TEKOÁ-PORÃ: A ÉTICA DA VIDA NO REFLORESTAMENTO DA EDUCAÇÃO

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Resumo
TEKOÁ-PORÃ: A ÉTICA DA VIDA NO REFLORESTAMENTO DA EDUCAÇÃO Lançando sementes O presente texto objetiva conhecer a potência da ética da vida no reflorestamento da educação, cujos princípios demonstram possibilidades fecundas e confluentes, fundamentada na convivência harmônica entre os diversos viventes. Esse entendimento se difere da concepção colonialista que promove violências sociopolítico-ambientais, mediada pela ótica antropocêntrica que concebe a natureza como um corpo-utilitário. Em desacordo a compreensão colonialista e frente aos desafios sociopolítico-ambientais contemporâneos, apresentamos a possibilidade de promover linhas de ruptura contra modos dominantes, e, portanto, empreender o reflorestamento da educação com vistas a fomentar processos de vida-formação mais sensíveis, em fricção com a teia da vida. O aporte filosófico-educacional proveniente da ética do bem-viver potencializa a criação de novas perspectivas socioeducacionais que favorecem relações-outras, sob um enfoque holístico, direcionado ao bem-pensar, bem-sentir e bem-fazer, considerando o lugar interior, o lugar do ser no mundo e o lugar na comunidade/sociedade. O referencial teórico é mobilizado a partir de Werá (2024) que nos sensibiliza a experienciar a ética do bem-viver e Krenak (2022) ao lançar o desafio de desenvolver a florestania contra a afluência do desenvolvimento compulsivo e da educação maior em termos de Gallo (2002). Desse modo, defendemos o reflorestamento da educação em um viés contracolonial. Cultivo metodológico Este estudo consiste em uma investigação teórica-reflexiva que articula a ética da vida, a educação e algumas leituras interpretativas dos signos da natureza a partir dos eventos climáticos ocorridos nas últimas décadas, cuja triangulação demonstra a urgência de repensar os modos de viver, educar e nos relacionar com o mundo. O aporte fenomenológico, assim como a ética do bem-viver, compreende a vida corporificada nas múltiplas dimensões do ser no mundo, nas relações entre historicidade, espacialidade e temporalidade, mobilizadas pelos afetos decorrentes da natureza dos encontros. O corpo possui um papel central, atuando como constructo simbólico e senciente que pode ser interpretado a partir da memória e das experiências socioculturais (Bakare-Yusuf, 2003). Tekoá-porã: a ética da vida A ética da vida experienciada pelos povos indígenas manifesta a potência do bem-viver, cujo termo tekoá-porã na língua guarani, simboliza a compreensão de pertencimento, biointeração e confluências entre as formas vida. Tais filosofias concebem a natureza como uma entidade viva e encantada, assim somos filhos/as da terra, envoltos/as a teia da vida em uma conexão simbiótica. A natureza constitui um elemento estruturante de nossos modos de existência, constituindo um corpo-território, expressando a possibilidade do partilhar harmônico, cujo direito de existir não é restrito ao ser humano, mas a todos os seres. O compartilhamento da vida estende-se à terra, aos rios, ao ar, visto que qualquer desequilíbrio, consequentemente, afetará os seres vivos moventes. A ética do bem-viver nos desafia a repensar a relação entre o indivíduo e o coletivo, entre o físico e o simbólico, entre o ser humano e a natureza, nos convida a perceber que proteger o território, em suas múltiplas dimensões, é essencial para proteger vidas, culturas e o planeta como um todo. Para além de onde cada um de nós nasce um sítio —, uma aldeia, uma comunidade, uma cidade —, estamos todos instalados num organismo maior que é a Terra. Por isso dizemos que somos filhos da terra. Essa Mãe constitui a primeira camada, o útero da experiência da consciência, que não é aplicada nem utilitária (Krenak, 2022, p. 52). A cosmopercepção indígena é atravessada por três âmbitos da territorialidade do ser, em termos geográficos, espirituais, culturais e sociais, isto é, o lugar interior, o lugar do ser no mundo e o lugar na comunidade/sociedade (Werá, 2024). A ética do bem-viver atribui a todos/as a corresponsabilidade por essas relações, pois cada ser é parte integrante da teia da vida. Nessa confluência humanidade-natureza vivenciada pelos povos indígenas, e também quilombolas, experienciamos a beleza e a potência da ética do bem-viver, cujo entendimento é orgânico e circular na perspectiva de Santos (2023). Por outro lado, o colonialismo promovido pelo desejo de consumo ilimitado fundamenta uma concepção antropocêntrica, devoradora de mundos, cuja fome por bens materiais parece insaciável. A falsa noção de bem-estar e desenvolvimento leva-o a construir um mundo empobrecido de uma espiritualidade voltada para afirmar a vida, perfazendo sua prática necropolítica, que está para além das perdas de vidas humanas e se amplia para a perda da biodiversidade. Coexistir responsavelmente não é possível ao colonialismo que considera a natureza para fins de enriquecimento próprio, sendo assim, é preciso assolar o corpo-terra, o corpo-rio, o corpo-animal, o corpo-território-indígena. Nesse sistema, a vida recebe o valor de nada, resultando em violências sociopolítico-ambientais. Em nome do desenvolvimento econômico, observamos o crescimento exponencial de atividades de exploração predatória da natureza, como o desmatamento, a mineração, o agronegócio, a grilagem, dentre outras. Estamos dispostos/as a pagar o preço do bem-estar e do desenvolvimento com vidas? Estamos tão confortáveis nos espaços conquistados que somos incapazes de perceber que caminhamos em direção ao ponto de não retorno? Diz-se frequentemente que as crianças serão o futuro da humanidade, mas é necessário questionar, qual mundo estamos deixando para as gerações futuras? Nas últimas décadas vivenciamos a aceleração desenfreada de eventos climáticos extremos. No ano de 2024, em meio a seca histórica que assolou a Amazônia nos questionamos incontáveis vezes: cadê o rio que estava aqui? Incêndios florestais criminosos transformaram os rios voadores em corredores de fumaça, tornando as condições de vida insalubres do Norte ao Sul do país. No Centro-oeste, assistimos o pantanal arder em chamas, no Sul as enchentes que devastaram o estado do Rio Grande do Sul. Tais eventos nos levam a questionar por quanto tempo será possível evitar a queda do céu? Em meio a esse contexto, “o tekoá-porã passou a ganhar força nestes tempos de caos social e ecológico global como uma forma de resistir a um modelo de desenvolvimento predatório e excludente” (Werá, 20024, p.23). O bem-viver como prática de existência subjetiva e múltipla, promove linhas de ruptura contra modos dominantes, empreende micropolíticas, além de tecer coletivamente uma perspectiva educacional singular/desviante, realizada de modo atento e sensível. O bem-viver deseja reflorestar mentes, ampliar os horizontes da vida, diversificá-la. Nesse viés, evocamos a potência da ética da vida no reflorestamento da educação considerando os desafios sociopolítico-ambientais contemporâneos, como um convite a repensar os modos de viver e nos relacionar com o mundo, como possibilidade de desenvolver práticas contra hegemônicas nos processos formativos da Educação Básica ao Ensino Superior. O reflorestamento da Educação Em tempos de ascensão das violências sociopolítico-ambientais, nossos olhares se voltam à educação como possibilidade de enfrentamento e resistência. Todavia, não estamos nos referindo a educação maior nos termos de Gallo (2002), destinada aos interesses sociopolítico-econômicos que fortalecem as desigualdades, perpetuam a individualidade e o dualismo humanidade/natureza, formando estudantes competidores/consumidores. Em desacordo a essa concepção, lançamos sementes em defesa do reflorestamento da educação, apresentamos a ética da vida como potência para a criação de uma perspectiva educacional mais atenta e sensível, com vistas a regenerar as relações perdidas rumo a construção da florestania que fundamenta uma formação cidadã compromissada com as diferentes formas de vida que coabitam o planeta terra (Krenak, 2022). Assim, evocamos a força ancestral que emana do tekoá-porã, cujos “ensinamentos que dão sentido ao bem-viver propõem repensar nossa relação com o mundo, valorizando a simplicidade, a espiritualidade e a reverência pela vida em todas as suas formas [...]” (Werá, 2024, p.23), mediante práticas colaborativas e responsáveis. O bem-viver é composto por relações encantadas e solidárias destinadas ao cuidado e manutenção das vidas, possui raízes ancestrais profundas de usufruto coletivo que prezam pela diferença/diversidade, nutrida por valores éticos e experiências com o mundo vivido. Aplicada a educação, a ética do bem-viver nos sensibiliza a experienciar a potência dos encontros e afetos que ocorrem em diversas temporalidades e territorialidades, em atividades cotidianas como na roda, no preparo dos alimentos, no culto ao sagrado, nos momentos de lazer. A educação para o bem-viver é de natureza integral e holística, de constituição contra-hegemônica, pois compreende a indivisibilidade da educação com a teia da vida, com o território, os saberes tradicionais e as pautas sociopolítico-ambientais. Os princípios filosófico-educacionais oriundos do tekoá-porã, fomentam à formação ética mediante: O bem-sentir – desenvolver sensibilidade e aguçar os sentidos, destinando atenção as experiências intracorpóreas e extracorpóreas, tornar-se consciente da potência dos afetos e de suas relações. O corpo é afetado de múltiplas formas a partir de vivências pessoais e coletivas, cujo coração é ensinado a sincronizar-se aos fluxos da natureza, da ancestralidade. Trata-se de sentir a vida nos outros seres, numa árvore, numa montanha, num peixe, num pássaro, e se implicar. A presença dos outros seres não apenas se soma à paisagem do lugar que habito, como modifica o mundo. Essa potência de se perceber pertencendo a um todo e podendo modificar o mundo poderia ser uma boa ideia de educação. Não para um tempo e um lugar imaginários, mas para o ponto em que estamos agora (Krenak, 2022, p. 52, grifo nosso). A educação como um ato de confluências e encantamento, cuja energia emerge das relações com o mundo vivido a partir de um corpo sensível. Nesse contexto, antes de aprender a ler e interpretar signos alfanuméricos, é preciso ter experiências diversas, seja com o corpo-próprio, com natureza, com a comunidade, pois são essas vivências que possibilitarão desenvolver sensibilidades múltiplas, além de favorecer a leitura e interpretação dos signos da natureza. O bem-pensar – capacidade reflexiva e analítica destinada ao contexto e as situações, mobilizada pela trama de conhecimentos adquiridos nos processos de vida-formação. Habilidade de organizar os pensamentos antes de agir, ao examinar as consequências de seus atos a partir das três camadas da existência humana: o lugar interior, o lugar do ser no mundo e o lugar na comunidade/sociedade. Ensina a ter empatia e pensar no bem-viver coletivo, “o respeito à natureza torna-se parte integrante desse processo, incentivando escolhas conscientes e sustentáveis (Werá, 2024, p.137)”. O bem-pensar também está relacionado a busca pela sabedoria compartilhada pelos mais velhos, além da possibilidade de imaginar mundos através dos sonhos. O bem-fazer – articula três dimensões procedimentais, a primeira direcionada a capacidade de gerir as relações entre o pensar e o sentir, tendo em vista atitudes responsáveis. O praticar possibilita a atuação com base nos conhecimentos e tradições, cujos ritos constituem “uma linguagem de ações entre o visível e o invisível. Entre as dimensões do pensar, do sentir e do fazer [...]” (Werá, 2024, p. 69). E, o compartilhar que permite disseminar as sementes do bem-viver, cultivando-as em diferentes espaços-tempos, mediante processos de trocas intergeracionais. Os princípios filosófico-educacionais provenientes do tekoá-porã demonstram a potência de direcionarmos atenção a manter corpo-mente potentes, em equilíbrio, nutridos de forma ética, de modo a combater as violências, o preconceito, a discriminação. Contudo, a ética do bem-viver não se restringe apenas as populações indígenas, cujos ensinamentos podem ser compartilhados por todas as pessoas que sonham com um amanhã diferente, múltiplo e mais respeitoso para com as formas de vida. Uma filosofia, cuja aplicabilidade é necessária e urgente, sobretudo, no campo educacional. Assim, acreditamos na potência da ética da vida no reflorestamento da educação nos processos formativos da Educação Básica ao Ensino Superior, ao fomentar práticas compromissadas com as vidas, de natureza integral e holística, enquanto constructo coletivo e atencional. Uma educação sensível orientada ao bem-pensar, bem-sentir e bem-fazer, em fricção com a teia da vida, considerando o lugar interior, o lugar do ser no mundo e o lugar na comunidade/sociedade. Semeando futuros A ética do bem-viver nos ensina a sonhar e esperançar, possibilita a construção de novas perspectivas socioeducacionais que fomentem modos outros de pensar, sentir e agir, orientadas ao enfrentamento dos desafios sociopolítico-ambientais contemporâneos. Nesse movimento de circularidade, revigoramos as conexões com a teia da vida, cujas lutas, afetos e saberes-vivências são nutridos e compartilhados pela coletividade, viabilizando um futuro ancestral nos termos de Krenak (2022). A ética da vida emerge como potência no reflorestamento da educação, ao favorecer relações solidárias para com as formas de vida, em resposta a necropolítica e a visão antropocêntrica, ao proporcionar espaços-tempos outros que nos convidam a repensar os modos de viver e nos relacionar com o mundo, a partir de práticas de existência/resistência singulares, por isso, defendemos que cultivar as sementes do bem-viver no campo educacional, significa semear futuros múltiplos, polifônicos, vívidos, férteis, futuros sustentados por modos de vidas sensíveis em conexão com a natureza. Como docentes assumimos um compromisso ético-político destinado às vidas, portanto, é importante que sejamos capazes de estabelecer linhas de ruptura e criar práticas que subvertam a lógica do individual para o coletivo, do bem-estar para o bem-viver, pois “só assim é possível conjugar o mundizar, esse verbo que expressa a potência de experimentar outros mundos, que se abre para outras cosmovisões e consegue imaginar pluriversos” (Krenak, 2022, p. 42, grifo do autor). Referências BAKARE-YUSUF, Bibi. Beyond Determinism: The Phenomenology of African Female Existence. Feminist Africa, v. 2, 2003. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/48724973. Acesso em: 12 mar. 2025. GALLO, Sílvio. Em Torno de uma Educação Menor. Educação & Realidade, [S. l.], v. 27, n. 2, 2002. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/25926. Acesso em: 15 mar. 2025. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. WERÁ, Kaká. Tekoá: uma arte milenar indígena para o bem-viver. Rio de Janeiro: BestSeller, 2024.

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Instituições
  • 1 UFAM - Universidade Federal do Amazonas
Eixo Temático
  • GE Educação e Povos Indígenas