AS PESQUISAS REFERENTES AO MOVIMENTO NEGRO E O DEBATE METODOLÓGICO SOBRE RAÇA E CLASSE NO CONGRESSO DE PESQUISADORES NEGROS/AS - COPENE.

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Resumo
AS PESQUISAS REFERENTES AO MOVIMENTO NEGRO E O DEBATE METODOLÓGICO SOBRE RAÇA E CLASSE NO CONGRESSO DE PESQUISADORES NEGROS/AS - COPENE. Resumo: Esta pesquisa foi realizada como parte do desenvolvimento da tese de doutoramento, concluída, sobre o Movimento Negro e sua relação com a estrutura social capitalista. O objetivo é construir o estado do conhecimento sobre as produções científicas apresentadas no Copene, entre os períodos de 2000 a 2018 que se aproximaram ou não da análise das questões de raça e classe no âmbito da articulação do Movimento Negro. Para tanto, nossa metodologia decorreu da investigação a partir das palavras-chaves Movimento Negro, raça e classe, em primeira ordem. A investigação utiliza o método do materialismo histórico dialético para as reflexões críticas do tema, uma vez que desvela o fenômeno em sua estrutura e dinâmica para se chegar ao ideal do concreto, que é a aproximação mais fiel do objeto. Este trabalho se configura, portanto, de grande relevância para o cenário político, econômico, educacional e social no fazer da luta e resistência negra, com o qual identificamos a pouca incidência entre o debate raça e classe e Movimento Negro. Palavras-chaves: Movimento Negro; raça; classe. Introdução Este trabalho apresenta a investigação realizada sobre a produção científica em relação à temática que abrange as pautas e lutas referentes ao Movimento Negro Brasileiro no campo político, cultural, histórico e econômico, aliado ao debate sobre a relação raça e classe. Configura-se, pois, na construção do estado do conhecimento que ensejou a elaboração das reflexões em torno da relação raça e classe e sua apropriação dentro do Movimento Social Negro, com o objetivo de compreender sob quais focos as produções científicas estão debatendo as questões do Movimento Negro, bem como situar onde se encontra a discussão sobre raça e classe dentro desse nos últimos 20 (vinte) anos do século XXI. Com base no materialismo histórico dialético, a investigação ocorreu nos arquivos dos anais publicados pelo Congresso de Pesquisadores negros/as - Copene, entre os períodos de 2000 a 2018. As análises estão resumidas nos quadros que sintetizam os anos supracitados e a conclusão da investigação. Considerando ser o Congresso de Pesquisadores negros/as - Copene[1], o espaço de apresentação e produção acadêmica focado nas questões raciais no Brasil, com a possibilidade de acadêmicos, pesquisadores, estudiosos pensarem, a partir do campo científico, a população negra, sendo parte integrante dessa população, a investigação se deu no banco de anais nas seções de apresentação de trabalhos, grupos de trabalho (GTs), simpósios coordenados, minicursos, oficinas, sessões e eixos temáticos dos Congressos realizados. Utilizamos como recorte as categorias de raça e classe, movimento negro, configurando assim o estado da arte desta pesquisa. Netto, esclarece que para Marx, A teoria é o movimento do real do objeto transposto para o cérebro do pesquisador – é o real reproduzido e interpretado no plano ideal (do pensamento). Prossigamos: para Marx, o objeto da pesquisa (no caso, a sociedade burguesa) tem existência objetiva; não depende do sujeito, do pesquisador, para existir. O objetivo do pesquisador, indo além da aparência fenomênica, imediata e empírica – por onde necessariamente se inicia o conhecimento, sendo essa aparência um nível da realidade e, portanto, algo importante e não descartável –, é apreender a essência (ou seja: a estrutura e a dinâmica) do objeto. (NETTO, 2011, p. 21-22). Levantamento das Produções no Copene. Ao apurarmos os dados, entendemos um panorama de avanço das produções que se inserem no campo dos estudos em torno do Movimento Negro e a luta política dentro do debate raça e classe, onde, a cada ano ou período, observamos maior ênfase de um ou outro tema, considerando os contextos sociais. Assim, agrupamos os trabalhos em temas aproximados que mais encontramos, a saber: Quadro 1. Categoria Movimento Negro – Copene (2000 a 2018) COPENEs – MOVIMENTO NEGROS TOTAL DE PUBLICAÇÕES ENCONTRADAS História, memória, organização, militância (Quilombos, Palmares, MNU, organizações negras) nos países, estados e cidades 22 Educação (política educacional, currículo, livro didático, pedagogia, prática pedagógica, projeto de educação, infância, literatura, gestão escolar, formação docente, Lei 10.639/03) 13 Ativismo, luta, reconhecimento, resistência, socioativismo, antirracismo, ação política, consciência negra, visibilidade, pensamento social negro 11 Estado, política, ideologia, Partido, movimento social, ações afirmativas, direitos sociais, sindicalismo, economia, cidadania, Direito 16 Identidade negra e cultura (música, dança, religião, arte), juventude 4 Feminismo negro, saúde, gênero 5 Institucionalização 1 Governo da Ditatura, Governo Petista, PT 2 Trajetórias (lideranças, militantes, estudantes) 6 Clóvis Moura, Florestan Fernandes, Lélia Gonzalez, Solano Trindade 2 Linguagem, discurso - Racismo, democracia racial - Tecnologia, informação, mídias 6 Trabalho, trabalho coletivo, trabalho doméstico 2 TOTAL 90 Quadro 2. Categorias Raça e Classe – Copene (2000 a 2018). COPENEs – RAÇA E CLASSE TOTAL DE PUBLICAÇÕES ENCONTRADAS Ensino superior, cotas, desigualdades 2 História, memória, organização, militância (Quilombos, Palmares, MNU, organizações negras) nos países, estados e cidades 2 Ações afirmativas - Gênero 4 Violência (feminicídio, violência doméstica, sofrimento, encarceramento) - Subjetivações - Educação (política educacional, currículo, livro didático, pedagogia, prática pedagógica, projeto de educação, infância, literatura, gestão escolar, formação docente, Lei 10.639/03) 1 Identidade e cultura (música, dança, religião, arte), juventude 3 Trabalho, trabalho coletivo, trabalho doméstico 1 Clóvis Moura, Florestan Fernandes, Lélia Gonzalez, Solano Trindade 1 Movimento social - Trajetórias (lideranças, militantes, estudantes) - Linguagem, discurso - Estado, política, ideologia, Partido, movimento social, ações afirmativas, direitos sociais, sindicalismo, economia, cidadania, Direito 3 Governo da Ditatura e Governo Petista, PT 1 Feminismo negro, saúde, gênero, geração 2 Ativismo, luta, reconhecimento, resistência, socioativismo, antirracismo, ação política, consciência negra, visibilidade, pensamento social negro 3 Tecnologia, informação, mídias 1 TOTAL 24 Podemos notar que o levantamento das produções contidas nos anais dos Copenes desde o início do congresso é relevante devido a demanda sobre as condições e necessidades da população negra. Cabe dizer, a importância de ter um evento especialmente voltado paras as questões raciais, pensando a sociedade, o sujeito social, o meio ambiente, a saúde, a tecnologia, a formação e o saber ancestralizado que emerge desse grupo. Totalizando 10 Copenes, observamos que em cada ano, dava-se ênfase a uma ou outra temática, a considerar o cenário político e cultural do período. Assim, depreendemos que as produções sobre a temática do Movimento Negro se concentraram em maior parte quanto a história, memória e organicidade sobre os coletivos, os grupos e líderes dos Movimentos negros em várias partes do país e do mundo. Em seguida, encontramos considerável produção relacionando as questões acerca do Estado e da política, referentes ao ativismo, resistência, militância e, a grande área da educação. No campo das discussões sobre raça e classe, os temas abordados eram transversalizados por assuntos sobre ativismos, reconhecimento e resistência e gênero. Demonstrou-se no Copene a menor incidência de temas que envolvem as categorias raça e classe. No Copene de 2002, 2006 e 2012, essa temática não aparece nos registros dos anais. Contudo, a temática raça e classe ganhou sentido polissêmico, voltados exatamente para a estratificação social, desigualdade, sem correlacionar aos movimentos sociais negros. De forma sintética, ainda observamos os seguintes comparativos: Quadro 3. Síntese do total de trabalhos encontrados com as categorias pesquisadas. BANCO MOVIMENTO NEGRO RAÇA E CLASSE TOTAL COPENE (2000 A 2018) 90 24 114 Foram 114 publicações sinalizadas a partir de seu título e resumo, cuja temática abordava as questões sobre o movimento Negro e a relação raça e classe. Destes, apenas os trabalhos agrupados no quadro 2 “Ativismo, luta, reconhecimento, resistência, socioativismo, antirracismo, ação política, consciência negra, visibilidade, pensamento social negro”, são os que mais se aproximaram dessa relação. Temos clareza aqui que estudar as questões raciais a partir do campo teórico-metodológico marxista (método materialismo histórico dialético), não constitui consenso enquanto método e teoria para a produção científica de parte dos pesquisadores, integrantes de organizações e militantes da causa negra. Nos parece que o afastamento é devido ao entendimento histórico de que a esquerda (universalizando-se o termo como única e uniforme) não contempla como centralidade em suas pautas as questões raciais quando definem o trabalhador, sem suas especificidades e, hierarquiza as questões inerentes as demandas econômicas da classe trabalhadora como prioritária em relação ao racismo, a discriminação, a desigualdade racial, as subjetivações raciais, entre outros. As chamadas opressões estão no foco de uma sociedade de capitalismo dependente, por onde ele se espraia ideológica e materialmente para se manter e reproduzir e, ainda, encontramos pesquisas que tentam entender e solucionar os problemas onde a população negra se encontra, sem entender a origem material desses problemas. Segundo Kosik (2002), é preciso ir além do fenômeno que é apresentado superficialmente, pois é possível perceber nele a indicação de sua essência, a qual é escamoteada pelo seu próprio movimento, não se evidenciando imediatamente. Não podemos, portanto, tratar das questões que oprimem a população negra, o racismo estrutural que é parcela fundante da desigualdade em todas as áreas: econômica, política, cultural, acadêmica, educacional, social sem compreender o movimento pelo qual o capitalismo de caráter dependente se organiza para garantir seu triunfo mediado pela ideologia racial e pelas instituições racistas. De outro lado, no andamento da investigação, identificamos que os anos de realização do Copene fora do escopo temporal da pesquisa, especialmente, os eventos nos anos de 2020, 2022 e 2024 do Copene-Nacional, onde, pela primeira vez ficou explicitado em eixos ou sessões temáticas as abordagens da relação raça e classe, com o viés marxista sobre a questão racial. Em breves linhas, podemos citar a realização do Copene (2020) que teve como uma das Sessões Temáticas: Movimento Social Negro, Representações Políticas e a Luta Contra Hegemônica do Poder Racista do Estado Brasileiro; e Negritudes E(M) Ação: Tentativas de Ações e Movimentos Sociais Transformadores, e de Pesquisas Transformadoras em Tempos de Precarização da Vida Negra [grifos nossos]. No ano de 2022, o Copene contou com 50 (cinquenta) sessões temáticas, das quais nos chama a atenção a ST31. Marxismo, Raça e Negritude e a ST48. Trabalho, direitos e políticas sociais em perspectiva de raça, classe, gênero e sexualidades [grifos nossos]. Já no Copene de 2024, ressaltamos as sessões temáticas: ST082 – Marxismo e a Questão Racial e ST 068: Identidade de Gênero, Sexualidades, Classe e Raça na América Latina: Análises Interseccionais 2024 [grifos nossos]. Diante do exposto, esses últimos anos do congresso sinaliza uma possibilidade de abertura de conteúdo para as relações de produção no modo de produção capitalista na dimensão da raça e do racismo, bem como aos estudos entre a questão racial e as categorias que envolvem as análises a partir do marxismo. Conclusão Pode-se inferir que esta abertura da comunidade científica negra representa a possibilidade da diversidade de posições teóricas ou, ainda, a disposição de intelectuais e pesquisadores na produção do conhecimento a partir desses paradigmas. De todo modo, consideramos um avanço, tendo em vista que, nos congressos anteriores esses assuntos pouco foram contemplados. Significa também, que há um movimento de compreender e articular que não é possível refletir sobre a ideia de raça no modo de produção capitalista, e todas as suas mediações: negritude, branquitude, racismo, igualdade racial, educação antirracista, religiosidade, entre outras, sem levar em conta a estrutura que mantém e alimenta a desigualdade social e racial. Nosso entendimento, em termos das pesquisas levantadas está em consonância com a conceituação de Ianni (1987), ao mencionar a necessidade de pensar a condição real do negro e ultrapassar as barreiras que a branquitude, a ideologia racial e a dominação da consciência, no qual o negro deve se ver, “antes de tudo, a partir da oposição social que ocupa no sistema social e de como a sua negritude foi gerada com o sistema de classes, em que se produziu a consciência”. (IANNI, 1987, p. 324). Assim, compreendemos não ser possível explicar em sua profundidade o racismo, a dominação da ideologia racista e a subjugação das pessoas negras em relação às pessoas brancas somente pelo viés da raça, sem conectar com as questões estruturais do sistema capitalista, logo, pelos problemas que a classe se defronta na luta entre e intraclasse e pela superação desse sistema. Referências Bibliográficas ANAIS Copene – ABPN, disponível em https://abpn.org.br/anais-Copene/ IANNI, Octávio. Raças e classes sociais no Brasil. 3 ed., revista e ampliada. São Paulo: Brasiliense, [1970] 1987. KOSIK, Karel. Dialética da totalidade concreta. In: KOSIK, Karel. Dialética do concreto. 7.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. NETTO, José Paulo. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2011 [1] O Copene é um evento bienal que ocorreu e ocorre em diversas partes do Brasil, em diferentes épocas. Sua organização documental sobre as produções desenvolvidas possui formas de registros diferentes a cada ano realizado, o qual será compreendido aqui de 2000 a 2018, cujo site da ABPN reúne o acervo dos Congressos. Neste caso, a pesquisa debruçou-se sobre os Congressos Nacionais, por ser mais amplo e agregar as diversas produções.

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Instituições
  • 1 UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eixo Temático
  • GT21 - Educação e Relações Étnico-Raciais