AÇÕES E OPERAÇÕES DESENVOLVIDAS NO PROCESSO DE ELABORAÇÃO DE UMA SITUAÇÃO DESENCADEADORA DE APRENDIZAGEM

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Resumo
AÇÕES E OPERAÇÕES DESENVOLVIDAS NO PROCESSO DE ELABORAÇÃO DE UMA SITUAÇÃO DESENCADEADORA DE APRENDIZAGEM Resumo: Esta pesquisa apresenta o recorte de um estudo em nível de Doutorado em desenvolvimento. O objeto de estudo centra-se nas ações e operações realizadas por professores ao elaborarem uma Situação Desencadeadora de Aprendizagem (SDA) no contexto da formação continuada. A questão que norteará o estudo é: quais ações e operações são realizadas por professores em formação contínua no processo de elaboração de uma SDA sobre o conceito de fração em nível teórico? Para encontrar respostas à questão e ampliar a compreensão acerca do objeto, o estudo tem como base a Teoria Histórico-Cultural (THC) de Vygotsky, a Teoria da Atividade (TA) de Leontiev, a Teoria do Ensino Desenvolvimental (TED) de Davidov e a Atividade Orientadora de Ensino (AOE) de Moura. Palavras-chave: formação continuada; frações, atividade orientadora de ensino. Introdução O presente projeto é elaborado com um olhar crítico em relação ao desenvolvimento do pensamento empírico predominante no modo de organização do ensino de Matemática tradicionalmente desenvolvido na educação escolar brasileira. É preciso ultrapassar os métodos que priorizam a memorização e a repetição. Assim, a organização do ensino deve ser pensada com os sujeitos em atividade, que interagem com o mundo. O ensino ancorado nesta perspectiva gera necessidade, motivo e ações, bem como revela a construção histórica do conceito construído pela humanidade (Rosa; Moraes; Cedro, 2022, Lopes et al., 2022). Uma das possibilidades de organizar os processos de ensino e aprendizagem em nível teórico é com base na AOE, uma proposição brasileira de Moura e seguidores, que apresenta seus fundamentos basilares na Teoria Histórico-Cultural (THC) de Vigotski, na Teoria da Atividade (TA) de Leontiev e na Teoria do Ensino Desenvolvimental (TED) de Davydov. A AOE tem como elementos – necessidades, motivos, ações e operações – que possibilitam estabelecer a mediação entre a atividade de ensino e a atividade de aprendizagem (Moura et al., 2010). Esses elementos se mobilizam inicialmente por meio de Situações Desencadeadoras de Aprendizagem (SDAs). Assim, esta pesquisa tem por objetivo investigar quais ações e operações são realizadas no processo de elaboração de uma SDA, sobre o conceito de fração em nível teórico, por professores em formação contínua. Para atingir o objetivo, nossa hipótese está na compreensão de que a formação de professores e pesquisadores, ancorada na THC, na TA e na AOE, conduz à elaboração de uma SDA a partir das ações e das operações elencadas na figura abaixo: Figura 1 - Ações e operações - Elaboração Fonte: Elaboração própria, 2025. Metodologia A presente pesquisa adotou uma abordagem qualitativa e participativa, fundamentando-se no método materialista histórico e dialético, conforme sistematizado por Marx e Engels. Assim, no processo investigativo o pesquisador estará em constante participação com os integrantes dos grupos analisados, e os planejamentos e caminhos percorridos não serão guiados pelo pesquisador e sim pelo coletivo. A pesquisa está em desenvolvimento com professores, pesquisadores e acadêmicos de graduação, pertencentes a uma rede de grupos de pesquisa. Os dados estão sendo coletados a partir de registros das interações nos encontros síncronos dos grupos de estudo, incluindo gravações de vídeo e áudio; transcrições das reuniões; e materiais produzidos pelos grupos participantes (textos, slides, esquemas e documentos diversos). As SDAs na formação do professor que ensina matemática As SDAs têm contribuído para a atividade de ensino de professores. Muitos trabalhos do grupo GEPAPe em rede têm apresentado elementos e discussões que destacam a importância desse recurso no processo de formação de professores que ensinam matemática. O professor de Matemática é “[...] o sujeito que domina o conteúdo, mas é, sobretudo, o que tem a visão estratégica de sua ação no projeto de ensino da escola em que a Matemática tem um determinado valor cultural e formativo [...]" (Moura, 2000, p.126). Além disso, uma formação docente pautada no desenvolvimento de SDAs pode superar o que aponta Sousa (2014, p. 62): “Se, a escola não orienta a formação do pensamento teórico, ao insistir numa didática empírica de matemática, continuaremos a assistir ao fenômeno de seletividade: uma minoria reduzida entendendo matemática”. Moura (2024, p. 25) acrescenta: É por isso que nos cursos de formação de professores temos a obrigação de experimentar o processo de produção dos conceitos, e também aprofundar os conhecimentos sobre a atividade, que possibilita a apropriação dos conceitos científicos, e, de modo geral, da cultura humana, sem dor, sem medo (Moura, 2024, p. 25). Ao refletir sobre o exposto pelos autores, vislumbramos, nas SDAs, potenciais para a construção de um espaço formativo voltado à elaboração de conceitos científicos e à compreensão dos processos de abstração e generalização. As Situações Desencadeadoras de Aprendizagem e o ensino de fração O ensino de Matemática, historicamente, é marcado por uma desarticulação com o movimento lógico-histórico. Situação não diferente acontece com o ensino de frações, o qual frequentemente é abordado de maneira empírica, com práticas pedagógicas tradicionais. Santos (2015) aponta, em seus estudos, que "[...] a maioria dos estudantes, de diferentes níveis de ensino, não compreende fração para além da relação direta com a representação visual empírica de algo, razão e proporção" (Santos, 2015, p. 7). Romeiro e Moretti (2021, p.468) destacam que o ensino do conceito de fração fica limitado “ao significado de parte-todo, na qual a quantificação discreta é privilegiada”. O ensino de frações, ao longo da história, tem se mantido restrito a abordagens empíricas e práticas pedagógicas tradicionais, desarticulado do movimento lógico-histórico, o que acarreta dificuldades na compreensão do seu conceito teórico. Powell (2018) argumenta que tais dificuldades possuem uma causa ontológica, pois "baseiam-se nas teorizações a-históricas dominantes das frações que estão na base das propostas curriculares atuais", e uma causa epistemológica, pois "originam-se da negligência instrucional em capacitar os alunos a produzirem sentido para o conceito de número fracionário" (Powell, 2018, p. 400, tradução nossa). As SDAs apresentam-se como um caminho promissor para superar as limitações da abordagem tradicional, resgatando a lógica histórico-cultural do conceito. Assim, a superação das dificuldades nos processos de ensino e aprendizagem de frações passa pela adoção de estratégias que favoreçam a generalização e a abstração em nível teórico, tal como propõe a AOE. Considerações finais A presente pesquisa visa contribuir com as reflexões realizadas acerca das ações e operações desenvolvidas por um coletivo, no processo de elaboração de uma SDA. Além disso, possibilitará discussões sobre os processos de estruturação do pensamento teórico de conceitos matemáticos e ampliará os estudos sobre o tema com pesquisadores da AOE. Como primeiros resultados, percebemos que os participantes da formação se encontram em processo de construção de sua identidade coletivista. Estão em busca das necessidades dos sujeitos envolvidos e estabelecendo planos de ações e operações por meio da seleção e sínteses dos textos discutidos, ou seja, dão indícios de que cada participante começa a perceber seu papel na formação do coletivo. Nossa compreensão é de que uma formação continuada de professores, ancorada na THC e na AOE, organizada de forma coletiva e materializada por meio de SDA, contribuirá para a compreensão das ações e operações desenvolvidas para a elaboração de uma SDA e a superação do pensamento empírico, tradicionalmente presente no ensino de Matemática, auxiliando a formação do conceito teórico de fração. Referências LOPES, A. F. et al. Atividade de Ensino e Atividade de Aprendizagem. In: PANOSSIAN, M. L; OLIVEIRA, N. M. (Org). Verbetes da atividade orientadora de ensino: grupo de estudos sobre situações desencadeadoras de aprendizagem. Capivari de Baixo: Editora Univinte, 2022. p. 51-55. MOURA, M. O. Possibilidades da formação docente: as especificidades do Clube de Matemática e da Oficina pedagógica de Matemática. In: SILVA, M. M. (Org.). Professores que ensinam matemática desafios e possibilidades da formação inicial e continuada. Curitiba: CRV, 2024. p. 15-31. MOURA, M. O. O educador matemático na coletividade de formação: uma experiência com a escola pública. 2000. Tese (Livre Docência) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000. MOURA, M. O. et al. Atividade orientadora de ensino: unidade entre ensino e aprendizagem. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 10, n. 29, p. 205-229, jan./abr. 2010. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/1891/189114444012.pdf. Acesso em: 21 fev. 2025. POWELL, A. B. Recuando para avançar: rumo a uma abordagem do século XXI para conhecimento de fração com o Modelo-4A de Instrução. Perspectiva, Florianópolis, v. 36, n. 2, p. 399–420, 2018. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/view/2175-795X…. Acesso em: 05 fev. 2025. ROMEIRO, I. de O.; MORETTI, V. D. Partes, medidas e frações equivalentes: o movimento do pensamento teórico de professores que ensinam matemática. Obutchénie. Revista de Didática e Psicologia Pedagógica, Uberlândia, v. 5, n. 2, p. 458–483, 2021. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/Obutchenie/article/view/61410. Acesso em: 10 fev. 2025. ROSA, J. E.; MORAES, S. P. G; CEDRO, W. L. A formação do Pensamento teórico. In: MOURA, M. O. (org.). A atividade pedagógica na teoria histórico-cultural. Campinas: Autores Associados, 2022. p. 127-144. SANTOS, C. O. A compreensão do conceito de fração. In: I SEMINÁRIO DE EDUCAÇÃO, CONHECIMENTO E PROCESSOS EDUCATIVOS. Criciúma, SC: UNESC, 2015. 7 p. Anais [...]. Criciúma, 2015. Disponível em: https://periodicos.unesc.net/ojs/index.php/seminarioECPE/article/view/2…. Acesso em: 02 ago. 2024. SOUSA, Maria Do Carmo de. O Ensino de Matemática da Educação Básica na Perspectiva Lógico-Histórica. Perspectivas da Educação Matemática, [S. l.], v. 7, n. 13, p. 60-83, jun. 2014.

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