TRABALHO DOCENTE: INFLUÊNCIA DA AGENDA NEOLIBERAL NA FORMAÇÃO DE SUBJETIVIDADES Márcia de Souza Hobold – UFSC Silvia Zimmermann Pereira Guesser – UFSC Maria da Conceição dos Santos Costa – UFPA Karina Cristiane da Costa Lira – UFPA Isabel Maria Sabino de Farias – UECE Sandy Lima Costa – UECE Coordenador – Nilson de Souza Cardoso – UECE Resumo: Esta proposta de painel que reúne três trabalhos, tem como objetivo analisar como o contexto neoliberal tem configurado às condições objetivas e subjetivas da classe trabalhadora na docência, nas diferentes modalidades e realidades do território nacional (Norte, Nordeste e Sul). Diante desta proposta, o primeiro trabalho objetiva analisar de que maneira as parcerias público-privadas via Associação dos Municípios da Região da Grande Florianópolis (GRANFPOLIS) influenciam no trabalho docente. O segundo texto visa analisar o trabalho docente no/do território ribeirinho no contexto da Amazônia paraense, no município de Belém-Pará. O terceiro trabalho objetiva, com base em um exame teórico do assunto (bibliográfico), discutir aspectos didáticos que caracterizam e desafiam o trabalho do professor universitário que se encontra em situação de entrada no magistério superior, considerando a atividade de ensino. É com ênfase nessa dimensão que se problematiza suas implicações no desenvolvimento profissional do docente universitário. Com esse conjunto de três pesquisas, mostra-se como o trabalho docente sofre forte influência da agenda neoliberal, que desvaloriza, adoece, proletariza e interfere diretamente na autonomia e na constituição da artesania docente, essenciais para propiciar uma educação que vise a humanização e emancipação. Palavras-chave: Trabalho docente. Agenda neoliberal. Proletarização do trabalho docente. Trabalho docente: proposições da parceria público-privada na GRANFPOLIS Márcia de Sousa Hobold – UFSC Silvia Zimmermann Pereira Guesser – UFSC Resumo: Este resumo objetiva analisar de que maneira as parcerias público-privadas via Associação dos Municípios da Região da Grande Florianópolis (GRANFPOLIS) influenciam no trabalho docente. Como metodologia, optou-se pela pesquisa exploratória e descritiva, com ênfase na abordagem qualitativa, com procedimentos bibliográficos e documentais. A investigação permitiu observar o avanço da parceria público-privado, via associações municipais, e sua forte influência nas decisões educacionais e na formação de professores/as nos municípios associados à GRANFPOLIS, visando o desenvolvimento de uma educação de “qualidade empresarial”. Palavras-chave: Associativismo; Associação de Municípios; Parceria público-privada; GRANFPOLIS. Introdução A formação inicial e continuada de professores/as no Brasil se desenvolve, ao longo da história, em vários contextos políticos, sociais e culturais que podem influenciar direta ou indiretamente o trabalho docente. Sob o argumento de melhorar os índices de avaliação educacional no Brasil, empresários da educação passam a firmar parcerias público-privadas, adentrando no Ministério da Educação, nas Secretarias Estaduais de Educação e nas Secretarias Municipais de Educação. No caso desse estudo, vamos nos ater a discorrer sobre as ações e as influências no trabalho docente via Fundações privadas denominadas de Institutos Luiz Felipe Figueiredo - FEFIG[1], Positivo, Ayrton Senna e Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação e Economia Social - LEPES em parceria com a Associação dos Municípios da Grande Florianópolis - GRANFPOLIS. Assim, o objetivo é analisar de que maneira as parcerias público-privadas via GRANFPOLIS influenciam no trabalho docente. Considera-se que as associações de municípios têm se tornado porta de entrada para os reformadores educacionais atuarem nas redes municipais de ensino da Grande Florianópolis, com vistas a promover uma educação de qualidade que Freitas (2024, p. 6) denomina de “qualidade empresarial”. Para alcançar a almejada qualidade empresarial, que visa formar a futura geração de trabalhadores adaptáveis, a realidade posta pelo neoliberalismo conservador, entidades empresariais oferecem gratuitamente aos municípios serviços assessorias aos gestores, formação de professores/as e acompanhamento do processo de ensino e aprendizagem. Metodologia É uma pesquisa realizada nas 21 associações que abrangem as diferentes regiões de Santa Catarina, que envolve mais de 30 pesquisadores/as que constituem o Grupo de Estudos e Pesquisas: Formação de Professores e Práticas de Ensino – FOPPE, vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. O percurso metodológico para a produção deste texto, é classificado como exploratório e descritivo, com ênfase na abordagem qualitativa, utilizando-se dos recursos da investigação bibliográfica e documental, uma vez que, conforme Shiroma, Campos e Garcia (2005, p. 427) “um documento não é restrito a uma única e harmoniosa leitura. Pelo contrário, é aberto a re-leituras, não um objeto para consumo passivo, mas um objeto a ser trabalhado pelo pesquisador para produzir sentido”. Os documentos utilizados para a análise serão notícias e informações publicadas pela Associação dos Municípios da Região da Grande Florianópolis (GRANFPOLIS) em seu site oficial[2]. Discussão de resultados As associações de municípios em Santa Catarina são as mais antigas e mais estruturadas do Brasil (Marques e Dias, 2003; Abrucio, Filippim e Dieguez, 2013). Registra-se que o primeiro associativismo de municípios de Santa Catarina surgiu no interior da cidade de Joaçaba em 1961, denominada de Associação dos Municípios do Meio Oeste Catarinense (AMMOC). Mello (1997, p. 56) destacando-se pelo pioneirismo de Santa Catarina, que, em meados da década de 1990, já contava com “[...] 18 associações microrregionais, algumas bastante ativas na promoção dos municípios filiados”. Santa Catarina possui 295 municípios e 21 associações municipais. Em referência à legislação que lhes dá embasamento jurídico, destacamos a Lei Federal nº 14.341/2022 e a Lei Estadual nº 18.254/2021, ambas recentes, que dispõem sobre a Associação de Representação de Municípios e legislam acerca da constituição, finalidades, vedações, procedimentos de seleção de pessoal e contratação de bens e serviços, manutenção e financiamento, contribuição financeira dos associados, filiação e desfiliação de associados entre outras determinações relacionadas às associações de municípios. Neste estudo, elencamos apenas uma associação, denominada Associação dos Municípios da Região da Grande Florianópolis - GRANFPOLIS, que iniciou as atividades em 1968 por meio da “[...] assinatura da “Declaração de Florianópolis”, que trazia no seu bojo o objetivo de constituir a Associação, visando promover o desenvolvimento integrado da Região” (GRANFPOLIS, 2024). Atualmente, a GRANFPOLIS é composta por 22 municípios membros, sendo que desde a sua criação, passou por diversas modificações em seu Estatuto e na composição dos municípios membros. Quanto à estrutura organizacional, “A GRANFPOLIS é constituída pelos seguintes órgãos: I - Assembleia Geral; II – Conselho Político; III - Conselho Fiscal; IV – Conselho Executivo (GRANFPOLIS, art. 9, 2023b). Esta estrutura conta ainda com colegiados e fóruns. Contudo, diante do objetivo desse trabalho, focaremos no Colegiado da Educação. Fundado em 28 de junho de 2007, o Colegiado da Educação é constituído por secretários/as municipais da educação associados à GRANFPOLIS, sendo composto também por um Arranjo de Desenvolvimento da Educação - ADE, ofertado pelo Instituto Positivo. Na região Sul do Brasil, a GRANFPOLIS é considerada a pioneira em firmar parceria com o Instituto Positivo, sob alegação de elevar os índices de qualidade da educação nos municípios associados. Segundo o site de notícias da GRANFPOLIS, Em 2015, o Instituto Positivo apresentou o modelo de trabalho colaborativo aos secretários municipais de educação, às equipes pedagógicas e aos prefeitos dos 22 municípios da Associação dos Municípios da Grande Florianópolis. Mesmo com a cultura de colaboração e a predisposição para o trabalho cooperativo entre os municípios, foram necessários vários encontros para levar a proposta às secretarias de Educação da região. Por fim, o ADE Granfpolis foi consolidado por meio de um termo de parceria entre o Instituto Positivo e a Associação Granfpolis, com a anuência dos prefeitos e secretários de Educação. A cada troca na gestão municipal, prefeitos e secretários da pasta assinam um Termo de Compromisso que formaliza a adesão ao grupo e ao trabalho colaborativo, como forma de garantir a sustentabilidade da iniciativa (GRANFPOLIS, 2022). Desde a criação do ADE GRANFPOLIS, inúmeros projetos foram implantados pelos Institutos Positivo e Ayrton Senna, com o argumento de elevar os índices educacionais nos municípios associados. Inicialmente o Instituto Positivo realizou o diagnóstico com estudo populacional, social, econômico e educacional da região, elaborando uma espécie de dossiê aos/às prefeitos/as e secretários/as da educação, apontando às necessidades de cada rede de ensino municipal. Posteriormente, firmam parcerias com as Secretarias Municipais de Educação implementando quatro projetos de atuação direta dentro das Unidades Escolares Municipais, a saber: Se Liga, Acelera Brasil, Fórmula da Vitória e Gestão de Alfabetização. No ano de 2023, por meio do ADE GRANFPOLIS, o Instituto FEFIG em parceria com o Instituto Ayrton Senna, adentraram em 58 escolas municipais, pertencentes a 19 municípios associados à GRANFPOLIS, de modo a atender 2.985 estudantes matriculados/as nos anos iniciais do Ensino Fundamental, identificados com defasagem no processo de alfabetização ou em situação de distorção idade-série. Além disso, promoveram formação para secretários/as municipais de educação, orientadores/as pedagógicos e professores/as alfabetizadores/as. Acerca disso, em março de 2024, o Instituto FEFIG em parceria com o LEPES, lançam junto ao ADE GRANFPOLIS o Programa de Aprimoramento da Educação Infantil, que visa “melhorar” a educação infantil, a fim de elevar os índices de rendimento dos futuros alunos dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, tomando como referência países como Canadá e Austrália. De acordo com Freitas (2024), as parcerias, público-privadas na educação, Começam em suas formas brandas e simpáticas com ambiciosas propostas de melhoria da escola e ajuda às crianças pobres, garantia de direito de todos a aprender na idade certa, implementam avaliações de larga escala que desmoralizam professores e escolas públicas com testes padronizados unilaterais, envolvem inicialmente apenas terceirização de escolas públicas para ONGs sem fins lucrativos, e depois avançam para propostas de privatização e eliminação do sistema público e implementam privatização em escala, colocando a educação fora dos domínios do Estado (Freitas, 2024, p. 7). Nesse sentido, para colocar em prática o projeto para desqualificar a educação pública, o ADE GRANFPOLIS em parceria com o Instituto Positivo, Instituto Ayrton Senna, Instituto FEFIG, LEPES e as Secretarias Municipais de Educação, assinaram um termo de compromisso para melhorar a qualidade da Educação Infantil, de modo a realizar inicialmente, o treinamento dos observadores[3]. O treinamento consiste em apresentar o programa de avaliação, o método de pesquisa, o aplicativo para armazenamento dos dados coletados e a maneira de aplicar a Escala de Avaliação de Ambientes de Aprendizagem dedicados à Primeira Infância (EAPI). Ao final do treinamento, os observadores se submeteram a um teste avaliativo para fins de verificar o conhecimento acerca do instrumento EAPI. Em lócus, para a aplicação do instrumento EAPI, os observadores adentraram nas salas de educação infantil para observar e avaliar o trabalho docente, a partir de uma escala de 1 a 4 pontos, cuja as pontuações mais elevadas refletem um maior nível de qualidade. Para avaliar o trabalho docente, os observadores assistem às aulas dos/as professores/as da Educação Infantil, observam a maneira de planejar as aulas, os materiais utilizados, a organização das salas, os tempos e atividades realizadas. Ao final da observação, os observadores aplicam um roteiro de entrevista pontuável com os/as professores/as. Diante deste cenário, em consulta aos sites da GRANFPOLIS e do Observatório da Qualidade na Educação Infantil, não consta disponível o acesso para consulta dos resultados parciais e/ou finais, oriundos da avaliação do trabalho docente. É certo afirmar que o projeto em curso, de responsabilização com base no conceito de “qualidade empresarial” (Freitas, 2024, p. 5), não se limita apenas ao caso da GRANFPOLIS, mas sim, trata-se de um projeto maior. Para Freitas (2024), A responsabilização ao estilo empresarial tem sido a proposta mesmo no Ministério da Educação atual que, ao apoiar este tipo de pressão por resultados, incentiva estados e municípios a irem na mesma direção. Esta pressão flui escala abaixo e chega ao professor e ao estudante (Freitas, 2024, p. 8). Nesse sentido, para alcançar a qualidade empresarial, é necessário desqualificar a educação pública, começando pelo lado mais fraco da corda: os/as professores/as. Responsabilizar, monitorar e modificar o modo de ser e fazer docente são palavras de ordem nos projetos elaborados pelos empresários da educação. Fato esse que quanto mais se individualiza o trabalho docente, por meio de instrumentos avaliativos e de prêmios remuneráveis pelo bom desempenho nas avaliações de larga escala, mais fracos e suscetíveis a projetos de adestramento está o trabalho docente. A parceria entre a associação da GRANFPOLIS e os Institutos criados pelos empresários da educação em curso nas Secretarias Municipais de Educação merece atenção e ampla discussão sobre o futuro da educação pública socialmente referenciada, que se contraponha ao projeto de educação empresarial em voga. Considerações finais A trajetória das associações municipais em Santa Catarina demonstra sua relevância na prestação de serviços técnicos às prefeituras por meio de parcerias público-privadas. A GRANFPOLIS, que reúne 22 municípios, exerce influência significativa nas decisões administrativas e promove a entrada de empresários na educação com programas de formação para profissionais da educação. No entanto, a efetividade dessas parcerias é questionável, pois podem levar à desqualificação do trabalho docente e à perda da autonomia dos/as professores/as. Estudos são necessários para investigar seu impacto na formação continuada e na gestão das Secretarias Municipais de Educação, revelando questões como padronização de métodos de ensino e desprofissionalização docente. Referências A “qualidade empresarial” e a “qualidade social” na reforma educacional: causas, consequências e disputas. Entrevista: Luiz Carlos de Freitas. Revista Educação e Políticas em Debate, [S. l.], v. 13, n. 3, p. 1–15, 2024. DOI: 10.14393/REPOD-v13n3a2024-75234. Disponível em:
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Decifrar textos para compreender a política: subsídios teórico-metodológicos para análise de documentos. Perspectiva, Florianópolis, SC, v. 23, n. 02, p. 427-446, jul./dez. 2005. O trabalho docente no/do território ribeirinho no contexto da Amazônia paraense Karina Cristiane da Costa Lira - UFPA Maria da Conceição dos Santos Costa - UFPA Resumo: Este estudo tem como objetivo analisar o trabalho docente no/do território ribeirinho no contexto da Amazônia paraense, no município de Belém/PA. A metodologia fundamenta-se em uma abordagem qualitativa, com pesquisa de campo e produção de dados por meio de entrevistas. O lócus integra a Fundação Centro de Referência em Educação Ambiental Escola Bosque Professor Eidorfe Moreira, tendo como sujeitos os docentes que atuam nas unidades pedagógicas. Os resultados revelam que os/as trabalhadores (as) docentes vêm desenvolvendo o seu trabalho no território ribeirinho sob condições precárias devido a fatores como infraestrutura inadequada, dificuldades de acesso, insuficiência de recursos pedagógicos, formações precárias desconectadas da realidade local, visão urbanocêntrica da educação, atendimento a turmas multicicladas, sobrecarga de trabalho, limitações no acompanhamento pedagógico e ausência de profissionais de suporte educacional. Entretanto, apesar dos desafios políticos e econômicos, a Funbosque tem buscado manter seu compromisso com os princípios educacionais voltados para uma escola do campo, das águas e das florestas, reafirmando sua existência e resistência junto aos docentes e à comunidade, que lutam pela valorização da educação ribeirinha como um direito histórico e inalienável. Palavras-chave: Trabalho docente; Condições de trabalho; Território ribeirinho. Introdução O trabalho docente tem sido fortemente impactado pelas intervenções da lógica neoliberal no âmbito educacional. Os princípios da Nova Gestão Pública (NGP1) têm impulsionado a reconfiguração do papel das escolas na formação dos sujeitos, priorizando uma educação voltada às demandas do mercado em detrimento de uma formação crítica e emancipadora. Dessa forma, a educação básica passa a assumir um caráter estritamente mercadológico, esses fatores implicam na descaracterização da profissão docente. De acordo com Oliveira (2004), as exigências relacionadas à nova reorganização e gestão escolar têm contribuído para um processo de desprofissionalização, marcado pela perda da autonomia, da identidade profissional e da própria natureza do trabalho docente. A autora afirma, ainda, que o trabalho docente não se limita à didática em sala de aula, pois está diretamente relacionado ao fazer cotidiano, abrangendo experiências, envolvimento com o processo de trabalho e suas diversas funções, atribuições e espaços. Ou seja, compreende todas as atividades inerentes à educação. Nas Amazônias2, especificamente no território ribeirinho de Belém do Pará, essas mudanças na educação se apresentam com maior gravidade, já que o território é um elemento de disputa e de correlação de forças. A imposição de conhecimentos eurocêntricos tem desconsiderado outros saberes, negando o direito à sociodiversidade, o que é um contrassenso às políticas de educação do campo, das águas e das florestas, que prezam pela construção de uma sociedade onde todos (as) se reconheçam e suas territorialidades sejam valorizadas. Para discutir os reflexos da lógica neoliberal no trabalho docente na Amazônia Paraense, este estudo parte da seguinte questão: Como tem se constituído o trabalho de professores(as) que atuam no território ribeirinho da região diante do avanço das políticas neoliberais? Assim, o objetivo central é analisar o trabalho docente no e do território ribeirinho no contexto da Amazônia Paraense, especificamente no município de Belém/PA. Metodologia O campo metodológico está ancorado na pesquisa qualitativa (Flick, 2009), com observação e convivência no território entre os meses de maio a agosto de 2024. A pesquisa contou com entrevistas semiestruturadas realizadas com sete docentes que atuam na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, lotados em diferentes unidades pedagógicas da Fundação Escola Bosque. Os participantes são homens e mulheres com idades entre 40 e 55 anos, com uma longa trajetória na docência. Apenas um dos docentes reside nas ilhas, enquanto os demais moram na área urbana de Belém. O corpo docente atual, bem como os demais servidores, é formado majoritariamente por professores(as) contratados via Processo Seletivo Simplificado (PSS), além de profissionais terceirizados para outras funções nas escolas. Resultados e Discussão A Funbosque é uma fundação pública vinculada à prefeitura municipal de Belém do Pará e está situada no contexto do campo das águas e das florestas. É um complexo educacional com sete escolas localizadas em diferentes ilhas que fazem parte do arquipélago da capital. Os docentes3 afirmam que atuar no território ribeirinho representa um desafio educacional significativo, pois os obstáculos enfrentados, somados às mazelas provocadas pela lógica capitalista excludente, opressora e segregadora, que resulta no sucateamento da educação, tornam esse trabalho ainda mais árduo. O descaso do poder público com a educação, especialmente em territórios afastados dos centros urbanos, tem sobrecarregado os docentes, que enfrentam extensas jornadas de trabalho em condições precárias. A falta de infraestrutura adequada, a escassez de recursos pedagógicos e de assistência pedagógica especializada para estudantes e professores, além das dificuldades de acesso às escolas, agravam ainda mais essa realidade, conforme argumentam os entrevistados a seguir: Quando vim trabalhar nas unidades Pedagógicas, a primeira coisa que senti de impacto foi à questão da logística, do transporte para chegar até a ilha. Eu acho que a maioria dos professores são de fora, mas eu precisei vir morar aqui. Mas durante muito tempo eu fiz o trajeto da cidade até as ilhas, fazia isso todos os dias e é um trajeto muito cansativo. A gente tem que acordar cedo, como a gente trabalha com jornada aqui, a gente tem que ficar o dia todo na escola, almoçar, tomar banho e fazer o que é necessário, até o retorno no final do dia (Professor João). O que eu estou observando na escola Bosque é que o trabalho docente está cada vez mais precarizados, desvalorizados, as condições dos espaços são precárias com pouca estrutura, falta de recursos pedagógicos e isso não é particular de uma escola, é uma política, isso é uma política pensada do Governo Federal, governo estadual e as prefeituras que têm o mesmo projeto. Então acho que o trabalho docente não merece, sabe? Nós queremos uma escola de qualidade, uma educação pública de qualidade tendo os alunos como cidadãos de direito e não de obrigações, de terem que cumprir isso ou aquilo para satisfazer metas de governo (Professor Luiz). Fernandes, Cerioli e Caldart (2011) afirmam que os movimentos sociais em defesa da educação do campo têm pressionado o Estado e as esferas administrativas a assumirem a responsabilidade de garantir um compromisso com as escolas do campo. Além disso, buscam assegurar direitos básicos, como a disponibilização de escolas, profissionais qualificados, recursos e políticas educacionais que atendam às especificidades da educação no campo. Outro desafio para as escolas do campo e para o trabalho docente é o de fortalecer a cultura amazônica local e o respeito ao território, uma vez que há constantes tentativas de apagamento dos povos e de suas identidades devido à imposição de uma cultura escolar eurocêntrica, tida como hegemônica e desconectada da realidade local. “Trata-se de reconstituir a função social da escola por meio da crítica material das finalidades que a lógica do ‘caminho usual dos negócios’ tenta impor à vida de todos” (Caldart, 2020, p. 1). Para a autora, são as próprias contradições dessa lógica que indicam novos horizontes e é por isso que ainda temos o poder da escolha. Atualmente, os docentes participam de formações em serviço oferecidas pela Secretaria de Educação de Belém, que são as mesmas destinadas às escolas urbanas da rede municipal. Essas formações geralmente estão alinhadas ao cumprimento de demandas relacionadas ao desenho curricular da BNCC e a avaliações em larga escala, ou seja, são distantes das reais necessidades educacionais dos docentes e desconectadas da realidade do território ribeirinho. Apesar disso, os professores reconhecem a importância de uma formação crítica e humanizada, que os auxilie no cumprimento de seu papel diante de uma nova concepção de escola e no fortalecimento dos vínculos com o território ribeirinho. Conclusão O estudo mostrou a relevância histórica e a necessidade do trabalho docente com os sujeitos que residem na região das ilhas de Belém do Pará. A Funbosque, como é chamada, não é uma escola comum da rede municipal de ensino, mas um projeto de educação do campo, das águas e das florestas que tem a tarefa histórica de construir os processos educativos com sujeitos ribeirinhos. Mas, tanto a Fundação quanto os docentes sofrem com os ataques neoliberais que atingem os territórios amazônicos. A realidade concreta revelou que os educadores trabalham sob condições ainda precárias, devido a fatores como infraestrutura inadequada, dificuldades de acesso, escassez de recursos pedagógicos, formações desconectadas da realidade do campo, visão urbana de educação, atendimento a turmas multicicladas, sobrecarga de trabalho e insuficiência de acompanhamento pedagógico, além da falta de outros profissionais para oferecer suporte educacional. A constituição do trabalho docente no território ribeirinho da Amazônia Paraense, diante do avanço das políticas neoliberais, encontra-se reconfigurada, devido à organização da escola atender às exigências da BNCC e às avaliações em larga escala, o que implica em condutas docentes alinhadas à meritocracia e ao pragmatismo de metas, visando alcançar índices como o IDEB e as olimpíadas de matemática promovidas pela Secretaria Municipal de Educação. Por outro lado, ressaltamos que os professores e a Escola Bosque desempenham um papel fundamental na formação dos sujeitos que convivem nos territórios ribeirinhos, tanto nos processos de ensino-aprendizagem quanto na socialização e no fortalecimento de seus pertencimentos sociais, territoriais, políticos, produtivos e culturais. A Escola Bosque, seus docentes, alunos(as) e as comunidades das ilhas também vivenciam as contradições de uma sociedade marcada pela opressão do sistema capitalista, que, infelizmente, continua avançando sobre a região amazônica. No entanto, esses sujeitos permanecem unidos na luta em defesa da escola pública no/do território ribeirinho, buscando garantir condições dignas de acesso e permanência para todos e todas. ___________________ 1 A NGP pode ser considerada um tipo de privatização endógena, sendo uma forma indireta que introduz valores da economia privada na gestão pública. Tendo sempre como referência a empresa privada, a NGP vai impondo um ethos empresarial na gestão dos serviços públicos, imprimindo uma lógica mercantil entre fornecedores e clientes ou consumidores, onde antes imperavam noções de direito baseadas na relação entre Estado e cidadania (Oliveira, 2018, p.45). 2 Adotamos a designação “Amazônias” pois, como destaca Porto Gonçalves (2012), essa expressão reflete a pluridiversidade e as múltiplas facetas que constituem a região. A Amazônia é rica em biodiversidade, com ecossistemas distintos, como as florestas de terra firme, igapó, várzeas e manguezais, além dos rios de água branca e preta. Essa pluralidade se estende à variedade de espécies animais e plantas medicinais, bem como à relação dos povos com a floresta, a terra, o rio e com suas culturas, conhecimentos e práticas. 3 Os nomes utilizados são fictícios a fim de preservar suas identidades garantindo a ética da pesquisa. Referências CALDART, Roseli Salete. Função social das escolas do campo e desafios educacionais do nosso tempo. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Campus Litoral, 9 mar. 2020. (Texto preparado para aula inaugural do semestre do curso de Licenciatura em Educação do Campo). FERNANDES, Bernardo Mançano; CERIOLI, Paulo Ricardo; CALDART, Roseli Salete. Primeira Conferência Nacional “Por uma educação básica do campo”. In: ARROYO, Miguel Gonzalez; CALDART, Roseli Salete; MOLINA, Mônica Castagna (orgs.). Por uma Educação do Campo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. p. 87-133. FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. Tradução Joice Elias Costa. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. GOLÇALVES, Carlos Walter Porto. Amazônia, Amazônias. São Paulo: Contexto, 2012. OLIVEIRA, Dalila Andrade. A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1127-1144, set./dez. 2004. O trabalho didático de docentes universitários em situação de inserção profissional Isabel Maria Sabino de Farias – UECE Sandy Lima Costa – SME Fortaleza Resumo: Como se configura o trabalho didático do professor universitário em situação de inserção profissional na contemporaneidade? Este questionamento move as análises desse escrito, as quais partem da premissa de que a ação de ensinar na Educação Superior, no que concerne aos compromissos político-pedagógicos da Didática em torno de um projeto educativo socialmente referenciado, é atravessada por tensões e contradições da prática nesse contexto. O professor em situação de inserção na docência universitária não passa ileso a essa conjuntura (externa e interna), tornando ainda mais desafiante a entrada nesse contexto de atuação profissional. Objetiva-se, com base em um exame teórico do assunto (bibliográfico), discutir os aspectos didáticos que caracterizam e desafiam o trabalho do professor universitário que se encontra em situação de entrada no magistério superior, considerando a atividade de ensino. É com ênfase nessa dimensão que se problematiza suas implicações no desenvolvimento profissional do docente universitário. Palavras-chave: Trabalho didático; Inserção profissional; Docência universitária. Introdução A docência na Educação Superior é uma atividade complexa que exige do professor não apenas domínio de conteúdo específico, mas também conhecimento didático para mediar o processo de aprendizagem dos estudantes. No cenário brasileiro, o debate sobre a docência universitária tem se intensificado, especialmente nas últimas décadas, diante da crescente preocupação com a falta de formação específica para o exercício profissional na Educação Superior. As análises realizadas sobre esse nível de ensino evidenciam a complexidade da ação de ensinar (Farias et al., 2022; Hobold; Farias, 2020), reiterando a percepção de Marcelo García (1999) e Candau (2018) quando sinalizam que os aspectos didáticos do trabalho docente são um dos maiores problemas enfrentados pelo professor, sobretudo no início de sua carreira. Em uma relação intrínseca com a docência, a dimensão didática do trabalho do professor compreende conhecimentos sobre o en...