação com os alunos é de autoritarismo e, com a família, de cobranças". Sendo assim, na realidade ora constatada, escola e família não têm tido oportunidades para (re)pensarem questões referentes à formação acadêmica do filho/aluno, nem mesmo aproveitado a entrega de pareceres como uma oportunidade para construir ações colaborativas em prol da inclusão do filho/aluno com AH/SD. A família F12 relatou que também não teve oportunidades para dialogar com a professora do seu filho: “[...] ele terminava as atividades muito rapidamente e ficava caminhando pela sala. Mas nunca deram uma atenção para isso, nunca se dispuseram a dar um trabalho extra para ele, tentar contornar a situação. Falavam para a gente dizer para ele ficar quieto em sala de aula” (F12). Desse modo, a respectiva família trouxe para o centro do debate, a inexistência de um atendimento educacional especializado que pudesse vir ao encontro das necessidades que seu filho estava apresentando. Segundo o pai, mesmo a família tendo informado à escola que o filho participava de um programa de enriquecimento extraescolar, a escola não soube administrar as demandas educacionais do aluno com AH/SD, delegando apenas à família essa responsabilidade. Germani e Stobäus (2006) reforçam a necessidade de manter um diálogo permanente entre escola e família com vistas ao desenvolvimento pleno da criança, visando o processo inclusivo. No caso relatado, encontrou-se uma barreira/entrave na relação entre família e escola, resultante das dificuldades em trocas de experiências e informações, bem como da falta de tomada de decisões conjuntas a respeito do filho/aluno com AH/SD. O último relato, da família F10, destaca outro aspecto: a mãe comenta não haver trocas de informações com os professores de sua filha: “Não, não porque ela é muito boa [sua filha]. Então, quando eu chego, só tem elogio para ela, aí eles vão me dar o boletim e dizem a [nome da filha] é uma ótima aluna, excelente, ótima, maravilhosa” (F10). O relato dessa família vai ao encontro do que alguns autores destacam, de que a família e a escola tendem a ter contato quando há problemas durante a trajetória acadêmica dos alunos, independentemente de eles terem ou não AH/SD. Como, no caso apresentado, a aluna com AH/SD não apresentava problemas na sua aprendizagem nem na parte comportamental, não era necessário, na opinião da mãe, estabelecer um diálogo com as professoras sobre as questões acadêmicas. Contudo, é fundamental que se crie uma nova cultura entre família e escola para que ambas construam um diálogo permanente e não apenas quando a situação-problema já está instaurada. Outra questão discutiu acerca da participação dos pais no conselho de classe e na entrega de boletins. Nesse item, a grande maioria das famílias, 11 afirmou participar da entrega de boletins. A única família que disse não poder participar explicou-se: “Geralmente os horários de reunião eu não estou disponível, de manhã não tenho livre. Eu não frequento as reuniões por causa dos horários. Se eu ficasse sabendo com antecedência eu conseguiria me organizar” (F11). A próxima questão debatida inquiriu aos familiares se eles procuravam a equipe da direção para falar de assuntos pedagógicos. Das 12 famílias participantes, apenas duas F4 e F12, assinalaram que a procuravam e a maioria disse que não. A família F12 informou que, em anos anteriores, havia procurado a equipe da direção para falar que seu filho participava de um projeto de extensão mas, como não havia tido nenhum retorno, optou por não buscar novamente. Por outro lado, a família F1, embora tenha marcado no Checklist que não havia procurado a direção no último ano, já a havia procurado em anos anteriores para fazer o mesmo comunicado, sobre a participação do filho no mesmo projeto de extensão. “Não, esse ano, mas no primeiro ano. Porque o [nome do coordenador pedagógico] já conhecia o nosso caso, já foram passando o papel, o xerox com o parecer do meu filho” (F1). Entretanto, os demais familiares enfatizaram que não haviam procurado a direção porque os filhos não estavam apresentando nenhum problema/dificuldades. Novamente, é recorrente o discurso de que o contato entre ambos, família e escola, acontece quando surge um problema envolvendo o filho, seja de aprendizagem, seja comportamental. Construindo algumas reflexões O presente texto objetivou compreender a articulação entre família e escola, verificando as barreiras que dificultam essa parceria, visualizando possíveis influências da família no processo de inclusão escolar do filho/aluno com AH/SD. Após analisar algumas questões respondidas por 12 familiares que têm filhos com AH/SD, verificou-se que a escola restringe sua participação, impondo-lhes limites e fronteiras, reduzindo os espaços em que essa participação é possível, geralmente na arrecadação de brindes para festas e na ornamentação destas. Constatou-se que foram poucas as ações de parceria colaborativa entre família e escola. É possível afirmar, que das 12 famílias participantes, apenas três delas, F1, F2 e F3 relataram ações como, por exemplo: atuar voluntariamente na escola do filho, participar assiduamente do conselho de pais e mestres, informar a escola sobre o parecer de identificação das AH/SD do filho, a fim de o encaminhar para participar do AEE. Algumas famílias justificaram não ter competência para influenciar na inclusão escolar do filho com AH/SD, algumas, inclusive não tinham sequer conhecimento do direto dos filhos de frequentarem um atendimento especializado, por exemplo. Outro caso foi o relatado pela F12, que não obteve êxito ao solicitar à escola que esta prestasse um atendimento adequado, que estimulasse as habilidades identificadas no filho com AH/SD. Esta pesquisa evidenciou que a relação frágil entre as duas instituições: família e escola representa uma barreira limitadora para que o aluno/filho com AH/SD tenha seus potenciais estimulados e enriquecidos, tanto na escola quanto no ambiente familiar. Desse modo, reitera-se que é preciso estabelecer uma nova rotina entre as duas instituições envolvidas na educação do filho/aluno com AH/SD, de modo que ambas construam ações coletivas visando o processo inclusivo do aluno com AH/SD, garantindo-lhes o acesso aos direitos educacionais previstos nas políticas públicas brasileiras. Referências Brasil. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. Caetano, L. M.; Yaegashi, S. F. R. A relação escola e família: reflexões teóricas. In: Caetano, L. M.; Yaegashi, S. F. R (Orgs.) Relação escola e família: diálogos interdisciplinares para a formação da criança. São Paulo: Paulinas, 2014. Dessen, Maria A. 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