MULHERES DE AXÉ: EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA E RESISTÊNCIA EPISTÊMICA

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Resumo
Mulheres de Axé: Educação Antirracista e Resistência Epistêmica Introdução Vivemos um momento histórico marcado pelo avanço do neoconservadorismo no Brasil e no mundo, que ataca diretamente conquistas sociais, culturais e políticas de grupos historicamente subalternizados. No campo educacional, observa-se o recrudescimento de discursos racistas, sexistas, LGBTQIAPN+fóbicos e religiosos que tentam restringir a pluralidade epistemológica e o compromisso ético com os direitos humanos. Nesse cenário, o presente trabalho tem como objetivo analisar, em dialogo com as relações étnico-raciais e de gênero, como as mulheres de axé — lideranças religiosas de matrizes africanas e/ou afro-diaspóricas - atuam como educadoras sociais e políticas na promoção de uma educação antirracista, feminista e decolonial. A base teórica se ancora nas contribuições de autoras como Lélia Gonzalez (1984), Patricia Hill Collins (2016), Sueli Carneiro (2003) e Kimberlé Crenshaw (2002), que denunciam as múltiplas opressões impostas às mulheres de axé em especial as negras e evidenciam suas estratégias de resistência e construção de saberes próprios. A abordagem que hoje chamamos de interseccional tem sido uma dessas ferramentas teóricas forjadas pelas feministas negras que nos permitem perceber melhor aquilo que cerca para poder mobilizar as melhores estratégias de enfrentamento dessas situações opressivas e discriminatórias que nos envolvem e atingem as escolas de maneira particular (FLOR-NASCIMENTO, 2022, p. 18-19). A interseccionalidade, enquanto ferramenta analítica, permite compreender como raça, gênero e religiosidade se entrecruzam na constituição das experiências dessas mulheres e nas formas de enfrentamento às violências sócio-político-ambientais em curso. A interseccionalidade nos permite compreender que as mulheres negras de axé não sofrem apenas racismo, sexismo ou intolerância religiosa, mas sim uma combinação complexa dessas opressões, que se manifesta de formas específicas em diferentes contextos, as submetendo a inúmeras vulnerabilidades. Neste cenário, o presente trabalho, se vale de entrevistas narrativas com iyalorixás, análise documental e autobiografia, tem como objetivo analisar como mulheres de axé são formuladoras de conhecimento de valorização da cultura afro-brasileira e salvaguardam saberes ancestrais que oferece subsídios para uma educação antirracista comprometida com a justiça social. O neoconservadorismo se manifesta no campo educacional através de projetos de lei que visam proibir a discussão de questões de gênero e sexualidades nas escolas, da disseminação de notícias falsas sobre as religiões de matrizes africanas e do ataque a professores(as) e pesquisadores(as) que defendem a educação antirracista e de garantia de direito para todes. A relevância deste estudo está na centralidade das epistemologias do axé como fontes legítimas de conhecimento e resistência, reafirmando que as mulheres e terreiro, historicamente silenciadas, são protagonistas na luta contra o racismo religioso, institucional e ambiental, promovendo práticas educativas afirmativas e de cuidado com a vida. Metodologia Esta pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, fundamenta-se na perspectiva da epistemologia feminista negra e nos aportes das metodologias afrocentradas. O corpus empírico foi construído a partir de entrevistas narrativas com quatro iyalorixás de candomblé da região Nordeste do Brasil, combinadas à análise documental de produções acadêmicas e publicações sobre educação das relações étnico-raciais e religiões de matrizes africanas ou afro-indígenas. E minha autobiografia refletindo sobre as vivências em uma comunidade de terreiro localizada na cidade de Recife (PE). A forma nordestina de comunicar a vida em versos, em musicalidade, demostra a excelência artística de um povo que, mesmo sofrido, não perde a sua maestria. Isso é o que mais encanta. [...] Muitas pessoas não conhecem a realidade do Nordeste e afirmam que somos atrasados. Vejam vocês que nos processos democráticos o Nordeste demonstrou o seu papel de fidelidade à democracia do país... (BOTELHO, 2022, p. 69) As mulheres de axé foram selecionadas com base em critérios como tempo de atuação na liderança religiosa, reconhecimento na comunidade, disponibilidade para compartilhar suas experiências e pessoas que eu já conhecia no mundo religioso. A região Nordeste foi escolhida devido à sua rica história de resistência afro-brasileira e à presença marcante de terreiros de candomblé. A técnica de análise utilizada foi a análise de conteúdo temático (BARDIN, 2016), com foco nos sentidos atribuídos pelas mulheres entrevistadas à sua trajetória de liderança, às experiências de ensino-aprendizagem nos terreiros e à relação entre suas práticas e os desafios do contexto educacional atual. A escolha metodológica respeita os princípios da escuta sensível e do reconhecimento da oralidade como forma legítima de produção de saber (RIBEIRO, 2006). A pesquisa também dialoga com os princípios do Artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Base da da Educação Nacional (Leis No10.639/03 e 11.645/08), que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas, buscando identificar os atravessamentos entre saberes tradicionais e práticas pedagógicas críticas no combate ao racismo. Análise e Discussão dos Resultados As falas das mulheres de axé revelam um campo fértil de epistemologias insurgentes, que confrontam as lógicas coloniais e neoconservadoras que sustentam o racismo estrutural e epistêmico no Brasil. Suas trajetórias pessoais e religiosas são marcadas por lutas cotidianas contra o apagamento, a criminalização das religiões de matriz africana e a misoginia que atravessa tanto os espaços religiosos quanto o campo educacional. A educação, para essas mulheres, é entendida como um ato político de preservação da memória, da ancestralidade e de construção coletiva do saber. A pedagogia do axé envolve rituais, cantigas, narrativas e práticas de cuidado que transmitem valores éticos como o respeito à diferença, o equilíbrio entre o humano e a natureza, e o fortalecimento comunitário. Em contraponto ao avanço do neoconservadorismo, que promove a desinformação, o negacionismo e a destruição simbólica e material dos terreiros, essas lideranças reafirmam a importância de uma educação enraizada em seus próprios marcos civilizatórios. Assim, as mulheres de axé promovem uma pedagogia da integralidade, que rompe com os dualismos cartesianos entre razão e emoção, corpo e espírito, teoria e prática, nenhum processo educativo ocorre se o ser do ensino-aprendizagem estiver desenraizado de seus valores, de suas crenças, de seus objetivos, do seu próprio ser. Os dados também revelam o papel central das mulheres de terreiro como formadoras de subjetividades e promotoras de resistências múltiplas. Ao incorporarem as lutas antirracistas, feministas e ambientais em suas práticas, elas se contrapõem diretamente às violências do projeto neoconservador, que busca excluir da escola os debates sobre diversidade, gênero e religiosidade. As iyalorixás entrevistadas atuam como intelectuais orgânicas (GRAMSCI, 1991), promovendo processos educativos transformadores, seja dentro dos terreiros, nas comunidades periféricas, ou nos espaços institucionais onde transitam. Quadro 1 – Categorias emergentes da análise de conteúdo CATEGORIA DIMENSÕES DE SENTIDO Educação como resistência Práticas educativas nos terreiros, transmissão oral, memória e ancestralidade Interseccionalidade Raça, gênero e religiosidade entrelaçados na experiência cotidiana Racismo religioso Violência simbólica e física contra os terreiros e lideranças negras Saberes ancestrais Epistemologias do axé como alternativa ao currículo eurocentrado Considerações Finais A presente pesquisa foi possível graças à colaboração generosa de mulheres de axé, cujas trajetórias e reflexões foram fundamentais para a construção desta pesquisa. Agradeço, de modo especial, às iyalorixás que compartilharam seus saberes, experiências e perspectivas com sensibilidade e compromisso. Reconheço, ainda, a importância das comunidades de terreiro envolvidas na pesquisa, pelo acolhimento e pela confiança depositada neste trabalho. Expresso também minha gratidão às instituições que apoiaram o desenvolvimento da investigação, bem como aos pares acadêmicos que contribuíram com leituras e interlocuções críticas durante o processo. Por fim, reconheço a relevância dos saberes ancestrais e das cosmo-percepções afro-brasileiras como fundamentos éticos, epistêmicos e políticos na luta por uma educação antirracista, decolonial e comprometida com a justiça social. A análise das trajetórias e práticas das mulheres de axé revela que, mesmo diante das ofensivas neoconservadoras e da intensificação das violências raciais, religiosas e ambientais, essas lideranças seguem construindo alternativas educativas baseadas na ancestralidade, na coletividade e na justiça social. Frente aos desafios impostos pelo neoconservadorismo, propõe-se uma radical valorização das epistemologias negras e indígenas no campo educacional, a ampliação da formação docente com enfoque nas relações étnico-raciais e a efetiva implementação da legislação educacional antirracista. É urgente reconhecer as mulheres de axé como educadoras legítimas e produtoras de conhecimento, valorizando suas práticas como parte constitutiva de uma pedagogia da esperança, da dignidade e da vida. As epistemologias do axé se baseiam em princípios como a ancestralidade, a oralidade, a coletividade, a sacralidade da natureza e o respeito à diversidade. Esses princípios podem contribuir para a construção de uma educação que valorize a memória, a identidade e a cultura dos povos afro-brasileiros, promovendo o diálogo intercultural e o combate ao racismo É fundamental que as instituições de ensino invistam na formação continuada de professores(as), promovendo o diálogo intercultural e a desconstrução de estereótipos raciais e religiosos. Além disso, é preciso garantir a presença de representantes das comunidades de terreiro nos espaços de decisão, para que suas vozes sejam ouvidas e suas experiências valorizadas Que a escola, espaço ainda profundamente marcado pela colonialidade, possa se tornar terreno fértil para as vozes, os corpos e os saberes historicamente silenciados, como os das mulheres de axé, para que todas, todes e todos floresçam em sua potência educativa e transformadora. Referências BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2016 BOTELHO, D. M. Nordeste maravilha. Recife: coração Cultural do Brasil. 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Contagem-MG: Editora Escola Cidadã, 2022. GOMES, N. L. A temática da cultura negra no currículo escolar: reflexões e propostas. Brasília: MEC/SECAD, 2003. GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. GONZALEZ, L. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: ______. Primavera para as rosas negras. São Paulo: Zahar, 2020. GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. RIBEIRO, D. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. SANTOMÉ, J. T. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. THEODORO, M. Negros no Brasil: história e luta. Brasília: SEPPIR, 1996.

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