INDÍGENAS NA PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU DE EXCELÊNCIA: QUAIS CONHECIMENTOS INTERESSAM? Resumo: Neste trabalho, inspirado em um conjunto de autores que criticam a pretensão universalista e exclusivista da epistemologia moderna/cartesiana, objetiva-se mostrar quais conhecimentos interessam aos indígenas ao entrarem na pós-graduação stricto sensu. Tendo por base a análise qualitativa de teses e dissertações desenvolvidas por indígenas em programas de pós-graduação de excelência, os resultados indicam que os indígenas se valem de perspectivas epistêmicas próprias, trazendo para o contexto da universidade seus conhecimentos, ao mesmo tempo em que se apropriam de conhecimentos ocidentais, para fortalecerem-se em diferentes dimensões. Conclui-se que os conhecimentos que interessam a eles são os que fortalecem a resistência, sua cultura e sua identidade. Palavras-chave: indígenas, pós-graduação, conhecimentos. Introdução Os povos indígenas do Brasil, apesar de toda a violência praticada pelo colonizador, historicamente, têm resistido à imposição da cultura ocidental de diferentes formas. Essa resistência não implica necessariamente levantar trincheiras, criar muros e evitar o contato, o que, no entanto, para os povos indígenas, não tem significado dobrar-se aos modos de conhecer, viver e conviver da cultura ocidental. Apesar de a cultura ocidental autoproclamar-se universal e superior, os indígenas não a veem assim, entendendo-a como uma das várias possibilidades de dar sentido às práticas humanas. Eles têm percebido o que geralmente os ocidentais não percebem: a incompletude da cultura ocidental, sua incapacidade de conviver em equilíbrio com a natureza, seu poder de destruição de todas as formas de vida, incluindo as diferentes formas de viver como humano, e a suposta superioridade de seus conhecimentos, segundo seus próprios critérios etnocentricamente estabelecidos. Assim, a entrada dos indígenas na educação superior, incluindo a pós-graduação stricto sensu de excelência, dá-se também na perspectiva de acessar os conhecimentos ocidentais não para apreendê-los como superiores e muito menos como únicos válidos, mas para ressignificá-los, hibridizá-los e traduzi-los (Bhabha, 1988). Caracteriza-se, pois, como mais uma estratégia de fortalecimento de seus conhecimentos, metodologias, culturas, identidades: “por um lado, ao territorializarem a academia com suas crescentes presenças, denunciam a violência de séculos de colonização, referindo especialmente as pesquisas ‘sobre’ os povos indígenas, por outro lado, trazem os seus conhecimentos e as suas metodologias” (Bergamaschi; Menezes; Menezes, 2024, p. 4). Criada com base em quatro genocídios/epistemicídios – o muçulmano e judeu; o indígena na América e aborígene na Ásia; o africano; e o das mulheres que recorriam ao conhecimento indo-europeu (Grosfoguel, 2016) –, a universidade como espaço de afirmação da cultura, identidade e conhecimentos indígenas não deixa de ser um paradoxo. Entretanto, a presença dos indígenas mostra que esse fortalecimento está em curso. Além disso, a própria universidade e, sobretudo, os cursos passam por um processo de pluralização das epistemologias; outros conhecimentos começam a circular, e outros modos de construção de conhecimento são utilizados em teses e dissertações. O “[...] mito do conhecimento da egopolítica cartesiana” (Grosfoguel, 2016, p. 30), que faz com que todo conhecimento produzido fora dele seja “[...] visto como tendencioso, inválido, irrelevante, sem seriedade, parcial, isto é, como conhecimento inferior” (Grosfoguel, 2016, p. 30), está sendo abalado pela presença dos indígenas. Com Grosfoguel (2016, p. 44), entende-se que continuam existindo “[...] perspectivas epistêmicas não ocidentais, que guardam uma exterioridade relativa da Modernidade eurocêntrica. Elas foram afetadas pelo genocídio/epistemicídio, mas não foram completamente destruídas”. No presente trabalho, inspirado em um conjunto de autores que criticam a pretensão universalista e exclusivista da epistemologia moderna/cartesiana, objetiva-se mostrar quais conhecimentos interessam aos indígenas ao entrarem na pós-graduação stricto sensu de excelência. Metodologia Para dar conta do objetivo anunciado, realizou-se a análise de teses e dissertações produzidas por estudantes indígenas que se titularam em programas avaliados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) como sendo de excelência (Notas 6 e 7). Neste trabalho, não está em questão problematizar os critérios utilizados pela CAPES para atestar a excelência desses programas. Registra-se apenas que o critério de escolha foi esse, reconhecendo que o fato de os indígenas estarem nesse espaço tem um sentido político e acadêmico relevante e transgressor. Esclarece-se que foram analisadas várias teses e dissertações, de todos os programas stricto sensu de excelência que titularam indígenas no período 2017-2024. Porém, em razão dos limites do texto, mencionam-se somente quatro, que, conforme a pesquisa mais ampla mostrou, são expressão de um universo maior. Com base em autores que criticam a lógica da ciência moderna/cartesiana, que se pretende única e universal, levando à desqualificação de conhecimentos, sujeitos e epistemologias fora dela, procedeu-se a uma análise qualitativa, que mostrou como os indígenas seguem epistemes próprias, por meio das quais evidenciam os conhecimentos que lhes interessam na pós-graduação stricto sensu. Análise e discussão dos resultados Iniciamos destacando que os indígenas, ao ingressaram nos programas de pós-graduação considerados de excelência, não ignoram a existência da epistemologia ocidental e sua força para impor-se como única. Apropriando-se dela, mostram aos não indígenas que não pode ser utilizada, pelo menos não de forma exclusiva ou sem ser problematizada e hibridizada, para produzir conhecimento na perspectiva indígena, pois tem princípios baseados na cultura ocidental. A Universidade que se colocou no lugar de produtora de conhecimento sobre indígenas está, nos últimos anos, passando por uma profunda e importante revolução a partir da chegada, da permanência e na conquista de espaços de reconhecimento pelos povos indígenas, que passam a ser produtores, eles mesmos, de conhecimentos científicos. (Nóbrega, 2024, p. 232). Deve-se destacar que a entrada dos indígenas na educação superior, incluindo a pós-graduação, foi fruto de uma luta história do movimento indígena. Como lembra Ramos, indígena Kubeo, em sua dissertação de mestrado: Para os indígenas frequentarem as universidades, foi necessário acontecer uma construção em termos de reivindicação de direitos. O movimento dos povos indígenas lutou na constituinte e junto à Organização das Nações Unidas - ONU por direitos ― como a autodeterminação ―, pois desde o período imperial, passando pelos horrores cometidos pela ditadura no Brasil, e nesta época pelo Serviço de Proteção ao Índio – SPI, órgão de controle do Governo brasileiro, os indígenas têm suas vidas violadas, caracterizando genocídio e etnocídio. (Ramos, 2021, p. 22) A análise das teses e dissertações mostra que os conhecimentos que interessam são os construídos conforme a episteme da etnia, reconhecendo que há várias possibilidades de construir conhecimento. Nesse sentido, trazemos a reflexão presente na tese de Ferreira (2020, p. 16), indígena Kaingang: “a ressignificação da pesquisa colaborativa cumpre um papel de diálogo entre o método científico ocidental moderno e os métodos tradicionais Kaingang ancorados na ancestralidade, a fim de construir novos conhecimentos na perspectiva Kaingang”. Como se observa, não há uma simples negação do método ocidental; este e os métodos tradicionais são colocados em diálogo, mas com o interesse explícito de construir conhecimento indígena. Nesse processo, o indígena não parte de um a priori racional que o levaria a concluir sobre a impossibilidade do diálogo. O desejo e o sentimento de estabelecer o diálogo cria as condições do diálogo; ainda que impensável e “ilógico” segundo a ciência ocidental, é perfeitamente possível no sentir/pensar indígena: “O pensamento indígena é, sobretudo, um sentipensar, pois considera a pessoa – pesquisadora ou pesquisador – em sua integralidade, em que comporta o pensamento, mas, igualmente, o sentimento” (Bergamaschi; Menezes; Menezes, 2024, p. 4). Como os próprios indígenas apontam, o diálogo não é fácil, pois a lógica ocidental tende a justificar racionalmente a impossibilidade do diálogo: “Trata-se de teorias hegemônicas, eurocêntricas que insistem em não dialogar com outras epistemologias e metodologias próprias da América, que levam em conta outras formas de pensar e construir conhecimento” (Pinheiro, 2024, p. 23). Os indígenas, em suas teses e dissertações, recorrem ao diálogo com o conhecimento ocidental não para ajoelhar-se diante dele, mas porque é um conhecimento que fortalece sua luta por seus direitos. Eles se interessam pela apropriação da epistemologia e do conhecimento ocidental como meio de defender/fortalecer seu conhecimento e sua cultura. Como escreve Pinheiro (2024, p. 23), indígena Guarani, em sua tese, o intelectual indígena “[...] possui, concomitantemente, os saberes científicos e tradicionais. O intelectual indígena luta de forma coletiva pelos direitos duramente conquistados, pelo reconhecimento e validação das visões de mundo, dos saberes e conhecimentos”. Portanto, a “[...] utilização dos conhecimentos adquiridos de outras sociedades pode ocorrer, porém sempre reafirmando o que os indígenas sabem, bem como a sua sabedoria para lidar com o que vem de fora”. (Ferreira, 2020, p. 118). O conhecimento indígena, pode-se dizer, é ao mesmo tempo ponto de partida e de chegada, estando presente em todos os momentos. Rocha (2022, p. 47), indígena E’Kwana, em sua dissertação, explica que o ponto de partida é o “[...] conhecimento tradicional do nosso povo, realizando as práticas de acordo com a nossa cultura. Posteriormente, aprende-se sobre o mundo e sobre os conhecimentos da sociedade exterior, sem perder o foco nas nossas bases fundamentais”. Além disso, os indígenas interessam-se pela construção de conhecimentos que colocam em xeque a hegemonia da epistemologia ocidental, mostrando que ela não é universal e superior. Nesse sentido, importa superar as “práticas de imposição de conhecimentos ditos universais, mas que na sua maioria estão a serviço de uma sociedade fundada na exploração do outro pelo trabalho como meio de ter uma suposta vida boa, saudável e equilibrada”. (Ferreira, 2020, p. 122). Como destaca Pinheiro (2024, p. 23), “este, talvez, seja o maior desafio, pois trata-se de um lugar que privilegia apenas os ditos conhecimentos científicos, e apenas uma forma de ver o mundo, o mundo eurocêntrico/ocidental”. Por fim, os indígenas defendem, em suas pesquisas, que os conhecimentos que interessam são os que mantêm o equilíbrio entre o ser humano e a natureza: “[...] os conhecimentos indígenas são uma construção equilibrada entre homem e natureza, instâncias inseparáveis, enquanto no mundo não indígena o homem e a ciência por ele desenvolvida modificam e destroem a natureza, da qual se compreende dissociado e superior” (Ferreira, 2020, p. 122). Por isso, “[...] cabe a nós indígenas, portadores de conhecimentos milenares, decifrar desde nossa perspectiva, o que a ciência ocidental diz ter decifrado” (Pinheiro, 2024, p. 93). No processo de “decifrar o que a ciência ocidental diz ter decifrado”, produzir conhecimentos sobre sua identidade, cultura e conhecimento tem sido central. Afinal, a ciência ocidental, embora tenha se colocado como capaz de conhecer os indígenas, em vez de fazê-lo, multiplicou versões estereotipadas e racistas. Considerações finais “Decifrar o que a ciência ocidental diz ter decifrado” (Pinheiro, 2024, p. 93). Mais do que decifrar para si mesmos, pois os indígenas historicamente sempre souberam que não há apenas uma epistemologia, um conhecimento, uma cultura, uma ciência, eles estão nos dizendo que os conhecimentos que interessam são os conhecimentos que reconhecem a existência do outro enquanto outro e que não destroem a natureza e as infinitas possibilidades de vida. Eles também nos dizem que os conhecimentos que interessam são os que estão articulados com a cultura, até porque eles sabem que não há conhecimentos desvinculados da cultura, não há conhecimentos universais. Eles sabem que o sujeito ocidental, ao colocar-se como sujeito que fala em nome de todos, está falando somente em seu nome, com a intenção de sufocar e asfixiar as diferenças para subordiná-las e inferiorizá-las. Eles nos dizem que conhecimentos produzidos para dominar e explorar não são conhecimentos que interessam, pois provocam sofrimento e comprometem a vida em todas as suas formas. Referências BERGAMASCHI, Maria Aparecida; MENEZES, Ana Luísa Teixeira de; MENEZES, Magali Mendes de. Metodologias insurgentes de pesquisa: o pensamento indígena em diálogo. Espaço Amerínido, v.18, n.2, p.218-244, 2024. BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998. FERREIRA, Bruno. Ũn si ag tũ pẽ ki vẽnh kajrãnrãn fã o papel da escola nas comunidades kaingang. 2020. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020. GROSFOGUEL, Ramón. A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI. Revista Sociedade e Estado, v. 3, n. 1, p. 25-49, 2016. NÓBREGA, Luciana Nogueira. “Não é pra todo mundo que a gente abre o coração” – reflexões epistemológicas a partir de trajetória de pesquisa como os Anacé, Caucaia, Ceará. Espaço Amerínido, v.18, n.2, p. 218-244, 2024. PINHEIRO, Isael da Silva. ARANDU: A Pedagogia Guarani das Belas Palavras. 2024. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2024. RAMOS, Raquel de Cássia Rodrigues. Kubai, o encantado: literatura infantil indígena em foco. 2021. Dissertação. (Mestrado em Educação). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2021. ROCHA, Reinaldo Wadeyuna Luiz. Aakene töwecchojo je ye’kwana nijummaanä fajeeda ai woowanoomanä? [manuscrito]/ o que querem os ye’kwana com a escola? 2022. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2022.