A ESCOLA ZÉ PEÃO E O SEU MODO DE ALFABETIZAR ADULTOS

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Resumo
A ESCOLA ZÉ PEÃO E O SEU MODO DE ALFABETIZAR ADULTOS Introdução: O Projeto Escola Zé Peão foi um trabalho de extensão universitária, desenvolvido pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em conjunto com o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de João Pessoa (SINTRICOM), nos anos de 1990 a 2018. Uma atuação repleta de expectativas. O Sintricom esperava que os operários, uma vez alfabetizados, pudessem ler os materiais escritos distribuídos pelo Sindicato e tomassem parte da luta sindical em defesa dos direitos da categoria. E, na outra ponta, o entusiasmo de professores da UFPB que sonhavam em oferecer uma alfabetização eficaz aos operários, capaz de assegurar-lhes as ferramentas da lecto-escrita, necessárias para as situações cotidianas da vida em sociedades letradas, e que fosse transformadora de mundos, reconstrutora de realidades, que mudasse vidas e, ao mesmo tempo, fosse ambiente de formação de alunos universitários a ser alfabetizador de adultos, lugar fértil para pesquisas e de estudos. Extensão que se inicia num período em que a lógica neoliberal começou a demonstrar força no Brasil, representada pelo Governo de Collor de Mello. Momento em que o capitalismo passou a cobrar capacidade técnica e despolitizada às formações humanas, adaptada a um mundo produtivo, marcado por inovações tecnológicas, que exigia programas de treinamentos de ajustes da mão de obra a esses novos parâmetros capitalistas. Em meio a esse ambiente, o PEZP decidiu agir por outra lógica, aliada à educação popular de adultos, que conferia centralidade à vida humana, dando vez e voz aos educandos e valorizando as experiências de vida desses adultos, e não à centralidade dos mercados. Uma formação escolar não voltada ao ajustamento de pessoas a uma situação do trabalho explorador, mas preocupada em humanizar a pessoa. Uma escola que, desde o seu nascimento, já nascia diferente, levada aos canteiros de obra, instalada dentro do próprio ambiente de trabalho, em prédios que estavam ainda em processo de construção. Lugar onde de dia era o lugar do trabalho e de noite, por duas horas, das sete às nove horas, das segundas às quintas-feiras, convertia-se na Escola Zé Peão. Uma escola estruturada em dois programas bases: Alfabetização na Primeira Laje (APL) e Tijolo Sobre Tijolo (TST), o primeiro para quem não conseguia ler nem escrever e o segundo que cuidava do contínuo da alfabetização, tendo a matemática como área comum e esses programas alicerces. Além desses, havia outros programas complementares: o Varanda Vídeo que através de vídeos discutia assuntos transversais ou ligados à história, geografia, religião, etc.; o Biblioteca Volante, uma estante com livros de diversos gêneros, que circulava pelos diversos canteiros, com obras que eram lidas e emprestadas aos educandos, despertando-lhes o gosto pela literatura; o Saúde e Nutrição que discutia sobre a saúde do homem, já que todos os educandos da Escola Zé Peão eram homens, e as formas mais corretas para uma alimentação saudável; o Oficinas de Arte, que abria novas linguagens de expressão: pintura, desenho, escultura, confirmando que arte e educação caminham juntas; o Projeto Palma, que cuidava de ampliar a alfabetização digital dos operários-educandos; o de Atividade Cultural que conduzia aos educandos a teatros, cinemas, museus, exposições, na ampliação do domínio cultural dos trabalhadores-alunos. Com esse alcance, o método de alfabetização utilizado pela Escola Zé Peão é o nosso objeto de investigação. Cuidamos de encontrar respostas às seguintes questões: Qual método de alfabetização foi utilizado? Em quais enquadramentos metodológicos se aproximam as estratégias utilizadas: o sintético, analítico, global, fonético? Houve algum momento definitivo para a escolha de um método de alfabetização de adultos? Uma análise que se dá em meio à própria história da Escola Zé Peão, perante o fato de que este projeto de alfabetização foi executado por diversas mãos. Um estudo feito com os seguintes objetivos: (a) Resgatar um pouco da história do Projeto Escola Zé Peão; (b) Identificar os programas que dele tomaram parte; (c) Descobrir o caminho metodológico da alfabetização utilizada nesta experiência educativa de extensão. Análise amparada em teorias reunidas por autores tais como: Paulo Freire, Magda Soares, Emilia Ferreiro, Ana Teberosky, Luiz Carlos Cagliari, por fornecerem uma compreensão da alfabetização para além do bá-bé-bi-bó-bu. Também, um estudo alimentado por Vera Ireland (2017) e Maria de Lourdes Oliveira, por permitirem um mergulho na experiência da alfabetização de adultos vivenciada no cotidiano do PEZP. Apreciação teórica ampliada por consultas a documentos e materiais impressos que tomaram parte no habitual político-pedagógico desta experiência educativa, somada às explicações dadas em entrevistas regidas por pautas a algumas pessoas que se envolveram nas aulas, na coordenação e em programas de apoio à alfabetização realizada no PEZP. Metodologia: Uma investigação que segue o emprego de métodos científicos, que “é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros – traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista” (Marconi; Lakatos, 2010, p. 65). Assim, foi seguido um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao desvelamento de processos sociais, logo, das Ciências Sociais, capazes de serem submetidos à verificação, diferenciando-os de outros conhecimentos. Um estudo que tem campo definido, com propósitos delimitados, de natureza qualitativa, que se enquadra ao estudo de caso, definido por Mattar e Ramos (2021) como: “uma metodologia de pesquisa de campo que investiga um caso delimitado em profundidade, por meio da coleta de dados em múltiplas fontes, e que utiliza a triangulação na análise e interpretação dos dados” (Mattar; Ramos, 2021, p. 151). Estudo que, ainda segundo Mattar e Ramos (idem), faz uso em geral de amostras não probabilísticas e intencionais, e seleciona os participantes em função da representatividade e importância que têm para a pesquisa. Um estudo feito dentro do seu contexto, atento aos seguintes elementos: ser um delineamento de pesquisa; preservar o carácter unitário do fenômeno pesquisado como um todo; investigar um fenômeno contemporâneo; não separar o fenômeno do seu contexto; fazer um estudo em profundidade; utilizar múltiplos procedimentos de coleta de dados, conforme recomenda Gil (2009). Análise que segue o paradigma dialético de interpretação, que valoriza muito mais às qualidades do que às quantidades, focado na essência da ação social do que nela própria. Estudo que considera a observação direta das ações dos sujeitos/as envolvidos/as, enriquecida pela interação que se estabelece entre estes/as aos significados de suas ações, dando-lhes motivos pelos quais se envolvem ou se envolveram na construção de suas atividades. Uma observação que tem o interesse do pesquisador, que foi membro do PEZP, enquanto assessor do programa Varanda Vídeo, desde o ano de 1994, com pequenas interrupções e fez parte da Coordenação Geral deste Projeto, de 2008 ao ano de 2010. Logo, não há neste estudo nenhuma neutralidade. Ainda assim, este trabalho é um trabalho objetivo, que se justifica para além dos caprichos de um alguém em especial, e pode ser conferido por outras pesquisas que, à base dos caminhos metodológicos e técnicas de coleta de dados aqui demonstrados, chegará a resultados semelhantes. Para a análise arquitetada, de início, foi preciso localizar documentos e materiais impressos que tomaram parte na construção do PEZP; consultas a livros, romances, contos e outros materiais mimeografados, panfletos, folhetos, imagens desenhadas ou em fotografias, fichas de exercícios e de leituras não divulgadas para um público externo; foi necessário se ouvir pessoas, através de entrevistas regidas por pautas, que atuaram em diferentes frentes e em momentos diversos do PEZP; também serviram de suporte a este trabalho os vídeos-documentários existentes sobre o PEZP, com falas de alfabetizandos, de alfabetizadores, das pessoas que contribuíram para o jeito metodológico deste projeto de escolarização e de educação popular. Análise e discussão de resultados: Em 1990, ano de criação do PEZP, segundo V. Ireland (2017), a controvérsia latente acerca dos métodos de alfabetização estava em evidência: sintético, analítico, global, fonético, alfabético, silabação, palavração, frases, contos... Também, já tomava lugar nas discussões à diferenciação da alfabetização para o letramento e a impossibilidade de se fazer alfabetização ignorando o letramento. Por influência de Paulo Freire, cobrava-se uma escola dialógica, onde a escola, como prática da liberdade, necessitaria ser lugar de reflexões, onde o oprimido descubra-se sujeito capaz de desvelar as tramas da dominação e incorpore-se como responsável de sua própria destinação histórica. E mais, por influência de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, havia a divulgação da teoria da Psicogênese da língua escrita, que punha em crise os diferentes métodos utilizados na alfabetização praticados, até o momento. Nessas circunstâncias, segundo V. Ireland (idem), a equipe então responsável pela coordenação dessa experiência, na elaboração do Projeto, trouxe a questão do método de alfabetização a ser empregado na Escola Zé Peão como questão importante, mas que precisava ser desmistificada. Reconheceu-se que a denominação nominal, fossem eles sintéticos ou analíticos, apenas indicam principais eixos ao redor dos quais se organiza o trabalho em sala de aula, mas que não esgotam a complexidade do ensino-aprendizagem. E mais, os métodos de alfabetização não são excludentes entre si, o que os difere é o momento no qual são apresentados os diferentes focos, ora a letra, ou a palavra, a frase, o conto. Todos eles incorporam o que o outro método anuncia. Logo, no caso do PEZP, não houve uma tomada de decisão ocorrida em um momento específico, decidiu-se desenvolver um processo contínuo de tomada de decisões, com correções de rotas permanentes, para se fugir da postura de apriorismo ou idealista, mas viver uma relação entre o desejado e o possível, o que se recomenta em teorias e o alcançado concretamente, como prática avaliada e refeita, semanalmente, sem que isso ocorra ao sabor das imposições do cotidiano. Práxis que, segundo Oliveira (1992), tinha como esteio para as decisões tomadas pesquisas e estudos. Toda ação era fincada na consciência de que as aulas do PEZP eram parte de uma luta política a favor dos operários da construção civil e de sua militância, mas também no propósito de levá-los ao domínio da lecto-escrita, razão pela qual a Escola foi firmada. Enfim, era uma alfabetização com método, que faria usos de métodos, técnicas, processos de comunicação, mas aliada às bases populares, numa atuação de alfabetização crítica, que tem a realidade como suporte. Uma escola destinada aos operários da construção civil que, desde criança, vivem o trabalho como marca de vida, firmada em três princípios-chave: (a) o da contextualização, a do mundo da indústria da construção civil e o desejo de uma educação popular, trazido pelo Sintricom, somado com a mediação feita pela UFPB, envolta a teorias e pesquisas sobre a alfabetização; (b) o da significação operativa, como momento reflexivo permanente ao “que se fazia” e “porque se fazia”, na busca de confrontar teorias e práticas, na busca de confeccionar um caminho próprio para a alfabetização de adultos no PEZP, construindo uma ciência da alfabetização no mundo de adultos trabalhadores, vigiando, principalmente, as práticas docentes; e o da especificidade escolar, que zelava pela aquisição da habilidade de ler e escrever de alunos-operários, sendo esse o princípio-mor dos demais, por uma alfabetização stricto-senso, na passagem pelos alunos do mundo exclusivo da oralidade ao mundo da lecto-escrita. Ação ampliada por programas que traziam informações e práticas relacionadas aos assuntos relacionados à saúde e a alimentação dos homens, do programa Saúde e Nutrição; aos temas transversais, trazidos pelo programa Varanda Vídeo; o de despertar o gosto pela leitura, do programa o Biblioteca Volante, da ampliação cultural, pelas visitas a museus, a cinemas, teatros, do de Atividade Cultural; pela ampliação de formas de expressão, trazidas pelas Oficinas de Arte; o da ampliação da alfabetização digital dos operários-educandos, do Projeto Palma. Enfim, um método firmado em “um conjunto de procedimentos que, fundamentados em teorias e princípios, orientem a aprendizagem inicial da leitura e da escrita, que é o que comumente se denomina alfabetização” (Soares, 2016, p. 16). Considerações finais: A alfabetização para o PEZP “é um pilar indispensável que permite que jovens e adultos participem de oportunidades de aprendizagens em todas as fases do continuum da aprendizagem”, tal como dito na Confintea VI (2010, p.7). Por assim ser, faz sentido o caminho percorrido pelos que fizeram a lógica da alfabetização promovida na Escola Zé Peão, uma alfabetização para além da lecto-escrita, envolvida com o cenário sindical sem ser uma escola sindical; um lugar diário de avaliações permanentes, tendo como meta acertar o caminho mais adequado para a alfabetização de adultos trabalhadores. Um recinto de formação permanente de todos do PEZP, no envolvimento não apenas das questões dos métodos de alfabetização de adultos, mas não a divorciando da vida de categorias oprimidas, nos moldes traçados por Paulo Freire. Uma experiência educativa filosófica que não esqueceu as técnicas, que ressoa democrática e de liberdade, de construção de pessoas, transformadora de mundos, reconstrutora de realidades, capaz de mudar vidas. Por fim, um estudo que funciona como um convite à reflexão acerca das concepções metodológicas contemporâneas de alfabetização. Referências: CONFINTEA VI. Marco de Ação de Belém. Brasília: UNESCO/MEC, 2010. GIL, A. C. Estudo de caso. São Paulo, Atlas, 2009. IRELAND, V. E. J. C. Alfabetização de adultos e seus métodos – Relato de uma experiência. In: IRELAND, T. D.; SILVA, E. J. L.; ARAÚJO, L. M. (Orgs). Aprendendo com o trabalho: 25 anos da Escola Zé Peão. Jundiaí (SP): Paco Editorial, 2017. MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos da metodologia científica. 7. Ed. São Paulo: atlas, 2010. MATTAR, J.; RAMOS, D. K. Metodologia da pesquisa em educação: abordagens qualitativas, quantitativas e mistas. São Paulo: edições 70, 2021. OLIVEIRA, M. L. B. A educabilidade do trabalho: seu realismo numa experiência com trabalhadores. In: Revista Temas em Educação. nº 2. João Pessoa: UFPB/Centro de Educação/Mestrado em Educação, 1992. (p. 35 – 52). SOARES, M. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2016.

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