DISPUTANDO OUTRAS FANTASIAS NAS POLÍTICAS DE CURRÍCULOS A incorporação dos registros pós-estruturais[1] e pós-fundacionais[2] nas teorizações sobre políticas de currículo possibilitam outras formas de produção de conhecimento, que apostam na radicalização das disputas discursivas e que não recorrerem às dimensões universalistas e essencialistas de pensamento. Essas outras formas de leitura do social, implicam em mudanças epistemológicas e ontológicas em nossas pesquisas, que nos permitem desconstruir a racionalidade dicotômica, dando mais ênfase nos fluxos e nas mobilidades, apontando assim para outras formas de conceber as relações sociais nas políticas curriculares. Pensando nessas outras possibilidades de produção de conhecimento, este trabalho propõe uma discussão teórica sobre como a perspectiva pós-estrutural e pós-fundacional possibilitam disputar outros sentidos nas políticas de currículo. Em diálogo com a psicanálise, assumimos também a noção de fantasia para produzir outros sentidos nas políticas de currículo, que acolham a fantasia como mobilizadora de experiências abertas aos afetos e o político como um campo em constante negociação (Bogéa, 2020). Lopes e Mendonça (2015, p. 9), argumentam que essa incorporação possibilita questionar “o realismo, o objetivismo e o determinismo na interpretação do social”, auxiliando também na problematização das questões em torno do ideal de sujeito moderno, das estruturas autoexplicativas e da fluidez dos processos de significação, contribuindo assim para a abertura da produção de sentidos na política e no político[3]. Apesar da força dos pressupostos modernos, acreditamos que o exercício de desestabilização dessa racionalidade, principalmente no que tange as questões educacionais e curriculares é, não só importante como desejável, pois abrem possibilidades outras de produção de sentidos para o que socialmente está “dado”. Por exemplo, a descoberta do inconsciente por Freud e a desestruturação da unidade do signo linguístico feita por Lacan, são contribuições importantes para as questões relacionadas ao descentramento do sujeito moderno, a crítica à ideia de consciência humana, essência e autonomia. A partir dessas teorizações, as demandas da diferença e suas diversas articulações ganham espaço, as bandeiras de muitos projetos unívocos começam a ser questionadas, sendo reconfiguradas como particulares que se universalizam ao passo que seus sentidos provisórios e contingentes são constantemente negociados, produzindo fixações provisórias (Lopes; Mendonça, 2015). Afetos, fantasias e outras possibilidades de significação Segundo Williams (2013), a influência e a incorporação das noções psicanalíticas as teorizações pós-estruturais foram extremamente importantes, possibilitando outras formas de desestruturar os discursos da racionalidade moderna. As noções de afeto, pulsão, gozo e alucinação, por exemplo, são profundamente inventivas nesse exercício e amplamente articuladas nos trabalhos de Laclau e Mouffe. Bogéa (2020, p. 24), ao argumentar sobre as contribuições das categorias psicanalíticas para a teorização política, afirma que, de maneira geral, as questões sobre “a alucinação, o delírio, o sonho, a fantasia e mesmo a imaginação” são comumente associadas àquilo que se opõe a ideia de conhecimento. Mas, as contribuições de Freud vêm nos mostrar que o “aparelho psíquico regido pelo princípio do prazer é extremamente alucinatório” (Ibidem). E essa expectativa incessante pela felicidade, pode tomar caminhos muito diferentes e complexos em busca desse gozo absoluto, que, ao mesmo tempo, é inalcançável, ou seja, “nenhum desses caminhos nos levará a tudo que desejamos” (Freud, 1974, p. 102). Essa impossibilidade de alcançar o princípio do prazer não anula a ânsia por desejá-lo, mas, o desejo, “por não se tratar de “algo” realmente existente em qualquer tempo ou lugar, não pode não ser regida pela fantasia” (Bogéa, 2020, p. 25). Indicando assim uma indissociabilidade entre princípio do prazer e fantasia. Acreditamos que pensar nessas contribuições é apostar em uma abertura ontológica diferente, que articulada com a fantasia e o gozo, nos dizeres lacanianos, coloca-nos como desafio, problematizar como as fantasias são construídas nos discursos messiânicos para a educação, por meio das políticas de currículo. Concordo com Borges e Lopes (2015, p. 493) quando afirmam, baseadas na teorização lacaniana e criticando os essencialismos das identidades, que “o sujeito, e também qualquer identidade, se constitui exatamente numa condição em que a plenitude não se realiza nem precisa ser realizada”. Nesse sentido, a educação, então, pode ser entendida como a solução fantasiosa para todos os problemas e a respostas para todas as crises. Corroborando com essa discussão, Macedo (2013, p. 437) argumenta que, a utopia da sociedade harmônica projetada pela racionalidade moderna produz a crise “como oportunidade de questionamento de velhas hegemonias e construção de um novo projeto de sociedade” e o currículo funciona como mecanismo de controle e reafirmação desses novos projetos. No âmbito das políticas curriculares, a descrição de um sistema educacional em crise tem fortalecido discursos que endereçam fortemente os sujeitos, reforçando a educação como solução para todos os problemas sociais (Macedo, 2013). Pois, no que tange à teoria, o controle da significação propicia um estreitamento de suas próprias possibilidades, na medida em que direciona o que pode ser pensado. O neoconservadorismo, por exemplo, é um movimento que vem ganhando força no Brasil desde de 2019 e, acompanhado por movimentos neoconservadores ao redor do mundo, tem produzido uma série de articulações políticas em torno do que se entende por educação, escola, currículo, família, etc. e o que ela deveria ser. As questões ligadas a Escola Sem Partido (ESP) e os discursos sobre “ideologia de gênero”, por exemplo, são disputas políticas que tem como objetivo alcançar um “ideal” social, livre dos males e de qualquer coisa que possa atrapalhar esse projeto. Existem, portanto, diversos anseios fantasiosos em nossa sociedade, “fantasias de poder absoluto” (Bogéa, 2020, p. 25), da representação plena, de uma sociedade sem guerras, de um futuro promissor graças a ciência, fantasias de um céu livre de dor e sofrimento, de uma educação que dará conta de tudo, que será “neutra”, etc. Partindo dessas articulações teóricas e entendendo que essas fantasias sempre nos acompanham, torna-se importante nos questionarmos sobre quais fantasias temos depositado nossas mobilizações. Se essas fantasias estão desconstruindo fórmulas salvacionistas para erradicar problemas educacionais, problematizando as tentativas violentas de controle dos corpos e o silenciamento das diferenças. Esses outros possíveis trazidos pelas contribuições pós-estruturalistas e pós-fundacionais, em conjunto com a psicanálise, não pretendem avaliar o passado em nome de uma nova verdade. Concordamos com Foucault (2010), quando afirma que é de bom ton fazer oposição e lutar contra a coerção de um discurso que se pretende unitário, formal, científico e verdadeiro. Não se trata, portanto, de enunciar aqui as últimas verdades ou as melhores teorizações sobre as políticas de currículo, mas de trazer noções e provocações que nos permitam, de novo, desalojarmo-nos de nossas certezas, para exercer o olhar desacostumado e transver o mundo, como diria Manoel de Barros (1996). Considerações Este trabalho teórico apostou na inventividade das contribuições dos registros pós-estruturais e pós-fundacionais na teoria curricular, problematizando algumas reverberações produzidas pela racionalidade moderna, investindo também, a partir das contribuições da psicanálise, na noção de fantasia para pensar outras possibilidades nas políticas de currículo. Sabendo que desconstruir tal racionalidade, também implica em assumir esta mesma racionalidade como um conjunto de discursos articulados por meio de diferentes práticas hegemônicas, e como exercício constante em nossa trajetória intelectual (Lopes; Macedo, 2011). Seguimos apostando nas possibilidades outras de mobilização, no poder das ideias (Mouffe, 2015), nas fantasias que acreditam no investimento em outras concepções de mundo, povoadas de imprevisibilidades, de movimentos únicos, de vibrações e variações. Disputando sentidos outros de currículo, de democracia, educação e política, que sejam mais abertas as vidas e sujeitas aos afetos, como algo que precisar ser incessantemente redefinido em função dos encontros, da vulnerabilidade que acompanha quem se furta as expectativas e se abre ao Outro. Referencias BARROS, M. de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996. BOGÉA, Diogo. Metafisica da soberania e da representação política. Pensamento – Revista de Filosofia Vol. 11, Nº 22, 2020. Disponível em:
https://revistas.ufpi.br/index.php/pensando/article/view/5941/6102 BORGES, Veronica.; LOPES, Alice. Formação docente, um projeto impossível. Cadernos de Pesquisa v.45 n.157 p.486-507 jul./set. 2015. Disponível em:
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http://www.fpce.up.pt/ciie/sites/default/files/02.AliceLopes.pdf. LOPES, Alice C.; MENDONÇA, Daniel de. Conversas com Ernesto Laclau. In: LOPES, Alice C.; MENDONÇA, Daniel de. A teoria do discurso de Ernesto Laclau. Ensaios críticos e entrevistas. São Paulo: Annablume, 2015. p. 09 - 14. LOPES, Alice Casimiro & MACEDO, Elizabeth. Conhecimento. Teorias de Currículo. São Paulo: 2011. MACEDO, Elizabeth. A noção de crise e a legitimação de discursos curriculares. Currículo sem Fronteiras, v. 13, n. 3, p. 436-450, set./dez. 2013. Disponível em:
https://www.curriculosemfronteiras.org/vol13iss3articles/emacedo.pdf MOUFFE, Chantal. Sobre o Político. São Paulo WMF e Martins Fontes, 2015. PETERS, Michael. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença: uma introdução. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. WILLIAMS, James. Pós-estruturalismo. Tradução: de Caio Liudvik. 2. Ed. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2013. [1] Segundo Peters (2000), o pós-estruturalismo pode ser entendido como um movimento de suspeita das ideias de consciência do sujeito, do eu racional e objetivo, das verdades universais sobre o mundo enunciadas pela filosofia humanista. Também pode ser caracterizado como um movimento de pensamento que questiona os pressupostos universalistas e de autoconhecimento do sujeito, descentrando-o e rejeitando formas de representação modernas. [2] Lopes (2013), argumenta que pós-fundacionalismo é entendido como uma reação à dispersão, ao caráter anti-fundacionalista pós-moderno. Ao invés de rejeitar os fundamentos, o pós-fundacionalismo defende a consideração deles como contingentes, precários e pressupõe uma fixação provisória de fundamentos que são entendidos também como instáveis. O que se nega no pós-fundacionalismo é a existência de “um fundamento a partir do qual todos os conteúdos do social obtêm um sentido preciso” (Laclau, 2011, p. 132). Ainda no âmbito do pós-fundacionalismo, é desenvolvido o pós-marxismo, que pode assumir um registro mais geral com autores como Hall, quanto pode assumir a teoria do discurso com Laclau e Mouffe. O marxismo é reconfigurado com os pressupostos pós-estruturais e, ao mesmo tempo, “inscreve-se no registro da esquerda que busca um caminho capaz de manter aberta a possibilidade dos ideais anti-capitalistas de Marx, de uma aposta em alguma forma de justiça social e democracia” (Lopes, 2013, p. 17). [3] Baseado em Mouffe (2015), consideramos importante destacar a diferença entre “política” e “político”, pois me apoio nas noções da autora neste ensaio. Para Mouffe (2015, p. 7), essa distinção está relacionada a duas diferentes formas de abordagem: “o da ciência política, que lida com o campo empírico da “política”, e o da teoria política, esfera de ação dos filósofos, que não investigam os fatos da “política”, mas a essência do “político””. Nesse sentindo, a autora argumenta que a política tem a ver com a dimensão “ôntica”, enquanto “o político” se referente a dimensão “ontológica”.