POLÍTICA DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DO CAMPO: REFLEXÕES PARA UMA PRÁTICA DOCENTE NAS ESCOLAS DO CAMPO NO MUNICÍPIO DE BUENOS AIRES/PE

- 215189
Resumo Expandido - Trabalho
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo
POLÍTICA DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DO CAMPO: REFLEXÕES PARA UMA PRÁTICA DOCENTE NAS ESCOLAS DO CAMPO NO MUNICÍPIO DE BUENOS AIRES/PE INTRODUÇÃO A Educação do Campo nasce da mobilização dos Movimentos Sociais por uma política educacional para as comunidades camponesas (CALDART, 2009). O campo, em sua dinâmica histórica, produziu a ideia de Educação do Campo, que a constituiu num território de disputa entre o capital e o trabalho. Com isto, esta modalidade requer uma concepção educacional fiel à sua materialidade e que assim reconheça o homem do campo enquanto classe trabalhadora. É nessa definição de Educação do Campo que surgem as orientações para a formação de seus educadores. Molina (2015) enfatiza que a inserção dos professores no chão das escolas deve lhes possibilitar uma atuação crítica e transformadora. Logo, a formação desses educadores não se pode fazer de forma deslocada do projeto histórico do homem do campo enquanto classe trabalhadora, uma vez que a Educação do Campo nasceu da luta dessa classe pela vida, pela terra e pela educação. Nesse sentido, a proposta desta pesquisa em questão surgiu a partir do seguinte questionamento: Em que sentido a Coordenação Pedagógica da Educação do Campo tem efetivado as ações propostas pela Secretaria Municipal de Educação de Buenos Aires/PE para formação continuada dos/as professores/as da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental das escolas do campo enquanto política pública de formação docente? A relação entre a formação inicial, prática docente e formação continuada tem sido discutida em vários estudos e eventos científicos, como ainda no interior das instituições formadoras e das secretarias de educação. Diante disso, surgem novos questionamentos que estão ligados à problemática principal desta pesquisa, a saber: a) De que forma o trabalho desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação e Coordenação Pedagógica da Educação do Campo tem direcionado a formação continuada para os/as professores/as da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental das escolas do campo, constituindo uma política pública de formação docente?; b) Até que ponto a política pública de formação de professores das escolas do campo tem tratado a identidade social, política, econômica e cultural ligadas à Educação do Campo?; c) Em que medida um Roteiro de Formação poderá contribuir para a Formação Continuada dos professores da Educação do Campo do município de Buenos Aires/PE? O conjunto das questões buscam junto ao objetivo geral: analisar as políticas educacionais de formação continuada para os/as professores/as da Educação do Campo nos níveis da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Educação de Buenos Aires/PE, e aos objetivos específicos, pretende-se: (i)analisar de que forma o trabalho desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação e Coordenação Pedagógica da Educação do Campo tem direcionado a formação continuada para os/as professores/as da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental das escolas do campo, constituindo uma política pública de formação docente; (ii)verificar em que sentido a política pública de formação de professores das escolas do campo tem tratado a identidade social, política, econômica e cultural relacionadas à Educação do Campo; (iii)elaborar, junto com a Secretaria Municipal de Educação, Coordenação Pedagógica e professores, um Roteiro de Formação Continuada para Professores de Escolas do Campo do Município de Buenos Aires/PE. A pesquisa justifica-se inicialmente numa temática que requer debates atuais para o fortalecimento da Educação do Campo, e pela trajetória do pesquisador enquanto residente do campo, ex-aluno de escolas do campo e hoje professor. METODOLOGIA A referida pesquisa está ancorada metodologicamente na abordagem qualitativa. Para Minayo (2016), esse tipo de pesquisa, além de ocorrer num ambiente natural, permite um maior envolvimento entre o pesquisador e os participantes, possibilitando ao pesquisador a descrição, comparação e interpretação dos dados de forma mais precisa e aprofundada. A COLETA DOS DADOS O território de investigação e os sujeitos da pesquisa O estudo teve como território de investigação o município de Buenos Aires/PE, tendo em vista que se trata de um município que possui um grande território de área rural com a concentração da maioria das escolas da rede municipal. Inicialmente, foram considerados para a coleta de dados as formações continuadas ofertadas aos professores das escolas do campo da Rede Municipal e os documentos de planejamento político pedagógico, com recorte específico para as ações e políticas voltadas à formação de professores, indo desde o planejamento da gestão até a execução na formação dos professores. Procedimentos da coleta de dados A coleta dos dados desta pesquisa efetuou-se através dos seguintes procedimentos metodológicos: Entrevistas semiestruturadas - Tal instrumento é discorrido por Minayo (2017) como aquele que obedece a um guia que é apropriado fisicamente e utilizado pelo pesquisador na interlocução, possuindo um apoio claro na sequência ordenada de um roteiro. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com a coordenadora pedagógica das escolas do campo e a secretária municipal de educação, por meio de um roteiro elaborado contendo perguntas do tipo dissertativas, sendo 4 questões para a coordenadora e 3 questões para a secretária de educação. Observação participante - Segundo Marques (2016), na observação participante, o observador coloca-se no lugar do outro, no seu ambiente social natural, de modo a apreender a imponderabilidade da vida real. As observações dos encontros de formação de professores da Educação do Campo ocorreram em um período de 03 (três) meses, sendo o suficiente para a coleta e sistematização dos dados em relação aos objetivos propostos. Questionários - A utilização de questionários nas pesquisas educacionais é para Chaer, Diniz e Ribeiro (2011), além de garantir o acesso de um número maior de participantes por vários canais, não requer apenas número de pessoas, mas o treinamento por parte destes. A aplicação de questionários aconteceu junto aos 18 professores que lecionam nas escolas do campo da Rede Municipal. Buscando uma maior acessibilidade, o questionário foi compartilhado no grupo de WhatsApp das escolas do campo por meio do Google Forms no qual o link para resposta foi compartilhado no grupo. A ANÁLISE DOS DADOS Os dados coletados por meio desta pesquisa foram submetidos ao método de análise de conteúdo enquanto um conjunto de técnicas de análise de comunicações (Bardin, 2016). Ao optarmos pela análise de conteúdo, utilizaremos os três polos cronológicos apresentados e propostos pela autora, sendo: Pré-análise; Exploração do material e o Tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS Para tanto, catalogamos as categorias de análise para a interpretação das respostas da seguinte forma: 1) Percepção dos participantes a respeito das contribuições da Formação Continuada para a Educação do Campo; 2) Ações de Planejamento da Formação de Professores da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental para as Escolas do Campo da Rede Municipal e 3) Participação docente e dos povos do campo no Planejamento das Formações Continuadas da Rede Municipal. Em relação à primeira categoria: 1) Percepção dos participantes a respeito das contribuições da Formação Continuada para a Educação do Campo, verifica-se que ambas as respondentes percebem a formação continuada da Educação do Campo como algo que está incluso automaticamente na noção de adaptação de cada escola à sua realidade no seu planejamento. Entretanto, não foi possível perceber na fala das participantes a menção a elementos como comunidade, cultura, identidade, diversidade, trabalho, forma de viver, respeito, valores, demonstrando um nível de conscientização e de compreensão do que é a Educação do Campo. A respeito disso, a Resolução CNE/CEB 01 (2001, p. 1), estabelece: A identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país. O respeito à identidade, cultura e saberes do aluno e consequentemente dos povos do campo é indicado em diversos documentos e citado por diversos autores do território que defendem a ideia de uma educação erigida por esses sujeitos num movimento de integração entre a escola e a comunidade. Em relação à segunda categoria de análise, 2) Ações de Planejamento da Formação de Professores da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental para as Escolas do Campo da Rede Municipal, nota-se que a coordenadora menciona aquilo que é mais evidenciado no dia a dia deles para o planejamento. Vejamos: “Então esse planejamento é baseado na Educação Infantil, no caderno do PCA”. No entanto, vale ressaltar que esses materiais são de uso geral, aplicados em todas as escolas e não especificamente para a Educação no Campo. Evidencia-se, assim, a ausência por parte do município em atender a essa modalidade como currículo apropriado, proposta educacional, formação continuada, avaliação, orientação e acompanhamento das ações nas escolas do campo. Não houve nas respostas a identificação de algo que caracterizasse essa educação com identidade própria. Diante do exposto, também é possível afirmar que as formações ofertadas aos professores não contam com um documento que as norteiam. O que ocorre, e é colocado pela coordenadora, é uma adequação à realidade de cada escola. Entretanto, esta adequação ocorre sobre a orientação dos documentos do Programa Criança Alfabetizada, que não contempla a política de promoção da Educação do Campo. A terceira categoria de análise é: 3) Participação docente e dos povos do campo no Planejamento das Formações Continuadas da Rede Municipal. Essa categoria é importante para verificar se essa tão mencionada “adaptação à realidade de cada escola” é atendida por meio da participação ativa dos docentes e da comunidade no planejamento da Educação do Campo. Observa-se a resposta da coordenadora pedagógica: Todos os professores, eles participam do planejamento. Então cada escola vai, nós fazemos o planejamento coletivo, e cada escola vai adaptar a sua realidade. Porque assim... é, nós fazemos baseado no currículo de Pernambuco, e também as escolas do campo têm as suas especificidades. Então todo professor tem essa abertura para adequar a sua realidade (Coordenadora pedagógica). Não há detalhes sobre como ocorre esse planejamento, não há especificações de documentos norteadores específicos para a Educação do Campo. Nesse mesmo direcionamento, a resposta da Secretária de educação também não aborda especificações sobre quais ações são desenvolvidas tampouco o nível de participação da comunidade e corpo docente: “Todas as ações que a secretaria de educação de Buenos Aires vem implantando na nossa rede educacional, em especial no caso aqui que tá sendo vinculada, que é (sic)justamente as escolas do campo, ela vem sim”. Quando se aborda a formação de sujeitos que vivem no campo apoia-se em Molina e Martins (2019, p. 17), que apontam que “o direito à formação continuada das educadoras e dos educadores como parte das exigências para o desenvolvimento da educação pública de qualidade social faz parte das lutas protagonizadas pelo movimento docente há muito tempo”. A falta de especificação das políticas de formação continuada para a Educação no Campo e de currículo específico foi percebida na análise das entrevistas. Isso está relacionado a um histórico social do país em relação à educação no campo que tem lutado contra a não consideração devida. CONCLUSÕES Percebemos a necessidade de pensar numa educação enquanto prática de liberdade e respeito, constituindo-se como um direito pleno de todo e qualquer cidadão. Logo, as reflexões acerca de tal temática nesta pesquisa possibilitaram conhecer, além do conhecimento da trajetória histórica da Educação do Campo ao longo dos anos, um pouco mais da escuta e do olhar de quem está ligado a ela, ou melhor, de quem a vive. A partir desta pesquisa, podemos concluir que diversas ações estão sendo realizadas pela Secretaria Municipal de Educação, entre elas, a oferta de formação continuada aos seus professores por meio da Coordenação Pedagógica da Educação do Campo. Todavia, conforme os dados apresentados a partir da participação dos sujeitos entrevistados (Secretária Municipal de Educação e Coordenação Pedagógica), foi possível perceber algumas aproximações e distanciamentos nas quais tentamos chegar há algumas constatações e definições. O município oferta aos professores que lecionam em escolas do campo uma formação distante da identidade social, política, econômica e cultural relacionadas aos povos do campo do município. O que fere os documentos legais citados ao longo desta pesquisa e que foram conquistados por meio da luta para orientarem a Educação do Campo. REFERÊNCIAS BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016. BRASIL. Parecer nº 36/2001. Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. Disponível em: . Acesso em: 01 dez. 2021. CALDART, R. S. Educação do Campo: notas para uma análise de percurso. Trab. Educ. Saúde, Rio de Janeiro, v. 7 n. 1, p. 35-64, mar./jun. 2009.Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tes/v7n1/03.pdf>Acesso em: 21. mai. 2021. CHAER, G.; DINIZ, R. R. P.; RIBEIRO, E. A. A técnica do questionário na pesquisa educacional. Evidência, Araxá, v. 7, n. 7, p. 251-266, 2011. Disponível em: Acesso em: 04 dez. 2022. MOLINA, M. C.; HAGE, S. M. Política de formação de educadores do campo no contexto da expansão da educação superior. Revista Educação em questão, v. 51, n. 37, p. 121-146, 2015. MOLINA, M. C.; MARTINS, M. F. A. Reflexões sobre o processo de realização e os resultados dos Seminários Nacionais de Formação Continuada de Professores das Licenciaturas em Educação do Campo no Brasil. In:MOLINA, M. C.; MARTINS, M. F.(Org.). Formação de Formadores: reflexões sobre as experiências da Licenciatura em Educação do Campo no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2019, p. 17-38 MINAYO, M. C. Amostragem e saturação em pesquisa qualitativa: consensos e controvérsias. Revista Pesquisa Qualitativa, São Paulo (SP), v. 5, n. 7, p. 01-12, abril. 2017. Disponível em: Acesso em: 04 dez. 2022. MINAYO, M. C. (Org). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes 2016.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 UFRPE - UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
Eixo Temático
  • GT08 - Formação de Professores