A PERSPECTIVA DE JOVENS DO ENSINO MEDIADO POR TECNOLOGIAS SOBRE O NOVO ENSINO MÉDIO NA ZONA RURAL RODOVIÁRIA DE MANAUS

- 215597
Resumo Expandido - Trabalho
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo
A PERSPECTIVA DE JOVENS DO ENSINO MEDIADO POR TECNOLOGIAS SOBRE O NOVO ENSINO MÉDIO NA ZONA RURAL RODOVIÁRIA DE MANAUS O Novo Ensino Médio surgiu com a Medida Provisória nº 746, de 22 de setembro de 2016, sendo uma das primeiras ações do governo Temer após o impeachment de Dilma Rousseff. Essa reforma, que foi aprofundada durante o governo Bolsonaro, marcou um retrocesso em relação aos avanços dos governos Lula e Dilma, reintroduzindo características autoritárias semelhantes ao período da ditadura militar (Saviani, 2020). Apesar da propaganda oficial sobre o “Novo Ensino Médio”, essa reforma é considerada uma “contrarreforma”, pois reflete propostas anteriores e não traz inovações significativas (Silva, 2018). A reforma, que visa flexibilizar o currículo sob a justificativa de atrair mais alunos, combatendo baixos índices relacionados ao ensino médio, ignora questões estruturais essenciais à qualidade da educação, como a infraestrutura escolar, as condições de trabalho dos professores e os fatores socioeconômicos que levam ao abandono escolar, como a necessidade de contribuir para a renda familiar, entre outras questões, como gravidez na adolescência, violência (Ferretti, 2018). Como um dos conceitos fundamentais, este trabalho parte do conceito de juventude, haja vista que a maior parte do público de ensino médio é de jovens. Para Dayrell (2003), a juventude é moldada pelo contexto social e pelas interações que ele proporciona, construindo diferentes maneiras de viver a juventude. Neste sentido, ele destaca a ideia de juventudes, com intuito de apontar a diversidade de experiências que são vivenciadas pelos jovens. Em vista disso, a compreensão da juventude na região amazônica exige uma análise que considere as particularidades geográficas, culturais e sociais locais, especialmente nas comunidades rurais, sejam elas ribeirinhas, indígenas ou rodoviárias. Desse modo, reconhecendo a importância de compreender a implantação do Novo Ensino Médio no Amazonas, a partir da perspectiva dos jovens estudantes, as questões que orientam este estudo partem de, como os jovens estudantes percebem a implantação do Novo Ensino Médio no contexto do ensino mediado por tecnologias em uma escola da zona rural rodoviária de Manaus? Como se configura o novo ensino médio na rede estadual do Amazonas? Como se configura a oferta do ensino médio mediado por tecnologias em uma escola da zona rural rodoviária de Manaus? Quais foram as ações de implementação do novo ensino médio no contexto do ensino mediado por tecnologias? E, por fim, quais os desdobramentos da implantação do novo ensino médio na realidade de uma escola da zona rural rodoviária de Manaus? Nesta perspectiva, este estudo toma como objetivo geral analisar o processo de implantação do novo ensino médio no âmbito do ensino mediado por tecnologias em uma escola da zona rural rodoviária da Cidade de Manaus, a partir da perspectiva dos jovens estudantes e, como objetivos específicos: conhecer a proposta do novo ensino médio formulada pela Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (SEDUC/AM), analisar a configuração do ensino médio mediado por tecnologias considerando a realidade de uma escola da Zona Rural Rodoviária de Manaus e conhecer, através da perspectiva dos jovens, os desdobramentos da implantação do Novo Ensino Médio no contexto do ensino mediado por tecnologias em uma escola da zona rural rodoviária de Manaus. A pesquisa, de natureza qualitativa, contemplou uma fase de análise de documentos e uma fase de campo, na qual foram realizados grupos de discussão, ancorados no método documentário. Na fase documental, foram analisados o Referencial Curricular Amazonense do Ensino Médio (RCA-AM), a Proposta Curricular e Pedagógica do Ensino Médio (PCP-EM) e o Documento Orientador de Implementação do Novo Ensino Médio (PLI-AM). Os grupos de discussão foram realizados no contexto de uma escola situada na rodovia AM 010 de Manaus, em uma zona considerada rural-rodoviária, envolvendo 21 jovens, tanto do sexo masculino quanto feminino, estudantes de diferentes séries do ensino médio. O Método Documentário, trata-se de uma técnica de interpretação empírica de origem alemã, inicialmente pouco conhecida no Brasil até os anos 2000 (Weller, 2020). Desenvolvido por Karl Mannheim e aprimorado por Ralf Bohnsack (2020a), esse método busca agregar conhecimento à realidade social investigada, conforme destaca Vieira (2021). Na pesquisa social empírica e reconstrutiva, o uso dos grupos de discussão se configura como uma ferramenta valiosa para a reconstrução dos contextos sociais, permitindo que as vivências coletivas sejam compartilhadas e analisadas em profundidade (Bonhsack, 2020b). A educação no Amazonas oferece diferentes modalidades de Ensino Médio, como o Regular, em Tempo Integral, por Mediação Tecnológica e Noturno, para atender às diversas necessidades dos estudantes (Amazonas, 2021). O Ensino Médio Mediado por Tecnologias (EMPTM) foi criado para superar desafios de acesso à educação, especialmente em áreas remotas. A falta de recursos humanos e a logística complexa de acesso, justificam a utilização dessa modalidade (Amazonas, 2021). No entanto, problemas relacionados à infraestrutura, acesso, qualidade do ensino ainda desafiam as distintas realidades atendidas, excluindo e marginalizando ainda mais os jovens que vivem em territórios rurais, como apontado por Weisheimer (2013). A escola que atende os jovens participantes da pesquisa trata-se de um anexo cedido pela Secretaria Municipal de Manaus (SEMED/MANAUS) para a SEDUC/AM atender o ensino médio no contexto do ensino mediado por tecnologias no turno noturno, no qual é disponibilizado a infraestrutura de 3 salas de aula para atender os 3 anos do ensino médio. Trata-se da única instituição que oferece ensino médio na AM 010 e ainda se limita no turno noturno e mediada por tecnologias. O modelo do ensino médio mediado por tecnologias é baseado em aulas transmitidas ao vivo pelos Professores Ministrantes no Centro de Mídias e Educação do Amazonas (CEMEAM), organizadas por módulos ao longo do ano letivo. Atualmente, o Centro de Mídias de Educação do Amazonas é operado com o suporte técnico da empresa VAT e desde 2022 com a Starlink, empresa de internet de Elon Musk, que tem dominado o acesso via satélite na Amazônia, com faturamento bilionário. A pesquisa mostrou que os jovens estudantes do ensino médio ensino mediado por tecnologias não se sentiram envolvidos na escolha dos itinerários formativos e enfrentaram dificuldades com os conteúdos da formação geral básica, considerando as novas matérias irrelevantes para suas trajetórias profissionais. Além disso, os jovens afirmaram que o modelo de ensino médio ofertado não atende completamente às suas necessidades e expectativas. Durante o grupo de discussão, com os jovens do 2º ano, na passagem Escola, linhas 495-512, nas vozes de Becker (Bm) e Javi (Jm) há consenso de que, embora haja alguma estrutura e oportunidade, a qualidade do ensino poderia ser significativamente melhorada com mais interação, melhor suporte pedagógico, melhorias na infraestrutura como a disponibilização de bibliotecas, quadras esportivas, mais professores, salas de teatro ou outros espaços que colaborem para o desenvolvimento integral dos educandos: Bm: Se tivesse professora (.) outra escola, que nem o Abílio à noite, de ensino médio, eu ia pra lá. Eu só vim pra cá mesmo porque. (1) eu tenho que trabalhar o dia todo e não tem opção né, eu só tenho isso aí. Jm: É isso aí, isso daí é a melhor opção. Eu estudo na noite e trabalho de manhã, é uma ajuda que dá pra cada estudante, no caso, se ele estiver fazendo curso de manhã. Bm: Mas é uma boa, porque ao menos tem uma escola aqui, né? Ao serem questionados sobre como está sendo estudar no ensino médio, o grupo revelou sentir saudades da antiga escola onde cursaram o ensino fundamental, pela rotatividade de professores, prática de esportes e qualidade da merenda escolar, também apontaram sentir falta dos métodos tradicionais de ensino e desafios relacionados às aulas digitais, como aponta a seguir (Passagem ensino médio, linhas 12-52): Bm: ∟ Eu tô sentindo falta dos professores passarem atividade no quadro pra nós escrever (.) Por que é muito chato ficar assistindo as aulas assim, as vezes; Rm: É (.) Eu achava que os professores eram diferentes, sabe? (2) Rapaz, fico agoniado, sabe? Ff: E tipo, é uma nova (1) É um novo ensino pra gente. É totalmente diferente, né? Porque a gente já estava acostumado (.) numa matéria por matéria, né? (1) Agora, hoje em dia, a gente tem que (2) É uma nova experiência, porque a gente... É uma nova tecnologia. A gente tem que prestar atenção na tela, e é meio difícil pra gente pegar muito rápido. Esse tipo de coisa, né? Os exemplos, principalmente, porque muitos de nós alunos prestam atenção e muitos não prestam. Então, tudo isso impacta pra nós, entendeu? (1) A gente não consegue pegar muito rápido (1), entendeu? Pra gente aprender mais ou menos. Rm: ºÉ muito chato, ter que assistirº. ?m ou ?f: ∟ É três dias de conteúdo. É muito rápido ( ) Bm: É, prova, passa muita prova, uma semana, duas provas. Ff: Tipo, é um conteúdo hoje, amanhã, vamos supor, já é uma prova, uma avaliação, né? Bm: É ( ) Vf: Então (1) eu acredito que o fato dessas novas matérias terem sido inseridas na grade curricular, elas têm, tipo assim, tirado o tempo que seria necessário pra gente estudar essas matérias que são mais importantes, no caso física, matemática, ciência, biologia, português (1) língua portuguesa, sociologia. Ff: Química! Rm: Química! Aquele negócio de física ( _ Vf: ( ) E tipo, vai muito rápido assim as matérias pra que essas outras sejam inseridas. Então acho isso meio confuso pra gente. A gente (2) fica meio atrapalhado, porque o ensino já era acelerado, aí com essas matérias ficou mais rápido ainda (1) Bem difícil de acompanhar. O grupo de discussão expressou preocupação com a carga de provas e o ritmo acelerado das matérias, dificultando a absorção de conteúdo. Além disso, a inserção de novas disciplinas sobrecarregou o tempo destinado às matérias tradicionais, gerando desmotivação. O grupo de discussão realizado com os estudantes do 1º ano evidenciou que os estudantes além de não terem participado de nenhuma discussão sobre as alterações no ensino médio, também não receberam esclarecimentos sobre as mudanças implementadas. Quando questionados sobre os itinerários formativos, muitos demonstraram dificuldade em associar às novas disciplinas inseridas no currículo. Ao serem questionados sobre a importância do projeto de vida em sua formação, os jovens do 1º ano revelaram considerar de pouca ou nenhuma importância. A jovem Vivi (Vf) sugeriu que a disciplina fosse substituída por educação em informática, já que muitos não têm acesso a cursos particulares, enfatizando a necessidade de tornar o acesso e o aprendizado de informática mais acessível, especialmente em um contexto de ensino tecnológico. No último bloco de perguntas, ao serem questionados sobre a conclusão do ensino médio, a maioria dos jovens expressaram o desejo de conclusão. Contudo, as falas dos estudantes revelam uma realidade mais complexa e cheia de desafios, como a do jovem Luiz (Lm) que apresentou dúvidas ou dificuldades que podem afetar sua continuidade escolar, como problemas familiares e a necessidade de trabalhar para ajudar em casa, evidenciando um conflito de prioridades que muitos jovens enfrentam, principalmente em contextos vulneráveis. Costa (2023) abordou que a reforma do ensino médio no Amazonas vincula-se a um contexto privatista iniciado na década de 1990, reforçando o distanciamento entre as políticas educacionais e as necessidades da sociedade, destacando a priorização de uma lógica mercantil nos currículos, em detrimento do conhecimento científico. Na análise documental identificou-se que a promessa de liberdade na escolha dos itinerários formativos pelos estudantes, na prática, é condicionada pelas limitações das escolas, revelando desafios enfrentados na implantação do Novo Ensino Médio no Amazonas. O Novo Ensino Médio limita a participação escolar, favorece interesses privados e agrava desigualdades, especialmente para alunos de baixa renda. Tentativas de mudança não resolvem os problemas principais, sendo a revogação a solução para um ensino mais democrático. Diante do exposto, destaca-se a importância de uma mobilização contínua em prol da revogação da Lei 13.415/2015, para garantir que futuras políticas educacionais contemplem, de fato, as necessidades dos estudantes, especialmente os historicamente marginalizados, como os jovens que vivem em territórios rurais. Palavras-chave: Jovens; Ensino mediado por tecnologias; Novo Ensino Médio. REFERÊNCIAS AMAZONAS. Secretaria de Educação do Amazonas. Proposta Curricular e Pedagógica do Ensino Médio da Rede Estadual de Educação do Amazonas. Manaus, 2021b. Disponível em: . Acesso em: 03 mar. 2022. AMAZONAS. Secretaria de Educação do Amazonas. Referencial Curricular Amazonense – Ensino Médio. Manaus, 2021a. AMAZONAS. Secretaria de Estado de Educação e Desporto. Plano de Implementação da Reforma do Currículo e do Ensino Médio no Amazonas. Comitê de Implementação da Lei de Reforma do Ensino Médio e Currículo no Estado do Amazonas, 2020. BOHNSACK, Ralf. Pesquisa social reconstrutiva: introdução aos métodos qualitativos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2020a. BOHNSACK, Ralf. Diretrizes para a transcrição de textos. In: _____. Pesquisa social reconstrutiva: introdução aos métodos qualitativos. Petrópolis: Vozes, 2020b, p. 307-309. COSTA, Nayara Ferreira. Eu vejo o presente repetir o passado e comprometer o futuro: o movimento das redes estaduais de ensino a partir da lei nº 13.415/2017. 2023. 178 f. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus (AM), 2023. DAYRELL, Juarez. O jovem como sujeito social. Revista Brasileira de Educação, n. 24, Rio de Janeiro, set./dez. 2003. FERRETTI, C. J. (2018). A reforma do Ensino Médio e sua questionável concepção de qualidade da educação. Estudos Avançados, 32(Estud. av., 2018 32(93)). https://doi.org/10.5935/0103-4014.20180028. SAVIANI, Dermeval. Políticas educacionais em tempos de golpe: retrocessos e formas de resistência. Roteiro, v. 45, 2020. SILVA, Monica Ribeiro da. A BNCC da reforma do ensino médio: o resgate de um empoeirado discurso.Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 34, e214130, 2018. VIEIRA, K. L.. (2021). A RECONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO NA PESQUISA SOCIAL E EDUCAÇÃO. Cadernos De Pesquisa, 51, e07828. https://doi.org/10.1590/198053147828 WEISHEIMER, Nilson. Sobre a invisibilidade social das juventudes rurais. DESIDADES: Revista Electrónica de Divulgación Científica de la Infancia y la Juventud, v. 1, n. 1, p. 22 27, 2013. WELLER, Wivian. Prefácio à edição brasileira. In: BOHNSACK, Ralf. Pesquisa social reconstrutiva. Introdução aos métodos qualitativos, p. 9-14. Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 UFAM - Universidade Federal do Amazonas
Eixo Temático
  • GT03 - Movimentos Sociais, Sujeitos e Processos Educativos