CORPOS RECÉM-CHEGADOS AO MUNDO E SUAS COMPOSIÇÕES NO QUINTAL DE UMA CRECHE PÚBLICA O texto aqui proposto, traz para socialização parte dos resultados de uma pesquisa de mestrado, que teve como objetivo principal acompanhar os bebês e crianças pequenas em suas composições, principalmente no quintal de uma Creche Municipal, da qual também sou professora, buscando compreender, nos movimentos dos corpos dos bebês, como eles constituem agenciamentos com os seres animais, vegetais, minerais e fenômenos naturais, entendendo que todos somos Natureza. A compreensão de que somos natureza (Tiriba, 2021) - eu (pesquisadora-professora), as crianças, as árvores, passarinhos, pedras, água, terra, minhocas – possibilitou a abertura do meu corpo para os encontros entre corposnatureza[1] no cotidiano da Educação Infantil. Possibilitou a minha abertura para os acontecimentos que não podem ser representados e sim vividos em seus fluxos e intensidades. Acontecimentos que se dão no mergulhar no território existencial da pesquisa, no qual as forças do coletivo se cruzam, onde os solos se fazem, se desfazem, se sobrepõe, criando movimento (Deleuze e Guattari, 2020). Os corpos recém-chegados ao mundo muito têm para descobrir e desbravar em suas andanças. Um mundo de intensidades percebidas por corpos multissensoriais, abertos para as composições que surgem nos acontecimentos do vivido. Seria o nosso papel como professoras apoiar esses movimentos? Meu caminho nesta pesquisa cartográfica teve como desafio me deixar surpreender pelos encontros que se dão no território constituído junto com os bebês e crianças pequenas, em diálogo, em uma atenção conjunta, buscando ser afetada pelas afecções que nascem nas relações dos corposnatureza, buscando entender o que os afeta, permitindo assim um afeto mútuo. A cartografia aposta no acompanhamento dos movimentos dos processos que nos afetam, nos transforma e que produzem mundos. É uma prática, uma experimentação do pensamento em sintonia com a processualidade da investigação, que visa acompanhar um processo e não representar um objeto (Kastrup, Herlanin, 2018). Nesta perspectiva, mergulhei no universo dos bebês que frequentam a Creche Municipal Aracy Guimarães Rosa durante 4 meses. Durante esse período, pude acompanhar, a partir do meu olhar de aprendiz, os desejos e atenção dos bebês e aprender com o que eles têm a me ensinar sobre o mundo, em um processo de nos experimentar-nos Natureza, buscando desta forma, o alargamento das minhas percepções. Na área externa da Creche presentifica-se um lugar que faz deslumbrar outras possibilidades de cotidiano na educação infantil e outros modos de docência: o quintal, com sua extensa área verde com goiabeira, amoreira, bananeira, laranjeira, aceroleira, araçaeiro, cabeludinha, cambucá, pau-brasil, bem-te-vis, rolinhas, sabiás, minhocas, terra, água... Lugar que possibilita muitos encontros! Abaixo, segue um fragmento do diário de campo, de uma manhã ensolarada no quintal da Creche Aracy, onde bebês, professoras, torneira e água se encontraram. Convido vocês a perceberem as sutilizas dos encontros. O pé no chão é um convite também para sentir as diferentes texturas do solo desse lugar encantado. O ouvido atento às nuances dos sons, dos cheiros... As bebês Isa, Gaia, Ester, Lua, Bruna e Laís, recém-chegadas ao mundo, em composição com a água e a torneira, nos convidam para essa dança. Os nomes das bebês e profissionais foram inventados. Foram escolhidos nomes que de alguma forma fossem próximo aos nomes das crianças, a fim de que a escrita mantivesse a maior proximidade possível com a identidade dos bebês. É importante ressaltar que os cuidados éticos com a pesquisa foram aprovados pelo comitê de ética através da Plataforma Brasil[2]. O relato abaixo são trechos do diário de campo, narrados a partir da implicação da pesquisadora-cartógrafa com os bebês, a partir do movimento de aproximação e distanciamento promovido pela escrita, sobretudo, na tentativa de dar língua aos afetos que surgiram na composição entre os corpos que se encontraram. A dança das mãos, água e torneira. Professoras: Amanda, Carla e Roberta / Bebês: Isa, Gaia, Ester, Lua, Bruna e Laís Chegamos ao quintal. Os bebês entram e já correm pelo espaço procurando os escorregas. É a parte do quintal que eles costumam frequentar. O dia está quente, apesar de ser o início do dia, o sol já está mais forte. Algumas professoras procuram a pequena sombra que ainda tem nesse espaço, no final do quintal, para se abrigar. A professora Amanda levou um tecido grande e bolas de plástico em um pote grande, também de plástico. “Benjamim não gosta de pisar na grama” fala a professora Carla. E o coloca sentado no tecido, na sombra que existe nessa parte do quintal. Ele fica brincando com os brinquedos trazidos pelas educadoras. Amanda pega a bolinha de sabão e começa a soprar... algumas crianças seguem as bolas. Isa e Gaia seguindo uma das bolas de sabão, chegam até a torneira (a mangueira estava nessa torneira aberta e pingos d`água caíam). Segui o movimento das duas e me aproximei. As mãos pequenas, debaixo das gotas, sentiam o esparramar da água pela pele. Os dedinhos começaram a experimentar a torneira em movimentos giratórios... a exploração, a observação seguia o fluxo da água que diminuía e aumentava de acordo com a rotação dada por elas... e o dançar das mãos, dedos, água e torneira compunham a experiência. Percebia a composição dos corpos que se encontravam. O dançar atraía outros olhares além do meu... Ester e Lua chegaram também. No movimentar giratório do registro, ele sai da torneira, o que provoca uma erupção de água... gerando também uma erupção de sorrisos e trocas de olhares entre os que compartilhavam a experiência. Olhares que acompanhavam o fluxo da água, o fluxo dos afetos, que assim como as gotas, se espalhavam entre os bebês. Provocados pela situação, as mãos pressionam o corpo da torneira a fim de conter a água e mais água começa a jorrar nos corpos das crianças. O experimentar que enxarca, que molha, que refresca. Percebendo a dança que acontecia, eu começo a filmar. Mais uma vez percebo que a minha presença no campo e o foco da minha atenção modifica a rotina do grupo. As professoras relataram que brincar de água nesse espaço geralmente acontecia com as bacias. O movimento de brincar com a torneira foi um ato inaugural naquele dia, pois o meu olhar foi em direção aos desejos dos bebês ao se relacionarem com a água. Diante da minha atenção para as crianças, que brincavam na torneira, as professoras abriram a outra torneira e ofereceram potes para as crianças, que aceitaram o convite: - Vem aqui ver. (Fala a professora Roberta para mim.) Direciono-me para a outra extremidade do quintal. Bruna e Laís estavam encantadas com a água saindo da torneira e caindo em um pote. As mãos das bebês tentavam pegar a cachoeira que descia da torneira. Em seguida, batiam na água que se acumulava dentro da bacia. Roberta fala com Bruna, com um sorriso, demonstrando apoiar os movimentos da criança: “Tá gostoso aí?” Bruna olha em direção à Roberta e confirma sua satisfação naquele encontro com o brilho do seu olhar e sorriso. Após a partilha desse sentir com a educadora, Bruna volta a sua atenção aos movimentos de pegar a água, sorrindo com os respingos que batiam em seu rosto, sorrindo com os efeitos que produziam alegria. Benjamim é colocado próximo da água (ele estava sentado no tecido no chão). Ele fica observando Laís e Bruna brincarem. Estou sentada próximo, filmando a cena e Benjamim, percebendo que estou próxima, vem engatinhando até mim. Ele engatinha e se deita, apoiando a sua barriga na grama e encosta a sua cabeça e uma parte do seu tronco em minha perna, inclinando-se em meu colo. Mostro para ele que estou filmando a Bruna e a Laís brincando com a torneira. Ele sorri. Viro a câmera em forma de selfie e mostro a nossa imagem sendo filmada. Benjamim ri, peço então para tirarmos uma foto juntos, ele consente com um sorriso. Nesse momento, Amanda chama o berçário para a troca de roupas na sala, que ficaram encharcada do encontro com água... embebidas com a alegria do encontro que não havia sido programado. (Diário de Campo – 02/05/2023) Os bebês em seus agenciamentos nos convidam a olhar para os afetos e a buscar os escapes do que está estratificado nas instituições de Educação Infantil. Assim, a potência manifestada nos bebês nos instiga a repensar o cotidiano na Creche a partir do que se instaura especialmente no “lado de fora”, no quintal. A dança dos bebês, água e torneira nos mostra o conhecer que se dá na vida, nas relações e que é expresso pelos afetos. No caso da dança narrada, afetos ativos, que potencializaram o agir dos bebês. De acordo com Sévérac (2009), na filosofia spinozista o conhecimento está implicado nos afetos e a racionalidade para Spinoza seria o conhecimento das causas dos afetos. Acompanhar os bebês em suas descobertas, em seus afetos e perceber como eles geram efeitos e como são esses efeitos - se agradam o bebê, se aumentam ou diminuem a potência, não seria o principal objetivo de uma prática pedagógica? Prática que valorize as nuances do relacionar-se, permitindo assim ao bebê e à criança pequena possibilidades de experimentar-se potente, onde o papel do professor seria o confiar na capacidade das crianças bem pequenas de intervirem na realidade de forma criativa? Nessa linha, Richter e Barbosa (2010) defendem o quanto os bebês sabem e como é importante o adulto estar disponível, aberto, presente para observar e dar sentido às linguagens da criança em responsividade. Nesse diálogo, os bebês nos ensinam a reaprender outros modos de sentir, perceber e agir no mundo. Valorizar a simultaneamente da experiência vivenciada em sua globalidade - não apenas pelo viés representacional da linguagem, mas com toda a riqueza de sensações que a experiência produz - é evidenciada no que Stern (1992) chama de percepção amodal, a capacidade do bebê de tomar uma informação recebida em uma determinada percepção sensorial e traduzi-la para outra modalidade sensorial. O encontro das bebês com a torneira e a água, materializa a ideia do afeto, do pensamento do corpo multissensorial. Um encontro com o mundo que determina no próprio corpo o aumento da potência de agir, manifestada em risos, em partilhas, em desejos de experimentações variadas, experimentos das modificações no próprio corpo, tanto dos bebês como da água. Encontro que demonstra a potência de agir manifestada pelas outras crianças: Ester e Lua que também foram ao encontro do que consideraram bom. Os afetos são as variações dessa potência de existir, a passagem de uma força de existir maior, quando os afetos são ativos, alegres, ou para uma potência de agir menor, afetos passivos, que seriam as tristezas (Deleuze, 2002). Spinoza (2020) propõe que nos voltemos para os efeitos produzidos nos encontros, para as forças dos afetos e percebamos a potência dos corpos. Para o filósofo, afeto é a afecção do corpo, é o próprio pensamento sentido no corpo. No encontro entre corpos as relações se compõem para formar um todo mais potente, ou se decompõe, destruindo a coesão de suas partes (Deleuze, 2002). O quintal apresentou-se como um lugar de composições potentes. Fagionato-Ruffino (2012) destaca em sua pesquisa o quanto as crianças apreciam o que ela chama de mundo natural. Segundo a pesquisadora, a pouca ou muita diversidade contida no espaço pode limitar ou potencializar as ações das crianças. Em suas análises, as crianças pareciam não se relacionar com os outros seres no sentido de conhecê-los, numa atitude de curiosidade em saber o que é, como é; mas sim a partir de um relacionamento que “podem estabelecer com eles, sendo como extensões de seus corpos (galhos que viram garras ou que são usadas para alcançar outras crianças) ou como um desafio a ele (subir nas árvores, por exemplo)” (Fagionatto-Ruffino, 2012 p. 83). Ao chegar nas instituições o mundo do bebê é ampliado, algumas vezes essa ampliação traz encontros que geram afetos tristes, que diminuem a potência de agir da criança. Muito temos a aprender com a disponibilidade dos bebês diante dos encontros. O simples perambular deles pelos espaços nos mostra a potência dos seus corpos recém-chegados ao mundo, ávidos, encantados com a vida, com o mundo que se abre à sua frente. Caminhar com os bebês nesta pesquisa renovou o meu olhar sobre a Educação e sobre a importância da disponibilidade, do estar com, que abre as possibilidades do amontoar de linhas, de caminhos, das composições de vidas que se encontram e produzem mundos que fazemos parte e somos parte. A vida como “um tecido múltiplo de fios incontáveis fiados por seres de todos os tipos, tanto humanos como não humanos, conforme eles encontram seus caminhos através do emaranhado de relacionamentos nos quais estão enredados” (Ingold, 2022. p. 25). É importante uma abertura dos corposnatureza docentes para a potência da vida que se dá nos encontros na Creche. Muito podemos aprender com as composições dos corposnatureza e assim buscar formas de valorizar esses encontros, entendendo e acolhendo os afetos como parte do trabalho docente. REFERÊNCIAS DELEUZE, G. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? São Paulo: Ed. 34, 3ª ed. 3ª reimp. 2020. FAGIONATO-RUFFINO, S. O diálogo entre aspectos da cultura científica com as culturas infantis na educação infantil. Tese de doutorado, UFSCar, 2012. Disponível em:
https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/2278/4478.pdf?seq… Acesso em 10 out. 2022. INGOLD, Tim. Linhas: uma breve história. Petropólis, RJ: Vozes, 2022. KASTRUP, V.; HERLANIN, C. A atenção conjunta e o bebê cartógrafo: a cognição no plano dos afetos. Ayvu, Rev. Psicol., v. 05, n. 01, p. 117-139, 2018. RICHTER, S. R. S.; BARBOSA, M. C. S. Os bebês interrogam o currículo: as múltiplas linguagens na creche. Educação, Santa Maria, v. 35, n. 1, p. 85-96, jan./abr. 2010. Disponível em: Vista do Os bebês interrogam o currículo: as múltiplas linguagens na creche (ufsm.br)Acesso em 12 jun. 2022. SÉVÉRAC P. O conhecimento como o mais potente dos afetos. In: MARTINS, A. (org). O mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009. SPINOZA, B. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. STERN, D. O mundo interpessoal do bebê. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. TIRIBA, L. Educação Infantil como direito e alegria. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2018. [1] Inspirada na concepção de conceito-ferramenta de Deleuze e Guatarri (2020), a pesquisa aqui compartilhada propôs uma palavra-ferramenta para pensarmos no devir-corpo que está na expressão natureza e no devir-natureza que está na expressão corpo. Corponatureza implica que não somos separados da natureza, que o corpo e mente são inseparáveis, e que a cognição não está separada dos afetos. [2] O Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) é 66733523.9.0000.5582.