A PARTE QUE FALTA: O SILENCIAMENTO DO COLÉGIO TÉCNICO EM ECONOMIA DOMÉSTICA NAS ORIGENS DO COLÉGIO TÉCNICO DA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

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Resumo
A PARTE QUE FALTA: O SILENCIAMENTO DO COLÉGIO TÉCNICO EM ECONOMIA DOMÉSTICA NAS ORIGENS DO COLÉGIO TÉCNICO DA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO INTRODUÇÃO No ano de 2023, o Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CTUR) celebrou 80 anos de existência. De acordo com Pamplona (2010), o CTUR é resultado de uma fusão ocorrida no ano de 1973, que por sua vez unificou o Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Simões Lopes e o Colégio Técnico de Economia Doméstica (CTED). Dentre as comunicações e pesquisas sobre o CTUR (Pamplona, 2010), é indelével a primazia de registros de uma unidade em detrimento da outra. A fim de contribuir para com aspectos decoloniais e feministas, a presente comunicação que se refere a uma pesquisa em curso, apresenta abordagem qualitativa. Ainda assim, recorre à pesquisa bibliográfica tendo como foco a história do CTUR, do mesmo modo como opera análises de discursos. Em sua pesquisa sobre a história do CTUR, Pamplona (2010) provê um destaque muito maior aos elementos que configuram a primeira unidade que se soma ao CTED para dar origem ao atual colégio. Nesse sentido, alguns elementos podem explicar o processo, sobretudo porque para além de haver um recorte de gênero no que diz respeito a quem eram os e as estudantes das referidas unidades, havia uma primazia sobre as questões relativas ao Aprendizado Agrícola (AA). Atendo-se a este aspecto, o AA era um dos desdobramentos da política nacional voltada ao Ensino Agrícola e Veterinário no país. Naquele momento, a vocação do setor primário da economia brasileira demandava maiores esforços no que diz respeito às necessidades de sua cientifização e tecnificação. Para tanto, os procedimentos voltados tanto no que tange ao ensino superior, como ao ensino técnico na área partiram não do Ministério da Educação, mas sim do Ministério da Agricultura. Ou seja, tanto o Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Simões Lopes como a então Universidade Federal Rural do Brasil eram instituições sob gestão do Ministério da Agricultura. ANÁLISE E DISCUSSÃO Na pesquisa de Pamplona (2010) não há menções sobre quem foi Ildefonso Simões Lopes, que por sua vez foi um importante político gaúcho no início do século XX. Ou seja, o homenageado de uma das cepas do CTUR não possui um devido registro sobre os porquês que assim o fora por umas décadas. Nascido em Pelotas, em 1866, Ildefonso Simões Lopes veio de uma família estancieira do sul gaúcho, cujo pai, João Simões Lopes Filho, o Visconde da Graça, foi presidente da então Província do Rio Grande do Sul (1871). Sua formação, de acordo com Moreira (2015), deu-se no Rio de Janeiro, então capital o Império, onde ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1885. Teve envolvimento com o Movimento Republicano, organizando inclusive o Batalhão Acadêmico, reprimindo motins monarquistas nas Forças Armadas após a Proclamação da República (Moreira, 2015). Como engenheiro, atuou na construção de estradas de ferro em Minas Gerais e São Paulo. Ao retornar ao Rio Grande do Sul, além de atuar no campo político, aprimorou técnicas relativas à produção de arroz em larga escala, tendo como base a utilização de adubos industriais. De acordo com Moreira (2015), Ildefonso Simões Lopes foi nomeado Ministro da Agricultura, Indústria e Comércio (1919-22) no governo de Epitácio Pessoa. Sua atuação política se destaca ainda na participação da Comissão Executiva da Aliança Liberal (1929-30), que desemboca na Revolução de 1930. O ano de 1930 ainda guardava um fato inusitado na história de Ildefonso, posto que em uma das sessões seguidas de um dos comícios da Aliança Liberal (...) no dia 26 de dezembro, Simões Lopes foi violentamente interpelado pelo deputado pernambucano Manuel Francisco de Sousa Filho. Luís Simões Lopes, filho Ildefonso, vendo-o ameaçado pelo punhal do deputado pernambucano, interveio em sua defesa, agredindo Sousa Filho que, em reação, o atacou com a arma que brandia. Ildefonso sacou então seu revólver e desferiu dois tiros no deputado pernambucano, matando-o instantaneamente. Pai e filho foram presos ainda no palácio Tiradentes, sendo em seguida conduzidos à chefatura de polícia. Somente em agosto de 1930 foram absolvidos por unanimidade, tendo o tribunal considerado que agiram em legítima defesa. A sentença foi posteriormente confirmada pela 1ª Câmara da Corte de Apelação do Distrito Federal (Moreira, 2015). Após o estabelecimento do Governo de Vargas com a Revolução de 1930, Ildefonso se torna diretor do Banco do Brasil durante 13 anos. Ou seja, a marca dessa figura histórica e política nomeou por anos não somente o Colégio Técnico que é um dos pares geradores do CTUR, como também até hoje nomeia uma Escola Estadual no Rio Grande do Sul, em especial na cidade de Osório, a qual oferta cursos técnicos na área agrícola e ambiental. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ainda assim, chama atenção a escassez de informações sobre o CTED, que por sua vez se dedicava à formação de mulheres que atuavam no campo. Isso para além de abrir uma frente de pesquisas sobre os motivos dessa ausência de dados, pode ser explicado por um lugar menor dado ao ensino voltado às mulheres no campo. Não à toa, o CTED, por exemplo, não recebeu uma nomeação relativa a uma figura de renome político, como o caso relativo ao seu par. Ainda assim, as pesquisas de Pamplona deram conta da existência de uma terceira unidade, o Colégio Universitário, extinto em 1969. Segundo Pamplona (2010), em 1973 fundem-se o CTED e o Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Simões Lopes gerando o Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. O processo em si ocorre diante um cenário em que o país vivia a ditadura empresarial-militar, carecendo de informações sobre como o processo de desenvolveu no conjunto de atores da época. Ainda assim, embora no conjunto da economia o Brasil estivesse vivendo o processo de industrialização, os traços relativos ao processo de formação de técnicos/as, pesquisadores/as e extensionistas na área agrícola não deixou de ser uma preocupação para o Estado. Naquele momento, o CTUR passava a ofertar dois cursos: o Técnico em Agropecuária e o Técnico em Economia Doméstica. Aqui destaco que, embora não houvesse qualquer impedimento ou critério que obrigasse pessoas do gênero masculino e do gênero feminino ocupar cursos segundo o mesmo, tal separação se evidenciava junto aos cursos. Em 1988, de acordo com Pamplona, o CTUR passa a também oferecer Ensino Médio. No ano de 2001, três anos antes de eu ingressar no CTUR, há uma mudança nos cursos. Segundo Pamplona (2010), o curso técnico em Economia Doméstica foi extinto, substituído pelo curso técnico em Hotelaria. Já o curso técnico em Agropecuária passou a incorporar novas formas de compreensão e técnicas, adaptado para curso técnico em Agropecuária Orgânica (Faustino, 2012). Para além de uma nova reformulação ocorrida já após os anos 2010, onde o curso técnico em Hotelaria passou a ser Hospedagem e, o curso técnico em Agropecuária Orgânica, tornou-se Agroecologia, somam-se dois novos cursos técnicos: Meio Ambiente (Santos & Rocha, 2025) e Agrimensura (Farias, 2020). Isso em algum grau reflete o legado histórico desta instituição de ensino médio na Baixada, que por sua vez mudou enquanto dinâmica socioeconômica, não sendo demasiadamente mais agrícola, mas cuja práticas educacionais ainda refletem as raízes das unidades de ensino que geraram o CTUR. Ainda assim, embora haja inclusive pesquisas que tratem questões de gênero junto ao CTUR (Loureiro, 2009), as mesmas centram-se, por exemplo, em realidades que são legados dos cursos vinculados ao que fora Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Simões Lopes. Nesse sentido, questiona-se a ausência de devida memória e história ao CTED na formação do CTUR. REFERÊNCIAS SANTOS, Alex Braz Iacone; ROCHA, Marcelo Borges. Perfil dos egressos do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro: um acompanhamento reflexivo. Revista Brasileira da Educação Profissional e Tecnológica, [S. l.], v. 1, n. 25, p. e15352, 2025. DOI: 10.15628/rbept.2025.15352. Disponível em: https://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/RBEPT/article/view/15352. Acesso em: 7 abr. 2025. FARIAS, Letícia Campos de. Estudo da Evasão Escolar no Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. 2020. 48 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Instituto de Agronomia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ, 2020. FAUSTINO, Sandra Regina de Oliveira. A Criação do Curso de Agropecuária Orgânica do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/RJ - CTUR. 2012. 104 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Educação Agrícola) - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica. LOUREIRO, Adriana Maria. A presença feminina no magistério do curso técnico em agropecuária no CTUR/UFRRJ nos anos de 1970. 2009. 46 p. Dissertação (Mestrado em Educação Agrícola). Instituto de Agronomia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica-RJ. 2009. MOREIRA, Regina da Luz. Ildefonso Simões Lopes. In: Abreu, Alzira Alves de. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República 1889-1930. Rio de Janeiro/RJ: FGV Editora, 2015. PAMPLONA, Ronaldo Mendes. Nossa História. Seropédica/RJ: Colégio Técnico da UFRRJ, 2010. Disponível em: https://ctur.ufrrj.br/nossa-historia/#:~:text=O%20CTUR%20%C3%A9%20fruto…. Acesso em 01 abr. 2025.

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  • GT02 - História da Educação