NARRATIVAS EM TORNO DO FIM DO MUNDO: A CRISE CLIMÁTICA NOS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL Introdução O atual contexto de emergência climática e de “colapso ambiental” está intrinsecamente vinculado a uma lógica econômica predatória da biosfera estabelecida ao longo dos anos (Marques, 2016). Tem havido mobilizações em todos os âmbitos da sociedade frente à destruição do mundo por meio dos diferentes meios, e principalmente, nas mídias, pela potencialidade de enunciar as distintas narrativas em torno dessa questão. Estas narrativas disputam sentidos e significados acerca do “fim do mundo”, as quais, por um lado, evocam o colapso ambiental iminente, em suas distintas formas; e por outro, aquelas que advogam em seu adiamento, esse último no sentido de “sempre poder contar mais uma história” como apontado por Krenak (2017, p.13). Nessa arena, segundo Layrargues e Sato (2024), os discursos colapsistas podem evocar tanto um fatalismo quanto um ultimato. Dentre as narrativas que circulam socialmente, nos interessa particularmente aquelas referente ao fenômeno da crise climática. Este tem sido cada vez mais pautado nos Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), conferências internacionais, organizações da sociedade civil, dentre outros. Assim, concebemos o campo da linguagem como uma zona de guerra, lugar de disputas enunciativas sobre os encaminhamentos do fim do mundo, sobre o fenômeno da crise climática, que em nosso período, materializam-se intensamente nos meios de comunicação em massa, (in)formando os sujeitos. Sendo a Educação uma arena, “espaço social que abriga uma diversidade de práticas de formação de sujeitos” (Carvalho, 2004, p. 17), compreendemos ser o campo da Educação Ambiental (EA), um espaço de articulação entre tais narrativas e o processo formativo, em que este pode ser tomado como uma prática discursiva na medida em que é mediado pela linguagem. Tais narrativas sobre o fenômeno da crise climática também formam os sujeitos, agenciando formas de ser e estar em sociedade no que diz respeito à temática socioambiental e as ações que decorrem dessa formação. Portanto, a mídia também pode ser tomada como espaço educativo, interpelando os sujeitos em cidadãos pela disseminação de discursos diversos. Dito isso, nosso objetivo é analisar distintas narrativas que convocam e adiam o fim do mundo em torno do fenômeno da crise climática nas mídias, refletindo sobre sua contribuição para a educação. Assim, neste trabalho focamos no veículo de comunicação G1, dada a sua ampla circulação nacional, de modo a possibilitar a reflexão sobre seu potencial para uma EA que coloque em perspectiva de problematização aquilo que é dado como naturalizado e evidente nos processos enunciativos da comunicação em massa. Acreditamos que tais resultados possam subsidiar uma prática educativa considerando o lugar imprescindível da linguagem, como aquela que “não só reflete e registra, mas também molda, distorce e até cria realidades” (Harré, Brockmeier, Muhlhausler, 1999, p. 10). Como pergunta a nos guiar nessa investigação, propomos: O que dizem as narrativas sobre o fim do mundo concernentes à crise climática? Apresentamos agora nossos apoios teórico-metodológicos e procedimentos de investigação. Apoios teórico-metodológicos e Procedimentos de investigação Considerar as distintas narrativas sobre o fim do mundo como objeto de estudo nos impõe a necessidade de partimos das elaborações teóricas do campo da Linguagem como via de compreensão desse fenômeno, particularmente a partir das noções de memória discursiva e memória metálica. Nosso entendimento de narrativa se dá a partir dos trabalhos de Michel Pêcheux e colaboradores, tomando-as como discurso, como efeito de sentidos entre distintos pontos de uma estrutura social, os quais designam posições sujeito. Haroche, Henry e Pêcheux (2007) afirmam que o discurso sempre se remete a um já-dito, sustentando a possibilidade do dizer, a partir de dois eixos: a enunciação e a formulação, e assim, “todo dizer, na realidade, se encontra na confluência de dois eixos: o da memória (constituição) e da atualidade (formulação). E é desse jogo que surgem seus sentidos” (Pereira; Steigengerber, 2011, p. 26). É a memória discursiva que assegura a hegemonia do discurso circulante por meio de processos de estabilização parafrástica (Pêcheux, 1999). Orlandi (2010) aponta a memória metálica, como aquela que é produzida pela mídia, pelas novas tecnologias de linguagem, caracterizando o acúmulo e a repetição indefinida daquilo dito aqui e acolá. Por conseguinte, temos um processo de (re)significação dos sentidos a partir do batimento entre constituição (memória discursiva) e circulação (memória metálica). A partir disso, nos voltamos às produções textuais jornalísticas, considerando o texto como unidade de significação, e a noção de Recorte (Orlandi, 1984), como gesto análitico que visa ao funcionamento discursivo. Corpus documental Elegemos como fonte dos dados o veículo de comunicação G1 que é um dos principais portais de notícias no Brasil, tendo sido inaugurado em 18 de setembro de 2006 e atualmente, sendo mantido pelo Grupo Globo tendo como endereço
https://g1.globo.com/. Na página do Portal G1.com, a partir da ferramenta de busca, utilizamos o termo “mudanças climáticas” tendo como recorte temporal entre 28 de outubro e 11 de novembro de 2024, sendo o período que compreende a realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2024 (COP29) e a 19a Reunião de Cúpula do G20. A partir de uma primeira busca foram localizados em torno de 100 matérias que abordam as mudanças climáticas, as quais selecionamos: a) notícias, entrevistas e/ou reportagens que tenham como foco as mudanças climáticas, excluindo-se aquelas em formato de áudio-vídeo; b) textos jornalísticos referente às perspectivas e/ou iniciativas mobilizadas discursivamente frente ao contexto de emergência climática, excluindo-se aquelas que tem como foco as causas e consequências deste. Com isso, foram localizados 16 textos jornalísticos que atenderam aos critérios desta investigação. Em vista dos limites textuais deste trabalho, apresentamos dois recortes e nossas análises. Possíveis efeitos de sentido das matérias jornalísticas O primeiro recorte é intitulado “Brasil prepara plano para enfrentar mudanças climáticas; cidadãos e organizações da sociedade podem apresentar sugestões”[1], na qual é apresentado a proposição de uma construção coletiva do Plano Clima do Governo Federal, como forma de enfrentamento de eventos climáticos extremos ao propor uma “arquitetura” para gestão de riscos e a prevenção de desastres. Assim, o recorte veicula alguns sentidos e significados relativos à uma narrativa de enfrentamento do fim do mundo, como pode ser visto no trecho: “Só em uma primeira etapa, o governo federal já recebeu quase 1,3 mil sugestões. Cento e oitenta delas, as mais votadas no site, podem entrar no Plano Clima. O governo afirma que vai escolher as propostas com base na ciência e na capacidade de execução” (G1, 2024, p. 1). Um primeiro aspecto a ser levantado é a mobilização provocada pela proposta, com um retorno de cerca de 1,3 mil submissões. Reconhecemos assim, que o Plano Clima para além de contar mais uma história (Krenak, 2017), convoca a nação para contarem outras mil histórias na tentativa de adiamento do fim do mundo, como forma de ação para atenuar e conter os efeitos do contexto de emergência climática. Como bem reconhecido por Renato Simões, secretário nacional de Participação Social, a narrativa posta se consagra como um plano intersetorial envolvendo a nação e não mais o compromisso de um único governo. A partir dessa trama discursiva se evoca dois signos centrais: a concepção política de nomear-se mudanças climáticas no título da reportagem, e que de certa forma minimiza o seu sentido de urgência, e o segundo trata-se de uma possível responsabilização do sujeito “cidadão” no enfrentamento da crise climática, como enunciado no título central e no trecho apresentado na sequência: “Até o dia 13 de novembro, qualquer pessoa pode ajudar a criar o novo plano para preparar as cidades para os eventos climáticos e diminuir as emissões de gases de efeito estufa” (G1, 2024, p. 1). Um outro elemento a ser apontado são os efeitos de sentidos e significados que vão sendo costurados na trama discursiva ao afirmar que a escolha e definição do Plano Clima terão como base a ciência e sua exequibilidade. Assim, narrativas que dialogam e se apoiam na Ciência e Tecnologia (CT), são aquelas tidas como válidas. Se inicialmente parece haver uma valorização da Ciência em tempos de negacionismo, apontamos a necessidade de reconhecer os perigos que uma perspectiva salvacionista de CT (Auler, 2002) pode acarretar, considerando a ausência de uma cultura de participação no contexto brasileiro. Corre-se o risco de legitimar um modelo de decisão tecnocrático e compreensão distorcida das relações entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente. O segundo recorte, “Em Santarém, agricultores familiares participam de oficinas sobre REDD+ em Santarém”[2], narra uma atividade de formação de diferentes representantes da agricultura familiar no oeste do estado do Pará referente a um mecanismo internacional denominado de REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal plus). Como é abordado pela reportagem, o sistema de REDD+ regulamenta a geração de créditos de carbono e sua comercialização no mercado voluntário, nesse sentido, o “objetivo do Governo do Estado é gerar recursos para fortalecer o controle e redução do desmatamento, priorizando os benefícios para o meio ambiente, para a população e comunidades tradicionais” (G1, 2024b, p.1). O REDD+ surge no contexto da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNECCC), sendo objetivado como um incentivo criado para recompensar financeiramente quem reduz suas emissões de gases do efeito estufa que decorre do desmatamento e degradação florestal. Dito isso, compreendemos que os sentidos e significados de convocação ao enfrentamento do fim do mundo, nessa reportagem, também passa pelo campo da economia, especificamente, da sustentabilidade. De acordo com a própria estrutura do REDD+, se trata de uma ação entre Governo do Estado em colaboração com os Povos Indígenas, Quilombolas, Comunidades Tradicionais e Agricultura Familiar (PIQCTAF). Apesar de se apresentar a partir da valorização das formas de ser e estar no mundo dessas comunidades, bem como os conhecimentos ancestrais e práticas ligadas à terra, nos questionamos se os REDD+ não são mais uma forma de monetarização das relações na natureza a partir de práticas já existentes, como bem dito por Noemi Gonçalves, coordenadora da Fetraf, em relação ao foco na agricultura familiar: “Para nós, é um tema novo entre aspas, porque nós já fazemos parte dele desde que nós chegamos na Terra. Nós já somos parte desse processo” (G1, 2024b, p.1). Ao enunciar que se trata de um mecanismo que “visa reduzir as emissões de gases do efeito estufa pela agricultura e criar um sistema de compensação por serviços ambientais” (G1, 2024b, p.1), torna-se imprescindível apontar que os maiores índices de emissão de gases decorrem do agronegócio e da mineração ilegal[3], por suas práticas predatórias de desmatamento e degradação. Além disso, a “agricultura” aqui implicada está associada às práticas de crédito de carbono, incorrendo em uma “financeirização do meio ambiente” (Salviatti, 2013), isto é, a redução da natureza em mercadoria. Por meio dessas relações, compreendemos que o ponto de tensionamento se faz na cooptação da agricultura familiar à agricultura do agronegócio. Considerações Ao longo desta pesquisa, nosso objetivo foi analisar distintas narrativas que convocam e adiam o fim do mundo em torno do fenômeno da crise climática nas mídias, refletindo sobre sua contribuição para a educação. Os resultados apontam uma responsabilização dos sujeitos diante do cenário de crise, podendo fomentar uma perspectiva salvacionista de CT como forma de resolução, e associada à um financeirização da natureza. A partir disso, as implicações dessa análise para o campo da EA que se proponha a uma formação crítica se dão no sentido de considerar os usos que as mídias podem trazer para o processo educativo como via de problematização de narrativas hegemônicas que são postas em circulação. Assim, acreditamos que o trabalho com a mídia, dentre outros meios de comunicação em massa, carregam grande potencial formativo e de resposta à crise socioambiental enunciada. Palavras-chave: Crise climática. Mídia e discurso. Educação Ambiental. Referências AULER, Décio. Interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade no Contexto da Formação de Professores de Ciências. 2002. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2002. CARVALHO, Isabel Cristina Moura. 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