A TAMPA MARIA MIGRANTE EM UMA ESCOLA AMAZÔNICA: PROBLEMATIZAÇÕES JUNTO À DIFERENÇA E O CURRÍCULO

- 215142
Resumo Expandido - Trabalho
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo
A TAMPA MARIA MIGRANTE EM UMA ESCOLA AMAZÔNICA: PROBLEMATIZAÇÕES JUNTO À DIFERENÇA E O CURRÍCULO Resumo: O estudo apresenta uma discussão com o currículo já dado, institucionalizado, como forma de modular a vida escolar, e, como ele pode movimentar-se de outros modos, no encontro com a diferença que habita a vida cotidiana das escolas, e, assim nos ajudar a pensar no acolhimento curricular de crianças migrantes no município de Ji-Paraná. Desse modo, a pesquisa teve o objetivo de cartografar como o currículo se movimenta por deslocamentos produzidos pelas crianças, junto a uma turma do segundo ano dos anos iniciais. Para tanto, nos aliamos nas perspectivas de Deleuze; Guattari (1995), Paraíso (2010), Kohan (2019), Rolnik (2016), entre outros que corroboraram conosco nesse estudo. A pesquisa nos levou a perceber o potencial de um currículo acolhedor da diferença migrante, com outras práticas, com outros olhares para as crianças e suas singularidades. Palavras-chave: Currículo, Criança, Diferença. Introdução A educação contemporânea parece se movimentar constantemente em busca de resultados imediatos e assim alavancar seus índices. Para tanto se utiliza de um currículo pautado em habilidades e competências, que as crianças precisam construir. Esse tipo de currículo parece modelar os fazeres de professores, que utilizam para propor as atividades, uma grande lista de habilidades. É em conversação com a diferença, que buscamos pensar um outro currículo. Um currículo com a potência do múltiplo. “Uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza.” (Deleuze, Guattari, 1995, p. 15). Um currículo pensado como multiplicidade, muda de natureza, cria outras conexões, e muda sua forma de movimento ao deslocar-se com a diferença. Para Paraíso, [...] a diferença é comportar-se em relação a algo que não tem semelhante ou equivalente. A diferença é o que vem primeiro; é o motor da criação; é a possibilidade de no meio, no espaço-entre, começar a brotar hastes de rizoma. Diz respeito àquilo que está ainda em vias de se formar: de currículos que são “realidade em potencial”, que ainda não foram formados. (Paraíso, 2010, p. 592). É com a diferença que esse trabalho constitui seu arcabouço teórico, principalmente, com os estudos de Deleuze e Guattari, acerca da multiplicidade como princípio do rizoma, o que mobiliza os olhares dessa pesquisa, que teve como objetivo cartografar como o currículo se movimenta por deslocamentos produzidos pelas crianças, junto a uma turma do segundo ano dos anos iniciais. O currículo escolar se apresenta como o condutor de vidas no espaço escolar, como modo de modular os fazeres e os processos de subjetividades. O currículo é um território das ordenações dos tipos de educação. Um território, que ordena as pessoas e espaços, que organiza disciplinas, que sequencia conteúdos a serem ensinados e os níveis de aprendizagem, que estrutura tempos, que enquadra pessoas e horários e que ao ordenar tudo isso, arquiteta suas divisões (Paraíso, 2010). Todavia, nosso movimento com esse texto é pensar no que mais cabe em um currículo já dado. Que aberturas, bifurcações podem acontecer com um currículo já determinado. Nesse sentido, o currículo é máquina-estado de produção, entretanto, o sendo ele uma máquina de produção, se produz ao produzir, o que pode operar como produção de bifurcações para o múltiplo, para desterritorialização do saber como fazer, para lugares que professoras e crianças podem transitar como aprendentes. Nesse momento podem se ver em um lugar, onde criam novas possibilidades de vida, de caminhos. Um modo rizomático de movimentar o currículo. Ao operar de modo rizomático, como um corte, um currículo outro parece “abalar a estrutura” ordenada da aula, que a partir da produção de texto de uma criança migrante, passa a interrogar o espaço que as crianças têm para que conversem sobre seus afetos de vida, e sobretudo para a diferença que habita e transita a sala de aula. Como o currículo pensa o acolhimento das crianças migrantes? Como o currículo institucionalizado pensa as diferenças? Nesse movimento de se engendrar de outros modos, algumas questões disparam e produzem deslocamentos que mobilizam o pesquisar: o que pode um currículo? Acontecimentos podem mudar a estrutura curricular? Que agenciamentos podem se produzir de um currículo com a diferença? Com isso, objetivou-se a cartografar como o currículo se movimenta por deslocamentos produzidos pelas crianças, junto a uma turma do segundo ano dos anos iniciais. As bifurcações produzidas no currículo por Tampa Maria De longe escutamos as vozes ecoando, risos, gritos se misturam. A euforia acontece quando o portão se abre. Conversas cortantes, atravessadas, gritadas, faz com que o silêncio mude de lugar. São as crianças habitando o espaço escolar e elas também sendo habitadas pelas ressonâncias culturais que movimentam a escola. Um espaço que é habitado pela diferença, muitas vezes parece não querer ouvir os seus gritos, ou seria o não saber ouvir os gritos? Os encontros seguem acontecendo pelos corredores da escola, crianças que vieram de lugares mais longínquo, mais de perto e de fronteiras distantes, como é o caso da Tampa Maria. Uma Tampa Maria migrante que saiu de um país vizinho em busca de um outro lugar para habitar, com melhores condições para viver. A história da Tampa Maria chama atenção e faz com que algumas questões e pensamentos se movimentem: que espaço as crianças têm na escola para contar suas histórias de vida? Falar acerca de seus sentimentos? Estaria a escola do ensino fundamental tão envolta com suas preocupações com os resultados, que nega as visibilidades da diferença? O ambiente escolar é muitas vezes o primeiro lugar onde as crianças migrantes interagem com o novo contexto cultural de modo mais intensivo. Entretanto, a escola pode ser um espaço tanto de acolhimento, quanto de discriminação, ou de negação da diferença. Muitas vezes, essas crianças enfrentam barreiras linguísticas e preconceitos que dificultam sua adaptação. Ao analisarmos as Orientações curriculares de Ji-Paraná, observamos que menciona a criança estrangeira na etapa da Educação Infantil, com a seguinte orientação: É importante considerar que as barreiras da língua, o sentimento de pertencimento e as novas relações em um novo país com outra cultura, geram sentimentos de estranheza. Deste modo, ao pensar as barreiras linguísticas é importante auxiliar as crianças, com traduções de palavras, sempre buscando estabelecer uma boa comunicação e compreensão dos acontecimentos cotidianos. (Ji-Paraná, 2020, p. 95). O que nos leva a pensar nas condições de tradução das escolas, e em como isso é pensado pela equipe escolar quando acolhem a criança. Já na etapa do Ensino Fundamental, a orientação de atendimento às crianças de outras fronteiras não aparece. Como a escola pode pensar e organizar o acolhimento das crianças, das infâncias que conseguem entrar em fronteiras brasileiras? O que provoca desterritorializações junto a Tampa Maria, para pensar como é desafiador para essas crianças, além da barreira linguística, tem outras, como o modo de interação, as brincadeiras, os modos de entender os acontecimentos em um lugar novo, a saudade das amizades e de familiares deixados para trás, e, a própria organização escolar que opera de um modo diferente do já conhecido. Modo metodológico Para a produção de dados, nos engendramos com a cartografia em capturas de ressonâncias do campo de pesquisa, pois para o cartógrafo “[...] o que lhe interessa nas situações com as quais lida é o quanto a vida está encontrando canais de efetuação.” (Rolnik, 2016, p. 68). Encontros de observações com canais de efetuação em uma escola de Ensino Fundamental, em um município amazônico, Ji-Paraná/RO, com uma turma de alfabetização que vivencia as aprendizagens para o segundo ano dos anos iniciais. Encontros com professora, com crianças, com a diferença, com o currículo em processos de deslocamentos. Durante as observações foram produzidos registros para posteriormente serem analisados. Os registros foram movimentados, sobretudo com o caso da Tampa Maria e a diferença, que nos ajuda a problematizar o currículo institucionalizado. Análise e discussão dos dados Em uma projeção, a professora faz um desafio de produção de texto para a turma: criar uma história para um objeto. Assim, a professora entrega aleatoriamente os objetos. Uma das crianças fica com uma tampa azul de uma garrafa plástica. Ao iniciar-se o acompanhamento das crianças, é feito a leitura da produção de texto, assim, nos deparamos com a história: “A Tampa Maria”. Uma Tampa Maria migrante por uma criança migrante, que nos faz deslocar para pensar em como os espaços que as crianças habitam, muitas vezes, não são habitados por elas, não são carregados das suas singularizações, uma vez que é habitado pela diferença. Tal deslocamento provocado, nos leva a pensar na fala de Kohan: Há que indicar uma infância que surge, sempre há uma infância que surge, mesmo quando nada indica que seja possível brotar algo deste tempo sombrio e de inúmeros tempos sombrios. São as infâncias que estes tempos tentam matar, não há icnografia mais forte do que aquela do menino sírio morto em sua travessia, pois era a infância morta na entrada da Europa. (Kohan, 2019, p.16). Pensemos assim, na prioridade que as crianças, que a infância ocupa nas políticas curriculares contemporâneas. Que olhares se tem para as crianças migrantes? Muitas crianças, infâncias, fazem travessias em suas fugas para habitar outros lugares para que tenham melhores condições de vida. Algumas conseguem, outras não. “A Europa impede que a entrada da infância em suas fronteiras, o Brasil adota políticas nas quais as diferenças, não façam diferença alguma (Kohan, 2019, p. 16). É a partir dessa última questão que seguiremos nossa conversa junto com a questão posta por Tampa Maria. O caso da Tampa Maria, assim como inúmeras crianças que adentram as fronteiras brasileiras, vindo muitas delas residir em Ji-Paraná, um município amazônico atravessado por dois rios. Um município central de Rondônia, com uma cultura bem singular, com uma cultura nortista, ribeirinha, dos povos das florestas. Mas, como um currículo que transita nesse contexto acolhe as crianças de outros lugares, a criança migrante, a diferença? A experiência migratória coloca as crianças, principalmente no espaço escolar, em uma posição de constante negociação entre a cultura de origem e a cultura do país de acolhimento. Crianças migrantes lidam com questões de alteridade desde cedo, pois precisam adaptar-se ao novo lugar que habitam, enquanto mantêm laços saudosos com suas raízes culturais. Tantas crianças como a Tampa Maria, estudam a língua estrangeira pela qual será subjetivada, e em casa convivem com a língua materna, traço marcante de sua singularidade cultural. Como essas crianças são acolhidas na escola? Falam-se em como é desafiador para professores, principalmente na alfabetização, mas e para as crianças? A criança migrante tem espaço de fala acerca de suas dificuldades? Pesquisar com criança como um outro modo de pensar e operar dentro da experiência, movimenta nosso olhar para elas sem amarras, um deixar acontecer por caminhos que elas trilham e nos apresentam suas criações, histórias e pensares, que nos levam a irmos com elas em um estado de entrega, e entrarmos por bifurcações curriculares, com um currículo que se movimento de outro modo e com outros tempos. Algumas considerações Pensar uma escola junto à criança e a infância se apresenta como um desafio para os atores que a compõem, pois nem sempre o currículo a se seguir, com suas habilidades e competências, pensam a diferença, as crianças e a infância. Desse modo, o currículo, a escola frequentemente são pensados a partir da lógica do adulto, como oposição ao protagonismo da criança e suas necessidades de falar acerca dos acontecimentos da vida cotidiana. A negação do protagonismo da criança, da infância, leva também a uma negação da diferença que habita o espaço escolar. Talvez um bom caminho para pensar no acolhimento da criança migrante e a diferença, em escolas ji-paranaenses, seria um esvaziar do que se pensa saber acerca do acolhimento das crianças vindas de outros lugares, “[...] esvaziar-se, um esvaziamento daquilo que se crê saber sobre as crianças e a infância para que novos saberes possam nascer” (Kohan, 2007, p. 18). Ou ainda implementar uma política do “caminhar juntos, produzir juntos, aprender juntos, criar juntos...conviver, partilhar a vida e nesta partilha produzir um futuro em comum” (Gallo, 2019, p. 129). Pensar junto às tantas Tampas Marias que habitam as escolas e que querem falar sobre suas coisas, desejam acolhimento de sua singularidade, assim como também construir o sentimento de pertencimento ao novo país, à nova cidade. Ao conviver com professora e crianças percebemos potenciais de que outras práticas de acolhimentos das crianças migrantes podem acontecer no currículo. Tampa Maria, criança migrante, que desterritorializa o espaço estranho que habita com outras crianças, com outras culturas e modos de vida. Rastros que se formam no caminho, marcas de uma travessia que nos coloca alerta para um novo olhar para com as crianças migrantes com suas afetações, singularidades e sobretudo para as possibilidades de um currículo-bifurcações com outros modos de operar no cotidiano escolar. Referências DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. V. 2. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. GALLO, S. Educação infantil: do dispositivo pedagógico ao “ir junto com as crianças”. In: ABRAMOWICZ, A.; TEBET, G. G. de C. Infância e Pós-estruturalismo. São Carlos: Pedro e João Editores, ed. 2, 2019, p.113-130. JI-PARANÁ. Orientações curriculares de Ji-Paraná. Secretaria Municipal de Educação. Ji-Paraná: 2020. KONHAN, W. O. A devolver (o tempo d) a infância à escola. In: ABRAMOWICZ, A.; TEBET, G. G. de C. Infância e Pós-estruturalismo. São Carlos: Pedro e João Editores, ed. 2, 2019, p. 11-14. KOHAN, W. O. Infância, estrangeiridade e ignorância. Ensaios de Filosofia e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. ROLNIK, S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina; Editora da UFRGS, 2016. PARAÍSO, M. A. Diferença no currículo. Cadernos de Pesquisa, v.40, n.140, p. 587-604, maio/ago. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cp/a/MnrBfYmbrZ4zfVqD3C5qkYp/. Acesso em: 02 de mar. de 2025.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
Eixo Temático
  • GT12 - Currículo