ÍMPETO CIENTÍFICO, ESTÉTICO E PEDAGÓGICO: UMA IDEIA DE MESTRE EM NIETZSCHE INTRODUÇÃO O texto tem como propósito refletir e investigar possíveis moradas do belo na educação a considerar os itinerários formativos tanto do educador como do discente. Ambos necessitam em sua trajetória tempo, atenção, disciplina, dedicação, uma vez que formar-se é algo lento, avesso à pressa. Nessa travessia não estarão disponíveis apenas alegrias imediatas, será necessário enfrentar turbulências, conectar-se com leituras complexas, vivenciar diálogos e múltiplas interações. Metodologicamente, o texto está ancorado na provocação de Nietzsche que, ao debruçar-se sobre a moral, nos alcança procedimentos de um pensar crítico bem como um desejo de nos ver operando como educadores por meio de três ímpetos: o científico, o estético e o pedagógico. Eduardo Nasser, professor de Filosofia da UFPE, em uma live[1], nos apresenta o seguinte tema: Nietzsche e a importância da literatura na educação para discutir a questão da formação no filósofo. A abordagem do pesquisador é ampla, tem morada na filosofia, contudo, me aproximo do texto de forma interessada para pensar o campo da educação. Assim, priorizo suas reflexões sobre o papel do mestre e condições necessárias para o exercício da docência a partir de indicações muito singulares: o mestre precisa ter ímpeto científico, esteta e pedagógico. O ímpeto científico que o mestre precisa desenvolver implica saber lidar com a ciência, que jamais é o recolhimento indiscriminado do que a tradição reuniu, apenas aglomerando conteúdos, reunindo-os sem critério. Um mestre precisa escapar disso. E Nietzsche ensina tal habilidade por meio da genealogia, outra possibilidade de ver o passado, a gênese dos valores. O excesso do científico pode nos tornar apenas seres racionais e acumuladores e nos conduzir a um novo pessimismo. O desejo de Nietzsche é ensinar a ver mais longe, cruzar com verdades silenciadas e, por isso, necessita da história para compreender o exercício da sedução da moral que se revela em atitudes: ela sabe entusiasmar. Nesse caminho consolidam-se dois adversários do pensamento crítico: o homem teórico para o qual tudo deve ser inteligível para ser belo, e o homem ascético, ancorado em uma forma de autodomínio e de moderação com vistas a erradicar os impulsos. Como nos alerta Manieri, “a moral aparece como sintoma, máscara, mas também como causa, estimulante, inibição e veneno” (2007, p. 62), exigindo um senso histórico apurado para investigar “as circunstâncias nas quais o conhecimento nasce, se desenvolve e como se modifica no tempo” (2007, p. 62). Esse caminho da crítica da moral é imenso, longínquo, cheio de ciladas e para enfrentá-lo são necessárias novas perguntas e uma espécie de “trabalho subterrâneo, de um homem que verruma, escava e investiga” (Nietzsche, 2008, p. 9). Um mestre atento ao seu mundo pressente mudanças, alteração de perspectivas, pressente os alvoroços da vida para nesse contexto decidir selecionar, redefinir tarefas e conteúdos para dar à sua função uma efetiva dimensão científica e crítica. Um mestre precisa também do ímpeto estético, pois quando o pessimismo se apodera das culturas que decidem abandonar a religião, mitos, é preciso reencontrar na linguagem presente na literatura, na poesia, na arte em geral, formas de imaginação e cultivo que resgatariam uma espécie de natureza originária fazendo-nos lembrar de que sempre precisamos da arte para viver. A capacidade criadora tem um efeito compensatório para tudo aquilo que se desdobra de uma vivência cética. Filósofos e artistas podem criar horizontes conceituais belos para compensar a dor provocada pelo excesso do teórico. Na dimensão do estético existe um enfrentamento do levar a sério que aqui importa destacar: Levar a sério. — O intelecto é, na grande maioria das pessoas, uma máquina pesada, escura e rangente, difícil de pôr em movimento; chamam de “levar a coisa a sério”, quando trabalham e querem pensar bem com essa máquina — oh, como lhes deve ser incômodo o pensar bem! A graciosa besta humana perde o bom humor, ao que parece, toda vez que pensa bem; ela fica “séria”! E “onde há riso e alegria, o pensamento nada vale”: – assim diz o preconceito dessa besta séria contra toda “gaia ciência”. – Muito bem! Mostremos que é um preconceito! (2001, aforismo 327). Existem possibilidades de transfiguração de nossas ocupações com o mundo, ensaios sobre a arte de viver. A vida, diz Lispector, nos oferece uma liberdade esquiva e delicada, é “como saber arrumar flores num jarro: uma sabedoria quase inútil” (1973, p. 82), mas que deixa um rastro de beleza. A abordagem de Lispector – arrumar flores no jarro – tarefa sem impacto aparentemente, mas reveladora de emoções, uma ação que deseja doar algo ao mundo por meio de uma dimensão estética. Nietzsche vai destacar a música, ela também nos convoca a dar atenção a algo que supostamente não tem uso imediato, mas oferece beleza à nossa existência. Assim, segundo Nietzsche, primeiro temos que: aprender a ouvir uma figura, uma melodia, a detectá-la, distingui-la, isolando-a e demarcando-a como uma vida em si; então é necessário empenho e boa vontade para suportá-la, não obstante sua estranheza, usar de paciência com seu olhar e sua expressão, de brandura com o que nela é singular. (2001, p. 221). Rigor e leveza são atitudes complementares na relação com o conhecimento. Nietzsche denuncia que até mesmo detrás da ciência por vezes opera o ideal ascético, que insiste em calibrar o conhecimento com a verdade, deixando de indagar e duvidar. Neste ponto a arte é valorizada pelo filósofo, pois ela sabe escapar da armadilha da causa e efeito, sabe tocar o mundo com profundidade e leveza para fazer pensar e criar. Como educadores temos matéria-prima disponível para este exercício na escola para ver, pensar, ler e escrever considerando a arte e suas nuances. Vivemos hoje uma intensa demanda por novos horizontes teóricos, para além daqueles tão cultivados por nossas instituições de formação e centrados na perspectiva eurocêntrica. Neste ponto o ímpeto científico se alarga apoiado pelo ímpeto estético. Estamos sendo convocados a refletir sobre isso, dando ao ímpeto científico novas perspectivas de extrema relevância. Recentemente, a entrevista[2] de Felwine Sarr, concedida à Unisinos, ofereceu uma série de desafios nos alcançando indicadores para esse novo horizonte. Sua obra – Afrotopia – mostra resistência a uma ideia de África nomeada pelos outros, realidade para ser superada. Indagado sobre a representação da África que ainda prevalece, diz Sarr: Acredito que a África sempre foi representada a partir da noção de falta. E, neste sentido, as sociedades africanas não são vistas como o que realmente são. Sempre são definidas em termos do que deveriam ser, comparadas com outras trajetórias: a chinesa, a japonesa, a coreana. Então, a primeira pergunta passa por isto: As dinâmicas sociais são comparáveis? Se estamos falando de processos que são resultado de trajetórias históricas distintas, é totalmente o contrário, o problema está em poder ver a África a partir de sua própria cosmovisão, através de suas singularidades e de sua especificidade social, histórica, cultural e econômica. Para isso, é necessário criar categorias próprias, categorias que reflitam essas singularidades e essa visão própria de mundo, superando certa alienação epistemológica e sendo capazes de pensar por nós mesmos. (2019, p. 9-14). Na obra referida – Afrotopia – encontramos referências relevantes para apresentar outras categorias de reflexão necessárias para um educador que deseja efetivamente ampliar seu próprio horizonte epistêmico de formação, ficando atento a toda essa outra abordagem da história humana, tantas vezes invisibilizada, quando não ignorada. Cabe assim destacar isso que hoje deve configurar-se como ímpeto científico de um educador, aquele que reconhece seu papel formativo e seu compromisso pedagógico e político. Chegamos então ao terceiro ímpeto, o pedagógico. Para Nasser, implica que o mestre deve ter uma força de modelo, sua própria existência é uma espécie de expressão pedagógica. Burocratizar essa tarefa submetendo-se apenas aos horários, às obrigações, a uma erudição fora do tempo, podem destinar o mestre para um cenário da decadência, ou pior, tornar-se descartável. Precisamente isso Nietzsche estava verificando em seu tempo, com a presença dos eruditos, que conheciam todas as técnicas do conhecimento, mas tinham perdido a força de apresentar-se como educadores. Nesse ponto Nietzsche destaca Schopenhauer, um modelo de mestre. Mais adiante, opera a partir do seu Zaratustra para afirmar a vida para vivê-la com toda intensidade. A educação e a formação devem criar disposições para aprender a acolher os conteúdos previstos e aqueles ainda a incorporar, fecundá-los a partir de um impulso estético conectando o conhecimento com a arte, a música, a poesia, que são fontes de vida e de indagações de muitos pensadores. Apesar de sua crítica, Nietzsche reconhece que a formação filológico-científica recebida garantiu aprender a arte de interpretar para cultivar habilidades essenciais que foram importantes para o seu voo próprio e singular. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nietzsche, por meio de seu Zaratustra, nos ensina a dar dignidade ao tempo, pois é preciso transfigurá-lo. O tempo como um indicador pedagógico jamais será um elemento estático, mas em constante deslocamento para fazer andar os processos formativos reconhecendo novos desafios e possibilidades educativas. O convite deste personagem é sedutor, contudo, nos alerta inclusive como educadores: pertenceste muito tempo ao rebanho, vai sentir falta dele, vais sofrer, o caminho para a singularidade é doloroso. Sentir-se livre não é apenas livrar-se de algo, mas estar livre para alguma coisa. Por fim, Nietzsche recomenda: “Afasta-te dos bons e justos! Eles gostam de crucificar os que inventam a sua própria virtude: odeiam o solitário” (Nietzsche, 2007, p. 93). Ao desejar operar com os três ímpetos aqui indicados no campo da educação é preciso salvar-se de rebanhos que prontamente se constituem para nos abrigar. Para alguns, diz Zaratustra, “não deves estender a mão, mas somente a pata e que ela tenha garras” (2007, p. 93). Nesse caminho não existe uma justiça prévia, ela irá nascer de conexões, de polifonias, de ouvidos finos capazes de perceber nuances. Os três ímpetos aqui apresentados qualificam a tarefa do educador, existe neles uma conexão sofisticada com o nosso tempo que precisa desenhar um tipo de escola que não quer simplesmente acusar e desmontar o que já temos, mas criar e enfrentar as contingências adversas do campo da educação. Afinal, como tais ímpetos estão comprometidos com o belo a considerar a perspectiva filosófico-pedagógica? Precisamos nos indagar: nas instituições de ensino hoje como compreendemos a ciência, que tipo de arranjo temos para afirmá-la? Conseguimos? E a dimensão da estética, tem um espaço em nossa prática ou é tão frágil e tão pouco presente que nem mais percebemos sua importância? Por fim, tem em nós algo de um modelo de educador para o estudante, ou somos máquinas de ensinar e avaliar? REFERÊNCIAS LISPECTOR, Clarice. Água viva. São Paulo: Círculo do Livro, 1973. MANIERI, Dagmar. O senso crítico em Nietzsche. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 61-75, jan./fev. 2007. NIETZSCHE, Friedrich. Gaia Ciência. Tradução, notas e Posfácio de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. NIETZSCHE, Friedrich. Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução e notas explicativas de Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. NIETZSCHE, Friedrich. Aurora – reflexões sobre os preconceitos morais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. Tradutor Mario Ferreira dos Santos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. SARR, Felwine. Afrotopia. São Paulo: n-1 edições, 2019. [1] NASSER, Eduardo Canal Costa Mattos. Link
https://www.youtube.com/@fcmattos1974. Nietzsche e a importância da literatura na educação. Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=9cqhfvVlBb0&t=8829s. Acesso em: 24 maio 2023. Disponível em:
https://www.ihu.unisinos.br/categorias/590248-a-africa-precisa-inventar… entrevista concedida junho 2019. Acesso em: 12 ago. 2023.