ENSAIAR A CIÊNCIA COMO QUEM ESCREVE MUNDOS: CARTOGRAFIAS FABULATIVAS DE UM COLETIVO EM MOVIMENTO

- 216012
Resumo Expandido - Trabalho
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo
ENSAIAR A CIÊNCIA COMO QUEM ESCREVE MUNDOS: CARTOGRAFIAS FABULATIVAS DE UM COLETIVO EM MOVIMENTO Possíveis de escrita para alguém que escreve... Imagine um quarto claro, com lâmpadas muito luminosas e brancas. Com dois leitos, mas o que se encontra à minha esquerda já não está mais ocupado. Caetana já veio ao seu encontro (é assim que falamos no Nordeste, quando a morte vem buscar um de nós). Encontro-me só, não na perspectiva física. Vislumbre comigo fora do quarto: estamos saindo pela porta branca e chegando ao corredor de paredes verdes, teto branco e piso de concreto polido. Aqui temos algumas enfermeiras andando entre os quartos e conversando (você viu aquele médico novo? Oh, se vi...). A vida segue o seu fluxo normal. Mas não vamos nos atentar às conversas, devemos seguir para mais distante, olhando agora o pavilhão em que me encontro. Temos centenas de pessoas, todas com diversos pensamentos, problemas, sonhos e realidades distinta. Olhe aquela jovem, de aparentemente 30 anos, que está a chegar na recepção, cabelos loiros, tingidos e mal penteados, roupa florida e amassada, muito, muito magra, com uma calça jeans que parece já fazer parte do seu corpo... Essa é a minha irmã! Agora é que me dei conta: como estamos vendo-a aqui, se eu deveria estar no meu quarto? (Nossa... Olha aquele casal, que parece se conhecer agora... Uns finalizando e outros iniciando). Parece triste, mas, a vida sempre esteve em uma constante suspensão (entre morte e vida), eu é que não tinha a capacidade de observar. Antes de percebemos caetana ao nosso lado, não pensamos que a vida é formada por doenças, cativeiros, ruínas, fogo... Acabamos fazendo dessas verdades uma surpresa. Eita, desculpem! Viajei, como sempre, nos pensamentos que agora estão tão atônitos e presentes. Acabei me distraindo com aquele casal, que estava no banco se beijando, e esqueci que eu não deveria estar aqui; a minha irmã já deve estar chegando ao meu leito 37 (ironicamente tenho 37 anos também). Agora me peguei a pensar que não deveria ter trabalhado para construir coisas inúteis ou mesmo por motivos inúteis... Um pedido que deixo para os que estão com saúde e vivos (esqueci de dizer, mas, graças a uma úlcera, estou morrendo de um câncer generalizado). Não devemos desejar o que não podemos conseguir, ou, se o conseguirmos, que não compreendamos muito tarde e com vergonha a inutilidade dos nossos desejos. Agora, vamos voltar para aquele quarto pequeno, claro e frio... Aqui estou praticamente mumificado; apenas os ossos, com um grande corte no abdômen e a vida se esvaindo. caetana está me buscando. Não percebi que, quando estava a planejar, o único fato que não me é dado é o tempo... A irmã fica a chorar, mas, a sua vida vai contínua. É uma pena não ter tido tempo de lhe informar que o tempo, infelizmente, ela nunca vai controlar. Agora o que está feito, já foi consumado... Nem esse que fala contigo é plenamente real, eu já morri a 10 minutos atrás. A morte realmente é uma potência criativa... (Minha morte – Dyego Mota, 2024). Possíveis de escrita para uma ciência que escreve... Que outras formas de narrar a ciência ainda não inventamos? Em quais gestos podem se desdobrar a experiência científica como escrita de si e de outras pessoas, numa tessitura com os cotidianos que habitamos, pesquisamos e com os quais nos deixamos afetar? Que devires e fabulações são possíveis quando nos propomos a literaturizar a ciência, fazendo-a vibrar em agenciamentos com a vida, a linguagem e as potências do sensível? Essas são algumas das perguntas que dispararam a pesquisa que aqui se apresenta; e que se constrói cartograficamente no COM-FABULAÇÕES: ateliê de pesquisas inventivas em educação, em diálogo com os estudos dos/nos/com os cotidianos, as filosofias da diferença e com os fios de escritas que se desdobram nas margens (e porque não dizer, à margem) do texto acadêmico. Ao propormos a literaturização da ciência, não buscamos enfeitar ou ilustrar a razão científica com metáforas ou figuras de estilo, mas instaurar ética e estética outras da escrita, na qual ciência e literatura (se) atravessam, (se) confundem, (se) tensionam, sem que uma pretenda se submeter à outra. É a própria ideia de ciência que é colocada em movimento, não como sistema fechado de enunciados válidos, mas como prática situada, textual, afetiva... ciência que se permite ser escrita por corpos dissidentes, experimentais, poéticos, marginais (Dutra-Pereira; Tinôco, 2025). Que ciência pode emergir, então, quando deixamos de tratá-la como doutrina e passamos a praticá-la como invenção? Assim, objetivamos tensionar os modos hegemônicos de produção e circulação do conhecimento científico, por meio da experimentação com escritas literárias, ensaísticas e auto formativas, no campo da educação em ciências. Mais especificamente, buscamos: (1) compreender como a literaturização da ciência pode se tornar uma estratégia éticoestéticopolítica de descolonização epistêmica; (2) cartografar experiências de escrita nas universidadesescolas que fabulem modos outros de dizer o mundo; (3) produzir textos que operem deslocamentos nos modos de ensinar, aprender e pesquisar ciência, em uma aposta na ciência como criação cotidiana (Oliveira, 2016) e não como verdade universal. Nessa investigação um desejo epistêmico nos atravessa: desfazer o silenciamento de certas vozes e modos de existência que não cabem na racionalidade normativa da ciência moderna. Inspirados por Nilda Alves (2008), entendemos o cotidiano como território fértil de criação e resistência, onde o conhecimento não é simplesmente transmitido, mas tecido em redes complexas de afeto, memória, desejo e poder. A ciência, quando devolvida ao cotidiano que a produz e a transforma, pode ser narrada de outros modos, atravessada por cheiros, sons, silêncios e palavras que não pedem autorização para existir. E é nesses atravessamentos que apostamos. Também nos inspiramos no que Marcio Caetano e Treyce Goulart (2021) chamam de “produção da inexistência” – uma crítica contundente aos modos acadêmicos de nomear, classificar e excluir saberes, corpos e escritas que escapam à gramática dominante da objetividade. Ao nos aliarmos à escrita como exercício de autoria da vida, ensaiamos formas de existir no texto que não se reduzem ao dado, ao fato, à conclusão. Escrevemos como quem compõe uma paisagem em movimento, onde o real se dobra, se perfura, se desfaz; e é nesse desdobramento que a ciência pode renascer: múltipla, híbrida, ficcional, situada... A escrita torna-se, assim, o próprio campo de experimentação e invenção de mundos, não mais como representação do real, mas como campo de forças. O que fazemos não é uma defesa da “beleza literária” ou da “criatividade” como ornamento, mas uma reivindicação ética por epistemes que não se fundam na exclusão, no silenciamento e na neutralização da experiência. Escrevemos para dar corpo a outras formas de existência na ciência – formas que ainda não têm lugar assegurado, mas que insistem em se dizer: como quem fura o papel... como quem respira por entre as frestas do que foi dito e do que ainda pode ser. Nesse cenário de disputas curriculares e epistemológicas, nosso gesto é de criação. Em vez de disputar espaço nos corredores estreitos da academia, preferimos inventar outras salas, outras janelas, outros modos de circular. A ciência, aqui, não se pretende neutra nem absoluta. Ela se aproxima da literatura para aprender a gaguejar, a errar, a abrir espaço para o que ainda não tem nome. É preciso permitir que a ciência fabule, que ela se contamine de devires, que ela se suje ao risco de não ser compreendida de imediato; e que, nesse intervalo, possa respirar. Possíveis de escrita para alguém que principia... Talvez quando vamos escrever pensamos no início, mas qual início? Como escrever? Será que há uma maneira correta de escrever? Nessa mesma reflexão penso que escrever é coletividade, é recomeço. Mas será que tem início, meio e fim? Logo vem em nossa cabeça: qual o início? Qual o meio? E qual o fim? Escrever é movimento, é pensar numa problematização e no que a minha escrita me principia. Escrever é ter pistas daquilo que quero descobrir, é reinventar... Reinventar. Mas o que vou reinventar? A escrita tem algum modelo? Mas que modelo? Ao pensar na escrita e na leitura dos textos percebo que a escrita nos motiva e nos inspira, porque escrever é correlacionar o nosso cotidiano. Pensando na escrita acadêmica, para quem eu tô escrevendo? Talvez escrever seja mesmo até no silêncio, porque escrever é o que vai nos ajudar a pensar não só nas respostas, mas nos nossos próprios questionamentos… Escrever é isso, é aprimorar o que tá escrito, mas é pensar na transformação, no amadurecimento que ela vai nos permitir... (O que a escrita principia, o que principia a escrita – Karine Santos, 2024). Possíveis de escrita para um coletivo que escreve... Esta pesquisa é performada a partir de uma metodologia cartográfica que se desenha no percurso, nos encontros e nas tessituras inventadas no e com o coletivo. Criado em 2018, o COM-FABULAÇÕES: ateliê de pesquisas inventivas em educação nasceu do desejo de tensionar os modos instituídos de produção de conhecimento na formação inicial em Química, especialmente diante das formas rígidas e padronizadas de construção dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) nas licenciaturas. Desde então, o grupo tem se expandido rizomaticamente, acolhendo em sua trama estudantes de graduação, mestrado e doutorado, assim como docentes-pesquisadores/as vinculados/as ou não a programas de pós-graduação. A cartografia, aqui, não é apenas um método, mas uma ética de atenção ao que pulsa, um modo de pesquisar que não parte de um objeto fixado previamente, mas que acompanha os movimentos, as forças, os afetos e os desejos que atravessam os cotidianos escolares e acadêmicos. Inspirados na proposição de Deleuze e Guattari (1995) sobre os mapas que se fazem com o corpo todo, assim como nas pistas metodológicas oferecidas por Passos, Kastrup e Escóssia (2009), operamos uma pesquisa que se dá como dobra da vida e da escrita – ou, como diria Nilda Alves (2008), uma forma de narrar a vida e literaturizar a ciência. Os encontros do COM-FABULAÇÕES acontecem quinzenalmente e se constituem como espaços-tempo de partilha e invenção, quando as escritas são entendidas como práticas de co-afetação e não como meros registros de dados. Em lugar de entrevistas, questionários ou análises de conteúdo cultivamos práticas de escrita fabulatórias, nas quais se confundem quem escreve, quem lê e quem vive o que é narrado. Como nos provocam Márcio Caetano e Treyce Goulart (2021), tratamos a escrita como autoria da vida – e, por isso mesmo, como potência de insurreição frente à invisibilidade e à imposição dos modos hegemônicos de dizer o mundo. Os textos produzidos durante o percurso da pesquisa – em encontros, oficinas, cartas, diários, textos-fragmentos – são compreendidos como fontes vivas, fragmentárias, polissêmicas. Não os lemos para classificá-los ou interpretá-los de fora, mas para deixar que eles nos leiam, nos atravessem e nos reescrevam. São co-afetações: produções que nascem da relação entre os corpos, os contextos, os saberes e os não-saberes que se cruzam. Como afirmam Dutra-Pereira e Tinôco (2025), trata-se de uma pesquisa com e não sobre, em que a escrita não vem ao fim, mas é processo, criação, mundo. Por se tratar de uma abordagem cartográfica, nossos encontros se compõem com os rastros que os cotidianos escolares deixam em nossos corpos, cadernos-vida. A pesquisa-formação se dá em rede, nos espaçostempos da virtualidade da vida, onde escrevemos com o corpo todo, de corpo inteiro, experimentando gêneros instáveis, nos deixamos afetar por cartas, diários, fragmentos, imagens e gestos... e o que mais nos ocorrer. A literaturização da ciência é, nesse contexto, não apenas uma estratégia de linguagem, mas uma escolha epistemológica e política. Em vez de produzirmos textos que apenas comunicam resultados, buscamos escrever para ensaiar mundos possíveis, universo onde ciência e literatura se confundem; onde o dado é atravessado pela experiência, no qual a análise se permite gaguejar, quando o rigor coexiste com o risco. A escrita é performática e ensaística, tal como nos propõe o livro “Ensaiar a escrita” (Callai, 2021), no qual a linguagem é mobilizada como gesto de reinvenção, de composição e de resistência ao apagamento. Ao acompanhar os rastros deixados nos encontros, nas conversas, nas escritas, afirmamos que a pesquisa se faz no entre – entre sujeitos, tempos, saberes e sensibilidades. Por isso, o material de pesquisa vai se compondo com esses múltiplos textos produzidos pelo/no coletivo, tomados como parte constitutiva de um modo outro de fazer ciência: uma ciência com vida, com literatura, com corpo, com diferença. Não buscamos provar nada a ninguém, mas compor atmosferas, deslocar sentidos, abrir fendas... Desses modos, a metodologia cartográfica adotada nesta pesquisa assume o desafio de ensaiar a escrita como forma de habitar e transformar o mundo – uma escrita que fabula, que recusa as molduras, que reivindica o direito de existir entre margens borradas. Ao invés de se encerrar em um método, a cartografia aqui se expande como modo de vida-pesquisa, na qual as palavras não vêm para representar, mas para com-fabular mundos nos quais possamos viver. Possíveis de escrita para continuar vivendo... Tentaram me normalizar antes que eu sequer soubesse o que é normalidade Me fizeram acreditar que ser normal é seguir padrões Me disseram que tenho que ser normal para dar orgulho Tentei me normalizar pelos outros e descobri o que é a morte da alma. Me vejo livre na anormalidade Me descubro normal em ser diferente Me vejo diferente por não ser igual Mas quem é igual? Tenho orgulho de ser anormal. (Catarina Marques, 2024). Referências ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho: o cotidiano das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de; ALVES, Nilda (org.). Pesquisa nos/dos/com os cotidianos das escolas. 3. ed., Petrópolis: DP et alii, 2008. CAETANO, Márcio; GOULART, Treyce Ellen. Ensaio sobre a produção da inexistência e a potência da escrita como autoria da vida. In: CALLAI, Cristiana (org.). Ensaiar a escrita. Niterói: Eduff, 2021. p. 116-133. CALLAI, Cristiana (org.). Ensaiar a escrita. Niterói: Eduff, 2021. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. 2. ed., Rio de Janeiro: Editora 34, 2011. (vol. 1). DUTRA-PEREIRA, Franklin Kaic; TINÔCO, Saimonton. “Eu vou falar de nós ganhando...”: confabulando outros currículosvidas para juventudes LGBTTQIAPNb+ nômadesdissidentes em gênerosexualidades à flor da pele. Educação e Emancipação, v. 18, p. e–23892, 31 jan. 2025. Disponível em: https://cajapio.ufma.br/index.php/reducacaoemancipacao/article/view/238…. Acesso em: 7 abr. 2025. PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana da. Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2020.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 UFPB - Universidade Federal da Paraíba
Eixo Temático
  • GE Cotidianos - éticas, estéticas e políticas