EM BUSCA DE PEDAGOGIAS FEMINISTAS NA CRECHE O presente trabalho apresenta reflexões decorrentes da pesquisa de doutoramento realizada no município de Curitiba/PR, na qual analisamos as práticas pedagógicas na creche em interlocução com os estudos feministas, propondo, assim, reflexões acerca de uma educação não sexista, antirracista e sem opressão geracional na creche. O contexto desigual, racista, LGBTfóbico, machista e sexista tem ganhado evidência nos últimos anos com o avanço do neoconservadorismo, que retira direitos e agrava as opressões sofridas pela maioria da população. Muitos desafios se apresentam à educação neste tempo e, como professoras, acreditamos ser importante debater formas de enfrentamentos ao neoconservadorismo e as opressões, tendo em vista a defesa dos direitos das crianças, desde bebês. Os feminismos subalternos apresentam conceitos relevantes para pensarmos a creche como contexto de construção de conhecimentos, a partir da subalternidade como categoria, apontam a produção de relações de poder caracterizadas pelas marcações étnico-raciais, geopolíticas e culturais e os impactos destas na sociedade. Nesse sentido, nos aliamos teoricamente aos feminismos subalternos, estes se fundamentam nas discussões sobre a subalternidade, discutida pela feminista indiana Gayatri Chakravorti Spivak, principalmente na obra “Pode o subalterno falar?”, publicada no Brasil em 2010. Esta autora apresenta como preocupação, desafiar os discursos hegemônicos e questiona a própria produção do conhecimento, para ela o subalterno não caracteriza uma identidade, mas alude a categoria subalternidade que ocorre nas relações sociais de poder. Defendemos a partir da categoria subalternidade, Pedagogias Feministas na Creche, para nós, estas se fundamentam nos feminismos subalternos e se relacionam com a própria docência na creche, que foi desde o início subalternizada em relação às demais etapas e níveis educativos no Brasil. Bem como, a subalternidade das crianças, desde bebês, em relação às pessoas adultas. Os feminismos subalternos buscam discutir o caráter colonial do feminismo ocidental, branco, hegemônico, e, deste modo, questionam os essencialismos presentes nele. Estes feminismos partem de discussões sobre a colonização e a produção de saberes tidos como “universais”, estudiosas do sul global questionam isso e constroem conhecimentos situados e contra hegemônicos. Os feminismos são um campo de estudo polissêmico e se vinculam às lutas contra as distintas opressões que as mulheres sofrem. Salientamos que compreendemos mulheres como uma categoria plural, rompendo com as lógicas essencialistas que definem a categoria mulher como única. Neste sentido, trazemos o conceito de mulheridades a partir da autora Letícia Carolina Nascimento (2023) ““mulheridades”, e não “mulher”, no singular, para demarcar os diferentes modos pelo quais podemos produzir estas experiências sociais, pessoais e coletivas (p. 25)”. Refletimos sobre feminismos subalternos, especialmente os feminismos negros, latino-americanos e transfeminismos e as práticas pedagógicas na creche, pensamos sobre as singularidades das crianças e infâncias, bem como sobre a docência na creche. Assim como os feminismos subalternos questionam e desconstroem a categoria mulher os Estudos Sociais da Infância, rompem com a concepção de criança ideal e única. Os campos de estudo dos feminismos e das infâncias são potentes, principalmente quando os aproximamos para discutir as práticas pedagógicas na creche. Na busca da compreensão da temática tivemos como objetivo analisar as implicações dos feminismos subalternos para o repensar das práticas pedagógicas e a construção de Pedagogias Feministas na Creche. A educação numa perspectiva feminista está pautada na justiça social e se posiciona contrária a todas as formas de opressão, racismo e sexismo que estruturam as desigualdades sociais. Porém, muitas vezes, ainda hoje, observamos em instituições práticas estereotipadas que reforçam preconceitos de gênero e raça, por exemplo, histórias infantis que colocam sempre a mulher numa condição de submissão e espera da salvação, que somente acontece com a chegada de um "príncipe encantado”. As “princesas” das referidas histórias possuem características de serem brancas e seguem padrões e estereótipos que reforçam o racismo. Ainda, quantas vezes escutamos nas escolas a perpetuação de falas direcionadas aos meninos como “você não pode chorar, porque homem não chora”. É contra esses, e outros tantos fatos que ainda acontecem, que devemos buscar respaldo nos feminismos para transformar e superar as desigualdades presentes na sociedade. Segundo bell hooks (2019, p. 46), uma educação feminista é necessária e urgente, pois sem uma educação de base feminista a formação das pessoas fica relegada ao que é difundido pela mídia patriarcal de massa e isso traz entendimentos distorcidos que reforçam o sexismo e deslegitimam as pautas feministas. As autoras Andrea Braga Moruzzi e Anete Abramowicz (2023) trazem algumas problematizações para pensarmos as contribuições dos feminismos subalternos para as infâncias. As autoras discutem a subalternidade das crianças diante dos adultos, trata-se de pensar as relações geracionais como elemento de poder. Tal qual a resposta de Gayatri Chakravorty Spivak (2010) em relação ao subalterno, no artigo as autoras, também respondem negativamente à pergunta sobre a fala das crianças. É necessário compreender que, quando as autoras dizem que a criança não pode falar, estão afirmando isso não no sentido de incapacidade ou ausência de voz, mas em relação às possibilidades de escuta dessas falas que são, muitas vezes, silenciadas pela perspectiva adulta que descredita conhecimentos às crianças e mantém relações de poder que invisibilizam o ponto de vista das crianças. Compreendemos que as Pedagogias Feministas na Creche buscam superar o essencialismo presente na idealização da infância como homogênea e única, que desconsidera as singularidades dos contextos e das crianças. Assim, elegemos a pesquisa feminista neste trabalho, pois pressupõe a busca por justiça social e está expressa em epistemologias feministas que questionam os essencialismos vinculados à categoria mulher, gênero e os sistemas sexo/gênero binário. As metodologias feministas apresentam preocupação com todo o processo de pesquisa, desse modo questionam criticamente o percurso investigativo. Nos inspiramos na definição de pesquisa engajada proposta por Bernardete Gatti (2014) e buscamos abordá-la a partir das epistemologias feministas e do contexto das instituições educacionais. Desenvolvemos uma pesquisa engajada feminista, que se caracteriza por ser uma investigação que parte da unidade teoria e prática, focalizada nos contextos educacionais formais, com olhar crítico para as relações entre as mulheres e destas com as crianças, desde bebês. Os caminhos percorridos perpassam a reflexão sobre a práxis fundamentada na Pedagogia Engajada, de bell hooks (2017), a qual “significa que professores devem ter o compromisso ativo com um processo de autoatualização que promova seu próprio bem-estar” (hooks, 2017, p. 18). As participantes da pesquisa foram professoras e demais profissionais de um Centro Municipal de Educação Infantil da capital paranaense. A busca por transformação social trouxe implicações para a pesquisa que buscou, a partir de momentos formativos com professoras e profissionais da creche pesquisada, provocar o repensar de práticas pedagógicas. Utilizamos como procedimentos metodológicos a análise de documentos da instituição pesquisada, constituídos pelo Projeto político-pedagógico (PPP), Fichas cadastrais das docentes e funcionárias, Fichas de matrículas das/os bebês. Também foi utilizada para a geração de dados a partir da observação participante, com registros em diários de campo, fotografias e filmagens. A complexidade da pesquisa não está apenas em refletir sobre as práticas pedagógicas tensionadas pelos feminismos, mas na análise por meio da interseccionalidade. De acordo com Carla Akotirene (2019, p. 27), a interseccionalidade nos instrumentaliza a enxergar a matriz colonial moderna contra os grupos tratados como oprimidos. Esta, como categoria teórico-analítica, se faz fundamental para denunciar e anunciar a complexidade de pensar as diferenças de gênero, raça e geração-idade e como se relacionam nas práticas pedagógicas. Na creche a compreensão da indissociabilidade entre educar e cuidar é condição fundamental, essa concepção está expressa nas DCNEI (2009). Nesse contexto, todas as situações são pedagógicas, os momentos de alimentação, de troca, de banho são importantes e significativos para as crianças, desde bebês. Consideramos que a (re)aproximação entre os feminismos, especialmente os feminismos subalternos e a educação se faz urgente diante dos avanços no contexto geopolítico global de governos neoconservadores que investem na subalternização, tanto dos seres humanos em relação aos mercados, como da natureza em relação aos interesses econômicos, e, assim, promovem a ampliação das desigualdades e, dentro destas, as desigualdades de gênero, raça e geração têm impactos cada vez maiores. Passamos a trazer reflexões a partir das análises que desenvolvemos na tese, divididas nas categorias geração, gênero e raça, estas perpassam reflexões com olhar interseccional. Evidenciamos na pesquisa o adultocentrismo, assim, a geração é um marcador importante para pensarmos as relações no interior da creche. Estas se expressam nas relações entre as adultas e as crianças, desde bebês. Os feminismos subalternos nos fazem pensar sobre o lugar epistêmico e a violência epistêmica que, numa concepção adultocêntrica, busca promover a colonização das crianças. Acreditamos que a prática pedagógica e a formação docente precisam desaprender as perspectivas docentes tradicionais que pretendem governar as infâncias. Deste modo, “Pensar as infâncias em suas singularidades requer romper com a distribuição desigual de poder entre elas e os adultos, romper com a tutela silenciosa, com as hierarquias (Nascimento; Santos; Adad, 2022, p. 327)”. Verificamos na pesquisa situações de sexismo e racismo em algumas práticas pedagógicas cotidianas e nas interações entre adultas e crianças, desde bebês, que reforçam preconceitos. Os estereótipos sexistas são enfatizados nas rotinas, bem como foram percebidos ao longo das observações participantes das práticas pedagógicas. Os registros de campo mostram que o racismo se expressa em situações cotidianas na creche e que precisamos estar atentas às formas como as professoras tratam as crianças dos diferentes pertencimentos étnico-raciais. O racismo expresso nas práticas pedagógicas do contexto pesquisado mostra o quanto as crianças são subalternizadas. Lélia Gonzalez (2020, p. 190), fala sobre o racismo disfarçado em uma falsa democracia racial, definido como racismo por omissão. O racismo por omissão, aliado à manutenção dos privilégios da branquitude na creche foram identificados na pesquisa, estes marcam as relações tanto entre as adultas, como destas sujeitas com as crianças. A creche reproduz violências e oprime as crianças, desde bebês, os marcadores de geração, gênero e raça precisam ser pauta de formação com as professoras e demais profissionais, pois as crianças sofrem com opressões diariamente. Os estereótipos de gênero e o sistema binário sexo/gênero são fortalecidos pelas práticas pedagógicas que têm o intuito de colonizar os corpos e mentes das crianças, desde bebês, para enquadrar em padrões generificados do que seria ser menina e menino. O peso do binarismo de gênero imposto às crianças, desde bebês, foi observado na pesquisa. Elas vão se apropriando, a partir das relações sociais, das definições do que é próprio para meninos e meninas, já fazem a distinção do que seria próprio para meninas e meninos. Isso demonstra a urgência de pautar tais questões na creche. As práticas pedagógicas trazem o sexismo presente desde a chamada e os símbolos utilizados para diferenciar meninas e meninos, bem como nas histórias contadas. Aliada à generificação das crianças ser reforçada na creche, os padrões estéticos do eurocentrismo são fortalecidos nas práticas pedagógicas. As crianças negras sofrem com atitudes racistas das professoras e a educação para as relações étnico-raciais é negligenciada na creche. Na pesquisa, verificamos a ausência de propostas educativo-pedagógicas sobre a ERER e a representatividade positiva da cultura afro-brasileira e a cultura africana. Apontamos a relevância dos feminismos subalternos como base para esta "tomada de consciência" das professoras e profissionais da educação na promoção de rupturas sociais e pedagógicas, tendo em vista uma educação não discriminatória. O estudo evidenciou que os tensionamentos dos feminismos subalternos trazem contribuições fundamentais, como a questão do lugar epistêmico, violência patriarcal, racismos por omissão, superação da binaridade de gênero que provocam o repensar das práticas pedagógicas na creche. Deste modo, buscamos apontar interlocuções entre os campos da infância, prática pedagógica e feminismos subalternos. No contexto pesquisado, o sexismo, o racismo e o adultocentrismo foram verificados nas práticas pedagógicas e estudos sobre essas opressões necessitam ser aprofundados na instituição pesquisada em formações continuadas a longo prazo, assim como em outros contextos educacionais, para que repercutam nas práticas pedagógicas futuras. REFERÊNCIAS AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Parecer CEB nº20/09 e Resolução CNE/CEB nº05/09. Brasília.2009. GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano: Ensaios, Intervenções e Diálogos. Rio Janeiro: Zahar, 2020. 375 p. HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade; tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017. HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Tradução Ana Luiza Libânio. – 1. ed. - Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019. NASCIMENTO, Letícia Carolina Pereira do. Transfeminismo. São Paulo: Jandaia, 2023. NASCIMENTO, Letícia Carolina Pereira do; SANTOS, Vanessa Nunes dos; ADAD, Shara Jane Holanda Costa. Infâncias Ingovernáveis: Aprendizagens e Proteção Social. In: FRANÇA, Rosilene Marques Sobrinho de; COSTA, Teresa Cristina Moura (Orgs.) Questão social, direitos e políticas públicas na realidade brasileira contemporânea. Teresina: EDUFPI, 2022. 433 p. MORUZZI, Andrea; Abramowicz, Anete. PODE A CRIANÇA FALAR? Sobre feminismos subalternos, infâncias e educação infantil. Revista Teias v. 24, n. especial, abr./jun. 2023. SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010.