POSICIONAMENTOS DO SELF DIALÓGICO DE PROFESSORAS EM FORMAÇÃO: CORPO E FEMINILIDADE EM DEBATE INTRODUÇÃO Questões relacionadas às construções sociais de gênero, suas identidades e culturas são fundamentais para a constituição do self, da personalidade e permeiam as várias fases do desenvolvimento humano. Por um lado, torna-se urgente a criação de espaços educativos para o debate de gênero e suas interseccionalidades com cor/raça/etnia, sexo e classe social. Por outro lado, há ondas de discursos morais, religiosos e políticos no Brasil que entram em conflito com essa proposta e buscam, inclusive, a exclusão dessa pauta. Como afirma Furlani (2011, p. 23), “para muitas pessoas, gênero, raça, etnia, condição física, orientação sexual, nacionalidade etc. são marcadores identitários responsáveis por experiências de exclusão tão significativas quanto a classe social”. Vivenciamos uma regressão marcada por um movimento de negação às diferenças e à diversidade, negando o direito de os sujeitos existirem e se expressarem como são, com suas especificidades de gênero e orientação sexual, muitas vezes categorizadas como desviantes (BECKER, 1977) por romperem com a cisheteronormatividade (ROSA, 2020). É neste contexto que se desenrola parte da pesquisa de campo realizada durante um curso de extensão universitária destinado a professoras da educação básica. A partir da abordagem dialógica, analisamos posicionamentos de si, compreendendo o self como constituído na relação com os outros e atravessado por vozes sociais (BAKHTIN, 2020; AVELING et al., 2015). A perspectiva dialógica parte da ideia de que todo enunciado é assumido como endereçado (BAKHTIN, 1993; 2020) a um interlocutor que o recebe e interpreta (BAKHTIN, 1993; 2020; BRAIT, 2006; VALSINER, 2002), sob uma perspectiva datada e culturalmente marcada (HALL, 2001; HALL et al., 2003; BHABHA, 1998). O curso teve como foco discutir a constituição do corpo e da feminilidade (BAKHTIN, 2020; BRAIT & GONÇALVES, 2021) no contexto da formação docente, a partir de referenciais da psicologia cultural e da teoria do self dialógico (HERMANS; HERMANS-KAMPEN, 2021). A pesquisa buscou compreender como as participantes se posicionaram (HARRÉ & VAN LANGENHOVE, 2003; VAN LANGENHOVE & HARRÉ, 1995) diante de suas experiências corporais e identitárias ao longo das atividades propostas, bem como os sentidos que atribuíram à feminilidade em seus trajetos formativos. Assim, os discursos enunciados colaboram para a constituição dos selves, pela multivocalidade (AVELING et al., 2015) que compõe o self dialógico. METODOLOGIA A pesquisa foi realizada com professoras participantes de um curso de extensão intitulado Leitura de Imagem na Educação - Corpo, Feminilidade e Estética de Si. Foram analisados quatro encontros (rodas de conversa), nos quais as participantes discutiram experiências pessoais relacionadas a corpo, identidade, feminilidade e marcadores sociais. Os dados foram registrados por meio de anotações e gravações em áudio e vídeo, posteriormente transcritos. A análise foi realizada com base na teoria do self dialógico (HERMANS, 2001; VALSINER, 2002), buscando identificar os posicionamentos de si a partir dos enunciados e suas interações no grupo. De abordagem qualitativa, a perspectiva metodológica dialógica consiste na ideia de que cada enunciado é presumido como endereçado a um interlocutor (BAKHTIN, 1993; 2020), o qual recebe e interpreta a mensagem (BAKHTIN, 1993; 2020; BRAIT, 2006; VALSINER, 2002) a partir de uma perspectiva datada e culturalmente situada (HALL, 2001; HALL et al., 2003; BHABHA, 1998). Nessa perspectiva teórica, todos os diálogos contribuem para a constituição dos selves das participantes, por meio da multivocalidade (AVELING et al., 2015) que compõe o self dialógico. Para sua análise, a pesquisa utilizou como material empírico as narrativas escritas e faladas pelas participantes durante os encontros síncronos do curso, além de reflexões registradas em diários de bordo no Ambiente Virtual de Aprendizagem – AVA utilizado. Foram identificados posicionamentos que revelam tensões entre discursos sociais normativos e experiências subjetivas de corpo e gênero. Sobre o curso Lendo imagens na educação: corpo, feminilidade e estética de si O curso de extensão apresentou-se como uma estratégia para fomentar discussões sobre o corpo, a feminilidade e a estética de si, bem como para reivindicar o espaço dos debates de gênero e sexualidade na educação, por meio da formação continuada, com o objetivo de incentivar reflexões sobre si e sobre o outro durante os encontros em grupo. O curso foi aberto à comunidade externa do campus, com foco em um público específico: mulheres professoras. Como as vagas disponibilizadas não foram totalmente preenchidas, também foram aceitas mulheres com perfis diferentes do público-alvo inicialmente idealizado, como profissionais da educação em diferentes estágios de formação: uma psicóloga escolar, uma licencianda e uma professora com diploma, mas que atuava no suporte pedagógico, e não diretamente na docência. Foram ofertadas 30 vagas por meio de chamada pública, com o curso sendo oferecido na modalidade de ensino a distância (EAD). Isso possibilitou a participação de mulheres professoras de diferentes estados e cidades, com ampla divulgação na região do Campus Valparaíso, especialmente nos municípios do entorno sul do DF — Cidade Ocidental, Gama, Luziânia e Valparaíso de Goiás —, além do Distrito Federal. A estrutura do curso se organizou em quatro módulos, liberados semanalmente, a saber: Módulo 1: Imagens clássicas (10h) Módulo 2: Fotografia (10h) Módulo 3: Cinema (5h) Módulo 4: Livros didáticos (5h) Em cada módulo, as participantes analisaram imagens de mulheres nos formatos propostos. Antes dos Módulos 1 e 2, foi solicitado que realizassem representações visuais na plataforma Moodle: no Módulo 1, por meio de pintura, desenho, colagem ou gravura de uma imagem de si ou de uma mulher significativa; no Módulo 2, uma fotografia autorreferente (selfie) ou a seleção de uma imagem que as representasse, caso não pudessem produzir uma própria. No Módulo 3, as participantes escolheram um filme, série, cena ou trecho com o qual se identificassem com uma personagem ou narrativa feminina. Essas escolhas foram compartilhadas nas discussões em grupo e registradas no fórum da plataforma Moodle. Já o Módulo 4 teve como foco o exame das representações de mulheres em livros didáticos, refletindo sobre como essas representações se relacionavam com as participantes e suas alunas/os. A cada semana, as contribuições individuais foram apresentadas e debatidas nos encontros síncronos. Foram sete encontros síncronos de 2h cada, totalizando aproximadamente 14 horas de gravação das rodas de conversa sobre todos os temas, módulos do curso e os debater acerca das produções visuais das participantes. O primeiro encontro teve caráter mais administrativo, com orientações sobre o uso da plataforma Moodle e introdução ao debate do Módulo 1. O último encontro incluiu as discussões do Módulo 4, avaliações do curso feitas oralmente e de forma voluntária pelas participantes, além de orientações finais sobre certificação e frequência. Ao todo, a pesquisa contou com 14 horas de gravação, materiais registrados no Moodle, imagens produzidas ou selecionadas e entrevistas presenciais e online, chegando até 20 horas de gravações. Dada sua robustez, separamos para esta análise as rodas de conversa com as participantes que trazem aspectos relevantes sobre os corpos, a feminilidade e os padrões estéticos (não) contemplados diante dos modelos sociais vigentes e as diferentes percepções e posicionamentos do self dialógico das mesmas ao longo da vida, diante desses padrões e as inadequações apresentadas em relação aos modelos. RESULTADOS Na primeira roda de conversa, durante apresentações pessoais, os temas de racismo e gordofobia emergiram com força. A participante Hortência relata: O mais difícil pra mim nesses dias é que estou no pós-bariátrica, tem sete meses, e eu fui parar no hospital. Então, o que mais me magoou foi que eu cheguei lá com uma hemorragia, e sem saber minha história, o médico disse: ‘É, você precisa emagrecer para melhorar’. E eu já estava lá há cinco dias, passando mal. Eu falei: ‘Doutor, eu fiz bariátrica. Já perdi 30 kg. Então, quanto mais eu preciso perder pra você me atender?’ A fala de Hortência suscita outras falas sobre preconceito médico, racismo institucional e violências acumuladas. A participante Bouganville completa: “Hospitais são duros com pessoas negras. É sabido que mulheres negras sofrem mais — morrem mais, não recebem anestesia com a mesma frequência. Então, acumulam camadas de preconceito.” Na terceira roda, as participantes foram convidadas a apresentar imagens que representassem a si mesmas. Hortência escolheu uma imagem do artista italiano Lisandro Rota, cuja figura caricata de uma mulher gorda causou impacto: Essa imagem me lembra do peso que a obesidade me trouxe. E como às vezes eu me privei, porque até hoje eu não consigo usar um maiô. Às vezes, não consigo ir à piscina porque sempre tive vergonha [...] A gente às vezes fica presa no nosso mundo, dentro de um banheiro, e não quer sair. A imagem contrastou com o desenho de outra participante, que representava seu corpo gordo de biquíni na praia. Bouganville comenta: “Tem uma tristeza aí, né? Porque, gostando ou não, mesmo estando melhor agora, a gente sempre tem essa tristeza”. Esse contraste gerou reflexões sobre vergonha, liberdade e espaços públicos versus privados. Na quarta roda, discutiu-se a relação com a autoimagem. Val declara: Tenho uma boa percepção do meu rosto, do meu sorriso — com isso estou bem agora. Mas, quando se trata do corpo todo, eu tenho dificuldade. Me sinto desproporcional, meio triangular, sabe? Nina, por sua vez, relata como evitava fotos por conta do bullying sofrido na adolescência e das violências simbólicas vividas no casamento: Durante muito tempo, acreditei que não encontraria ninguém por causa da minha aparência. Meu ex usava isso para me diminuir. Depois que me separei, a primeira coisa que fiz foi cortar o cabelo e assumir meus cachos. Nas falas destacadas, observamos as mudanças de posicionamentos do self dialógico, com a seguinte composição: posicionamentos presentes reverberam as histórias vividas do passado e as violências experienciadas pelas participantes modificaram seus posicionamentos e projetam I-positions (posicionamentos do self) futuras baseado em uma espécie de enfrentamento dos sentimentos do passado. Ao expressarem os conflitos entre expectativas socioculturais de feminilidade e experiências de resistência, as participantes constroem narrativas em que seu posicionamento é de protagonismo e embate aos posicionamentos do passado. Algumas narrativas revelaram o incômodo com a objetificação do corpo feminino em ambientes escolares e familiares. Outras indicaram a apropriação de novos discursos sobre o corpo, possibilitada pelas discussões no curso, possibilitadas também pela experiência de vida e os espaços ocupados no presente. A análise evidenciou que o curso funcionou como espaço de escuta e ressignificação, favorecendo a emergência de vozes alternativas e críticas aos discursos dominantes, ainda que não tivesse este objetivo inicial. Os posicionamentos foram interpretados como movimentos de agência identitária em meio a condições socioculturais desiguais. CONSIDERAÇÕES FINAIS O curso de extensão foi parte da pesquisa e propiciou um espaço dialógico para que as estudantes elaborassem novos sentidos sobre corpo e feminilidade na formação docente. O referencial do self dialógico mostrou-se fecundo para compreender os processos identitários implicados nas narrativas das participantes, revelando tensões, resistências e reconstruções subjetivas. Os achados apontam para a importância de inserir discussões sobre corpo e gênero na formação inicial de professores, promovendo experiências pedagógicas que ampliem o diálogo com a diversidade e a complexidade dos sujeitos. As rodas de conversa revelaram como o self das participantes é moldado por experiências atravessadas por discursos de gênero, raça e corpo. As falas mostram o impacto da cisheteronormatividade e dos padrões estéticos na constituição subjetiva, e como as participantes mobilizam novos posicionamentos de si a partir da escuta e do acolhimento coletivo. A produção de novos enunciados, mais reflexivos e afirmativos, indica o potencial transformador de espaços educativos dialógicos. As imagens e relatos pessoais se tornam dispositivos de ressignificação de experiências dolorosas, ao permitir que outras vozes — sociais, institucionais, afetivas — sejam escutadas, tensionadas e integradas na construção do self. Como propõe a teoria do self dialógico (HERMANS, 2001), esses processos possibilitam deslocamentos de posições subjetivas, abrindo espaço para a reconstrução da identidade a partir da multiplicidade de vozes. O curso de extensão se configurou como um espaço de resistência e reexistência, em que as participantes puderam compartilhar vivências que habitualmente são silenciadas no cotidiano escolar e institucional. A partilha de enunciados permitiu a elaboração de novos sentidos sobre si, sobre o corpo e sobre o feminino, abrindo brechas para a constituição de um self mais autêntico e empoderado. REFERÊNCIAS AVELING, E. L.; GILLESPIE, A.; CORNISH, F. A qualitative method for analysing multivoicedness. Qualitative Research, v. 15, n. 6, p. 670–687, 2015. DOI:
https://doi.org/10.1177/1468794114557991. BAKHTIN, M. M. Toward a philosophy of the act. Tradução: Vadim Liapunov. Austin: University of Texas Press, 1993. BAKHTIN, M. M. Os gêneros do discurso. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2020. BHABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. BRAIT, B., GONÇALVES, J. C. (2021). Corpos espelhados nas dobras da arte e da vida: A desumanização. In: BRAIT, B., GONÇALVES, J. C. (2021). Bakhtin e as artes do corpo. 1 ed. São Paulo: Hucitec. FURLANI, E. C. Educação, sexualidade e diferença. Campinas: Papirus, 2011. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. HALL, S.; SOVIK, L.; RESENDE, A. L. G. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Brasília: UNESCO/UFMG, 2003. HARRÉ, R.; VAN LANGENHOVE, L. (Org.). Positioning theory: moral contexts of intentional action. Oxford: Wiley-Blackwell, 2003. HERMANS, H. J. M. The dialogical self: toward a theory of personal and cultural positioning. Culture & Psychology, London, v. 7, n. 3, p. 243–281, 2001. HERMANS, H. J. M.; HERMANS-KAMPEN, A. Dialogical Self Theory: Positioning and Counter-Positioning in a Globalizing Society. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. ROSA, R. L. Pedagogias das dissidências: corpo, gênero e sexualidade na educação. Campinas: Papirus, 2020. VALSINER, J. Forms of dialogical relations and semiotic autoregulation within the self. Theory & Psychology, v. 12, n. 2, p. 251–265, 2002. DOI:
https://doi.org/10.1177/0959354302012002633.