TORNAR-SE PSICÓLOGA: experiências de vida-formação queer A pesquisa em andamento, "TORNAR-SE PSICÓLOGA: experiências de vida-formação queer", em estado de primeira qualificação, inscreve-se no campo de pesquisa biográfica, sob a temática de performatividade de gênero e sexualidade, dialogando com categorias teóricas relacionadas aos estudos biográficos e psicologia social. O referencial teórico-metodológico está aliançada à abordagem qualitativa (Minayo, 2006) e considera como objeto de investigação as narrativas (auto)biográficas (Souza, 2014) com três a sete participantes. Assim, intenta investigar a trajetória de vida-formação de pessoas queer na psicologia, especialmente no que tange o jogo de poder inscrito nas performatividades de gênero e sexualidades na profissão. Performatividade, conceito chave utilizado a partir dos estudos de Judith Butler (2014, 2019), de maneira simplificada pode representar o entrelaçamento de experiências de corpo, gênero e contexto. Para a autora, “O corpo é uma situação histórica, como afirma Beauvoir, e é também uma feitura, uma dramatização e uma reprodução de certa situação histórica” (Butler, 2019). A teoria de Butler expõe como a heterossexualidade compulsória é frequentemente naturalizada e imposta como norma social. Na educação, isso nos permite questionar as ideias fixas e binárias de controle sobre o que é "ser menino" ou "ser menina", “ser homem” ou “ser mulher” abrindo espaço para a compreensão da fluidez e diversidade de identidades de gênero. [...] quem somos, corporalmente, já é uma maneira de ser ‘para’ o outro, aparecendo de formas diversas, que não podemos ver nem ouvir; isto é, nos tornamos disponíveis, corporalmente, para um outro cujas perspectivas não podemos antecipar nem controlar completamente. Dessa forma, eu sou, como um corpo, e não apenas para mim mesma, nem mesmo primariamente para mim mesma, mas eu me encontro, sem me encontrar de todo, constituída e desalojada pela perspectiva dos outros. (Butler, 2019, p. 86) Quanto ao termo “queer”, neste trabalho não é operado como uma identidade, mas sim um espaço epistêmico que articula críticas e produz conhecimentos situados politicamente, servindo como um ponto de vista para abordar questões de corpo, sexo, gênero, sexualidade e etc. O que fundamenta o pensamento queer é a criação de dispositivos que organizam a experiência da anormalidade, dedicada aos que não se conformam às normas. Essa resistência a definições generalizadoras reflete que o queer, é múltiplo e transitório, sendo sua própria indefinição o que o caracteriza (Louro, 2001). Para tanto, a análise das narrativas será feita por meio de uma metodologia compreensiva-interpretativa, sendo orientada pelas premissas de Paul Ricoeur a partir de Elizeu Clementino Souza, visando a possibilidade de compreensão da vida, propondo que a interpretação deve ser um processo dinâmico que envolve a análise do texto e a busca pelo significado em um contexto mais amplo e hermenêutico. Desse modo, busca-se compreender os significados atribuídos pelas participantes às suas vivências formativas e, intrinsecamente, a conexão dessas vivências com seus percursos pessoais e profissionais; O trabalho apresenta reflexões sobre a evolução da formação em Psicologia no Brasil, significativamente desenvolvida até a regulamentação da profissão em 1962, quando a Lei nº 4.119 organizou a prática profissional e possibilitou a inclusão de diversas abordagens. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) de 2019 enfatizam a importância de uma formação integral que respeite a diversidade cultural e social, mas ainda trata questões como diversidade de gênero e sexualidade de forma periférica, comprometendo a atuação dos psicólogos. Também analisa, a partir dos Censos, o fenômeno de predominância feminina na profissão, com cerca de 87% de psicólogos sendo mulheres, embora essa feminilização não leve à valorização adequada de suas contribuições, perpetuando desigualdades de gênero e outros marcadores sociais. No estado da arte, a análise das produções acadêmicas entre 2013 e 2023 sobre formação em psicologia mostra que, apesar da crescente importância dos temas de gênero e sexualidade, eles continuam marginalizados nos currículos, ressaltando a urgência de integrar discussões sobre diversidade nos cursos de formação inicial. É realizado uma reflexão sobre a complexidade do reconhecimento e as limitações da normatividade na formação da identidade profissional, fundamentando-se nas ideias de Judith Butler. Argumenta-se que a subjetividade é moldada por normas sociais que criam uma idealização do "eu" cercada por qualidades repressoras, dificultando a liberdade individual. Butler aponta que a identidade do "eu" depende do outro e das normas sociais que impõe a aceitação sem negociação, levando à marginalização de algumas vidas. A noção de performatividade de gênero é discutida, enfatizando a importância de uma nova ontologia corporal que reconhece a vulnerabilidade e a interdependência. Fundamentada nas epistemologias feministas e ancorada nos princípios da teoria queer, Judith Butler, está como protagonista e contracena com diversos personagens, como Pierre Bourdieu, Michel Foucault e Gadamer para lidar com velhas questões contemporâneas de jogos de poder. No entanto, apresenta a importância de uma cosmovisão para enfrentar a crise ambiental e social, com referência ao pensamento de Ailton Krenak (2019, 2020) e Gloria Anzaldúa (2016) enfatizando a urgência de uma conexão vital entre humanos e natureza, contrastando com a visão ocidental que vê a natureza apenas como um recurso. A pesquisa utiliza a metodologia da história de vida, seguindo as contribuições de Elizeu Clementino Souza (2016), que reconhece a narrativa biográfica como um meio de compreender experiências e formar conhecimento. O capítulo explora a evolução da abordagem biográfica e sua aplicação na educação, ressaltando a reflexividade e a co-construção no processo de narrar histórias. Além disso, o texto critica o paradigma androcêntrico que permeia a sociedade e a ciência, evidenciando como isso afeta a percepção de gênero e a construção social. O desafio trazido por esta pesquisa consiste no principal objetivo da pesquisa: compreender os impactos das normativas hegemônicas das performatividades de gênero na constituição desses sujeitos seja no estilo de vida ou habitus , no cuidado de si e performances, considerando também o contexto da profissão, como exemplo, o fato dela está constituída majoritariamente por pessoas do sexo feminino a mais de meio século. REFERENCIAS ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: La nueva mestiza. Trad. de Carmen Valle Simón, Madrid: Capitán Swing, 2016. BUTLER, J. Fundamentos contingentes: O Feminismo e a questão do “Pós-Modernismo". Cadernos Pagu, [S. l.], n. 11, p. 11–42, 1998. BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Tradução de Fernanda Siqueira Miguens. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2019. BUTLER, Judith. O Clamor de Antígona: Parentesco entre a vida e a morte. 1. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2014. Foucault, M. As palavras e coisas. (1966, p. 396-398) KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. 128 p. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo / Ailton Krenak. Paulo: Companhia das Letras, 2019. LOURO, Guacira Lopes. O corpo estranho. Ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004 LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 3ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. p. 7-34. 2016. MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 9. ed. revista e aprimorada. São Paulo: Hucitec, 2006. RICOEUR, Paul. Hermenêutica e ideologias. Tradução de Hilton Japiassu. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2013. SOUZA, Elizeu Clementino de. Diálogos cruzados sobre pesquisa (auto)biográfica: análise compreensiva-interpretativa e política de sentido. Revista Educação UFSM, Santa Maria, v. 39, n. 1, p. 85-104, jan./abr. 2014. Disponível em:
https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/11344/pdf. Acesso em: 10 fev. 2025.