PEDAGOGIA NA UNIVERSIDADE: INOVAÇÕES E DESAFIOS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES Introdução Este trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa doutoral que investigou como a Pedagogia, ciência da educação, pode contribuir para a formação docente na educação superior. Nas últimas décadas, tem sido amplamente denunciada a necessidade de qualificação dos professores desse nível de ensino, em contraposição à mera “preparação” prevista no art. 66 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) de 1996 (Brasil, 1996). Tal lacuna formativa impulsionou a emergência da expressão “Pedagogia Universitária” (PU), ressaltando a importância da constituição de um campo epistemológico que sustente as práticas pedagógicas no ensino superior. Com a crescente demanda por programas institucionais voltados à capacitação docente, a Pedagogia na universidade emerge como elemento essencial para fomentar uma reflexão crítica sobre as práticas educativas, promovendo transformações no cenário acadêmico. A pesquisa parte da premissa de que a formação pedagógico-didática é indispensável para assegurar uma educação superior de qualidade, capaz de responder aos desafios contemporâneos de maneira inovadora, inclusiva e emancipadora. Assim, respondeu à seguinte questão: de que forma a Pedagogia na universidade pode contribuir para os processos formativos dos professores que atuam no ensino superior? O objetivo central foi compreender como as bases teóricas da Pedagogia fundamentam e contribuem para os programas institucionais de desenvolvimento docente no ensino superior. A partir dessa perspectiva, a pesquisa problematizou a dicotomia entre Pedagogia Universitária e Pedagogia na universidade, evidenciando que, embora a PU seja um campo emergente e em consolidação, a Pedagogia na universidade extrapola a formação formal e se manifesta em múltiplas dimensões da vida acadêmica, promovendo uma formação docente integral. A análise da literatura revelou que os referenciais teóricos de Pimenta (1996), Cunha (2007), Almeida e Pimenta (2011), Almeida (2012) e Melo (2018) fornecem uma base sólida para compreender as práticas pedagógicas no ensino superior, destacando a necessidade de articulação entre ensino, pesquisa e extensão como eixos estruturantes da formação docente. A pesquisa dialoga criticamente com esses autores, apontando que a Pedagogia na universidade perpassa a instituição como um todo, tornando-se um campo investigativo que tece novos caminhos para a docência universitária. Além disso, a Pedagogia Crítica, proposta por Freire (1996) e aprofundada por Franco (2003), constituiu um referencial essencial para esta investigação. A partir dessa abordagem, as práticas pedagógicas tradicionais foram analisadas e tensionadas, evidenciando a necessidade de uma práxis que supere a mera transmissão de conhecimento e se volte à formação de sujeitos autônomos e críticos. Dessa maneira, o estudo reafirma a Pedagogia na universidade como um campo de reflexão e transformação, capaz de fomentar práticas docentes comprometidas com a emancipação e a construção coletiva do saber. É fundamental considerar o papel da Pedagogia na universidade, que forma docentes para o ensino superior e, simultaneamente, promove uma consciência crítica sobre as condições estruturais e políticas da educação universitária. A falta de formação pedagógica estruturada para professores compromete a qualidade do ensino e a inclusão acadêmica. A pesquisa se insere em um debate sobre a necessidade de fortalecer políticas que consolidem práticas pedagógicas emancipatórias, transformando as relações de ensino-aprendizagem e a concepção de docência universitária. Metodologia A pesquisa, fundamentada em uma abordagem qualitativa de orientação crítico-dialética (Gamboa, 2010), descreveu e compreendeu as múltiplas dimensões da formação docente no ensino superior. A análise documental (Cellard, 2012) e a técnica de análise de conteúdo (Bardin, 1977) foram utilizadas como caminhos metodológicos para interpretar as políticas e práticas institucionais voltadas à capacitação pedagógica dos professores universitários. Ao investigar os documentos institucionais das três universidades federais selecionadas: Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade Federal da Bahia/Instituto Multidisciplinar em Saúde (IMS/CAT/UFBA) e Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) por meio de seus programas de formação docente, buscou-se mapear como a Pedagogia tem sido incorporada nesses espaços e de que forma seus princípios fundamentam as ações voltadas ao desenvolvimento docente. A escolha dessas instituições fundamentou-se na disponibilidade e transparência das informações em seus portais institucionais, permitindo um acesso detalhado às diretrizes, normativas e experiências que compõem os programas de formação pedagógico-didática para docentes. Além disso, a diversidade de contextos acadêmicos e administrativos entre as universidades selecionadas proporcionou um campo investigativo rico para a análise das diferentes abordagens adotadas na formação de professores no ensino superior. Assim, a metodologia adotada permitiu uma leitura aprofundada dos processos de institucionalização, implementação e avaliação das práticas pedagógicas, contribuindo para uma compreensão mais ampla sobre a construção da Pedagogia na universidade e seu papel na qualificação docente. Análise e discussão de resultados Os programas selecionados das universidades UFAL, IMS/CAT/UFBA e UFSM representam iniciativas importantes na institucionalização de políticas voltadas à formação do professor universitário. Na UFAL, o foco está no fortalecimento das competências pedagógicas por meio de um programa que busca promover uma cultura de formação continuada. Pelas oficinas, seminários e encontros estabelecidos, esse programa incentiva a reflexão crítica sobre a prática docente, promovendo uma Pedagogia mais inclusiva e alinhada às necessidades contemporâneas do ensino superior. O programa de formação pedagógica (PFPed) do IMS/CAT/UFBA se destaca pela sua abordagem interdisciplinar, que integra diferentes áreas do saber para desenvolver competências pedagógicas e didáticas. Ele valoriza a pesquisa como base para a formação docente, incentivando os professores a repensarem suas práticas à luz de novas metodologias de ensino e teorias pedagógicas, promovendo uma docência crítica e emancipada. Já na UFSM, o programa de política institucional de formação continuada de professores do magistério federal, foca em processos de formação com ênfase no desenvolvimento de habilidades pedagógicas e tecnológicas. Ele busca integrar a inovação pedagógica com as demandas atuais da educação superior, preparando os professores para enfrentar os desafios da docência em ambientes cada vez mais digitais e colaborativos. Os resultados indicaram que a Pedagogia, quando inserida de maneira crítica e consciente no cenário da educação superior pública, tem o potencial de contribuir significativamente para a qualificação dos docentes. Os Programas de Pedagogia Universitária, ao adotarem essa abordagem, têm impactado positivamente a prática docente, desafiando métodos tradicionais e promovendo uma educação mais inclusiva. A institucionalização desses programas nas universidades é essencial para fortalecer a formação docente e melhorar a qualidade do ensino superior. Além disso, a pesquisa revelou que a existência desses programas, embora ainda incipiente em muitas instituições, tem sido um fator determinante para a valorização do papel pedagógico dos professores universitários. Ao proporcionar espaços de reflexão sobre a docência e incentivar práticas baseadas em princípios críticos e emancipatórios, esses programas ampliam a compreensão sobre o ensino superior não como um espaço de transmissão de conhecimento apenas, mas como um ambiente de construção coletiva de saberes. Esse movimento se mostra essencial para romper com paradigmas tecnicistas e promover uma educação mais dialógica e transformadora. Outro aspecto relevante identificado nos resultados é que a efetividade desses programas está diretamente relacionada ao engajamento institucional e à adesão dos próprios docentes. Quando as universidades compreendem a formação pedagógica como parte fundamental da identidade acadêmica e oferecem condições estruturais e políticas que favorecem essa formação, o impacto na qualidade do ensino torna-se mais evidente. No entanto, a pesquisa também aponta desafios, como a resistência de algumas áreas do conhecimento em reconhecer a importância da formação pedagógico-didática e a necessidade de uma maior articulação entre esses programas e as políticas educacionais nacionais. Além da institucionalização, outro fator importante é o protagonismo docente na apropriação e ressignificação dessas práticas formativas. A pesquisa demonstrou que professores que passam por programas de formação pedagógica aprimoram suas estratégias de ensino e tornam-se agentes de transformação dentro das universidades. Essa autonomia docente, fortalecida por uma base pedagógica sólida, reflete a importância de uma Pedagogia na universidade que ultrapasse o caráter instrumental e se consolide como um eixo estruturante da docência no ensino superior. Nessa direção, os resultados reforçam que a qualificação docente deve ser contínua e alinhada às especificidades institucionais e sociais. A Pedagogia, ciência da educação, fornece bases teóricas e metodológicas para práticas mais reflexivas. Fortalecer os programas de formação e sua institucionalização significa aprimorar o ensino e reafirmar o compromisso com uma educação superior crítica, democrática e emancipatória. Considerações finais As reflexões desenvolvidas ao longo da pesquisa evidenciam que a interação entre Pedagogia Universitária e Pedagogia na universidade não deve ser vista como um embate conceitual, mas como um diálogo necessário para a construção de um ensino superior mais qualificado e socialmente comprometido. Enquanto a Pedagogia Universitária busca estruturar teoricamente os fundamentos da docência no ensino superior, a Pedagogia na universidade expande essa atuação para além da sala de aula, integrando ensino, pesquisa e extensão em uma perspectiva crítica, transformadora e indissociável. Dessa forma, ambas se complementam, garantindo que a formação docente vá além de um treinamento instrumental e se torne um processo contínuo de reflexão e aprimoramento. Reafirmar a Pedagogia como ciência da educação nesse contexto é uma necessidade urgente. As transformações na educação superior demandam que a formação docente vá além da transmissão de conhecimento, promovendo a reflexão crítica, a inovação e a construção de práticas pedagógicas que superem modelos reprodutivistas. A pesquisa revelou que, ao integrar bases teóricas sólidas com experiências práticas significativas, a Pedagogia pode impulsionar a formação docente a um patamar que combine rigor acadêmico e compromisso social, consolidando a universidade como um espaço de emancipação e não apenas de profissionalização. Os desafios para essa transformação, no entanto, não são poucos. A institucionalização de programas de formação pedagógica para professores do ensino superior ainda enfrenta resistências, seja por parte de políticas institucionais engessadas, seja por uma cultura acadêmica que, historicamente, desvaloriza a dimensão pedagógica da docência. Nesse contexto, a formação docente deve ser entendida como um processo contínuo e estruturante, sustentado por políticas públicas e iniciativas institucionais que assegurem a qualidade da educação superior. Mais do que um campo emergente, a Pedagogia na universidade precisa ser fortalecida como um movimento de transformação. Ao reconhecer a docência como uma práxis, e não apenas como um conjunto de técnicas, abre-se espaço para a construção de uma formação universitária que valorize tanto o domínio científico quanto a sensibilidade pedagógica. Essa visão integrada se apresenta como um caminho viável para que os professores universitários além de dominar os conteúdos, atuem como mediadores da aprendizagem, estabeleçam diálogos com diferentes contextos sociais e contribuam para a formação de sujeitos críticos e engajados. Diante desse cenário, essa pesquisa reafirma a necessidade de se construir um novo olhar sobre a docência universitária, no qual a Pedagogia seja reconhecida como eixo central da formação dos professores do ensino superior. A Pedagogia Universitária e a Pedagogia na universidade devem ser articuladas para que a educação superior possa formar cidadãos críticos e emancipados. Cabe, portanto, às universidades com suporte das políticas públicas, aos programas de formação docente e aos próprios professores assumirem essa responsabilidade, garantindo que a Pedagogia continue a ser um campo de conhecimento científico e um meio de transformação da realidade acadêmica e social. 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