A RELAÇÃO ENTRE AS HIPÓTESES DE ESCRITA E HABILIDADES DE CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA REVELADAS POR CRIANÇAS NO FINAL DA EDUCAÇÃO INFANTIL Introdução A aprendizagem da leitura e escrita vem sendo um tema bastante discutido na Educação Infantil. De um modo geral, há o consenso sobre a importância das interações e usos das crianças, considerando diferentes gêneros textuais, mas há muitas divergências quanto à aprendizagem do sistema de escrita alfabética (doravante, SEA) nessa faixa etária. Com isso, observamos por um lado, que a nossa Base Nacional Comum Nacional (2017) e as Diretrizes curriculares para a Educação Infantil (2009) pouco discutem sobre o tema. Por outro lado, observamos um acesso crescente de adoção de materiais didáticos nas redes públicas, baseados nos métodos tradicionais, o que vem reforçando práticas em torno da alfabetização que desrespeitam o processo de apropriação vivido pelas crianças. Neste sentindo, consideramos que a discussão sobre o tema é fundamental. Assim como Soares (2020), consideramos que o “período de alfabetização” vai dos quatro aos oito anos de idade. A compreensão da escrita alfabética envolve diferentes conhecimentos e entender o processo de aprendizagem das crianças nessa área é fundamental para o questionamento de materiais frágeis e para alcançarmos o planejamento de práticas significativas, que respeitem a infância e os ritmos de cada criança. Ferreiro e Teberosky (1979) demonstraram a importância de reconhecermos a escrita alfabética como um sistema notacional, desenvolvendo a teoria da psicogênese, que aponta a necessidade de considerarmos que a criança passa por um processo de reconstrução desse sistema, que consiste na compreensão do seu processo de construção e suas regras de produção. Morais (2012), destaca que, ao aprender esse sistema, as crianças dão conta de princípios conceituais e convencionais. Alguns desses princípios relacionam-se com o que denominamos como Consciência fonológica, a qual envolve um amplo conjunto de habilidades utilizadas pelas pessoas para operar sobre os segmentos sonoros das palavras. De acordo com Freitas (2004) e Morais (2019), essa operação é consciente, por isso o seu funcionamento é metafonológico. Porém, a complexidade dessas operações é diferente, dependendo do tipo de segmento oral, da posição desse segmento na palavra e das operações mentais que precisam ser realizadas para refletir (Morais, 2019). O cenário atual indica a ausência de consenso nas discussões sobre o papel da consciência fonológica no processo de alfabetização. Alguns estudos realizados com crianças menores de seis anos, ao priorizarem a compreensão de algumas habilidades, resultaram em diferentes posicionamentos em torno desse tema. A Consciência fonológica seria: 1) um fator causal da alfabetização; 2) uma consequência da alfabetização 3) um facilitador da alfabetização (MORAIS, 2019, p. 47) Os posicionamentos listados, tratam a consciência fonológica como “habilidade única” e acabam reduzindo a problematização em torno do tema, o que pode resultar em uma compreensão equivocada sobre a importância e os limites da Consciência fonológica para o processo de alfabetização. Podemos citar como exemplo, o posicionamento da Política Nacional de Alfabetização (2019), que esteve em vigor entre aquele ano e 2023, e reduzia a consciência fonológica à consciência fonêmica. Por outro lado, nos estudos iniciais envolvendo a psicogênese de escrita, poucas análises foram feitas em torno do papel das diferentes habilidades de Consciência fonológica na apropriação do SEA. No entanto, estudos como Morais (2012, 2019), Aragão e Morais (2020), Leite (2011) vêm discutindo como as diferentes habilidades de consciência fonológica se relacionam com as hipóteses de escritas. Neste sentido, o presente estudo busca compreender o processo de apropriação do SEA entre crianças no final da Educação Infantil de classes sociais distintas. De um modo específico, buscamos analisar a relação entre as hipóteses de escrita e as habilidades de Contar as sílabas de palavras; Identificar palavras com a mesma sílaba inicial e Identificar palavras que rimam. Metodologia A presente pesquisa foi realizada em três turmas da Educação Infantil: em uma escola particular (12 crianças) e em duas escolas municipais (12 crianças), da região metropolitana do Recife. Diante das semelhanças entre as escolas municipais, organizamos os dados em dois grupos: escola particular e públicas. As escolas foram selecionadas considerando o reconhecimento, pelos pares, de práticas pedagógicas que investiam na apropriação do sistema de escrita de uma forma significativa para as crianças. A pesquisa foi realizada durante dois anos, onde acompanhamos as práticas, para caracterizar as atividades feitas com as crianças, e realizamos atividades de diagnóstico em 4 momentos (março e novembro de cada ano) para acompanhar a evolução nas hipóteses de escrita e no desenvolvimento da consciência fonológica. Nas observações, notamos que a professora da escola privada, especialmente durante o segundo ano da coleta, quando as crianças tinham 5 anos, estimulou com frequência a escrita espontânea das crianças. Nas escolas públicas, as escritas foram feitas, em sua maioria, de forma coletiva, entre crianças e professoras, nos dois anos da coleta. A atividade de consciência fonológica explorada com mais frequência nas Escolas privada e públicas foi a identificação da quantidade de sílabas. As demais, foram observadas com menor frequência entre os dois grupos sociais. A forma de conduzir essas atividades, no entanto, apresentou algumas diferenças: na escola privada as crianças foram mais estimuladas a analisar e refletir sobre as habilidades, enquanto nas Escolas públicas, as perguntas eram feitas e respondidas logo em seguida pelas professoras. Durante os períodos citados, realizamos atividades com as crianças, individualmente, a partir de brincadeiras. Na atividade de notação, usamos um dedoche, para convidá-las a escreverem, e nas atividades de consciência fonológica as convidamos para brincarem de “mágica e detetive”. A atividade de notação escrita, foi realizada a fim de identificar as hipóteses das crianças, para auxiliar, usamos dedoches de animais para convidar cada criança para escrever 5 palavras (pipa, boneca, carro, peteca e dominó). Convidamos assim: “Olá, eu sou o urso panda, eu gosto muito de brincar com as palavras. Você quer brincar comigo? Será que você poderia me ajudar a escrever algumas palavras? Eu queria muito saber como você acha que se escreve a palavra X?” Na atividade de Contagem de sílabas, mostramos uma caixa com desenhos dentro, oferecemos blocos, para auxiliar na contagem, e convidamos para fazer de conta que estava realizando mágica: “Vamos fazer mágica? Vamos fazer aparecer palavras diferentes nessa caixa. Depois, vamos dizer quantos pedacinhos tem o nome de cada uma. Quantos pedacinhos tem a palavra MACACO?” Na atividade de Identificação das palavras com a mesma sílaba inicial foram apresentadas quatro figuras. Para auxiliar, convidamos a criança para brincar de detetive, dizendo, por exemplo: “Vamos brincar de detetive? Você vai encontrar palavras que combinem, vai observar o primeiro pedacinho DOS NOMES dos desenhos que serão apresentados. Qual é a palavra que começa como o mesmo pedacinho que BOLACHA? Na atividade de Identificação das palavras que rimam, também foram apresentadas quatro figuras também. Convidamos a criança para brincar de detetive novamente: “Vamos continuar brincando de detetive? Nós vamos descobrir quais palavras têm o mesmo pedacinho final. Qual é a palavra que termina com o mesmo pedacinho da palavra ENXADA? Opções: CASACO, ESPELHO e TOMADA. A análise dos dados foi realizada a partir de uma perspectiva qualitativa e quantitativa. Na escrita das palavras, buscamos organizar categorias de hipótese com base em Ferreiro e Teberosky (1986), Oliveira e Morais (2013). Em seguida, organizamos em gráficos os percentuais de acertos em cada atividade, considerando os diferentes grupos sociais, momentos de coleta e hipóteses de escrita reveladas. Análise e discussão de resultados Abaixo, iremos apresentar a relação entre as hipóteses de escritas e aquelas habilidades de consciência fonológica diagnosticadas, considerando as diferenças ocorridas no decorrer de dois anos e os diferentes grupos sociais. Apresentaremos a relação entre as hipóteses e a habilidade de Contar sílabas e Identificar palavras com a mesma sílaba inicial e Identificar palavras que rimam. O gráfico 01, no apêndice 01, mostra e relação entre as hipóteses apresentadas pelas crianças na Contagem de Sílabas. Nessa tarefa observamos que as crianças com hipóteses de escrita mais elaboradas demonstraram melhor desempenho nos dois grupos sociais. No entanto, com exceção da coleta 1, as crianças na hipótese pré-silábica apresentaram desempenho igual ou superior a 50%, o que indica a presença da reflexão fonológica mesmo entre crianças que ainda estavam naquela hipótese inicial. Entre as crianças na hipótese silábica, observamos que o percentual mínimo a partir da segunda coleta foi superior a 70%, o que confirma (Morais, 2019) a importância dessa habilidade para alcance da hipótese silábica. Apesar do aumento do percentual de acertos nos dois grupos sociais, ficou evidente que na escola privada, desde o início do Infantil 4, as crianças já apresentavam desempenho superior a 60% de acertos, independente da hipótese de escrita. O gráfico 02, no apêndice 02, mostra e relação entre as hipóteses apresentadas pelas crianças das escolas e a Identificação de palavras com a mesma sílaba inicial. Na atividade de Identificação de palavras com a mesma sílaba inicial, observamos que, no geral, as crianças com hipóteses mais elaboradas também demonstravam um melhor desempenho. Porém, identificamos algumas oscilações entre as hipóteses pré-silábica e silábica (1º e 3ª coletas), isso pode ter ocorrido devido às variações presentes na hipótese silábica, entre algumas crianças, pois nem todas apresentavam ainda a hipótese silábica com valor sonoro convencional, que indica uma maior compreensão do SEA. Apesar de ser numa menor frequência, observamos, mais uma vez, que o grupo de crianças da escola privada apresentou um maior percentual de acertos na maioria dos subgrupos de hipóteses de escrita. O gráfico 03, no apêndice 03, mostra e relação entre as hipóteses de escrita predominantes apresentadas pelas crianças e a Identificação de Palavras que rimam. Na atividade de Identificação das Palavras que rimam, identificamos que, de um modo geral, os dois grupos sociais apresentaram melhor desempenho apenas aos 5 anos (coletas 4 e 5). Mais uma vez, identificamos que as crianças da escola privada revelaram maiores concentrações de acertos que as das escolas públicas. Considerações finais Os dados indicam que o domínio das três habilidades de consciência fonológica avaliadas apresentou relação com o avanço das hipóteses de escrita, mas que em alguns casos, elas não foram suficientes para garantir o avanço para uma hipótese mais elaborada, o que reitera que o domínio das habilidades de consciência fonológica, isoladamente, não garante a compreensão do SEA. Além disso, como indicam Aragão e Morais (2020), algumas habilidades envolvendo consciência fonêmica, como segmentar palavras em fonemas, não seriam necessárias nessa compreensão. Sendo assim, ao invés de considerar a consciência fonológica como habilidade única ou como “preditora” da aprendizagem da escrita, precisamos continuar investigando e compreendendo a relação das diferentes habilidades com o processo de apropriação do SEA, sem que as crianças precisem operar sobre fonemas isolados e impronunciáveis (Soares, 2020). Além disso, reiteramos que, apesar do foco deste trabalho ser a compreensão dessas relações, consideramos que a aprendizagem da leitura e escrita precisa ocorrer a partir de contextos que considerem os diferentes usos sociais da leitura e escrita e a vivência de leitura/compreensão/produção de gêneros textuais variados e adequados àquela etapa da Educação Infantil. As diferenças indicadas entre os grupos sociais, podem ter relação com as oportunidades de reflexão fora do contexto das escolas. Porém, a observação das práticas nas três escolas revelou diferenças na promoção de reflexão pelas crianças. Isso mostra a importância de compreender melhor a relação entre a mediação pedagógica e a aprendizagem, assim como a necessidade de garantirmos o acesso aos diferentes bens culturais para todas as crianças, a partir de práticas significativas que respeitem os seus conhecimentos e interesses. Palavras-chave: Educação Infantil; Alfabetização; Consciência fonológica; Psicogênese da escrita Referências ARAGÃO, S. de S. A. ; MORAIS, A. G. de. Como Crianças Alfabetizadas com o Método Fônico Resolvem Tarefas que Avaliam a Consciência Fonêmica? Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 36, e223345, 2020. Disponível em:
http://old.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010246982020000…. Acesso em: 16 jun. 2021. BRANDÃO, A. C. P.; A aprendizagem inicial da língua escrita: “ou isto ou aquilo”? In: BRANDÃO, A. C. P; ROSA, E. C. de S. (Orgs.). A aprendizagem inicial da língua escrita com crianças de 4 e 5 anos: mediações pedagógicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. cap. 1, p. 19-38. BRASIL. Ministério de Educação e Desporto. Emenda constitucional nº 59, de 11 de novembro de 2009. Brasília: MEC/SEF, 11 nov. 2009. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF, 2017. BRASIL. MEC. Secretaria de Alfabetização. PNA: Política Nacional de Alfabetização. Brasília: MEC, SEALF, 2019 FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1979. FREITAS, G. Sobre a consciência fonológica. In. LAMPRECHT et al. Aquisição fonológica do português: perfil de desenvolvimento e subsídio para terapia. Porto Alegre: Artmed, 2004. cap. 5, p. 177-192. MORAIS, A. G. Sistema de Escrita Alfabética: coleção como eu ensino. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2012. MORAIS, A. G. Consciência Fonológica na Educação Infantil e No Ciclo de Alfabetização. Editora Autêntica, 2019. SOARES, M.B. Alfaletrar: toda criança pode aprender a ler e a escrever. São Paulo: Editora Contexto, 2020. Apêndices Apêndice 01 Gráfico 01 - Percentuais de acertos na atividade de Contagem de Sílabas por hipóteses das crianças de Escolas Privada e Públicas durante o Infantil 4 e 5 Apêndice 02 Gráfico 02 Percentuais de acertos na atividade de Identificação palavras com a mesma sílaba inicial por hipóteses de escrita das crianças de Escolas Privada e Públicas durante o Infantil 4 e 5 Apêndice 03 Gráfico 03 Percentuais de acertos na atividade de Identificação de Palavras que rimam por subgrupos de hipóteses de escrita das crianças de Escolas Privada e Públicas durante o Infantil 4 e 5