sE O EU FOSSE SUBSTITUÍDO POR NÓS: FIOS DE VOZ E SENTIDOS COMPONDO REDES NARRATIVAS NA FORMAÇÃO DOCENTE Introdução Este texto apresenta o percurso de uma pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado Profissional em Educação da Universidade Federal da Bahia, que teve como foco temático as narrativas, autorias e vivências de profissionais da educação da Rede Municipal de Ensino de Salvador. O objetivo foi compreender esse fenômeno, a fim de intervir, de forma colaborativa, nos processos formativos na referida Rede. As indagações e reflexões sobre como os processos de formação continuada de professores têm sido conduzidos nessa rede contribuíram para a constituição da seguinte problemática de pesquisa: como potencializar ou construir propostas formativas que considerem as narrativas, autorias e vivências dos professores? Com esse objetivo principal de compreender como potencializar ou construir propostas formativas que considerem as narrativas, autorias e vivências dos professores os objetivos específicos incluíram: Compreender como a Rede Municipal de Ensino de Salvador atua no processo de formação continuada de professores da Educação Básica; investigar quais as contribuições das narrativas na formação continuada de professores; identificar percursos formativos de professores e coordenadores nessa rede e como eles entendem a narrativa no espaço escolar; apreciar como professores e coordenadores realizam registros e desenvolvem sua autoria na prática docente e por fim, promover um espaço de compartilhamento de narrativas sobre a docência, para promover o intercâmbio das autorias pedagógicas, pesquisas, projetos e práticas de formação que acontecem dentro e fora da escola. Fundamentada em Connelly e Clandinin (2015), que compreendem as narrativas como fenômeno a ser estudado e como método de pesquisa, buscou-se entender como os educadores prospectam sua formação enquanto autores de histórias sobre si, sobre os educandos e suas práticas, usando as narrativas como procedimento investigativo e também, como dispositivo formativo. Metodologia O movimento metodológico proposto neste trabalho intitulou-se Unimultiplicidade. Essa constituição metodológica inspira-se em aspectos da Teoria da complexidade de Morin (2015) e no conceito de rizoma de Deleuze e Guattari (1995) articulando multiplicidades sem hierarquia, em constante conexão e movimento. Optou-se por uma abordagem multirreferencial em razão da heterogeneidade própria das relações educativas e dos diálogos formativos que atravessam o objeto pesquisado. Tal abordagem se dá nos encontros e descobertas, sendo a Unimultiplicidade, nesse contexto, mais que um conceito: uma performance (Deleuze e Guattari, 1995). A escrita em acontecimento revelou as singularidades das muitas vozes das colaboradoras da pesquisa em coerência com a abordagem qualitativa. As etapas dessa metodologia foram denominadas acontecimentos e incluíram: Análise documental das diretrizes de formação docente da rede municipal de educação de Salvador; Pesquisa bibliográfica sobre a formação de professores sob a ótica da pesquisa narrativa; Imersão no cotidiano do grupo de formação de professores para refletir sobre as singularidades e potencialidades dos espaços formativos; Rodas de ConversAções, buscando compreender, refletir e propor possibilidades de Ações formativas para a rede. O corpus da pesquisa foi composto pelas narrativas orais colhidas nas Rodas de ConversAções. A gravação dos áudios permitiu revisitar os relatos sempre que necessários, a fim de produzir uma compreensão mais aprofundada. A partir deles, emergiram categorias atreladas à formação docente e às narrativas, fundamentadas teoricamente. A análise dessas categorias ocorreu de modo reflexivo, respeitando as itinerâncias, diferenças e potências dos sujeitos envolvidos. Todos os materiais produzidos nas Rodas foram considerados. Como as narrativas constituíram o eixo da pesquisa, a tematização (Fontoura, 2011) foi o principal movimento de análise, conforme propõe a autora: “devemos aprender a ouvir o sujeito que vivenciou a situação que se quer estudar, o que implica em tê-lo como um parceiro, como alguém que é colaborador ativo na pesquisa” (Fontoura, 2011, p. 78). Assim a Unimultiplicidade se expressou nos atravessamentos afetivos e epistemológicos da pesquisadora e colaboradoras, refletidos nas narrativas e nas intensidades que as movem. Afetadas por múltiplos sentimentos e questionamentos sobre a formação docente, fomos levadas a habitar essa performance sem reduzir sua complexidade a hierarquias ou conceitos pragmáticos. Todas as reflexões foram consideradas relevantes no percurso. Análise e discussão de resultados As Diretrizes da Rede Municipal de Salvador apontam que a formação de professores deve ser compreendida como um processo contínuo, contextualizado e coletivo. No entanto, a prática ainda está, muitas vezes, baseada em um formato tradicional, centrado na transmissão de saberes, nos moldes da racionalidade técnica (Schön, 2000), o que limita a autoria dos educadores e o reconhecimento de suas experiências. Ao examinar os documentos e escutar os sujeitos da pesquisa, constatamos que a formação ainda se configura, com frequência, como um evento pontual, descolado do cotidiano escolar e das necessidades reais dos educadores. Essa desconexão dificulta a constituição de espaços de escuta, troca e ressignificação dos saberes da prática, a professora Juliana assim narra: Meu nome é Juliana e pela primeira vez estou vivenciado a proposta de participar de uma pesquisa onde trabalho. Logo, aceitei o convite. Nos últimos anos, percebi que, assim como os alunos, eu vinha tendo dificuldade e falta de interesse de participar de algumas formações oferecidas pela Secretaria de Educação. A dificuldade perpassava pela sensação de que sempre tem alguém para falar muito de nós, porém sem nos ouvir. São quase 20 anos atuando nessa rede e penso que movimentos como este, de partilha e escuta noz fazem sentir parte de um todo. Entretanto esse todo tem suas próprias especificidades que acontecem nas escolas e não temos olhos e ouvidos para esse cotidiano. No nosso último encontro fiquei pensando sobre a carta que você escreveu para nós e como eu poderia responder reflexivamente sobre como eu gostaria de viver os processos formativos nesta rede, como eu gostaria de me sentir em rede. E estar em rede para mim, hoje, seria compartilhar coletivamente nossas experiências, nossas angústias, as possibilidades de resoluções de problemas. E quando discutimos sobre essas possibilidades, penso que, um projeto de intervenção não é somente necessário, mas é possível. (Professora Juliana) Rodas de ConversAções: espaços-tempo de criação e escuta A partir das Rodas de ConversAções, emergiram vozes que expressaram diferentes compreensões da narrativa na formação docente. As colaboradoras evidenciaram a importância da escuta sensível e do compartilhamento de experiências como estratégias potentes para a construção de sentidos sobre o fazer docente. As Rodas de ConversAções se configuraram como uma rede interpretativa, como espaços de construção coletiva, nos quais as educadoras se reconheceram autoras de suas histórias e práticas. Os relatos indicaram que a narrativa possibilita a produção de conhecimento a partir da própria experiência. Nesse sentido, ela se torna não apenas um método, mas um modo de ser e de estar na formação, um exercício de escuta de si, do outro e do mundo. Em uma perspectiva rizomática a reflexão sobre os processos de formação foi se delineando, fundamentando na complexidade de forma que, tecendo junto cada acontecimento da pesquisa, fosse possível evidenciar através dos capítulos anteriores a multiplicidade de vozes e de itinerâncias que tornou possível o acontecer da pesquisa. Podemos visualizar a importância das Rodas de ConversAções na proposição interventiva e para novas ressignificações a partir da narrativa da professora Taiana: Preciso revelar que fui desafiada pela pesquisadora a olhar para o meu espaço de trabalho como um espaço de pesquisa. Sempre pensei em pesquisa como algo da Universidade e quando concluí a graduação não imaginei retornar a essas discussões. Sou uma pessoa que está há muito tempo nessa rede, quero me aposentar em breve, mas foi muito significativo olhar para a minha sala de aula, a partir da pergunta sobre quais espaços de compartilhamento eu achava relevante. Porque eu acho mesmo que precisamos olhar para as necessidades que surgem quando estamos lá, com nossas crianças. E quando me perguntou, o que você faz quando essas perguntas surgem? Como você busca respostas? E eu pensei, que soubesse pedir ajuda, mas me vi, no que discutimos na primeira roda de partilha, no espaço de solidão do professor. Por muitos questionamentos que eu tivesse, na maioria das vezes me parecia mais fácil reclamar do que compartilhar e pensar junto alternativas. Para responder, então, essa pergunta, após muitas reflexões propostas e conhecendo o que é hoje a proposta interventiva colaborativa que foi apresentada pela pesquisadora, eu penso que os espaços relevantes de compartilhamento são aqueles em que a gente possa se encontrar. (Professora Taiana A escrita como gesto político-pedagógico A escrita das próprias vivências surgiu como prática potente de reexistência. Algumas participantes relataram como o ato de escrever lhes permitiu reelaborar sentidos da trajetória profissional, ressignificar desafios e valorizar conquistas. Nesse processo, a narrativa se apresenta como instrumento de visibilidade, autoria e resistência. Inspirada por autores como Clandinin e Connelly (2015) e Larrosa (2014), compreende-se que narrar é também se narrar — e, nesse gesto, reposicionar-se no mundo. Assim, escrever sobre si e sobre a prática docente é um gesto político-pedagógico de afirmação e reconhecimento. Sentirpensar como experiência formativa O movimento narrativo provocou um exercício de sentirpensar (Moraes e Torres, 2018), onde razão e afeto se entrelaçam na construção de saberes. As colaboradoras falaram de sentimentos como medo, insegurança, alegria, entusiasmo — afetos que atravessam a docência e a formação, mas que nem sempre têm espaço para emergir em propostas mais tradicionais. Ao valorizar esses afetos e escutá-los como parte da formação, deslocamo-nos de uma lógica produtivista e instrumental para uma perspectiva mais sensível e humanizada da aprendizagem docente. Desse modo, as narrativas revelaram na composição de várias vozes um projeto de intervenção intitulado “ Se o eu fosse substituído por nós – Uma proposta de formação docente em redes narrativas nas escolas municipais de Salvador. A construção de uma cultura de colaboração nesta rede não é apenas um desejo, mas uma necessidade. Para a professora Dalila, é imprescindível criar uma cultura de escuta. Esse tempo espaço de escuta para qualquer profissional da educação, ele precisa existir de maneira permanente, justamente porque quando a gente ouve o outro falando, o parceiro que está na mesma lida que eu estou, é diferente. Um espaço de troca que oxigena a prática, dá um ânimo, uma potência para as diversas práticas. Funciona como um incentivo para aprender e contribuir com os outros. Isso envolve lidar com a autoestima do professor e a sua valorização. (Professora Dalila) Apresentamos a proposta de uma Política de Formação por meio de uma atividade bianual de diálogo que é a realização de um Congresso Municipal de Narrativas Docentes para a Rede Municipal de Ensino de Salvador construído a partir das narrativas, relatos de experiências e compartilhamentos de práticas de formação dos profissionais desta rede, em diálogo com outras redes e compondo novas redes. Considerações finais Esta pesquisa possibilitou um mergulho sensível e comprometido na formação docente, a partir da escuta das narrativas de educadoras da Rede Municipal de Salvador. Foi a partir da escuta e da presença nos encontros que conseguimos compreender e sentirpensar com os sujeitos, no desejo de construir outros modos de fazer formação. As vozes que compuseram as Rodas de ConversAções teceram sentidos sobre suas práticas, revelando que a formação não pode ser separada da experiência, da história e da subjetividade de quem ensina. A utilização da narrativa como método e como experiência formativa possibilitou não apenas a produção de conhecimento sobre a formação docente, mas também a produção de si, em um movimento ético, estético e político. A pesquisa revelou, portanto, que a formação continuada pode ser lugar de reencantamento com a docência, de reconstrução de sentidos e de afirmação de autorias. Escolher as narrativas como modo de fazer pesquisa foi também um gesto de anúncio: o de potencializar as vozes, autorias e vivências na formação docente. Assim, a Unimultiplicidade não apenas fundamentou o percurso investigativo, como também forjou a concepção do Projeto de Intervenção, orientado pela ideia de que um são todos e todos um. Afirma-se uma ética do encontro e da horizontalidade, na qual narrar-se e ouvir o outro se tornam práticas formativas e políticas. Se o 'eu' fosse substituído por 'nós', é uma propositura para se reconfigurar os modos de formar e de existir na educação básica, deslocando-nos de práticas solitárias e fragmentadas para experiências coletivas, dialógicas e autorais. Nasce justamente desse desejo de criar redes de autoria e escuta, onde cada fio-voz seja reconhecido como produtor de sentidos, saberes e transformações. REFERÊNCIAS CLANDININ, D.J.; CONNELLY, F. M. Pesquisa Narrativa: Experiência e História em Pesquisa Qualitativa. Uberlândia: EDUFU, 2015. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs 1: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Ed. 34/1995. FONTOURA, Helena Amaral da. Tematização como proposta de análise de dados na pesquisa qualitativa. In: FONTOURA, H. A. (Org.) Formação de professores e diversidades culturais: múltiplos olhares em pesquisa. Niterói: Intertexto, 2011. MORAES, M. C.; TORRE S. Sentipensar sob o olhar autopoiético: estratégias para reencantar a educação. 2018. MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015. PÉREZ GÓMEZ, A. O pensamento prático do professor: formação do professor como profissional reflexivo. In: NÓVOA, A. (Coord) Os professores e sua formação. Lisboa: Dom péQuixote, 1995. Disponível em: :
https://pt.scribd.com/document/413673640/Os-Professores-e-a-Sua-Formacao Acesso em: 15/06/2023. SCHÖN, Donald A. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2000.