A CONSTITUIÇÃO DOCENTE EM CURSOS DE LICENCIATURA: UMA MATRIZ FORMATIVA COMO FERRAMENTA ANALÍTICA

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Resumo
A CONSTITUIÇÃO DOCENTE EM CURSOS DE LICENCIATURA: UMA MATRIZ FORMATIVA COMO FERRAMENTA ANALÍTICA O trabalho visa apresentar os estudos de uma pesquisa de doutorado de um Programa de Pós-Graduação em Educação do sul do Brasil, que teve como objetivo analisar, identificar e reconhecer o processo de constituição docente produzido pelo percurso formativo dos Cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas e Pedagogia de um Campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. A escolha destes Cursos baseou-se na necessidade de uma cultura formativa comum aos cursos de formação de professores, orientados para a formação na docência, ainda que cada um tenha suas especificidades. A problemática da pesquisa foi entender como o percurso formativo destes Cursos de Licenciatura desenvolve o processo de constituição docente dos futuros professores. A abordagem teórico-metodológica seguiu os princípios da pesquisa (de)formação, uma “[...] uma modalidade de pesquisa formativa, participativa, colaborativa e de intervenção que se desenvolve em um espaço-tempo experimental e experiencial” (autoria não citada[1], 2024, p. 30). Pelos seus pressupostos, a pesquisa (de)formação possui duas etapas: a primeira objetiva produzir dados empíricos por meio de instrumentos, como questionários ou entrevistas ou, ainda, documentos selecionados pela investigação. A segunda ocorre por meio de encontros (de)formação desenvolvidos em um laboratório de docências. O laboratório é concebido como espaço potencial (de)formação, que aciona, junto com os participantes, uma "caixa de ferramentas", composta de conceitos teórico-metodológicos que operam para que experimentos e experiências possam ser vividos e analisados conforme o foco da pesquisa realizada. As intervenções são realizadas para que a exploração dos experimentos ocorra com a participação ativa de cada um, possibilitando movimentos de análise, crítica e criação. Portanto, é o espaço empírico da pesquisa (de)formação, mas de um tipo de formação que atua na transformação de cada um, que vive e experiencia o processo (de)formação. Os referenciais dessa pesquisa foram os estudos sobre docências contemporâneas, formação de professores, constituição docente e cultura formativa na contemporaneidade, especialmente o impacto das políticas neoliberais sobre as docências no contemporâneo. Autores como Gert Biesta, Alfredo Veiga-Neto, Marta Nörnberg, Bernardete Gatti, António Nóvoa, Elí Fabris, Maarten Simons, Jan Masschelein, Pierre Dardot, Cristian Laval, Julio Aquino e Stephen Ball foram os principais referenciais. A partir dos pressupostos da pesquisa (de)formação, a investigação desdobrou-se nas seguintes fases: i) o desenvolvimento de um questionário on-line, produzido pela ferramenta on-line do Google Formulários, encaminhado a todos os estudantes matriculados nos Cursos de Licenciatura. O instrumento objetivou apresentar a pesquisa e produzir dados sobre a situação atual dos licenciandos no Curso e seus conhecimentos sobre docência e trabalho docente a partir do percurso formativo, bem como as motivações, expectativas e interesses quanto à escolha pela Licenciatura. Obteve-se 29 respostas, sobre as quais selecionou-se os temas para os encontros (de)formação da segunda etapa; ii) a ocorrência de grupos (de)formação no Laboratório de Docências Contemporâneas (LABDOC). O LABDOC não se configurou como um curso, mas como uma formação em laboratório, espaço empírico de experimentação e criação, desenvolvido por meio de experimentos, explorados e analisados pelos pesquisadores da universidade e pelos próprios participantes – licenciandos dos Cursos. Um espaço para afiar as ferramentas necessárias para que a formação ocorresse pela (de)formação (autoria não citada, 2024). O Laboratório desenvolveu-se em oito encontros, cada um com duração de três horas e meia, organizados de forma presencial no local de investigação, considerando os estudantes matriculados nos Cursos, desde os ingressantes até os concluintes. Considerando o número ativo de estudantes matriculados, naquele momento da pesquisa, obteve-se uma média de 55% de participação dos estudantes da Licenciatura em Pedagogia e de 39% dos estudantes da Licenciatura em Ciências Biológicas. Ainda, as narrativas emergentes no LABDOC foram articuladas aos Projetos Pedagógicos dos Cursos. Apoiado pela perspectiva da hipercrítica, em que é preciso “[...] desterritorializar, desfamiliarizar, levar ao estranhamento” (Veiga-Neto, 2016, p. 25), os dados centrados no foco da pesquisa, sobre o percurso formativo de dois cursos de licenciatura, junto aos dados de pesquisas sobre formação inicial nas licenciaturas, contribuíram para que os experimentos fossem explorados no Laboratório. Na segunda fase, os dados foram produzidos por meio da transcrição dos encontros em Laboratório e dos diferentes registros: i) dos experimentos[2]; ii) das tarefas registradas no ambiente virtual moodle[3]; iii) dos diários individuais (de)formação[4]. Os encontros contavam com uma organização comum: acolhida, desenvolvimento do experimento e análise, sempre em abordagem (de)formativa. A potência formativa do LABDOC atravessou todos os momentos, por isso não foram considerados estáticos ou rígidos. Ao serem desenvolvidos os experimentos, as ferramentas (teórico-metodológicas) estiveram em operação no processo de (de)formação. Como a pesquisa (de)formação é formativa e de intervenção, cada movimento tinha por intenção problematizar e exercitar o pensamento sobre as verdades cristalizadas do percurso formativo de tais cursos, observadas nas falas dos estudantes e seus nos registros, sempre com suporte teórico-metodológico escolhido pela pesquisadora coordenadora da pesquisa. Para a análise dos dados, utilizou-se uma Matriz Formativa baseada nos estudos de Gert Biesta (2018; 2020, 2021a; 2021b; 2021c), no que se refere ao conceito de Educação e Ensino, com foco na tríade de domínios de propósito na ação educativa: qualificação, socialização e subjetivação. A Matriz Formativa foi tomada como uma ferramenta abrangente que integra e relaciona os domínios, bem como as forças agenciadoras para o percurso formativo. Para o autor, o domínio da qualificação é entendido como a transmissão dos conhecimentos e habilidades que devem servir para atuar no mundo, não em um viés utilitarista, mas no sentido de “tornar-se sujeito” no mundo. O domínio da socialização orienta os estudantes a “[...] encontrarem seu caminho em um mundo cada vez mais complexo. Esse é o trabalho [...] em que introduzimos nossos alunos nas tradições e nas práticas, e os convidamos a encontrar seu próprio lugar dentro delas [...]. Também não se trata de forçá-los a seguirem determinados modos de ser e de fazer. Ao contrário, trata-se de oferecer-lhes orientação significativa e um senso de direção” (Biesta, 2021c, p. 4). Para o autor, mesmo que a escola se restringisse apenas aos fatos, estaria dando acesso às culturas, tradições, modos de ser e agir. A subjetivação, por sua vez, é o domínio mais complexo, pois implica transformar o indivíduo como sujeito da própria vida. Nesse sentido, a ação educativa é concebida como um convite, um estímulo a desafiar o estudante a “tornar-se pessoa”, que implica uma forma adulta de estar no mundo. Biesta considera que quando esse entra em cena, a Educação está realmente cumprindo seu papel. Para Biesta, o Ensino envolve os três domínios que significa devolvê-lo para a Educação. Isso porque o autor faz uma crítica à ênfase da linguagem da aprendizagem no contemporâneo, ancorada pela lógica de uma racionalidade neoliberal que adentra o campo educacional. Por isso, defende que a Educação não se trata somente de produzir resultados de aprendizagem mensuráveis, mas apostar no propósito da tarefa educativa, que se dá por meio dos três domínios de propósito. Portanto, esta investigação propôs-se a problematizar o que é produzido pelo percurso formativo dos Cursos de Licenciatura, em relação ao processo de constituição docente e, sob as lentes da Matriz Formativa, localizar os saberes da qualificação, a função socializadora e como isso impacta no domínio da subjetivação dos futuros professores. Por isso, a Matriz Formativa como lente analítica considerou os domínios da seguinte maneira: i) qualificação como o estudo dos referenciais tanto dos conhecimentos específicos quanto dos conhecimentos pedagógicos; ii) socialização como o saber-fazer da docência, a inserção/introdução do licenciando na cultura e na profissão docente; iii) subjetivação como cada aluno responde e se constitui a partir do percurso formativo. Os resultados apontaram efeitos e sentidos do percurso formativo dos Cursos que apresentaram algumas fragilidades e tensionamentos, os quais entendemos que atuam no processo de constituição docente dos futuros professores. Dentre eles, um discurso do desejo de não seguir a carreira docente, que não se revela somente anterior à entrada no Curso de Licenciatura, mas que se produz a partir de acontecimentos da própria trajetória, como um efeito da desarticulação entre conhecimentos específicos e pedagógicos do percurso formativo, próprios do domínio da qualificação e uma fragilidade do domínio da socialização na profissão e cultura docente e, que consequentemente, favorecem um distanciamento da teoria e prática no percurso formativo que, por sua vez, alimenta um entendimento dicotômico entre as dimensões. Junto a isso evidencia-se a presença de um discurso de romantização da docência, que mostra o esmaecimento das discussões sobre a sua complexidade, sinalizando uma outra fragilidade no domínio da qualificação. Da mesma forma, observam-se narrativas e entendimentos de uma docência mediadora e facilitadora de aprendizagens que engendradas nas discursividades da lógica gerencialista de Educação e da linguagem da aprendizagem, adentra os espaços de formação de professores e vai ganhando força como verdade, mesmo que os licenciandos tenham mostrado, a partir dos experimentos no LABDOC, uma outra docência com responsabilidade pedagógica e comprometimento com o Ensino, potencializada a partir de ações de socialização no percurso formativo. Por isso, constatamos que quando os estudantes realizam ações de socialização no percurso formativo, além dos Estágios Obrigatórios, ou seja, experimentos da docência que articulam conhecimentos específicos e pedagógicos próprios do domínio da qualificação, considerando a sala de aula como laboratório, a docência começa a ganhar outros sentidos e entendimentos. Isso porque a potencialidade do Laboratório como um espaço de (de)formação foi evidenciada pelos licenciandos, incluindo os deslocamentos na compreensão da docência e as formas como colocaram sob suspeita as verdades, tanto as que emergem no próprio percurso formativo, quanto as que se engendram na formação de professores. Ao observar, entre os licenciandos, um desejo, um querer ser docente de outros modos, percebemos nesse movimento a mobilização de autoria e criação. Importante destacar que a formação como (de)formação é entendida como um processo inacabado, que assume o exercício do pensamento e a hipercrítica. Portanto, esse “de” que antecede a palavra formação chama atenção para o pensar de outros modos, para a problematização das verdades estabelecidas, para pensar o que ainda não foi pensado, para a transformação de si e do outro. Considerar a formação como (de)formação e viver processos de coformação no percurso de um curso de licenciatura, constitui a possibilidade de criar e cultivar um ethos formativo que oriente um “fazer-se sujeito” que, ao escolher exercer a docência, os futuros professores saibam justificar suas escolhas ao dominar tanto o conhecimento específico de sua área de formação quanto o conhecimento pedagógico no desenvolvimento do ensino, compreendido como Educação (Biesta, 2020). É viver a matriz formativa de seu curso de licenciatura, expressa no percurso formativo, desenvolvendo os três domínios de forma equilibrada: qualificação, socialização e subjetivação. REFERÊNCIAS BIESTA, Gert. O dever de resistir: sobre escolas, professores e sociedade. Educação, Porto Alegre, v. 41, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2018. BIESTA, Gert. A (re)descoberta do ensino. São Carlos: Pedro & João Editores, 2020. BIESTA, Gert. Para além da aprendizagem: educação democrática para um futuro humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2021a. BIESTA, Gert. Arriesgarnos en educación: la cualificación, la socialización y la subjetivación, revisadas. BILE, n. 123-124, p. 79-101, dez. 2021b. BIESTA, Gert. Reconquistando o coração democrático da educação. Educação Unisinos, São Leopoldo, v. 25, p. 1-7, 2021c. VEIGA-NETO, Alfredo. Foucault & Educação. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. [1] Adotamos essa indicação para evitar a identificação da autoria do texto, antes da avaliação do resumo expandido. [2] Os experimentos foram considerados como as atividades realizadas em pequenos grupos (algumas vezes, estudantes de mesmo semestre letivo e, em outras, estudantes de semestres distintos), em que os licenciandos eram desafiados a analisar, criar, a ensaiar, a questionar, a apresentar propostas, sempre registradas por escrito. Cada experimento contou com a análise conjunta, em abordagem formativa. [3] A página do moodle do LABDOC estabeleceu-se como o espaço no qual os estudantes postavam/registravam as tarefas de cada encontro. Também serviu como repositório de referenciais utilizados e/ou citados no decorrer dos encontros em Laboratório. [4] O Diário (de)formação era um caderno individual no qual os licenciandos, no decorrer dos encontros, registraram suas impressões e seus apontamentos, sempre recolhidos pela pesquisadora ao final de cada um deles.

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