O que pode um corpo? A importante pergunta de Espinosa (2007), debatida e comentada por Deleuze (2017), foi o ponto de partida para a produção deste trabalho. O que pode um corpo na escola? Nessa discussão, ao contrário do que alguns poderiam pressupor, o corpo aqui considerado não é exclusivamente o humano, pelo menos não sozinho e isolado dos corpos de seres de outras espécies. Que corpos não humanos são estes que habitam a escola? De que tantas e singulares formas eles interagem uns com os outros e com os humanos presentes nesse território? Que possibilidades de experimentações são limitadas ou anuladas pela reprodução de velhas crenças especistas1? Um corpo é feito de movimento, se transformando e se produzindo constantemente. Longe de ser uma unidade isolada, o corpo se estabelece nas relações, seja com os elementos abióticos, seja com os outros seres, micro e macroscópicos. “A estrutura de um corpo é a composição da sua relação. O que pode um corpo é a natureza e os limites do seu poder de ser afetado” (Deleuze, 2017, p.147). Há uma intercorporeidade que se estabelece nesse entre, nas múltiplas formas de interação. E é nos bons encontros que ampliamos nossa potência, nossa capacidade de afetar e de ser afetado. Encontros estes que podem ser vivenciados no espaço escolar com incontáveis espécies. A discussão trazida aqui vem a partir de uma pesquisa-intervenção (Rocha; Aguiar, 2003), realizada no cotidiano da escola, e seu modo cartográfico, como proposto por Gilles Deleuze e Felix Guattari (1997). Trata-se, dessa forma, de uma análise das implicações coletivas que, como nos coloca Lourau (2004), permite acessar processos de institucionalização, implicações que incluem também as de quem propõe a pesquisa. Para dar visibilidade a estes encontros entre mundos multiespécies presentes na escola, traremos trechos de diários de campo de uma das autoras, como propõe Lourau (1993). Estes aparecem ao longo desse trabalho destacados em itálico. O CIEP Municipalizado 411, onde dou aula de Ciências há 14 anos, fica nas margens de uma Área de Proteção Ambiental (APA), a última mancha verde que sobrou na área urbana dessa cidade de 1 milhão de habitantes. O CIEP fica em uma região de favela, na qual muitas casas não tem muros ou divisões de quintais, logo a escola e seu entorno é frequentada por diversos animais como cães e cavalos (alguns cachorros se tornaram moradores fixos na instituição, sendo cuidados por um funcionário e duas professoras, outros estão apenas de passagem, seguindo seus tutores humanos ou se abrigando temporariamente). Nos quintais do CIEP, pela proximidade com a mata, também podemos topar com coleiros, tizis, trinca-ferro, bem te vis, rolinhas, pardais, sabiás, tucanos, saguis, abelhas, aranhas, além de mangueiras, abacateiros e tantos outros “pés de árvore” que não sei identificar (Diário de campo, A., 2025) A partilha do território escolar com tantos seres produz múltiplos encontros e trocas, que se visibilizam em escritas de diário de campo tecidos entre escola básica e universidade (Referências removidas para desindetificação) Toda segunda e quarta de manhã, quando chego na escola, os cães que vivem por lá costumam vir correndo e antes mesmo que eu consiga sair do carro, pulam, dão patadas, sobem no meu colo, abanam o rabo, dão lambidas, fazem literalmente uma festa, uma celebração pelo encontro com alguém que também vibra ao vê-los. Alguns mais empolgados, outros mais tímidos, uns agitados, outros com receio de se machucar naquele tumulto, mas todos demonstrando a alegria pelo reencontro. Os observo atentamente por alguns instantes. Suas dinâmicas relacionais, suas expressões, seus modos de brincar reproduzindo uma possível situação perigosa (como uma luta ou uma perseguição), mas cercada de todos os cuidados para que se mantenha prazerosa e lúdica (a mordida leve, o deixar-se alcançar, as pequenas mudanças de postura e olhar). Nesses momentos, aprendo muito com eles, com seus modos de viver. Aprendo a comemorar o encontro, a presença partilhada, aprendo a entregar-me para o agora, a poder transbordar de alegria apesar de todos os dissabores e preocupações. A dar e receber carinho, a expressar o amor e o cuidado, a permitir imaginar e inventar sem perder a atenção ao presente, às expressões individuais e às demonstrações de afecções. Sinto o quanto esses encontros matinais com os cachorros do CIEP ampliam a minha potência, a minha abertura para a experiência e para a troca, inclusive com as crianças. (Diário de campo, A., 2025) Aprender com corpos no plural, de humanos e não humanos, é efeito de uma abertura para o presente, o encontro e a entrega alegre que transborda entre corpos e escritas, é o que o diário anterior faz ver e falar, fazendo, com efeito, explicitar a potência do encontro entre seres capazes de se afetar mutuamente. Mesmo sendo um espaço de incontestável alegria e carinho, a cena pode ser vista e interpretada de maneiras bastante diferentes. Sinto que enquanto brinco e afago os cachorros, deixando que subam em mim e me mordam gero reações bastante distintas. Crianças pequenas ou novas podem ficar bastante surpresas, pois outros professores e adultos não costumam interagir com os cães. Seguem direto, sem nem ao menos dirigir-lhes o olhar. Caso se aproximem, os espantam. E muitas crianças são encorajadas a agir da mesma forma. Mesmo quem têm cães em casa. Assim, alguns podem olhar com estranhamento ou até crítica. E muitos sorriem. Mesmo que eu sempre cumprimente os cachorros que estão no CIEP ao chegar, isso chama a atenção deles. Alguns se sentem incentivados a observá-los, tecendo comentários sobre eles, a brincar com eles ou afagá-los e me alegro muito ao ver isso. Mas grande parte continua reservando para eles o posto de “cães de rua”, categoria que não merece interação, toque ou nossa atenção. (Diário de campo, A., 2025) Nosso especismo arraigado pode nos fazer ignorar seres de outras espécies que compartilham a vida conosco. Com o tempo aprendemos a reduzi-los a categorias utilitárias ou aos produtos que obtemos deles. Ratos são pragas, cavalos: transporte, pássaros e borboletas: elementos decorativos do ambiente, bois: carne, vacas: leite… Os cães que não têm casas (incluindo os que moram ou passeiam no CIEP): um problema, um possível disseminador de doenças e conflitos. Sim, os cães são animais domésticos e por isso, para que tenham seu bem-estar garantido é preciso que tenham abrigo e humanos cuidadores. Mas muitos não têm. E estão ali. Eles já existem. Dividindo os espaços conosco, nos olhando nos olhos, vivendo suas vidas atravessadas nas nossas. Como aprendemos a ignorar tantos corpos? Como reduzimos uma infinidade de subjetividades e singularidades presentes em cada indivíduo, a uma categoria antropocêntrica e colonial? Segundo a pesquisadora guarani Geni Núñez (2019), a ideologia colonial se materializa em nossos modos de exploração humana e não humana e na relação extrativista que estabelecemos com as florestas, com as terras, com as águas, com os demais animais que coexistem conosco. A colonização incidiu, talvez até mais do que no território geográfico, em nosso território-corpo, em nossa forma de nos concebermos como sujeitos do mundo, em como nos relacionamos conosco mesmos, com os outros humanos e com todas as demais formas de existência (Núñez, 2019). A colonialidade se apresenta como uma norma que não apenas governa os processos de exploração, dominação e comercialização, mas enfatiza a padronização de diferentes formas de vida, reduzindo-as aos interesses econômicos do capitalismo (Oliveira, 2021). Nessa categorização dos seres, nos distanciamos deles, do agora e da possibilidade de sermos afetados. Os CIEPs, para quem não conhece, têm uma estrutura padrão com grandes janelas de vidro que não abrem e acima delas um basculante que permite a circulação de ar. Nas minhas aulas de Ciências, instigo muito eles a olharem para fora, pois, estando na altura da copa das árvores, podemos facilmente observar seus detalhes, os raios de sol passando por suas folhas, as flores que depois se tornam pequenos abacates, que vamos percebendo crescer dia após dia. Quando falo, por exemplo, de fotossíntese, digo “Olha pras plantas, elas estão fazendo isso agora! Agora mesmo!” Para mim é um encantamento perceber o mundo de coisas que estão acontecendo no agora, nesse exato instante, na natureza, nos outros corpos. Como as janelas não abrem, há muitas teias e aranhas, protegidas pelo vidro mas na altura dos olhos das crianças. É comum, especialmente entre os menores, que alguém interrompa a aula ou me chame para comentar algo impressionante observado no comportamento das aranhas. Normalmente vou até o local e me ponho a observar também, mesmo que por alguns instantes, primeiro porque acho incrível, a agilidade do bicho, a delicadeza e força da teia, as intempéries que vão produzindo marcas nela. Segundo porque acho ótimo que observem, que reparem no presente, que se atentem as outras dinâmicas e modos de viver, e sempre que puder vou incentivá-los a isso. Mais eventualmente, vemos passarinhos. Alguns questionam logo como poderiam pegá-los e vendê-los. Procuro sempre problematizar e sugerir outras questões: será que é fêmea? Será que ela tem um galho favorito? Um lugar onde gosta de tomar sol? Onde ela bebe água? Quais lugares será que ela conhece? Que distância será que ela já conseguiu ir? Será que têm filhotinhos esperando por ela no ninho? Será que ela já é parte de um casal? (a maioria das aves é monogâmica) Será que ela já é adulta? Será que ela já é avó? São infinitas perguntas e, quem sabe, a produção de outros olhares. Certa vez testemunhamos um intenso combate entre um tucano e um bem te vi. O bem te vi, de tamanho muito menor, investia contra o tucano repetidas vezes e lembro das crianças ficarem incrédulas quando lhes disse que provavelmente o bem te vi estava defendendo o ninho do tucano que queria comer seus ovos ou filhotes. “Como assim, esse bicho tão lindo querendo comer os ovos do bem te vi, não é possível, que horror, coitado do bem de vi...” Mais uma vez as categorias que atribuímos aos animais limitam nossa percepção da realidade. Circulamos entre o antropocentrismo e o antropomorfismo: esse bicho tão lindo (para quem?) sendo mau (como assim?), comendo os ovos ou até mesmo os filhotes do pobre bem te vi… Não vemos ali uma interação entre dois seres defendendo seus impulsos mais ancestrais, a reprodução e a alimentação, claro que permeados de seus próprios sentimentos e subjetividades. Mas dos deles e não dos nossos. Por que atribuir nossa moral aos outros corpos, algo que não funciona nem mesmo entre a nossa própria espécie, que dirá com outras? Por que perder a possibilidade de ser afetado pelo presente, por estar perdido em interpretações distorcidas e autocentradas? (Diário de campo, A., 2025) Encantadas com as relações entre corpos de outras espécies e a análise do que nos acontece, no presente, nossa pesquisa e trabalho realizado entre escola e universidade, afirma uma formação inventiva antiespecista (Mello, 2021, 2023; Mello; Dias, 2020, 2024). Segundo Dias (2012) o que move uma formação inventiva é a aposta em manter vivo um campo problemático e sensível ao que nos passa e que, em certo sentido, nos transforma. Assim, a formação inventiva antiespecista aqui é afirmada como um ethos, como um modo de viver que busca perceber e problematizar as relações de opressão produzidas contra seres de qualquer espécie. Dessa forma é possível dizer que o dispositivo central de uma formação inventiva é seu grau ampliado para viver os movimentos de transformação que tensionam lógicas instituídas (Mello; Dias, 2020). E em uma perspectiva antiespecista, podemos dizer que se trata de uma aposta de forjar desmanchamentos de certas formas e políticas coloniais antropocêntricas, para poder abrir tempo e espaço a outros modos de se relacionar com o mundo, consigo mesmo e com os demais seres, humanos e não-humanos. Referências: DELEUZE, G. Espinosa e o Problema da Expressão. Editora 34, 2017. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. V. 4. Trad. Suely Rolnik. São Paulo: Editora 34, 1997. DIAS, R.O. Formação inventiva de professores. Rio de Janeiro: Lamparina, 2012. ESPINOSA, B. de. Ética. Tradução e notas: Thomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2007. LOURAU, R. Análise Institucional e práticas de pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ, 1993. LOURAU, R. Objeto e método da Análise Institucional. In: ALTOÉ, S. (org.) René Lourau, Analista em Tempo Integral. Campinas: Hucitec, 2004. MELLO, A.L.G.D. Antiespecismo e formação de professoras: um fazer inventivo com diários de campo (Tese de Doutorado em Educação). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação de Professores. São Gonçalo, 2023. MELLO, A.L.G.D. Por uma formação antiespecista na escola pública (Tese de Doutorado em Bioética, Ética aplicada e Saúde Coletiva). Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2021. MELLO, A.L.G.D., DIAS, R.O. Por uma formação inventiva antiespecista. In: Revista Mnemosine, v. 16, n. 1: Edição Especial: Dossiê Formação inventiva de professores: ensaios microfísicos, pesquisa-intervenção e estudos foucaultianos. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2020. MELLO, A.L.G.D., DIAS, R.O. Invisibilidade dos animais na educação básica e na formação de professoras. Revista Latinoamericana de Estudios Críticos Animales, v. 12, p. 37-68, 2024. NÚÑEZ, G. Descolonização do pensamento psicológico. Plural: valorização profissional em tempos de 'novas' práticas em Psicologia, Florianópolis, p. 06 - 11, 21 ago. 2019. OLIVEIRA, F.A.G. Especismo Estrutural: Os animais não humanos como um grupo oprimido. In: PARENTE, A.; DANNER, F.; SILVA, M.A. da. (Orgs.) Animalidades Fundamentos, aplicações e desafios contemporâneos. Porto Alegre: Editora Fi, 2021. ROCHA, M. L.; AGUIAR, K. Pesquisa-intervenção e a produção de novas análises. Revista Psicologia Ciência e Profissão, nº 4, ano 23, 2003. Disponível em
https://doi.org/10.1590/S1414-98932003000400010. Acesso em: 26 mar 2025. 1Especismo, termo criado por Richard D. Ryder na década de 70, pode ser definido como a opressão sofrida por não pertencer a nossa espécie (Oliveira, 2021). É similar ao racismo e ao machismo, onde os interesses de um indivíduo não contam, ou contam com menor importância, somente pelo fato dele pertencer a um determinado grupo, no caso, a outra espécie biológica. Expressa a tendência da humanidade se considerar não apenas como uma espécie superior, mas como a única com direitos legítimos a viver e a se desenvolver, de modo que todos os outros seres devem servir aos seus propósitos e interesses, justificando abandono, exploração e morte.