FAMÍLIAS E TECNOLOGIAS DIGITAIS: POSIÇÃO DE CLASSE E MEDIAÇÃO PARENTAL INFANTIL INTRODUÇÃO De que maneira a posição de classe e a mediação parental podem influenciar o uso de dispositivos digitais no ambiente doméstico, impactando as experiências socializadoras das crianças? Esta é a questão que orienta este estudo, cujo objetivo é explorar como as condições socioeconômicas e culturais das famílias podem interferir nas práticas parentais e, por consequência, no desenvolvimento infantil em um mundo cada vez mais mediado por tecnologias digitais. O uso de dispositivos digitais tornou-se parte do cotidiano familiar, transformando as dinâmicas parentais e ampliando as possibilidades de interação e aprendizado. No entanto, essas transformações não se manifestam de forma homogênea. As condições estruturais das famílias e as disposições herdadas, conforme discutido por autores como Pierre Bourdieu (2013) e Bernard Lahire (2002; 2005), influenciam diretamente o acesso, o uso e a mediação parental dessas tecnologias. A posição de classe tende a afetar a forma como as famílias regulam o uso das tecnologias digitais pelas crianças. Segundo Bourdieu (2013), as práticas culturais e educativas estão condicionadas pelos capitais econômico, social e cultural disponível. Famílias com maior capital cultural, por exemplo, podem apresentar maior propensão a estabelecer regras mais estruturadas e claras sobre o uso das tecnologias, como limitação de tempo e escolha de conteúdo, enquanto aquelas com menor capital enfrentam limitações de acesso e informações, levando, muitas vezes, a uma mediação mais permissiva ou ausente (Livingstone et al., 2011). Além disso, o capital social também exerce influência sobre o uso das tecnologias pelas crianças. Redes de apoio, como parentes e amigos com maior familiaridade tecnológica, podem contribuir para práticas de mediação mais qualificadas. enquanto, em contextos de vulnerabilidade, tende a dificultar o acompanhamento parental, resultando, em alguns casos, em um uso mais passivo dos dispositivos digitais. A mediação parental, portanto, é um aspecto relevante a ser considerado quando se busca compreender como as crianças interagem com a tecnologia digital. Lahire (2005) aponta que a mediação é influenciada pelas disposições familiares e pelos contextos sociais em que se inserem. Embora a literatura apresente diferentes abordagens para a mediação parental, estudos como os de Livingstone et al. (2011) e Nascimento (2021), indicam que algumas formas de mediação podem ser agrupadas em três categorias principais, com sobreposições e nuances: (1) mediação ativa, que envolve o acompanhamento e diálogo sobre o uso das tecnologias, incentivando práticas interativas e educativas, frequentemente associada a famílias com maior capital cultural (Livingstone; Kardefelt-Winther, 2020); (2) mediação restritiva, caracterizadas por regras rígidas quanto ao tempo e ao tipo de conteúdo, o que pode reduzir riscos, mas também limitar oportunidades de aprendizado se não for acompanhada de orientação; e (3) mediação permissiva, mais comum em contextos de vulnerabilidade, em que a tecnologia pode assumir o papel de “babá eletrônica”, expondo as crianças a um consumo mais passivo de conteúdo (Nascimento, 2021). Esse cenário pode refletir não apenas diferença de acesso à informação, mas também limitações de tempo e recursos por parte das famílias. METODOLOGIA A pesquisa é de natureza qualitativa e teve como principal procedimento empírico a aplicação de um questionário estruturado com 15 famílias ou responsáveis de crianças entre 4 e 5 anos de idade, vinculadas a uma escola municipal de educação infantil do noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. O objetivo foi compreender as práticas de mediação digital adotadas no ambiente doméstico e como a posição de classe das famílias influencia o uso das tecnologias pelas crianças. Os temas abordados incluíram regras de uso, percepção sobre os impactos das tecnologias no desenvolvimento infantil e os desafios enfrentados na mediação parental, permitindo uma aproximação com as dinâmicas familiares e suas condições socioeconômicas. A pesquisa seguiu rigorosamente as normas éticas para estudos com seres humanos. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi obtido junto a todos os participantes, assegurando a confidencialidade e o anonimato das informações fornecidas. As famílias foram informadas sobre os objetivos da pesquisa, a natureza voluntária voluntária da participação e sobre o direito de desistirem do estudo a qualquer momento, sem prejuízo ou penalidade. A análise dos dados coletados foi orientada pelos conceitos de Bernard Lahire e Pierre Bourdieu, especialmente no que se refere ao habitus, disposições sociais e modalidades de socialização. A partir de Lahire (2002; 2005), investigou-se como os quadros sociais influenciam as práticas de socialização no uso das tecnologias digitais. Já com Bourdieu (2013), problematizou-se como os níveis de capital das famílias se relacionam às formas de mediação parental. A articulação entre os dados empíricos e os referenciais teóricos permitiu refletir sobre a reprodução ou transformação de desigualdades sociais por meio das práticas familiares com as tecnologias digitais. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS A análise dos dados obtidos por meio dos questionários aplicados às famílias revelaram aspectos importantes sobre o acesso aos dispositivos digitais, os tipos de mediação parental adotados e as percepções sobre os impactos dessas tecnologias no desenvolvimento infantil. A análise buscou compreender como essas práticas familiares contribuem para a reprodução ou transformação das desigualdades, à luz do referencial teórico adotado. Acesso aos Dispositivos Digitais O acesso à televisão se mostrou praticamente universal entre as famílias participantes, estando presente em 14 dos 15 lares. O acesso ao celular também apresenta ampla penetração, sendo utilizado por dois terços dos participantes (10 famílias). No entanto, uma parcela considerável (5 famílias) indicou não possuir acesso ao celular. Por fim, o acesso a outros dispositivos, especificamente o tablet (que foi o único outro tipo mencionado), é bastante restrito nessa amostra. Apenas uma única família relatou possuir um tablet, enquanto os demais 14 não o mencionaram ou não indicaram. Distribuição dos tipos de mediação parental. Em relação às formas de mediação parental, observou-se que a mediação ativa foi a mais frequente, presente em 73% das famílias (11 de 15). A mediação restritiva, por sua vez, apareceu em quatro famílias (27%), enquanto a mediação permissiva não foi identificada em nenhum caso. Essa classificação foi baseada nas respostas dos próprios pais, que assinalaram, no questionário, o tipo de mediação que mais se aproximava de sua prática cotidiana. As opções disponíveis estavam acompanhadas de breves exemplos, a fim de facilitar a identificação da categoria mais adequada por parte dos respondentes. Tipos de mediação versus características socioeconômicas das famílias. A análise cruzada entre os tipos de mediação e os dados socioeconômicos das famílias (escolaridade e faixa de renda) aponta para padrões relevantes. A mediação ativa aparece em todos os níveis de renda, mas é mais recorrente entre famílias da faixa intermediária (de dois a cinco salários mínimos - 6 famílias) e inclui tanto as faixas de renda mais alta (acima de cinco salários mínimos - 2 famílias) quanto a mais baixa (um salário mínimo - 1 família) representadas neste grupo. Já a mediação restritiva aparece em diversos níveis de renda (um, dois a cinco e acima de cinco salários mínimos). Tabela 1: Tipo de Mediação Parental por Faixa de Renda Familiar (n=15) Fonte: Dados da pesquisa (2025) Quando analisamos a escolaridade das famílias a mediação restritiva é vista em pais com Ensino Médio Completo, Fundamental Completo e Superior Completo. A mediação ativa também está presente em vários níveis de escolaridade, mas notavelmente inclui todos os pais com Ensino Superior incompleto/completo ou especialização ("Superior incompleto", "Superior completo", "Especialização") na amostra, bem como aqueles com menor nível educacional (Fundamental Incompleto, Ensino Médio Incompleto/Completo). Parece haver uma leve tendência de pais com níveis de escolaridade mais altos (Superior completo/Especialização) a empregarem a Mediação Ativa (5 das 6 famílias nesse perfil usam Mediação Ativa).Esses dados reforçam a ideia de Bourdieu (2003) sobre o papel do capital cultural na forma como as famílias se apropriam dos recursos tecnológicos. Tabela 2: Tipo de Mediação Parental por Nível de Escolaridade dos Pais (n=15) Fonte: Dados da pesquisa (2025) Percepção do impacto das tecnologias versus características socioeconômicas e tipos de mediação. As percepções relatadas pelas famílias acerca dos impactos do uso de tecnologias digitais concentram-se em três grandes eixos: comportamental (birras, agressividade, irritabilidade, resistência, teimosia, brabeza, choro, imediatismo/impaciência, falta de atenção), de conteúdo (uso de linguagem/conteúdo inadequada, imitação de comportamentos/falas (Uso de gírias), e de desenvolvimento (sedentarismo, menor sociabilidade, fala prejudicada, falta de imaginação). Essas preocupações surgiram de forma transversal entre os diferentes perfis socioeconômicos e tipos de mediação, indicando que os desafios enfrentados pelas famílias não se restringem a um único grupo. É notável que mesmo as famílias que empregam a Mediação Ativa relatam uma alta frequência de impactos negativos (7 das 8 famílias), o que sugere que a presença do adulto durante o uso não garante, por si só, experiências positivas. Famílias com Mediação Restritiva também apontaram impactos negativos (2 das 3 famílias), indicando que o tipo de mediação adotado não se relaciona diretamente com percepções mais favoráveis. Com base nesta amostra de 15 famílias, observou-se que a mediação ativa é a forma mais comum de acompanhamento do uso das tecnologias pelas crianças, sendo particularmente frequente entre pais com maior nível de escolaridade. No entanto, essa estratégia também aparece em todos os estratos socioeconômicos, indicando uma valorização generalizada da presença e orientação das famílias durante o uso dos dispositivos digitais. De modo geral, as percepções negativas foram consistentes independentemente do tipo de mediação, renda ou escolaridade, sugerindo que apenas restringir ou acompanhar o uso não assegura uma vivência digital mais qualificada na primeira infância CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente pesquisa buscou compreender como as disposições familiares em relação ao uso de tecnologias digitais no ambiente doméstico podem influenciar os processos de socialização infantil e contribuir para a reprodução ou transformação das desigualdades na Infância. Ao focar na perspectiva dos pais e responsáveis, evidenciou-se que o uso das tecnologias digitais não ocorre de forma homogênea entre as famílias, mas está profundamente imbricado em suas rotinas, valores, conhecimentos e condições materiais. Os dados coletados por meio dos questionários demonstraram que, embora o acesso aos dispositivos digitais seja amplamente disseminado, as formas de mediação, os sentidos atribuídos ao uso das tecnologias e as estratégias adotadas variam significativamente. Tais variações, refletem, muitas vezes, diferenças nas disposições culturais e no capital simbólico das famílias, o que repercute nas oportunidades oferecidas às crianças em seu processo de desenvolvimento e aprendizagem. A análise revelou que algumas famílias conseguem transformar o uso das tecnologias em uma prática pedagógica e interativa, promovendo o desenvolvimento infantil de forma intencional. Outras, por diversas razões como falta de tempo, de informação ou de apoio, acabam adotando uma postura mais permissiva ou ausente, o que pode comprometer a qualidade da interação das crianças com os conteúdos digitais. Esses achados reforçam a tese de que as práticas educativas no interior das famílias têm papel crucial na constituição de trajetórias escolares e sociais, contribuindo para a ampliação ou manutenção das desigualdades. Dessa forma, ao analisar as práticas de mediação parental à luz das posições de classe e disposições familiares, observa-se que as tecnologias digitais não são apenas ferramentas neutras no cotidiano infantil, mas atravessadas por lógicas culturais e sociais que favorecem diferentes modos de apropriação. A mediação ativa, embora amplamente valorizada, não se mostra suficiente por si só para evitar impactos negativos — o que revela a complexidade dos desafios enfrentados pelas famílias, independentemente de sua condição socioeconômica. Este estudo, ao evidenciar a diversidade de práticas e percepções, reforça a importância de políticas públicas e ações formativas voltadas às famílias, que considerem suas realidades e ofereçam suporte para o uso mais consciente, crítico e pedagógico das tecnologias digitais na infância. Promover a equidade no acesso e na qualidade das experiências digitais desde os primeiros anos de vida é um passo fundamental para enfrentar as desigualdades educacionais e sociais em um mundo cada vez mais conectado. REFERÊNCIAS BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983. _______________ A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1998. _______________ Capital simbólico e classes sociais. L’Arc, n. 72, 1978. Versão ampliada publicada em Journal of Classical Sociology, v. 13, n. 2, maio 2013. LAHIRE, B. O homem plural: os determinantes da ação. Petrópolis, Rio de Janeiro, Vozes, 2002. _____________ Patrimónios individuais de disposições: para uma sociologia à escala individual. Sociologia, Problemas e Práticas, n. 49, 2005, p. 11-42 LIVINGSTONE, Sonia., HADDON, Leslie., GÖRZIG, Anke., & ÓLAFSSON, Klartan. Risks and safety on the internet: The perspective of European children: Full findings and policy implications from the EU Kids Online survey of 9–16 year olds and their parents in 25 countries. London: LSE, EU Kids Online (2011). LIVINGSTONE, Sonia; KARDEFELT-WINTHER, Daniel. Global Kids Online: das evidências ao impacto. In: TICKids Online Brasil 2019: pesquisa sobre o uso da Internet por crianças e adolescentes no Brasil. São Paulo: NIC.br, 2020. Disponível em:
https://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/20201123093630/executive_summ…. Acesso em: 29 jan. 2025. NASCIMENTO, Mariana Furtado do. O impacto da mediação parental na literacia da publicidade do Youtube em crianças dos 8 aos 12 anos. 2021. Programa de Mestrado em Ciências da Comunicação. Universidade Católica Portuguesa Disponível em:
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/33403/1/Mariana%20Furtado…. Acesso em: 29 jan. 2025.