PESQUISA QUALITATIVA FEMINISTA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL

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Resumo
PESQUISA QUALITATIVA FEMINISTA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL Introdução Os feminismos e as práticas de investigação qualitativa feministas partem de múltiplas vertentes teóricas e pragmáticas, que refletem os contextos das diferentes agendas feministas abordando questões emergentes, embora historicamente persistentes, relacionadas à justiça social e de gênero (Olesen, 2018). Assim, não se limitam a um paradigma de “ciência normal” ou “madura”, como propõe Thomas Kuhn, com um arcabouço teórico, conceitual e metodológico universalmente aceito (Harding, 2019). No limiar do século XXI, Annette Gough (1999) chamou a atenção para a relevância da pesquisa feminista em Educação Ambiental (EA), evidenciando tanto a relativa escassez de publicações nessa interface como a prevalência de produções em EA baseadas em modelos universais e neutros de sujeito, negligenciando a diversidade de subjetividades, experiências e saberes, sobretudo os das mulheres. Enfatizou ainda a necessidade de repensar as formas de perceber e conhecer os ambientes, de modo a ampliar a compreensão da complexidade dos papeis e das relações entre seres humanos e ambiente, sem recorrer a essencialismos, como os que associam as mulheres ao cuidado da Terra ou à representação simbólica da natureza (Gough, 1999). Este texto, vinculado a uma tese em andamento, discute aspectos fundamentais para quem pretende desenvolver pesquisas qualitativas feministas no campo da EA. Neste percurso, evoca questões relativas ao método, metodologia e epistemologia, visando elucidar o que há de distintivo em uma pesquisa qualitativa que se adjetiva feminista (e.g. Harding, 1987a), destaca ainda algumas características dessa abordagem (e.g. Harding, 1987b; Oyěwùmí, 2021; Mies, 2021) e, por fim, articula a discussão ao campo da EA (e.g. Mies, 2021; Sato, 2001; Shiva, 2004). Ressalva-se que não se pretende apresentar um roteiro a ser seguido ou estabelecer critérios sobre o que seria uma “boa” investigação feminista nesse campo. Antes, o que se busca é contribuir com o esforço de sistematização e diálogo, a partir de discussões já realizadas, situando-as no contexto de uma EA crítica e complexa, comprometida com a justiça socioambiental e epistêmica, bem como com a construção de uma democracia da Terra. O que distingue uma pesquisa qualitativa quando ela se adjetiva feminista e quais as suas características fundamentais? Harding (1987a) explicita as distinções entre: a) método, o conjunto de técnicas utilizadas para a coleta de evidências; b) metodologia, as teorias e análises que orientam o modo como a pesquisa é conduzida; e c) epistemologia, a teoria do conhecimento que trata das estratégias de justificação, isto é, quem pode ser reconhecido como sujeito do conhecimento, quais critérios legitimam determinadas crenças como conhecimento e que tipos de “objetos” ou experiências são autorizados a ser conhecidos. Pesquisadoras feministas recorrem a diversos métodos já utilizados na pesquisa tradicional (e.g. entrevistas, observações e análise documental), sendo que o diferencial de uma pesquisa feminista não está no método em si, mas nas maneiras como são desenvolvidos a partir de posicionamentos teórico-metodológicos específicos (Harding, 1987a; 1987b). A escolha por uma vertente teórica feminista (standpoint, empirista, pós-moderna), influencia diretamente o que pode ser considerado como método de pesquisa adequado, levantando questões epistemológicas (Harding, 1987a). Nesse sentido, a epistemologia torna-se central na pesquisa qualitativa feminista (McHugh, 2018), pois as escolhas epistemológicas não são questões acadêmicas apolíticas; pelo contrário, são permeadas por relações de poder que determinam o que pode ser conhecido, por quem, e com quais finalidades (Collins, 2019). Harding (1987a; 1987b) também salienta três características que considera distintivas de/em uma pesquisa feminista, a saber: (1) a análise de gênero; (2) a experiência das mulheres como recurso científico; e (3) a reflexividade atenta às questões de gênero. E enfatiza que, apesar dessas características influenciarem na seleção dos métodos de pesquisa, constituem propriamente características metodológicas e/ou epistemológicas (Harding, 1987a). (1) Quanto ao foco no gênero como variável e categoria analítica, assim como a postura crítica em relação às questões ligadas ao gênero, Harding (1987b) lembra que as questões de gênero não se limitam ao estudo das mulheres ou das características femininas, mas comportam uma análise do gênero como construção sócio-histórica, cultural, que não se restringe à dimensão biológica. Nos estudos feministas, a teorização do gênero abarca tensionamentos e divergências, que desafiam a universalização das categorias analíticas ocidentais e ampliam o escopo da pesquisa qualitativa feminista a partir de uma perspectiva interseccional. Por um lado, Scott (2019) destaca que o gênero constitui as relações sociais a partir das diferenças percebidas entre os sexos, operando como a forma principal de significar as relações de poder, ressaltando que o termo “gênero” emerge de tentativas empreendidas pelas feministas na contemporaneidade para demarcar um campo teórico específico, em contraposição à inadequação das explicações existentes sobre as desigualdades entre homens e mulheres. Por outro lado, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (2021), problematiza a universalidade e atemporalidade das categorias de gênero, bem como o gênero como principal organizador das relações sociais. Com base na sociedade iorubá pré-colonial, evidencia que não havia estratificação conforme distinções anatômicas, e que a classificação social era delineada, sobretudo, pela senioridade e pela identidade relacional, isto é, as posições sociais das pessoas mudavam de acordo com quem interagiam. Assim, a autora argumenta que, como variável e categoria analítica – conquanto não haja dúvidas quanto ao seu lugar e tempo nas investigações acadêmicas, já que resulta de processos de colonização – “o gênero não pode ser invocado da mesma maneira e no mesmo grau em diferentes situações no tempo e espaço” (p.131), sendo necessário situá-lo dentro de sistemas culturais específicos, tanto locais quanto globais, mapeando criticamente seu histórico e articulações com outros sistemas sociais. Sardenberg (2015) propõe a metáfora dos caleidoscópios para destacar como o gênero se constrói de modo simultâneo com outros marcadores sociais, gerando mosaicos de gênero que expressam posicionalidades específicas – lugares sociais que moldam vivências e identidades em contextos diversos. No âmbito do feminismo negro, emerge a interseccionalidade como resposta às limitações de análises que tratam marcadores sociais de forma isolada, evidenciando como diferentes formas de opressão (e.g. racismo, sexismo e classismo) se articulam na vivência de sujeitos historicamente marginalizados, especialmente mulheres negras (Crenshaw, 2002). (2) Considerar as experiências das mulheres como recurso científico implica tanto na formulação de problemas como na construção de parâmetros de análise e ação política com base em seus contextos e vivências (Harding, 1987a; 1987b). As mulheres constituem uma categoria sociopolítica e econômica (Wittig, 2019) não homogênea, atravessada por múltiplos marcadores sociais – mulheres rurais, urbanas, trans, cis, negras, quilombolas, indígenas, pescadoras etc. Ademais, em diálogo com Maria Mies (2021), a pesquisa feminista não se limita à produção de conhecimento sobre as mulheres, mas se insere como parte de uma luta libertadora, comprometida com os interesses de grupos historicamente explorados, dominados e oprimidos, especialmente as mulheres, e se opõe ao uso da ciência como instrumento de dominação e legitimação das elites de poder. (3) A reflexividade robusta sensível às questões de gênero refere-se ao posicionamento de pesquisadoras/es no mesmo plano crítico que o “objeto de estudo”, examinando e reconhecendo as próprias suposições, crenças e comportamentos relativos ao gênero, raça, classe, cultura (e, acrescenta-se, ambiente), e de que maneira esses fatores podem influenciar a condução e os resultados da pesquisa (Harding, 1987b). Em consonância, Mies (2021) argumenta que pesquisadoras comprometidas com a transformação social não devem adotar uma postura verticalizada e hierárquica frente aos “objetos de pesquisa”, sustentada por uma “vista de cima”. Por outro lado, Mies (2021) propõe uma “vista de baixo”, fundamentada na “parcialidade consciente” como postura ético-política que orienta a produção de conhecimento a partir de uma perspectiva situada, em relações horizontais, marcadas pela reciprocidade sujeito-sujeito e pelo engajamento mútuo. Nesse sentido, uma prática reflexiva sensível ao gênero possibilita que pesquisadoras/es figurem como seres corporificados, reais e históricos, atravessados por interesses, desejos e contradições (Harding, 1987b). Quais aspectos devem ser considerados ao desenvolver uma pesquisa qualitativa feminista em EA? Além das características evidenciadas por Harding (1987a; 1987b), discutidas acima – análise do gênero, experiências das mulheres como recurso científico e reflexividade robusta atenta às questões de gênero, cabe destacar algumas diretrizes apontadas por Mies (2021), que podem contribuir para a condução de pesquisas qualitativas feministas em EA: O conhecimento deve ser construído por meio da participação ativa em lutas e movimentos pela emancipação das mulheres, reconhecendo a pesquisa como integrante de tais lutas e o “objeto de estudo” como processo vivo, histórico, dinâmico e contraditório. A integração da pesquisa às lutas e ações sociais implica tornar a mudança do status quo como ponto de partida para a produção científica. A apropriação da própria história pelas mulheres exige a coletivização de suas experiências, o que requer a superação do individualismo, competitividade e carreirismo. É fundamental manter o diálogo com outras mulheres e a proximidade com os movimentos, aprendendo a coletivizar e compartilhar os resultados da pesquisa, ao invés de tratá-los como propriedade privada. Reconhecer os sentidos como fonte de conhecimento e a condição humana de interdependência da natureza. Isso implica assumir responsabilidade pelos limites da vida, do tempo e da Terra. É fundamental ainda considerar o racismo ambiental como dimensão estruturante das desigualdades e injustiças socioambientais. Segundo Herculano (2006), o racismo ambiental engloba um conjunto de ideias e práticas que, sob o discurso do desenvolvimento, legitimam a degradação ambiental e humana, impondo os maiores sacrifícios a grupos historicamente marginalizados. Pacheco e Faustino (2013), evidenciam como as desigualdades étnico-raciais organizam historicamente os processos de exclusão e injustiça ambiental no Brasil, determinando quais grupos sociais – população negra, indígena, agricultoras/es familiares, moradoras/es de áreas urbanas periféricas – são sistematicamente expostos aos maiores impactos ambientais negativos e excluídos das decisões sobre seus territórios e modos de vida. Em contraste com uma EA para a sustentabilidade, que mantém a lógica colonial de acumulação e exploração capitalista, (re)produzindo o racismo ambiental, a pesquisa qualitativa feminista aponta caminhos para uma EA comprometida com a justiça socioambiental, climática e epistêmica, pautada na democracia da Terra. De acordo com Vandana Shiva (2004), a democracia da terra refere-se a uma cultura que celebra a vida e o direito de permanecer vivo. Ela abrange a vida cotidiana, os alimentos que consumimos, as roupas que vestimos, a água que bebemos e as economias vivas que garantem o atendimento das necessidades básicas. Além disso, trata-se da responsabilidade ecológica, da segurança, da justiça econômica, da preservação da diversidade, integridade e sobrevivência de todas as espécies, bem como do futuro das diversas culturas (Shiva, 2004). Diante disso, a pesquisa qualitativa feminista em EA dialoga com a proposta de Michèle Sato (2001) ao conceber a produção de conhecimento como um ato ético, político, situado e comprometido com a transformação social. Trata-se de uma investigação “apaixonadamente subversiva”, implicada e enraizada nos territórios, nas vivências dos sujeitos e na coletividade, que valoriza metodologias plurais, acolhendo afetos, memórias e saberes localizados, recusando individualismos e modelos universalizados. Conforme Sato (2001), a EA, enquanto atividade política e movimento social, requer que o conhecimento produzido seja validado e apropriado pelos grupos sociais envolvidos, que reverbere em diferentes formas de expressão e esteja ancorado em sonhos e impulsos críticos e criativos, abrindo caminhos para enfrentar as violências e vivenciar outros modos possíveis de existência. Algumas considerações Embora a pesquisa qualitativa feminsita em EA focalize as dinâmicas das relações de gênero, as experiências das mulheres e seus movimentos, bem como a reflexividade atenta a essas questões, isso não significa excluir outros sujeitos dos processos de investigação e transformação social. Pelo contrário, é fundamental reconhecer que homens, crianças, adolescentes, jovens, pessoas idosas, com ou sem deficiência, entre outros grupos, em suas diferentes identidades e posicionalidades sociais também são atravessados por relações de poder e podem/devem atuar como aliados na construção de práticas emancipatórias, democráticas e de justiça socioambiental. Afinal, como ensina bell hooks (2021, p.167), “o feminismo é para todo mundo”, e os homens também podem ser companheiros de luta, desde que estejam dispostos a combater a exploração sexista e as opressões patriarcais articuladas ao capitalismo imperialista, supremacista branco. Referências HARDING, Sandra. Introduction: Is there a feminist method? In: HARDING, Sandra (Ed.) Feminism and Methodology. Bloomington, IN: Indiana University Press, 1987a. pp.1–14. _______________. The method question. Hypatia, v. 2, n. 3, p. 19-35, 1987b. MIES, Maria. Pesquisa feminista: ciência, violência e responsabilidade. In: MIES, Maria; SHIVA, Vandana. Ecofeminismo. Tradução Carolina Caires Coelho. Belo Horizonte: Editora Luas, 2021. p. 98-122. OLESEN, Virginia. Feminist Qualitative Research in the Millennium’s First Decade: Developments, Challenges, Prospects. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. (Ed.). The SAGE Handbook of Qualitative Research. Fifth Edition. Sage Publications, 2018. p. 264-316. OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Tradução wanderson flor do nascimento. 1.ed. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021. SATO, Michèle. Apaixonadamente pesquisadora em educação ambiental. Educação: Teoria e Prática, Rio Claro, v. 9, n. 16/17, p. 24-35, 2001 SHIVA, Vandana. La mirada del ecofeminismo. Polis: Revista Latinoamericana, n. 9, p. 7, 2004. Disponível em: https://journals.openedition.org/polis/7270

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