CURRICULARIZAÇÃO DA EXTENSÃO NA UNIVERSIDADE: (REVEL)AÇÕES DA EXPERIÊNCIA DISCENTE INTRODUÇÃO Esta pesquisa foi produzida com discentes matriculados no componente curricular Computação e Sociedade, ofertado no curso de Bacharelado em Engenharia de Software de uma Universidade Federal, com o objetivo de compreender se as percepções discentes sobre as atividades curriculares de extensão estão alinhadas aos registros do Projeto Pedagógico do Curso (PPC). O Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) traz, como missão, a promoção de uma educação superior de qualidade, que integre ensino, pesquisa e extensão, com vistas à formação de sujeitos aptos a atuar no desenvolvimento regional, nacional e internacional. Vale ressaltar que a extensão universitária ganhou espaço na educação superior com a publicação da Constituição Federativa do Brasil em 1988, reforçada com a obrigatoriedade de inserção curricular nos Cursos de Graduação pela Resolução CNE/CES nº 07/2018. Entretanto, as IES ainda estão impactadas com esta obrigatoriedade e enfrentam desafios epistêmicos e pedagógicos para alcançar tal objetivo. Que pressupostos seriam importantes para que os currículos obedeçam a nova legislação? Que concepção de extensão sustentaria a reorganização curricular? Como provocar mudanças culturais na organização acadêmica? Como enfrentar as diferentes culturas profissionais de cada campo científico para atender ao novo preceito legal? Que saberes são necessários aos estudantes para a interação social? Essas foram as questões que induziram este estudo que, assumiu como pressuposto, analisar o que já vinha sendo realizado, como ponto de partida da possibilidade de ampliação. Na Universidade em questão, o processo que curricularizou a extensão teve início em 2016, e se fortaleceu, em 2019, com ações de apoio aos cursos tendo em vista o registro nos PPCs. Antes da obrigatoriedade, o desenvolvimento de atividades de extensão já acontecia no curso de Engenharia de Software, por meio das Atividades Complementares de Graduação (ACGs) na modalidade extensão, sendo que, em alguns desses componentes “os estudantes são estimulados a resolverem problemas reais da comunidade [...] em outros, o foco é mais informativo, tendo como alvo contribuir para a educação e conscientização da sociedade local, assim como dos próprios estudantes universitários na interação com membros da comunidade” (Melo et. al, 2023, p. 294). O projeto “Universidade na Comunidade: Diálogos sobre Computação e Engenharias” foi criado com o objetivo de manter um canal de comunicação com a comunidade e divulgação dos cursos ofertados. Para participar do projeto, o discente deve preencher um formulário de inscrição, onde conste o local da ação, data, breve descrição, infraestrutura disponível e estimativa de público. Em 2024, foram desenvolvidas quinze ações, sendo dez articulando escolas de educação básica e, cinco, com a Feira do Livro da cidade. METODOLOGIA A pesquisa teve caráter documental tomando os relatos produzidos por discentes matriculados no componente “Computação e Sociedade”, ofertado no 2º semestre do curso de Bacharelado em Engenharia de Software. Estes relatos se constituem como material de avaliação da experiência dos estudantes. A partir deles, a pesquisa realizou uma ação exploratória de cunho qualitativo, com a análise e interpretação dos dados, a partir dos registros do Projeto Pedagógico do Curso e da Política Institucional de Extensão. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS Na UNIPAMPA, os PPCs devem seguir a legislação vigente e a estrutura indicada no Plano de Desenvolvimento Institucional, sendo que as informações sobre a curricularização da extensão nos cursos encontram-se nas dimensões da Contextualização e da Organização didático-pedagógica (seções referentes a Políticas de extensão; Objetivos do curso; e Matriz Curricular). Em relação à Contextualização da Unipampa, consta no PPC que, desde a sua implantação, têm sido promovidas iniciativas para ofertar, à comunidade, uma educação de qualidade e com responsabilidade social, para além das atividades desenvolvidas dentro do câmpus, em que “A promoção das atividades de extensão é uma importante estratégia na integração entre a universidade e a comunidade no contexto de inserção da UNIPAMPA” (Unipampa, 2023, p. 22). Esta concepção está alinhada ao conceito de extensão universitária indicado na Resolução 433/2025 (Política de Extensão da Unipampa): Art. 3º A extensão universitária é um processo interdisciplinar, político educacional, cultural, científico e tecnológico que, em articulação permanente com ensino, pesquisa e gestão, promove a interação transformadora entre a Universidade e a sociedade pela democratização dos saberes acadêmicos e do intercâmbio de diferentes tipos de saberes e experiências, visando a superação de desigualdades e contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa. (Unipampa, 2025, p. 2, grifos nossos) Nesta direção, o Plano de Ensino do componente curricular “Computação e Sociedade”, do Curso em estudo, apresenta como um dos objetivos específicos “discutir o papel social da universidade e promover atividades de extensão”. No caso desse Projeto o objetivo era de socializar a Universidade e o Curso com o público das escolas médias da região. Foi possível inferir que os estudantes valorizaram a ação extensionista que vivenciaram, que os aproximou da comunidade. Nos relatos, afirmam que “essa atividade ressaltou a importância de iniciativas de extensão que aproximam a universidade das comunidades e escolas locais”. Refletindo sobre a sua própria formação, um estudante registra que “aprendemos e nos adaptamos; saímos dessa experiência ainda mais conscientes do papel transformador que a universidade pode desempenhar na vida das pessoas”. “Foi muito importante ter a oportunidade de interação direta e de apresentar as áreas de atuação de forma acessível”. A interação dialógica entre a Universidade e a sociedade é uma das diretrizes expressas na Política Institucional de Extensão, “por meio do intercâmbio de saberes, experiências e problemas vivenciados”. Tal perspectiva evidencia-se em outros relatos como “... a atividade reforça a importância de projetos de extensão que busquem aproximar a universidade da comunidade, promovendo a educação e abrindo portas para futuros acadêmicos. Esse tipo de ação “não só beneficia a comunidade, como também fortalece a Universidade como instituição pública comprometida com o desenvolvimento local”, pois “muitas vezes as universidades ficam distantes das realidades locais, especialmente em cidades do interior”. Observa-se, porém, ainda as características de ações de extensão com foco “mais informativo” (Melo et. al, 2023, p. 294), visando publicizar as possibilidades de inserção e parceria com a sociedade local, dando destaque à compreensão da educação universitária como bem público e direito universal do cidadão. Estas ações desenvolvidas na comunidade estão alinhadas às Políticas de Extensão indicadas no PPC o qual apresenta, dentre os princípios, a “inserção dos discentes na comunidade para desenvolver a consciência e responsabilidade social”, o que pode ser confirmado por meio dos relatos: “a receptividade e o interesse demonstrados pelos estudantes reforçam o papel social da UNIPAMPA em promover a inclusão e o acesso ao ensino superior”; “Este evento foi um excelente exemplo de como a universidade pode estreitar laços com a comunidade e contribuir para o desenvolvimento educacional local”; e “A experiência vivida durante essa ação reforçou o papel da extensão universitária como uma ferramenta de integração, divulgação do ensino superior e promoção de um impacto social positivo na comunidade”. Nesta perspectiva, consta como objetivo geral do curso no PPC “promover ensino, pesquisa e extensão em Engenharia de Software, contribuindo com o desenvolvimento sustentável da região e do país” (Unipampa, 2023, p. 46), bem como, um dos objetivos específicos é “promover a interação e a troca de saberes e experiências entre a comunidade acadêmica e a sociedade por meio da extensão universitária” (Unipampa, 2023, p. 46). Assim, a extensão deve ser reconhecida como integrante do processo de formação acadêmica e humana, pois “Propõe o protagonismo de estudantes de graduação e de pós-graduação em sua formação técnica e cidadã em espaços que transcendem a sala de aula convencional” (Melo et. al, 2023, p. 290). Certamente, as dimensões mencionadas são importantes, mas revela uma concepção de extensão ainda distante de uma visão interacionista. Há preponderância da perspectiva de divulgar os saberes acadêmicos, mas pouca atenção em aprender com os saberes sociais e culturais. Neste sentido, Santos (2015) acredita que a ecologia de saberes (que valorize a diversidade de saberes e a relação entre o conhecimento científico e o popular) e a tradução intercultural devem ser os pilares dos novos projetos da Universidade, visando uma nova política do conhecimento. No entanto, “por um período longo, a universidade convencional será ainda uma mistura tensa entre o velho e o novo” (Santos, 2015, p. 208). CONSIDERAÇÕES FINAIS Os resultados demonstram que as ações de extensão desenvolvidas no componente curricular Computação e Sociedade estão alinhadas aos registros nos PPCs e orientadas pelas diretrizes da extensão universitária indicadas na Política Institucional. Configuram-se como estratégias de integração, aproximação e interação dialógica da universidade com a comunidade, por meio da divulgação dos cursos e da Instituição. Os relatos indicam o quanto, na interação com o outro, ocorrem transformações que ampliam a visão de mundo não só da comunidade em relação à instituição, como também dos extensionistas em relação à comunidade, contribuindo para sua formação. Entretanto, fica ainda explícita, na experiência, uma perspectiva tradicional de extensão no sentido de levar os fazeres e saberes universitários à comunidade. Em que pese seja esta é uma ação importante, revela um fluxo único, de uma mão só. Distancia-se da concepção dialética que a curricularização pressupõe, decorrente do diálogo epistêmicos dos saberes acadêmicos com os saberes da prática social. Este é o desafio que nos interpela. REFERÊNCIAS BRASIL. Presidência da República. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: Acesso em: 20 jul. 2024. BRASIL. Ministério da Educação. Resolução Nº 5, de 16 de novembro de 2016. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação na área da Computação, abrangendo os cursos de bacharelado em Ciência da Computação, em Sistemas de Informação, em Engenharia de Computação, em Engenharia de Software e de licenciatura em Computação. Disponível em:
https://abmes.org.br/arquivos/legislacoes/Res-CES-CNE-005-2016-11-16.pdf. Acesso em 20 mar. 2025. MELO, Amanda Meincke; DE MELLO, Aline Vieira; KREUTZ, Diego; BERNARDINO, Maicon. Curricularização da Extensão Universitária em Cursos de Computação: experiências e possibilidades. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO EM COMPUTAÇÃO (EDUCOMP), 3. , 2023, Evento Online. Anais [...]. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Computação, 2023 . p. 289-299. Disponível em:
https://sol.sbc.org.br/index.php/educomp/article/view/23899/23727. Acesso em 20 fev. 2025. SOUSA SANTOS, Boaventura de. Da universidade à pluriversidade: Reflexões sobre o presente e o futuro do ensino superior. Revista Lusófona de Educação, v. 31, p. 201-212, 2015. Disponível em:
https://revistas.ulusofona.pt/index.php/rleducacao/article/view/5388. Acesso em 25 mar. 2025. UNIPAMPA. Projeto Pedagógico do Curso de Bacharelado em Engenharia de Software. 2023. Disponível em: Acesso em: 18 mar. 2025. UNIPAMPA. Resolução Nº 433 de 20 de fevereiro de 2025. Institui a Política de Extensão da Unipampa estabelecendo normas e diretrizes para a gestão e incentivo da prática extensionista. Disponível em:
https://sites.unipampa.edu.br/consuni/files/2025/02/res--433_2025-polit… Acesso em 20 mar. 2025.