AS DIMENSÕES HISTÓRICAS, EPISTEMOLÓGICAS, ÉTICAS, ESTÉTICAS E POLÍTICAS DAS PESQUISAS NOS/DOS/COM OS COTIDIANOS E SUAS REVERBERAÇÕES NO NORDESTE Dimensões histórico-conceituais das pesquisas nos/dos/com os cotidianos Como está no texto do GE Cotidianos – éticas, estéticas e políticas, “Surgidas no bojo do GT-Currículo, desde o seu início, em especial com as iniciativas dos grupos coordenados por Regina Leite Garcia na UFF, Nilda Alves, na UFF e na UERJ, e Corinta Geraldi na Unicamp, as pesquisas nos/dos/com os cotidianos foram se desenvolvendo em grupos diferenciados que se espalharam pelo país e pelos vários GTs da ANPEd. Em todas as reuniões anuais desde os anos 1990, bem como em reuniões regionais da ANPEd, veem sendo apresentados múltiplos trabalhos por esses grupos. Ainda de acordo com o texto “os grupos ligados a essa corrente de pensamento na Educação foram também se organizando e articulando em diversas universidades brasileiras, em linhas de pesquisa de seus programas de pós-graduação. A presença desses grupos e linhas nesses espaçostempos de pesquisa, ensino e extensão permitiram o desenvolvimento de inúmeros projetos financiados para trabalhar nesta corrente de pensamento a que chamamos “pesquisas nos/dos/com os cotidianos”, ou simplesmente, “pesquisas com os cotidianos”. Ao longo desse processo, a temática foi se consolidando não apenas em torno dos cotidianos, mas no campo mais amplo das novas epistemologias nas Ciências Sociais e na Educação, bem como no trabalho com diferentes linguagens e metodologias de pesquisa, indicando a criação de conhecimentossignificações no campo da pesquisa educacional, sempre como contribuição éticas-estéticas-políticas-epistemológicas que opera simultaneamente, em interação e na consolidação do campo dos cotidianos. Essas reflexões se enredam de modo a contribuir para o adensamento das discussões no/do campo da pesquisa com os cotidianos, transcendendo-o e às suas origens, permitindo compreender suas especificidades e demandas. Resultado de ampla produção e atuação, na Assembleia Geral da 40ª Reunião Nacional da ANPEd, após pedido feito por meio de abaixo assinado com mais de 100 assinaturas de associadas/os e anuência de Comissão instituída pela Diretoria da Associação, foi votada e aprovada, por unanimidade, a criação do GE - Cotidianos – éticas, estéticas e políticas. Desse modo, se foi, em especial, no âmbito do GT Currículo que a temática mais ampla envolvendo a discussão dos cotidianos das escolas, mas não só delas e, por efeito, o aceno para o surgimento de uma dimensão de pesquisa que, mais tarde vai ser nomeada de pesquisas nos/dos com os cotidianos surgiu, ou seja, se foi no interior do GT Currículo que essas discussões iniciaram, é possível inferir que a sistematização, isto é, a produção teórico-epistemológico-metodológico-conceitual de uma dimensão de pesquisa, hoje nomeada de pesquisas nos/dos/com os cotidianos, vai acontecer com o advento da publicação dos livros “Pesquisa no/do cotidiano das escolas: sobre redes de saberes”, organizado por Nilda Alves e Inês Barbosa de Oliveira e publicado pela DP&A em 2001, e “Método: pesquisa com o cotidiano”, organizado por Regina Leite Garcia e também publicado pela DP&A em 2003. Passados 23 anos da publicação do livro "Pesquisa no/do cotidiano das escolas: sobre redes de saberes", inúmeras discussões e produções foram e continuam sendo realizadas por diferentes pesquisadores, pesquisadoras e grupos de pesquisa no Brasil, contribuindo, cada vez mais, tanto para a consolidação e para a ampliação quanto para a complexificação e a problematização de uma atitude ética-estética-política-poética de pesquisa em Educação, que tem como pressuposto fundamental a potência da dimensão inventiva dos cotidianos. Como está na ementa do GE Cotidianos “A expansão temática e metodológica das pesquisas com os cotidianos possibilitam e mesmo exigem espaços específicos em que as perspectivas epistemológicas e políticas que os animam possam ser debatidas e desenvolvidas mais amplamente, em diálogos ainda mais fecundos, em que se combinam suas dimensões éticas, estéticas, políticas e poéticas. Assim, o GE – Cotidianos, origina-se com a intenção de articular procedimentos de pesquisa com os cotidianos que abordem os diferentes praticantespensantes e narradores de suas vidas, em seus fazeressentiressaberes e modos de estar no mundo. As pesquisas com os cotidianos defendem a força ético-estético-político-epistemológica inerente aos espaçostempos cotidianos, afirmando que seus praticantes são criadores de teoriaspráticas educacionais, apostando que “a fala é um gesto, e sua significação um mundo” (Merleau-Ponty, 1999, p. 250). O extrato silencioso das experiências sempre nos acompanha. O mundo se desdobra como campo de nossas experiências (Merleau-Ponty, 1999). É o que auxilia na formação de qualquer tipo de criação. “Isso implica o fato de que o eu que sou emerge do processo de contato em andamento. As raízes do meu existir ali me transcendem, vão mais fundo em um lugar onde eu e o outro ainda têm que ser diferenciados” (Francessetti, 2018, p. 150). Dessa maneira, estética, pré-reflexiva, as palavras, pensamentos e conversas se desdobram como sentidos que são anunciados como panoramas e fluxos no/do mundo. “Consequentemente, há um momento no desdobramento da experiência, no caldeirão onde tudo toma forma a partir dos sentidos, no qual eu e o outro estamos ainda sendo diferenciados” (Francessetti, 2018, p. 150). Reverberações das pesquisas nos/dos/com os cotidianos no Nordeste Para dar conta desse momento fizemos um estudo exploratório tendo como referência os trabalhos que foram apresentados nos GT’s: 04 (Didática), 07 (Educação de crianças de 0 a 6 anos), 08 (Formação de professores), 10 (Alfabetização, leitura e escrita), 12 (Currículo), 13 (Educação fundamental), 15 (Educação especial), 16 (Educação e comunicação), 18 (Educação de pessoas jovens e adultas), 19 (Educação matemática), 21 (Educação e relações étnico-raciais), 22 (Educação ambiental), 23 (Gênero, sexualidade e educação) e 24 (Educação e arte); nos XXIV ENPEN (realizado em João Pessoa de 19 a 22 de novembro de 2018), XXV EPEN (realizado em Salvador de 4 a 7 de novembro de 2020) e XXVI EPEN (realizado em São Luís de 22 a 25 de novembro de 2022). Buscamos priorizar os GT’s que, a princípio, teriam uma maior interface com o cotidiano e, em especial com o cotidiano escolar, incluindo as práticas docentes e discentes. Tendo por base as principais problematizações relacionadas ao campo dos estudos e das pesquisas nos/dos/com os cotidianos, tanto em termos dos conceitos que são usados quanto dos autores e autoras mais recorrentes e, ainda, usando como descritor a palavra cotidiano, foi possível inferir: a) O quantitativo de aparecimento do tema cotidiano em suas diferentes composições por Encontro: - XXIV Encontro apareceu em 42 de um total de 199 trabalhos (21%) - XXV Encontro apareceu em 102 de um total de 254 trabalhos (40%) - XXVI Encontro apareceu 50 de um total de 154 trabalhos (32%) Questões disparadoras: - Observa-se que o tema teve um significativo aumento do XXIV para o XXV Encontro, e uma diminuição do XXV para a XXVI. O que isso nos indica? - Apesar dessa oscilação em relação à presença do tema nos referidos encontros, pensamos que os percentuais identificados denotam uma importância do mesmo para a pesquisa em Educação? b) O quantitativo de aparecimento do tema cotidiano em suas diferentes composições por GT: - GT 04 (Didática): em 2018 (2 de 8), em 2020 (6 de 21) e em 2022 (1 de 7), totalizando 9 trabalhos de um total de 36 trabalhos – 25% - GT 07 (Educação de crianças de 0 a 6 anos): em 2018 (2 de 21), em 2020 (17 de 25) e em 2022 (4 de 11), totalizando 23 trabalhos de um total de 57 trabalhos – 40% -GT 08 (Formação de professores): em 2018 (11 de 23), em 2020 (7 de 20) e em 2022 (3 de 18), totalizando 21 trabalhos de um total de 61 trabalhos – 34% - GT 10 (Alfabetização, leitura e escrita): em 2018 (1 de 9), em 2020 (9 de 22) e em 2022 (4 de 21), totalizando 14 trabalhos de um total de 52 trabalhos – 27% - GT 12 (Currículo): em 2018 (4 de 19), em 2020 (3 de 23) e em 2022 (5 de 13), totalizando 12 trabalhos de um total de 55 trabalhos – 22% -GT 13 (Educação fundamental): em 2018 (1 de 6), em 2020 (6 de 15) e em 2022 (4 de 6), totalizando 11 trabalhos de um total de 27 trabalhos – 41% - GT 15 (Educação especial): em 2018 (3 de 19), em 2020 (3 de 21) e em 2022 (3 de 19), totalizando 9 trabalhos de um total de 59 trabalhos – 15% -GT 16 (Educação e comunicação): em 2018 (3 de 13), em 2020 (4 de 16) e em 2022 (2 de 4), totalizando 9 trabalhos de um total de 33 trabalhos – 27% - GT 18 (Educação de pessoas jovens e adultas): em 2018 (8 de 22), em 2020 (5 de 23) e em 2022 (5 de 11), totalizando 18 trabalhos de um total de 56 trabalhos – 32% - GT 19 (Educação matemática): em 2018 (0 de 4), em 2020 (1 de 10) e em 2022 (1 de 5), totalizando 2 trabalhos de um total de 19 trabalhos – 10% - GT 21 (Educação e relações étnico-raciais): em 2018 (3 de 19), em 2020 (18 de 23) e em 2022 (7 de 13), totalizando 28 trabalhos de um total de 55 trabalhos – 51% - GT 22 (Educação ambiental): em 2018 (0 de 6), em 2020 (1 de 3) e em 2022 (1 de 1), totalizando 2 trabalhos de um total de 10 trabalhos – 20% - GT 23 (Gênero, sexualidade e educação): em 2018 (4 de 20), em 2020 (11 de 23) e em 2022 (7 de 16), totalizando 22 trabalhos de um total de 59 trabalhos – 37% - GT 24 (Educação e arte): em 2018 (0 de 10), em 2020 (6 de 9) e em 2022 (3 de 9), totalizando 9 trabalhos de um total de 28 trabalhos – 32% Questões disparadoras: - Considerando os 3 encontros, o tema cotidiano apareceu com mais frequência nos GT’s 21 (51%), 13 (41%), 7 (40%), 23 (37%), 8 (34%), 18 (32%) e 24 (32%). O que isso nos informa em termos da composição, do pertencimento e da importância do tema cotidiano em relação às pesquisas apresentadas nos GT’s? c) Além de aparecer de forma isolada, o tema cotidiano também aparece em diferentes composições de redes de sentidos, tais como: praticas cotidianas, saberesfazeres cotidianos, cotidianos das escolas, pesquisas nos/dos/com os cotidianos, etc. Questões disparadoras: - Pensamos que essas composições do tema cotidiano em múltiplas redes de sentidos se articulam, são tecidas junto a conceitos, noções e/ou ideias que, apesar de evidenciar a dimensão de complexidade do tema (usamos aqui a ideia de Edgar Morin, complexo porque é tecido junto), não necessariamente se fazem presentes na produção teórico-metodológica do campo específico das pesquisas nos/dos/com os cotidianos. O que isso nos diz em termos da dimensão ético-estético-político-epistemológica do referido tema? - De fato, o tema cotidiano presente nos trabalhos indica a presença não apenas do sentido de espaço, de lugar das práticas pedagógicas, mas, inclusive, como corrente de pensamento a que chamamos pesquisas nos/dos/com os cotidianos. Nessa direção, que movimento político, ético e estético essas pesquisas estão forjando? - Que sentidos o tema cotidiano abre à pesquisa educacional? Que interrupções e irrupções acontecimentais atravessam esses movimentos de pesquisas? - Que problematizações são produzidas à pesquisa com o tema cotidiano? - Isso diz de um movimento outro de colocação e recolocação de problemas, de caminhos metodológicos ao campo da pesquisa educacional? d) Apesar da importância e riqueza dessas diferentes possibilidades de composições temáticas, interessa-nos destacar as reverberações, os efeitos do que temos nomeado “pesquisas nos/dos/com os cotidianos”, sobretudo em termos dos intercessores teórico-metodológicos que foram usados. Nesse sentido, destaca-se: 1) A presença de obras que são referências fundamentais para os estudos e pesquisas nos/dos/com os cotidianos: ALVES, Nilda. ANDRADE, Nívea; CALDAS Alessandra Nunes. Os movimentos necessários às pesquisas com os cotidianos – após muitas ‘conversas’ acerca deles. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de. PEIXOTO, Leonardo Ferreira. SUSSEKIND, Maria Luiza. Estudos do cotidiano, currículo e formação docente: questões metodológicas, políticas e epistemológicas. Curitiba: CRV, 2019. ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho – os cotidianos das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa; ALVES, Nilda. (org.). Pesquisas nos/dos/com os cotidianos das escolas: sobre redes de saberes. Petrópolis: DP et Alii, 2008. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2014. FERRAÇO, Carlos; NUNES, Késia. Currículos, culturas, e cotidianos escolares: afirmando a complexidade e a diferença nas redes de conhecimento dos sujeitos praticantes. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo; CARVALHO, Janete Magalhães (org.). Currículos, pesquisas, conhecimentos e produção de subjetividades. Petrópolis: DP et Alii. OLIVEIRA, Inês Barbosa de. PEIXOTO, Leonardo Ferreira. SUSSEKIND, Maria Luiza. Estudos do cotidiano, currículo e formação docente: questões metodológicas, políticas e epistemológicas. Curitiba: CRV, 2019. OLIVEIRA, Inês Barbosa. O currículo como criação cotidiana. Petrópolis, RJ: DP et Alii, 2012. Finalizando nosso trabalho, propomos algumas questões disparadoras: - Nos trabalhos apresentados, que dialogam com o campo das pesquisas nos/dos/com os cotidianos, foi possível perceber movimentos de pesquisar mais marcados pela escuta, pelas conversações, pelos encontros, pelo uso de outras linguagens, afirmando caminhos, sentidos e experiências mais estéticas. O que isso potencializa nas pesquisas em Educação? - Observamos que as referidas pesquisas implicam movimentos, fluxos, intensidades da vida nos cotidianos escolares, potencializando e enredando micropolíticas e movimentos de criação. O que isso nos diz da pesquisa em Educação? Referências ALVES, Nilda; GARCIA, Regina Leite (Org.). A necessidade de orientação coletiva nos estudos sobre o cotidiano: duas experiências. In: BIANCHETTI, Lucídio; MACHADO, Ana Maria Netto (Org.). A bússola do escrever: desafios e estratégias na orientação de teses e dissertações. São Paulo: Cortez, 2002. p. 255-296. ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho: o cotidiano das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de; ALVES, Nilda (Org.). Pesquisa no/do cotidiano das escolas: sobre redes de saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p. 13-38. FERRAÇO, Carlos Eduardo. Currículos em realização com os cotidianos escolares. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo (Org.). Currículo e educação básica. Rio de Janeiro: Rovelle, 2011. FERRAÇO, Carlos Eduardo. Eu, caçador de mim. In: GARCIA, Regina Leite (Org.). Método: pesquisa com o cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. FRANCESSETTI, Gianni. “Você chora, eu sinto dor”. O Self emergente, cocriado, como o fundamento da antropologia, psicopatologia e psicoterapia na Gestalt-Terapia. In: ROBINE, Jean-Marie (org.). Self: uma polifonia de Gestalt-terapeutas contemporâneos. São Paulo: Escuta, 2018. P. 147-167. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.