Cinema e intermidialidade na aula de arte: uma janela para ver e reinventar o mundo

- 215839
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo
CINEMA E INTERMIDIALIDADE NA AULA DE ARTE: UMA JANELA PARA VER E REINVENTAR O MUNDO INTRODUÇÃO Esse trabalho apresenta um recorte de minha pesquisa atual no doutorado, que realizo em um Programa de Pós-Graduação em Educação. O tema da pesquisa surgiu a partir de meu interesse na abordagem do cinema no ensino de arte. Ao combinar imagens em movimento com sons, um filme mobiliza os sentidos de modo que sempre há algo novo a descobrir-se nele. Essa característica cativante do cinema o torna extremamente único e potente. Ver um filme estimula criatividade e sensibilidade no espectador. A intensidade da presença do concreto como conteúdo e suporte da imagem potencializa uma espectatorialidade assimilativa e apropiadora. O ensino de arte compreende diversas possibilidades de leituras de mundo por meio de imagens artísticas. Se a educação é uma janela que revela uma parcela de um panorama mais abrangente a ser descoberto, a imagem artística evidencia como um fragmento emoldurado de uma perspectiva mais ampla resulta da sensibilidade de um olhar que transforma o ato de observar em possibilidades de produção de conhecimento. A composição de uma imagem é produto de observação crítica, na qual o autor imagina e reinventa a partir do que examina e descobre. Toda obra visual apresenta uma moldura disposta sobre o que se vê, como resultado de uma percepção sensível particular que atua sobre uma compreensão do mundo ao redor (Pontes; Souza; Leal, 2022). O cinema potencializou a concepção, da pintura, de um recorte da realidade que motiva contemplação, reflexão e produção de sentido a partir do olhar. Ele é uma janela que dispõe uma pluralidade de modos de reinventar o que se vê, o que se vivencia e de evidenciar o que ainda não se conhece. Ele pode atuar, no ensino de arte, como mobilizador e catalisador de um olhar sensível no estudante, como o olhar criador do artista, que possibilita a criação de composições carregadas de uma poética visual sobre diferentes narrativas. A amplitude da estética audiovisual pode estimular os estudantes a “olharem” de forma mais atenciosa para suas vivências e aspectos socioculturais de seus entornos. A realidade virtual (RV), que pode ser considerada como um formato tecnológico renovado do cinema, alcançou um nível de imersão, que esse jamais alcançou. Ela amplia e dispõe um novo sentido para a imagem como uma janela. A imersão da experiência coloca o indivíduo dentro da imagem, que se expande à sua volta. Surge a seguinte questão: um diálogo intermidiático, com base no uso do cinema e da RV, pode contribuir para uma atualização tecnológica e imersiva do ensino de arte? A pesquisa objetiva, desse modo, conjecturar como uma pedagogia intermidiática pode ser desenvolvida, a partir de uma perspectiva artística do cinema, em suas etapas de fruição, produção e exibição, em prol de um ensino artístico mais envolvente. Exalta-se, também, que busca-se uma abordagem que aspira a uma compreensão das tecnologias educacionais, de maneira a evitar uma polarização entre um temerário fetichismo tecnológico e uma descomedida tecnofobia (Saito; Ribeiro, 2013). A experiência do sentir/estar na imagem instiga uma leitura, cuja percepção pode consistir em uma compreensão mais subjetiva do mundo em redor. A RV pode gerar uma leitura de natureza mais emancipatória na presentificação da imagem por meio de uma percepção identitária. A leitura da imagem estaria vinculada a percepções distintas, tal como artistas ao criarem suas obras (Axt; Schuch, 2001). Essa pesquisa surgiu durante as práticas pedagógicas que partiram de vivências de longa data e que por meio de associações foram produzindo movimentos de atravessamento e convergência em direção a este trabalho. A ressignificação de vivências e percepções pela apropriação da linguagem do cinema desenvolve um significante a partir dos rastros das imagens audiovisuais produzidas pelos estudantes. Assim, é possível analisar o tema desse estudo a partir de uma metodologia propícia a uma construção fundamentada nas abordagens intermidiáticas realizadas na aula de arte, pois os “assuntos escolares surgem de necessidades práticas e apenas posteriormente devem assumir formas abstratas mais avançadas” (Lopes; Macedo, 2011, p. 24). METODOLOGIA Adota-se, neste sentido, o método autobiográfico de currere em vista a investigar o tema de forma reflexiva a partir de experiências vividas pelo pesquisador, mediante sua posição de protagonista em práticas audiovisuais pedagógicas presentes e futuras. Dessa maneira, visa-se problematizar abordagens e práticas intermididiáticas que possam contribuir com o desenvolvimento da pesquisa. O método currere “pede-nos que abrandemos, que nos recordemos e até reentremos no passado e que imaginemos o futuro de forma meditativa” (Pinar, 2007, p. 21). Ressalta-se, também, que este trabalho apoia-se em uma metodologia qualitativa de pesquisa exploratória que objetiva desenvolver uma pesquisa bibliográfica de estudos e discussões sobre o tema do uso do cinema e da RV didaticamente na arte-educação. A pesquisa utiliza duas fontes: bibliográfica (impressa e eletrônica) e documental, em plataformas acadêmicas como o Google Acadêmico, e plataformas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). RESULTADOS PARCIAIS E DISCUSSÃO O cinema pode ser, para os estudantes, como uma janela fomentadora do princípio de uma percepção sensível e criativa. O processo de materializar a substância mental da criação em imagens e sons pode encadear a ampliação da experimentação artística em diversas outras linguagens. A janela pode ser o começo de tudo. A abertura para um mundo de criação imagético. “(...) a construção do ponto de vista se constitui entre o nosso modo de ver, que recorta a percepção a partir de necessidades, de desejos, de memórias, de afetos, de condição sociopolítica, etc e o filme como produto das intenções concebidas na sua criação (Fresquet, 2014, p. 75). A partir de experiências realizadas em aula, percebe-se o diálogo intermidiático entre pintura, cinema e RV como um conjunto de “(...) novas relações entre visualidade e experiência” (Crary apud Barbosa, 1998, p. 149). Cita-se, como exemplo, uma abordagem da arte metafísica de Giorgio de Chirico, tema do filme “Enigma de um dia” (1996), de Joel Pizzini e da RV “Surrealista - A canção de amor - Tributo a Giorgio de Chirico” (“Surrealista - The song of love - Tribute to Giorgio de Chirico”) (2020), de Carlos Monteiro. Em ambos, a imersão do personagem, que “entra” na obra, reflete o aspecto onírico da pintura. A espectatorialidade de cada um valoriza a potencial singularidade que reside na experiência estética de cada suporte. Diante disso, os estudantes puderam assimilar conceitos de montagem audiovisual e da estética da arte metafísica de ressignificação do cenário, com base em pontos de vista e contemplação. Eles criaram filmes, transformando essas dimensões da forma e proporcionando um sentido com base em uma apropriação artística. Os temas foram guiados por sensações e percepções incorporadas de cada suporte: um desenho de um garoto, feito no quadro, sai do suporte bidimensional e ganha “vida”. Crianças andam pelo pátio e contempla partes da escola que não recebem atenção no dia a dia, como as pequenas grades de ventilação do porão. Uma combinação de planos reinventou a estrutura da escola ao fazer a câmera deslocar-se do banheiro para o corredor ao “entrar” no espelho. Uma estátua em um museu ganha vida ao ser cutucada várias vezes por uma visitante. Um garoto “mergulha” em um desenho do fundo do mar, feito no quadro, que transforma a sala em um cenário marítimo. Cada grupo conduziu a produção de seu filme por meio do atravessamento proporcionado pela intermidialidade entre os meios apreciados. A magia do cinema pode revigorar o potencial da expressão artística, por meio de uma janela que possibilita enxergar para além do que se vê. Como um fazer artístico, com base em uma ressignificação, por meio do registro audiovisual, de forças invisíveis ao redor. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao analisar-se os filmes dos estudantes, percebe-se que há uma potência criativa na tensão entre efeitos de presença pertinentes à sensibilidade dos estudantes e efeitos de sentido relativos ao material das obras apreciadas, conferindo a aura da experiência estética à espectatorialidade imersiva. Quando o estudantes é encorajado a desenvolver seu imaginário, a partir de reflexões contextualizadas da experiência estética do contato com a arte e das múltiplas possiblidades de observação sobre si e seu entorno, estimula-se seu pensamento cognitivo. Pois a materialização do pensamento criativo é uma forma de manifestação reflexiva e crítica como forma de resistência a um crescente neoconservadorismo no mundo e que ameaça a própria escola. REFERÊNCIAS AXT, M.; SCHUCH, E, M. M. Ambientes de realidade virtual e educação: que real é este?. Interface - Comunição, saúde, educação, Botucatu, v.5, n.9, p.11-30, 2001. BARBOSA, A. M. Tópicos utópicos. Belo Horizonte: Arte & Ensino, 1998. FRESQUET, A. Princípios e propostas para uma introdução ao cinema com professores e estudantes: a experiência do CINEAD/UFRJ. In: BARBOSA, M. C. S. (org.) Escritos de Alfabetização Audivisual. Porto Alegre:Libretos, 2014. LOPES, A.; MACEDO, E. F. Teorias do currículo. São Paulo: Cortez, 2011. PINAR, W. F. O que é a teoria do currículo? Porto: Ed. Porto 2007. PONTES, G. M. D.; SOUZA, R. G. P.; LEAL, F. L. A. Crianças e arte: encontros para abrir as janelas à dimensão estética da prática docente. Zero-a-Seis, Florianópolis, v. 24, n. 46, p. 1069-1086, jul./dez., 2022. SAITO, F. S.; RIBEIRO, P. N. S. (Multi)letramento(s) digital(is) e teoria do posicionamento: análise das práticas discursivas de professoras que se relacionaram com as tecnologias da informação e comunicação no ensino público. RBLA - Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Belo Horizonte, v. 13, n. 1, p. 37-65, 2013.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eixo Temático
  • GT24 - Educação e Arte