CURRÍCULO RIZOMÁTICO NA EDUCAÇÃO INFANTIL: A POTÊNCIA DOS ENCONTROS E DAS INVENTIVIDADES DOCENTES Esta pesquisa em andamento problematiza o currículo rizomático na Educação Infantil, junto à força dos movimentos inventivos curriculares que emergem nos encontros entre crianças e professoras no cotidiano escolar. O objetivo principal é pensar sobre políticas curriculares que reconheçam e expandam a multiplicidade dos processos inventivos nos/dos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI), considerando como esses processos podem potencializar a docência e os currículos. A partir das concepções de Deleuze e Guattari (2011) sobre rizoma e devir, entendemos o currículo como um campo em constante variação. O rizoma, enquanto composição não hierárquica e não linear, desafia a ideia de um currículo fixo, possibilitando práticas pedagógicas abertas e fluidas, que acolhem a multiplicidade e a imprevisibilidade dos processos de aprendizagem e de ensino. Nesse contexto, é necessário problematizar os encontros que atravessam os cotidianos com as crianças, buscando acolher modos outros de pensar com as infâncias rompendo com as formas tradicionais de pensamento que ainda persistem nas relações escolares. Essas formas podem ser deslocadas pela afirmação da potência da vida e pela abertura aos processos de inventividade vivenciados por crianças e docentes. Paraíso (2015, p. 50) afirma que “se a forma paralisa o movimento, a força é deformadora das formas, mobilizadora da diferença e agenciadora de devires”, destacando a necessidade de um currículoforça que abra espaços para o devir e a multiplicidade. Buscar um currículovida que potencialize as aprendizagens cotidianas, abertas a outros devires e mundos possíveis, implica na potência dos encontros coletivos nas escolas /CMEIs. A escolha de termos como currículovida e currículoforça reflete uma tentativa de romper com a visão tradicional e rígida do currículo, alinhando-se à perspectiva de que o currículo é, de fato, um processo vivo e em constante movimento. Essas expressões buscam superar a dicotomia entre currículo fixo e currículo flexível, propondo uma visão que integra a potência da vida e a força das relações que se constroem dentro do ambiente escolar. Como aponta Alves (2003), a educação não deve ser vista como um campo disciplinar estático, mas sim como um espaço de multiplicidade e transformação, onde as práticas curriculares se constituem em um movimento contínuo de invenção e experimentação. A utilização de currículovida e currículoforça é, portanto, uma forma de enfatizar que o currículo se constrói e se potencializa a partir de seus próprios processos de inventividade, afetos e relações, alinhando-se com a visão de que ninguém ensina sem antes ter aprendido. A aposta no currículo e na docência como acontecimento, centrada nos afetos e afecções, intensifica esta pesquisa, buscando potencializar movimentos inventivos curriculares para multiplicar os cotidianos e os processos de aprendizagem. Deleuze (2017, p. 171) nos lembra que “somos corpos-forças no encontro com outras forças que, ao afetarmos, nos afetam; essa é a potência da vida”. Nesse intento, o devir-docente se expande entre acolhimentos e afetos junto às crianças, cria possíveis para que vivenciem suas experiências de aprendizagem de maneira singular e inventiva. Assim, os processos formativos docentes são fundamentais para ampliar uma pedagogia rizomática que percorre multiplicidades, imprevisibilidades e fluxos contínuos em meio a aprendizagens inventivas na e com as infâncias. Mobilizamos também os pensamentos foucaultianos em relação ao poder e saber, para questionar as normas institucionais que regulam as práticas pedagógicas e a constituição das subjetividades infantis. Foucault (1995) problematiza as relações de poder na escola, apontando como as instituições normatizam corpos e discursos. Ao tensionar essas regulações, podemos pensar currículos e movimentos aprendentes que escapem à lógica disciplinar, abrindo espaço para formas mais éticas, estéticas, poéticas e políticas atravessadas por afetos e potências, bem como por resistências que se constituem com e na diferença. A escola, segundo Foucault (2014), opera como uma tecnologia de poder que regula corpos e comportamentos por meio de dispositivos disciplinares, tornando importante problematizar esses mecanismos para possibilitar uma pedagogia que favoreça a autonomia e a criação de subjetividades mais livres e potentes. A pesquisa adota a cartografia como estratégia metodológica, acompanhando fluxos e processos de desterritorialização e reterritorialização no contexto de um CMEI. Mossi e Oliveira (2014, p. 191) afirmam que a cartografia não se limita a apresentar resultados finais, mas acompanha o percurso da pesquisa, afetando-se com ela em um processo contínuo, que multiplica as possibilidades de problematização, em vez de restringi-las. Kastrup, Passos e Escóssia (2015, p. 56) apontam que a cartografia tem como desafio “desenvolver práticas de acompanhamento de processos inventivos e de produção de subjetividades”. Pensar os cotidianos da educação infantil como um lugar de encontros, afetos e aprendizagens que tecem memórias em uma dimensão relacional reafirma a potência da vida e multiplica os modos de potencializar a escola e experimentar movimentos intensivos com as crianças. O estudo envolve revisão bibliográfica, aprofundamento teórico-metodológico e produção de dados por meio de encontros e conversas com professores, equipe pedagógica e crianças. O enfoque cartográfico permite acompanhar os movimentos curriculares rizomáticos que se engendram a partir das relações e experiências vividas nos cotidianos escolares. No que se refere à formação docente, o movimento cartográfico fez eclodir uma força que se desloca das práticas normativas que ainda tentam estruturar a educação infantil, para se abrir a espaços de conversa e experimentação. Isso permite aos professores problematizar as políticas curriculares, de avaliação e de formação, a fim de criar novos modos de experimentar a vida na escola. Afirmamos que o devir-docente é uma força central que potencializa a multiplicidade do pensamento infantil e amplia as possibilidades pedagógicas, quando entra em relação com as crianças de modo aberto às inventividades coletivas. As considerações finais enunciam que os encontros realizados no CMEI se abriram a um currículo rizomático, que não se limita a uma estrutura pré-definida, mas emerge das relações entre professores, crianças e suas experiências cotidianas. As experimentações curriculares foram vivenciadas por meio da invenção e da experimentação inventiva são forças que rompem com currículos engessados e potencializam movimentos educativos. Através da relação entre os docentes e do fortalecimento das redes de conversações e afetividade, o currículo se multiplica constantemente, potencializando aprendizagens coletivas e não hierárquicas. Ao problematizar o currículo rizomático na Educação Infantil, esta pesquisa reafirma a necessidade de potencializar os movimentos curriculares inventivos, que acompanhem a fluidez e a multiplicidade do pensamento infantil. Um currículo vivo e múltiplo enuncia a força dos acontecimentos nos espaços de formação docente contínua que possibilitem a criação de outros modos de aprender-ensinar e se relacionar. Assim, os movimentos curriculares rizomáticos são resistência nos CMEIs, reafirmando a potência dos coletivos. PALAVRAS-CHAVE: Currículo rizomático; Educação Infantil; Formação docente; Cartografia; Cotidianos. REFERÊNCIAS ALVES, N. Cultura e cotidiano escolar. Revista Brasileira de Educação, n. 23, p. 62-74, maio/ago. 2003. CORAZZA, Sandra Mara. Pedagogia dos sentidos: a infância informe no método Valéry-Deleuze. In: KOHAN, Walter (Org.). Devir-criança da filosofia: infância da educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. E-book. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira, Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Ed. 34, 2011. v. 1. DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Tradução de Luiz Orlandi e Roberto Machado. 4. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2021 FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1995. FOUCAULT, Michel de. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 42.ed. Petrópolis: Vozes, 2014. MOSSI, Cristian Poletti; OLIVEIRA, Marilda Oliveira de. Cartografia como estratégia metodológica: inflexões para pesquisas em educação. In: Revista Conjectura - Filosofia e Educação, Caxias do Sul, v. 19, nº 3, p. 185-198, set/dez. 2014. PARAÍSO, Marlucy Alves. O currículo entre o que fizeram e o que queremos fazer de nós mesmos: efeitos das disputas entre conhecimentos e opiniões. Revista e-Curriculum, São Paulo, v.17, n.4, p. 1414—1435 out./dez. 2019. PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana da (Org.) Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade – Porto Alegre: Sulina, 2020. 207 p.